Ao Dave, com carinho

“O sujeito está na cadeia e recebe uma carta do pai falando: Filho, sinto a sua falta. Queria que você estivesse aqui para me ajudar a cavar o jardim e tomar uma cerveja comigo.

O filho responde em outra correspondência: Não cave o jardim. Não cave o jardim.

Carta interceptada, no dia seguinte mesmo a polícia revira o jardim inteiro e não encontra nada. Ao saber do fato, o filho manda uma carta para o pai: Gostou do serviço?”

Fiz um pequeno passeio pelos textos que escrevi nos últimos anos para rever  temas, personagens, situações. Encontrei várias repetições, algumas manias (o uso de parênteses como estes aqui), referências à literatura, culinária, natação, uma história que eu repeti em tons menores, as palavras portanto e ora – que aparecem bem. Nessa andança, percebi que há um personagem recorrente, o Dave Trott, que nunca teve a reverência merecida. Chegou a hora de corrigir essa falha.

Eu só comecei a escrever para valer sobre o universo da propaganda depois de conhecer o Dave Trott. Há um pequeno texto em que registrei esse primeiro encontro. Lá eu dissertava: “Por quatro horas, tive o privilégio de ouvir uma palestra do Dave Trott. Sim, foram quatro horas. E poderia ter sido o dobro. Gente sem conteúdo é que nos cansa em segundos.” Isso foi lá no começo de 2012, quando eu ainda mal sabia que aquela aula mudaria a minha carreira.

A história que inicia este artigo foi uma entre muitas contadas. Dave Trott estava escrevendo Predatory Thinking e era tudo inédito ainda. A aula foi uma imersão no seu jeito de procurar um olhar criativo naquilo que nos cerca, de vasculhar as histórias que acontecem nesse mundão afora. No fim, cada aluno ganhou um exemplar de Creative Mischief, seu primeiro livro. O estilo de frases curtas, a concisão com que ele finaliza cada texto, a capacidade de síntese de um assunto que poderia ser esticado ao máximo por mãos menos hábeis, a pontada mordaz que acabou me inspirando a nomear o meu blog Acidez é romantismo, tudo ali, às claras.

Em um outro momento desse dia, houve a revelação de um detalhe da Guerra do Vietnã. Apesar do armamento precário, os vietnamitas conseguiam abater vários helicópteros. O exército americano, intrigado, tentava descobrir como eles conseguiam tal façanha sem armas de longo alcance e sem mira telescópica. Até que descobriram a técnica do dedão: quando o helicóptero passar, estique o dedão para cima, se o alvo for menor ou do mesmo tamanho, pode atirar que tem alcance. Isso é o que ele chamava de hackear o sistema quando a expressão nem estava na moda. E lá se vão mais de 5 anos.

Ler as suas reflexões toda semana é um hábito que aguça a minha vontade de observar comportamentos. Do mesmo jeito que eu entro em uma sala de edição e penso no que o Fabio Fernandes mudaria naquele frame, suponho o que ele redigiria sobre o que acontece de estranho no mercado brasileiro. Sendo ele inglês, seria mais sutil, presumo, sem perder a intenção.

Hoje, acredito que ninguém no mundo escreva melhor sobre marketing e propaganda do que o Dave Trott. Por sua aversão à bullshitagem, ele simplifica as coisas de um modo irresistível. No Twitter, eu poderia viver só de dar RT nas suas frases. Por aqui, poderia montar uma infinidade de artigos explorando as suas definições. “O briefing tem que ser o chão, não o teto”. “Se você evita a rejeição, você evita a oportunidade”. “De acordo com as leis da aerodinâmica, um zangão não deveria voar. Acontece que o zangão desconhece essas leis e sai voando por aí”.

Discorrer sobre as tensões mais humanas e desumanas do mercado foi uma forma de flanar na paralela dos seus textos. Consciente de soar como uma cópia barata, optei por alongar as frases. Por respeito absoluto, precisava deixar ainda mais óbvia a minha inspiração. Se escrevo porque não sei desenhar, só escrevo sobre propaganda porque tive a sorte de assistir ao Dave Trott falar.

 

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A insegurança veste estupidez

WhatsApp Image 2017-08-23 at 12.12.26Nem sempre as anotações ganham corpo para virar um artigo. Às vezes, aquele rabisco fica ali quietinho, esquecido no canto, coberto de água e farinha, à espera de um novo olhar, da ação do tempo. Encerrei meu último texto assim: a parte mais simples de imitar o Steve Jobs é ser carrasco com a equipe. Para isso, não precisa ser gênio, basta ser idiota. O que escrevo a partir de agora é uma fermentação natural desse trecho.

Para dar um pouco mais de sabor, adiciono a história real de uma pessoa que certo dia cansou-se de falar palavrão quando percebeu que isso reduzia o seu vocabulário. Fico pensando as trocas possíveis, que esse personagem agora faz. Deu para falar absolutamente magistral no lugar de “do caralho”, gigantesco canalha de nariz adunco ao invés de “filho da puta”. Imaginação à parte, essa decisão nos leva a refletir sobre o encurtamento do raciocínio, sobre o uso fácil e irrestrito do palavrão (sim, sou culpado), sobre o xingamento como disfarce para a incapacidade de argumentação. O palavrão na hora certa é insubstituível e deve ser preservado para topadas, erros do árbitro, aquele momento em que você se toca que perdeu o retorno.

