Complexo não é difícil, simples não é simplório

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Das coisas subjetivas da vida, uma das que tentam sistematizar é o processo criativo. Cada qual tem o seu tão intrinsicamente construído ao longo dos anos, que eles se diferem como impressões digitais. Tamanho do corpo de letra, tipologia escolhida, caneta em vez de teclas, organização, pequenas manias como morder o dedo ou arrumar os objetos em uma ordem supersticiosa, o prazer do caos, o alívio de ver tudo esquematizado, o vazio desolador na mente como propulsão, necessidade de escapar do ambiente, pequenos escritos guardados, repetição, exaustão, busca do silêncio completo, abrir um livro, esquecer o mundo, olhar para o mundo. O ato de criar dificilmente permite uma cópia por inteiro. Porque sabemos em algum recanto que aquele jeito de fazer não nos pertence.

Formado em Ciência da Computação, Ted Chiang tem o seu cargo definido pela estranha alcunha de “redator técnico de informática”. Nas palavras do próprio, o seu trabalho consiste em transformar material absurdamente técnico em material meramente técnico. Bom, mas isso é o que ele faz na Microsoft. Para um número crescente de leitores, ele tem um signicado mais profundo. É o autor de raros textos que, mesmo breves, renovam o gênero da ficção-científica. Um deles, o bonito História da sua vida inspirou o filme A Chegada, que se fez renovador na tela, também. O encarregado de adaptar a obra foi o roteirista Eric Heisserer, que em uma entrevista, deu o seguinte parecer:  “Ted consegue equilibrar uma ficção intelectual e complexa com sentimentos simples e mundanos”.

Se a ideia aqui fosse emular o processo de criação, essa seria uma pequena rota. Ted Chiang dispensa um enorme tempo dissertando sobre caminhos e fazendo anotações em torno do tema escolhido. A particularidade está no fato de que ele só começa a escrever quando chega à conclusão de como a história