O mesmo vale para o grito como recurso de poder. O berro, o brado, o urro, o guincho, o chilique no meio do salão. Muitas vezes, escuto que é preciso ser muito duro com a equipe para que o bom trabalho apareça. Em geral, essa defesa vem acompanhada de exemplos. Já ouvi a comparação com o Bernardinho, de como ele grita com os jogadores na beira da quadra, que isso forma vitoriosos. O técnico e a sua equipe de assistentes são profundos estudiosos do jogo, obsessivos, dedicados e mudaram o vôlei mundial. Gritar na beira da quadra é o detalhe que menos importa. E o mais fácil e óbvio de replicar. Olhar o Bernardinho mordendo a bola ou vociferando e achar que esse é o resumo da estratégia é profundidade horizontal, piscina de criança. Ali, o grito na quadra ainda tem lá a sua função de se sobrepor ao barulho da arquibancada, de se fazer ouvir pelos atletas em meio a zoeira. Ainda assim, a última seleção reagia diferente ao comando. Foi o seu filho Bruno quem fez o alerta. E mesmo tão vencedor, o técnico teve que rever a sua postura, encontrar outro caminho.

No campo corporativo, o grito ainda surge como ferramenta primitiva para instaurar o medo ou cimentar o respeito.  Isso para não falar do assédio moral, das ofensas, do desrespeito, da humilhação. Na Berlin School, ao discutir modelos de comando mundo afora, era visível o espanto da maioria dos colegas, especialmente os escandinavos, quando mencionava essa cultura “top-down”. Em uma agência, não há algazarra da torcida como desculpa, há o silêncio do ambiente como palco, o “ufa, não foi comigo” como perpetuação de um modelo regido pelo profissional “senior” de engenho.

Volto ao Steve Jobs e a redução conveniente. Ele era um gênio, reproduzir apenas a face dura não faz de ninguém algo próximo a ele. Na verdade, o modelo de gestão que tem como premissa básica o temor, independente do regente ser brilhante ou não, costuma gerar genéricos, cópias baratas. Gente que se impõe na marra, na violência silenciosa de que contrapor o modelo é certeza de nunca mais ser contratado, na ausência de punição.

Sabe aquela frase “stop making stupid people famous”? Talvez seja a hora de pensarmos mais profundamente sobre o que ela significa no âmbito empresarial, de relevar menos. Pois como já dizia Bill Bernbach, a vida é curta demais para se passar ao lado de sacanas desprezíveis. Bom, na verdade ele falou um palavrão, mas já estou exercitando meu dicionário de sinônimos.

As férias dignificam o homem

Lembra quando você voltava para sala de aula e tinha que fazer aquela redação “Minhas férias”? Na época, achava uma chatice sem fim aquilo. Parecia um jeito muito entediante de resumir o que foi incrível. Hoje, tenho vontade de voltar no tempo e falar com a Filomena, a Tia Filó: olha, obrigado por me fazer relembrar e escrever sobre as coisas boas dos meses de verão em Copacabana. Uma prancha Planonda, ondas buraco, areia no cabelo, a água do chuveiro a lembrar as assaduras na barriga, um pão doce colegial.

Escrevo esse artigo no fim das férias e confirmo que a minha dificuldade para desligar do trabalho é mínima. Eu entro no avião e quando ele pousa meu pensamento já se vai longe.  Por muito tempo, falei dessa peculiaridade quase como se estivesse em um confessionário: desculpa, mas falhei na tentativa de acreditar que só o trabalho enobrece o homem. Sinto por essa lacuna na formação do meu caráter empreendedor, mas a verdade é que gosto e valorizo muito o ato de sair de férias. Estou prevaricando? Há algo de errado com o sentimento de vagabundagem que me acomete repentinamente? Deveria ter pedido desculpas aos meus colegas quando cruzei a porta na sexta? Um discurso, quem sabe? Amigos, sinto deixá-los, mas é com dor no coração que parto para uma folga prolongada. Não, não me olhem como se eu fosse um bastardo. Eu tentei, mas o RH, esse desalmado, negou. Fui praticamente jogado para fora. Por mim, ficaria nas trincheiras de jobs com vocês, mas viajar se faz necessário. E com lágrimas nos olhos partiria como o Bruce Banner ao fim dos episódios da antiga série do Hulk. Sobe musiquinha triste.

Vai me dizer que você nunca saiu de férias achando que estava devendo algo? Que era um acinte?  Ou que nunca ficou até mais tarde sem ter nada o que fazer só porque o seu chefe ainda estava ali? Ou pior: porque rolava um boato que às vezes ligam de madrugada para fazer uma contagem de quantas pessoas estão na labuta? Contagem feita, é claro, de dentro de um colchão quentinho. No mercado publicitário, diversas lendas são criadas com base em uma devoção hercúlea. Ah, fulano virou tantos noites em uma gráfica. É um paladino do detalhe. E aquele ali, está vendo? Aquele chama reflexo no monitor de espelho, espelho meu. Muitas dessas fábulas são apenas personagens construídos na arte de se fazer cansado na hora certa. São video-cases de si mesmo com números inflacionados. E assim vangloria-se o postador da madrugada, o selfie-made man.

As férias dignificam o homem. Elas redimensionam o que realmente importa, colocam alguns problemas na distância certa, abrem espaço para não cumprir papel algum. Nessa última viagem, aprendi com a minha família a cerrar as algemas do “você tem que ver isso em tal cidade”, “você não pode deixar de ir nesse restaurante”. Viajo sem ter que nada. Viajo porque as pessoas mais chatas que conheci só são felizes no trabalho.

Anotações aleatórias das férias:

  • Publicado em 1938, Address Unknown, da americana Kathrine Kressmann Taylor aborda uma troca de cartas entre dois amigos durante a Segunda Guerra Mundial. Em um momento em que a extrema-direita cresce, é uma leitura fundamental que nos lembra que o medo do outro, o ódio vende rápido.
  • O livro foi publicado sem primeiro nome da autora. Era um tema forte demais para ser assinado por uma mulher, segundo o editor. Corta. Em 2017, ainda tem gente discutindo se o personagem principal de Dr. Who pode ser uma mulher ou não.
  • E eis que a maior inovação de Cannes foi uma estátua. Artigo que saiu no Advertising Age que eu adoraria ter escrito.
  • A parte mais simples de imitar o Steve Jobs é ser carrasco com a equipe. Para isso, não precisa ser gênio, basta ser idiota.

 

 

 

 

 

 

Os profetas estão no jardim

Lá está o menino no jardim. O pequeno que sonhava ter um animal de estimação, que teve o seu pedido negado pela mãe e que cava a terra à procura de preencher o tempo. Que nessas aventuras solitárias e nas andanças pela floresta próxima de casa acaba por descobrir o fantástico mundo dos insetos e agora, ao invés de um, tem milhares de animais para chamar de seus. Lá está o menino fascinado com aquelas criaturinhas a sonhar com uma possível carreira de entomologista e já apelidado pelos amigos de Dr. Inseto. De tanto observar, começa a colecionar e assim como quem troca figurinhas no recreio da escola, o garoto faz seu escambo peculiar em busca dos bichos mais raros, os premiados.

Nem só de caça há de viver o menino. Ele cresce, migra para os quadrinhos, mais especificamente para os mangás e encontra proteção nos golpes de energia “espectrum” desferidos com os braços cruzados do Ultraman. Dali para o universo dos videogames é um salto e o pequeno faz do admirável mundo moderno a sua floresta de pesquisas. Agora cabe revelar o seu nome, afinal, seguir com sinônimos para menino não será uma tarefa fácil. Satoshi Tajiri é sua alcunha, Game Freak o seu superpoder. Uma fanzine criada com os amigos para abordar os jogos de arcade. De grampeada à impressa, de impressa à empresa, o jovem adulto Tajiri começa a pensar em desenvolver o seu próprio jogo. Até que ele se depara com duas crianças jogando Game Boy e como em um filme, ele é jogado de volta à infância. E se as pessoas pudessem ter aquela mesma sensação de capturar criaturas e se divertir ao mesmo tempo?

A Nintendo compra a ideia, Satoshi vira entomologista de suas próprias invenções. Ele e seu time criam particularidades, estatísticas de cada personagem por mais de cinco anos. O jogo é lançado sem nenhuma publicidade, até pela descrença que girava em torno da plataforma Game Boy. Do jardim do menino, nascia o fenômeno Pokémon. Que vira desenho animado, que vira produto e que vinte anos depois, levemente adormecido, acorda na figura de Pokémon Go.

Evitei escrever sobre Pokémon Go porque não sabia definir o que me incomodava na euforia inicial dos artigos. Por sorte, tenho um grande amigo que me presenteia com ideias quando menos espero. Acho que para que o meu espaço aqui continue, ele não as escreve. Com seu jeito quieto, Marco Monteiro soltou um: você acha que as pessoas sairiam na rua caçando produtos de uma marca por quanto tempo? Um dia? Elas saem para caçar uma história que aprenderam por duas décadas. Sem isso, o encanto duraria menos.

Pesquisei para descobrir que o homem que criou o Pokémon Go, John Hanke, também trabalhou duro por anos. Saltando de uma criação para outra até fundar a Niantic Labs onde ele desenvolve o Ingress, o primeiro jogo multiplayer online com base em geolocalização. Essa experiência é fundamental para chegar ao Pokémon Go. Não foi um lampejo. John Hanke precisava de mais alguns parágrafos que honrassem a sua biografia. Sinto pela falta de espaço, John.

Falo de Pokémon Go, talvez, porque tenha ficado perturbado ao me deparar com um profeta digital por essas bandas. E na sequência, com um futurólogo. Acho estranha a denominação, para não falar pretensiosa, boba. Pois bem. Essa perturbação me levou a procurar o cargo do Steve Jobs. E lá dizia: CEO. Depois, lembrei do Satoshi Tajiri e descobri que ele se dizia um mero designer de jogos eletrônicos. Logo eles, que poderiam se chamar até de Innovation Jedi.

Pokémon passou pela euforia em 1996 com o lançamento do primeiro jogo, estabeleceu vínculos emocionais, ultrapassou o tempo, encontrou outra empresa para juntar forças e renascer. Reduzir o sucesso dessa ideia aos dias de hoje, à tecnologia somente é uma injustiça com o menino Tajiri. Pois enquanto muitos teorizam, os verdadeiros profetas estão escrevendo o futuro lá fora no jardim.

Quando o dogue alemão virou cavalo

Quando pequena, minha filha Júlia viu um dogue alemão passeando no parque. Do alto de seu carrinho, ela acompanhou espantada a passagem daquela imensa criatura. Quando o ser do longo filete de baba pendurado sumiu do campo de visão, ela fez um barulhinho de estalar a língua, imitando um cavalo. Rimos juntos. Ela feliz com o acerto, eu com a criatividade da leitura. Até aquele presente momento, a experiência canina da Juju tinha duas figuras: uma labrador amarela e uma salsichinha marrom. Logo, juntando A e B, aquilo não poderia ser um cão, só poderia mesmo tratar-se de um autêntico e um tanto pitoresco cavalo.

Segundo Jean Piaget, nossa capacidade de conhecer não nasce com a gente e nem toda experiência vem carregada de ensinamento. O aprendizado surge através das experiências que causam o desequilíbrio e nos forçam à adaptação. Ou seja, cada vez que o ambiente nos proporciona um desafio (nos desequilibramos), nos vemos “obrigados” a criar novas adaptações para nos equilibrarmos novamente. Assim, ele entendia que a inteligência humana se renova a cada descoberta e, para isso, é preciso expor as pessoas aos desafios. Ele acreditava que, desde o nascimento, a criança constrói infinitamente suas estruturas cognitivas em busca de uma melhor “equilibração” ao meio. Sendo o conceito de “equilibração” o equivalente à passagem de um nível de conhecimento simples para um mais complexo. Como quem avança as fases do jogo.

Voltando ao parque. Minha filha estava na fase de aprender a reconhecer animais. Até aquele momento, em sua estrutura cognitiva, ela tinha um esquema de cachorro cujo objeto tinha um limite claro de tamanho. Na estrutura paralela, ela já tinha visto cavalos em livros, desenhos e em um hotel-fazenda. E, portanto, tinha um outro esquema traçado, em que o ser parecia mais um cadinho com um dogue alemão.

No seu processo de assimilação, a similaridade entre o cachorro e o cavalo (apesar da diferença de tamanho) fez com que um virasse o outro em função da proximidade dos estímulos e da pouca variedade dos esquemas acumulados por ela até aquele momento. A diferenciação de um bicho para o outro ocorre no processo chamado de acomodação.

Quando eu, o adulto chato, lhe digo: não, aquilo não é um cavalo, é um cachorro, ela, a pequena criativa, acomodará esse estímulo em uma nova estrutura cognitiva. Júlia tinha, após essa experiência, um esquema para o conceito de cão e outro para o de cavalo. E eles não mais se encontravam. Essa é, claro, uma abordagem superficial para um estudo de uma vida inteira de Piaget. No resumo do resumo, gosto da noção de que educar passa obrigatoriamente por provocar uma atividade que traga um desafio.

Tudo isso para o que mesmo? Talvez para desabafar que cercear a criatividade de uma criança não é lá das tarefas mais fáceis. Essas pequenas confusões são das coisas mais belas de acompanhar na infância. E as vamos perdendo ao crescer, ao endurecer. Talvez escreva para compartilhar a sensação de que estamos nos desafiando de menos ou nos acomodando rápido demais em esquemas já conhecidos. E que, mesmo adultos, deveríamos ser capazes de ver o dogue alemão na figura de um cavalo mesmo. Afinal, um pouco de desequilíbrio faz bem.

Para não causar ciúmes em casa, quando a minha Clarinha perguntava pelo avô, eu apontava para o céu de São Paulo e dizia que ele tinha virado aquela estrela ali. Uma noite, dessas sem nuvem alguma, estávamos em uma praia bem distante, longe da civilização. Ela, uma formiga, ao perceber o firmamento, disse: como morre gente aqui. E, com poesia, quem estava no céu agora tinha companhia.

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Não observe só o consumidor

“Na realidade, seria inconcebível entre nossos pais uma conversa como essa que estamos tendo agora. Eles não ficavam conversando à noite, mas dormiam profundamente. Nossa geração dorme mal, ficamos angustiados, conversamos muito e estamos sempre procurando descobrir se temos ou não razão. No entanto, para nossos filhos ou netos, estará resolvida essa questão de se ter ou não razão. Isto lhes aparecerá mais claro.”

A sequência dessas palavras nos faz viajar no tempo em busca da nossa própria angústia adolescente. Lá naquela época, estava eu certo de que seria médico em um ano, confiante que me tornaria músico de blues no outro. Enquanto nada decidia, caminhava a passos lentos na direção de uma faculdade de comunicação para assim garantir o diploma do bom filho. A memória puxou esse trecho como quem agarra a cordinha para voltar à tona. Eu e meu dupla Marcos Medeiros estávamos mergulhados em perguntas de jovens estudantes no Young Wave Circus. A ansiedade no ambiente era tateável. Pensei nos dilemas daqueles jovens, déjà-vu.

Eu venho de uma geração cuja angústia profissional nascia da falta de cenário. Você entrava no mercado e realizava que a vida seria em uma agência. Agora, a apreensão parece advir das infinitas possibilidades. Como quem adentra em um estacionamento vazio e roda sem saber se é melhor parar perto da escada rolante, do elevador, de ré, de frente. Em comum, a aflição, a cobrança familiar, a pressão do amigo que já conseguiu um emprego e parece ter se encontrado, a pergunta que não cessa: é isso mesmo que eu quero? A passagem citada foi escrita em 1898 pelo russo Anton Tchekhov, um observador minucioso do ser humano. Poderia muito bem ter sido redigida ontem.

“Reparai nos jornais e nas revistas. Andam repleto de fotogravuras e de nomes – nomes e caras, muitos nomes e muitas caras! A geração faz por conta própria a sua antropométrica para o futuro. Mas o curioso é ver como a publicação desses nomes é pedida, é implorada nas salas das redações. Todos os pretextos são plausíveis, desde a festa que não se foi até a moléstia inconveniente de que se foi operada com feliz êxito a esposa. (…) Aparecer! Aparecer!”

Sem delonga porque o truque ficou previsível. João do Rio, um dos melhores escribas que já pisou nessa terra varonil, foi o primeiro jornalista a adentrar nas favelas, nos terreiros de candomblé, nas rodas de samba e relatar o que estava acontecendo longe do olhar da Zona Sul. O trecho acima foi escrito em 1907. Se trocarmos as fotogravuras pelos posts ou pelos releases vazios que nos rondam, o sentido permanece. O querer aparecer não nasceu no digital. Desde sempre, há quem busque o pedestal a qualquer preço (metafórico e real).

Em um discurso de 1882, Mark Twain fez um aviso aos jovens. Disse ele com sua ironia pontiaguda: “Pois a história da nossa raça e a experiência de cada um estão cheias de provas de que é fácil matar uma verdade e que uma mentira bem contada é imortal”. Continuamos atuais nesse sentido. Embustes são proferidos publicamente, personagens são construídos em torno deles, máscaras caem nos bastidores, sem muito efeito.

Aos estudantes de olhares incertos naquele salão em Copacabana: essa angústia constantemente esteve aí, assim como a imobilidade para enfrentar o que vem à frente. O ser humano tem uma capacidade, que subestimamos, de repetir comportamentos e padrões. Mark Twain se irritava com o distanciamento das relações pós invenção do telefone, João do Rio falava sobre os esnobes, as dietas sem sentido, Tchekhov desnudava seus personagens de tal maneira que os reconhecemos como próximos. Por vezes, observamos o consumidor com tanto detalhe que esquecemos que eles são, veja você, pessoas. E para conhecer as pessoas, a leitura, a observação aguçada do outro continua sendo a maior das aulas.

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Complexo não é difícil, simples não é simplório

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Das coisas subjetivas da vida, uma das que tentam sistematizar é o processo criativo. Cada qual tem o seu tão intrinsicamente construído ao longo dos anos, que eles se diferem como impressões digitais. Tamanho do corpo de letra, tipologia escolhida, caneta em vez de teclas, organização, pequenas manias como morder o dedo ou arrumar os objetos em uma ordem supersticiosa, o prazer do caos, o alívio de ver tudo esquematizado, o vazio desolador na mente como propulsão, necessidade de escapar do ambiente, pequenos escritos guardados, repetição, exaustão, busca do silêncio completo, abrir um livro, esquecer o mundo, olhar para o mundo. O ato de criar dificilmente permite uma cópia por inteiro. Porque sabemos em algum recanto que aquele jeito de fazer não nos pertence.

Formado em Ciência da Computação, Ted Chiang tem o seu cargo definido pela estranha alcunha de “redator técnico de informática”. Nas palavras do próprio, o seu trabalho consiste em transformar material absurdamente técnico em material meramente técnico. Bom, mas isso é o que ele faz na Microsoft. Para um número crescente de leitores, ele tem um signicado mais profundo. É o autor de raros textos que, mesmo breves, renovam o gênero da ficção-científica. Um deles, o bonito História da sua vida inspirou o filme A Chegada, que se fez renovador na tela, também. O encarregado de adaptar a obra foi o roteirista Eric Heisserer, que em uma entrevista, deu o seguinte parecer:  “Ted consegue equilibrar uma ficção intelectual e complexa com sentimentos simples e mundanos”.

Se a ideia aqui fosse emular o processo de criação, essa seria uma pequena rota. Ted Chiang dispensa um enorme tempo dissertando sobre caminhos e fazendo anotações em torno do tema escolhido. A particularidade está no fato de que ele só começa a escrever quando chega à conclusão de como a história se encerra. O fim é o início. E uma vez sabendo o destino, ele começa a construir o enredo.

A proposta desse texto, porém, é outra. Enquanto estava a fuçar um tema para o artigo, encontrei essa frase do autor: “A linguagem científica é uma ponte para mergulhar de cabeça em sensações humanas,” Essa palavras combinadas têm um aspecto singular quando relembro a formação de Ted: ciência da computação. Busco as cenas de A Chegada e evitando o spoiler, confirmo que é da emoção humana que fala o filme. Da necessidade do diálogo, das escolhas que fazemos, da importância de tentar compreender o outro, mesmo que esse outro seja um heptápode. A ciência para Ted Chiang é a vestimenta perfeita para fazer questões filosóficas sobre nós. Em um trecho do livro, ele diz: “A liberdade não é uma ilusão: ela é perfeitamente real no contexto da consciência sequencial”. A matemática aqui está a serviço de um desejo humano.

Escrevo em meio aos posts sobre o SXSW (alguns bem bons). Escrevo sob o impacto de ler a palavra complexidade repetidas vezes. Não tenho receio da palavra em si, mas de como ela pode ser interpretada fora de contexto. A confusão entre complexidade e falar difícil tem sido uma tônica no nosso mercado. Há uma distância entre ouvir, assimilar e pôr em prática. Que cada um que lá esteve pense no objetivo concreto final para desenhar essas novas histórias. E que elas aconteçam de verdade.

Se me falassem na época do vestibular que um profissional das exatas teria como preocupação questões humanas, eu desacreditaria. O alerta redobra porque percebo que estamos colocando diversas camadas de complexidade ao redor das ideias. Volto-me a Ted Chiang. Quando um homem da informática crê que o desafio é transformar material absurdamente técnico em material meramente técnico, é inevitável não pensar: não estamos transformando o simples (não o simplório) em material absurdamente complicado? Mesmo que no discurso?

 

 

 

 

Bote a mão no vinil

Aperto a tecla de rewind. Não existe onomatopéia para esse som. A cortina do box segurava as gotas de água do banho. Não importava o quão forte o chuveiro fosse, a cortina tremulava, mas impedia o banheiro de ficar molhado. Eu não lembro que idade eu tinha, talvez 4 anos. É uma memória de quando o meu HD ainda estava vazio e, mesmo hoje, ainda consigo acessar essa imagem. Eu ficava olhando aquilo encantado. Até que veio o rompante: se ela segura a água em gotas, como se comportaria com um baldinho de praia cheio. Acumulei a água e já me sentindo o descobridor dos sete mares, tirei a prova real. Óbvio que a cortina não segurou, o chão ficou encharcado e eu apaguei um possível castigo da lembrança. Na infância, fui soterrado por um armário em meio a uma escalada, coloquei fogo na banheira, parei em uma emergência oftalmológica por escavar embaixo de um sofá, fiz guerra de água-viva e caroço de pitomba empanado na areia. Por sorte, encontrei os livros, a música, as ondas e as redações na escola para extravasar de forma menos inconsequente, essa curiosidade.

Continuo no rewind até me ver inserido na série Hip-Hop Evolution da Netflix. Ao meu lado, o mito Grandmaster Flash. Ao redor, centenas de bolachas de vinis. Entre nós, uma história sobre quando os tabus são quebrados sem que você precise ficar de castigo.

Houve um tempo em que tocar no meio do disco era proibido. O mito era que ao fazer isso, o disco estragaria, a agulha padeceria com a proximidade daqueles dedos. Não encostarás jamais no centro de um vinil girando na vitrola, era o que estava gravado na pedra fundamental ou escrito com caneta para retroprojetor na contracapa primordial. E assim todos seguiam sem questionar.

No primeiro episódio da série, descobrimos que a mixagem naquela época era feita de duas maneiras bem distintas. Nas rádios, o volume de uma canção diminuía para que a outra começasse. Era uma troca simples, ainda que mágica para o ouvinte. E aí surge o DJ Kool Herc e quebra tudo. Seu estilo de mixar muda o foco da música como um todo para a parte mais suingada, o break, onde o baixo e a bateria ditavam o ritmo. Com duas cópias de um mesmo disco, ou com vinis diferentes,  Kool Herc era capaz de estender a música infinitamente com uma batida nunca antes ouvida. Assim, ele inicia a cultura hip-hop.

Grandmaster Flash, um inquieto por natureza, resolve ir adiante. As questões que ele lança parecem óbvias quando olhamos hoje, mas soam como sacrilégio se localizadas na época. Se as chances de colocar a agulha no lugar certo eram pequenas, porque focar na agulha? Como deixar de ser um adivinho? E no momento mais emocionante da série, ele explica: “Depois de tentar muitas coisas diferentes, eu coloquei os dedos no vinil. Soltei, parei, soltei, parei. Eu sabia que tinha controle absoluto do disco.”  Munido de um giz de cera, Flash caminha para queimar no inferno dos paradigmas e faz um risco circular no disco para marcar o início do beat escolhido. E faz uma linha que ajude a contar as voltas dadas até o fim da seleção. O vinil gira, ele faz a contagem, freia com a mão e gira ao contrário. Com esse advento, o trecho passa a ter início e fim certeiros. E a música nunca mais foi a mesma.

Ao não seguir o estatuto do condomínio musical, Grandmaster Flash muda a equação e Nelson George sintetiza a conquista: “A ideia de que a tecnologia não era só para tocar o disco. Eu posso tocar a tecnologia”. E esse é o ponto central para discos ou marcas. Quem mixa ainda são as pessoas.

Criatividade é hackear o sistema. Se é proibido, questione. Se parece uma tábua com mandamentos, rasure. O ponto de virada acontece quando tabus são ignorados. O cofundador da Netflix, Mitch Lowe, revelou que no início da companhia todo mundo dizia que era uma ideia estúpida. Ou seja, uma das empresas que melhor utiliza o cruzamento de big data com criatividade começou desacreditada.

Eu fracassei jogando água na cortina do box. Algumas lampejos são apenas imbecis mesmo. Porém com a invenção do scratch, tive a alegria de girar Stairway to Heaven ao contrário na tentativa de escutar uma mensagem diabólica. A lição de Grandmaster Flash é que inovação nasce quando você bota a mão no vinil sem pedir licença, nem benção. Ainda que muita gente estranhe o silêncio da pausa, o tempo há de se encarregar de celebrar o momento da quebra. Tenha sempre na cabeça que histórias de pessoas que fizeram o apenas trivial não costumam render uma série. A evolução pertence aos inconformados, aos inquietos.

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Pobre do diretor de marketing do Blade Runner

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Alguém seleciona o Harrison Ford já consagrado como Indiana Jones, reúne com o Ridley Scott após assombrar o mundo com Alien, um Rutger Hauer tinindo na ponta dos cascos (expressão de 1981 para ser compatível), a câmera apaixonada por cada segundo da Daryl Hannah em ação, uma direção de arte primorosa, uma trilha sonora enigmática e um roteiro intocável. Aí, digamos que você é o sortudo produtor que terá o árduo trabalho de aprovar essa ideia. Moleza, você pensa. É só ficar esperando o dinheiro entrar e vislumbrar aquele lindo bônus ao fim da jornada. Acontece que “Blade Runner” foi um fiasco de bilheteria. O espectador só veio a descobrir para valer essa maravilha do cinema no VHS e, em seguida, no DVD. Toda aura em torno do caçador de replicantes Rick Deckard levou um vagaroso tempo para ser construída. Parte dela teve que ser modelada em um primeiro ano de fracasso e não entendimento do público.

“O Grande Lebowski”, dos irmãos Coen, é outro clássico que sofreu por 6 semanas em cartaz e naufragou. Hoje, o filme é objeto de adoração mundo afora, já foi interpretado em inúmeras teses acadêmicas, inspirou fantasias de Halloween, livros, virou uma “religião” (aspas para reforçar que é ironia), o Dudeism. Há 15 anos, o Lebowski Fest celebra o filme com os seus mantras, drinques e fãs. É difícil imaginar a marca Irmãos Coen sem o Dude, palavra de quem tem um boneco do Lebowski na sala de casa.

Sabe o “Clube da Luta”? O cultuado filme do David Fincher? Outro fracasso. Custou US$ 63 milhões e arrecadou US$ 37 milhões. Já fez as contas do ROI desse ano, né? Uma tragédia completa. A audiência só apareceu na venda do DVD em uma curva não muito acelerada, mas suficiente para levantar mais de US$ 100 milhões em vendas e consolidar o filme como inovador, emblemático e tantos outros adjetivos.

“A Fantástica Fábrica de Chocolate”, versão original: fuén, fuén, fuén. Se hoje ele é um clássico é porque a reprise na TV o fez assim. Aos poucos, as pessoas foram digerindo aquela linguagem, a punição das crianças. “Um Sonho de Liberdade” é mais um ícone dessa curva lenta de compreensão. Fiasco no cinema, sucesso na TV, na venda em VHS e locação. Nos dias de hoje, essa obra segura o número 1 na lista de avaliação dos usuários do IMDB.

Exemplos não faltam na música, nas artes plásticas, na literatura. O ser humano tende a rejeitar o novo. Muitas vezes, quando somos confrontados com algo diferente, nosso cérebro organiza uma reação de ansiedade e temor. Na época em que “Pulp Fiction” foi lançado, o conceito de um filme com histórias paralelas, idas e vindas, não era lá tão comum. Na minha sessão, um sujeito gritou: “não tô entendendo porra nenhuma”.

O tão falado disruptivo demanda um tempo de entendimento. E essa curva pode ser oposta à de ROI, o que não significa que ela não posssa tornar-se ascendente em algum momento. Há de se tomar cuidado com o excesso de euforia e certeza de que medir tudo a todo instante é um sinal claro e indubitável de sucesso. Os  discursos dos especialistas têm repetido um erro comum: para marcar um território, matam o outro. É o fim da subjetividade, antes todos criavam no faro, agora é tudo certeiro, os dados são mais importantes que a ideia. Vamos com calma, minha gente. Há que se coexistir.

O primeiro ano de um hipotético diretor de marketing de “Blade Runner” teria sido um pesadelo. Os dados seriam taxativos, a marca Ridley Scott estaria condenada. Já o que foi construído ao longo do tempo, incluso o tropeço inicial, tem um valor incalculável.

Informações que já conhecemos são mais facilmente assimiladas. Daí termos Velozes e Furiosos parte 8, Jason parte infinita e tantas fórmulas rentáveis. Ok. Mas vamos deixar um espaço para um Lebowski, um Willie Wonka. Mesmo que a curva diga não naquele segundo.

 

 

Com prazer vale dois

O nadador francês Florent Manaudou não gosta de treinar. O prazer dele é ganhar. Bastam duas frases para evidenciar uma certa incompatibilidade entre a ambição do atleta e a dedicação necessária para atingir o objetivo. Manaudou evoca o espírito do baixinho Romário em um esporte individual, veste o traje impermeável da marra e cria uma equação de enlouquecer qualquer técnico. Só que não satisfeito, o francês honra com as suas palavras. Ele ganha.

Nos Jogos Olímpicos de 2012 em Londres, Florent chegou à final dos 50m livre para ser aquele coadjuvante bacana que acena para a torcida, mergulha e valida o espírito esportivo ao cumprimentar o campeão (que já arrancou a touca, os óculos e urra socando a água). O francês que estava na raia 7, o que torna o feito ainda mais incrível, obteve o melhor tempo de reação na largada e abocanhou a prova, deixando Cesar Cielo em terceiro. Em 2016, os papéis se inverteram,  Manaudou chegou ao Rio como o favorito e perdeu a final por um centésimo de segundo. Reformulando: levou a prata, o que para ele não foi o suficiente. Florent anunciou que vai dar um tempo das piscinas, diminuir radicalmente a intensidade dos treinos. Ele tem apenas 26 anos.

Alex Pussieldi, a voz da natação na transmissão dos Jogos, escreveu em seu blog sobre a precoce saída de cena. O título da matéria sintetiza: quando o prazer de ganhar é maior do que o gosto pelo esporte. Ou como Alex reafirma quase ao fim, Manaudou sucumbiu à falta de amor pela natação. O talento do francês é tão brutal que lhe permitiu liderar a elite por anos, mas seu estilo de nado custa caro aos músculos, às articulações, dói. Aí, você adiciona à receita um punhado de resistência aos treinos, uma pitada de brigas com o técnico e voilá: ele perdeu o tesão de nadar. O caminho não importava mais, nem o destino.

No início desse ano, a jornalista gastronômica Alexandra Forbes abordou o suicídio do chef suíço Benoît Violier em um artigo denso, carregado dos dilemas que os renomados chefs enfrentam. Se por um lado, os rankings e guias podem alçar um profissional ao estrelato, por outro eles carregam a pressão, a tensão e uma carga emocional gigantesca para estar sempre no topo. À frente do premiadíssimo Restaurant de l’Hôtel de Ville, Benoít repetiu o ato trágico do chef Bernard Loiseau que em 2003 não suportou a possibilidade de ver o seu restaurante perder uma estrela (e, como consequência, uma margem alta de clientes) e deu fim a uma carreira brilhante. Vem do delicado e magnífico filme “Ratatouille”, da Pixar, uma homenagem a Loiseau. Puxando na memória e no Google, relembro que o ratinho Remy tinha como inspiração o chef Gusteau, que faleceu de tristeza após uma crítica do severo Anton Ego. Sem o bordão de Gusteau que repetia que qualquer um pode cozinhar, Remy não poderia sonhar. E não sonhar é render-se aos pesadelos.

Florent Manaudou vai dedicar uma parte do seu tempo ao handebol em busca do prazer do esporte e de uma distância da pressão da mídia. Entendo sua angústia e respeito a sua coragem que a caixa de comentários, o ralo do mundo, diz não existir mais. Alguns bons profissionais saíram das agências por motivo semelhante e quase todos reencontraram um sorriso que parecia anestesiado há tempos atrás. Um deles parece ter criado uma resistência única aos fios brancos.

Dramatizo o exemplo dos chefs porque há como morrer aos poucos. Uma receita infalível é trabalhar sem prazer, fazendo de todos dias uma eterna segunda-feira. Como um noticiário que encerra a sua transmissão com a revoada de passarinhos para que ainda possamos sonhar, recorro ao Remy. Do mesmo jeito que o crítico volta à infância ao provar um singelo prato de ratatouille, é fundamental buscar a razão pela qual escolhemos o nosso trabalho. E torço para que ela seja sempre mais pessoal do que balizada pelo crivo do outro.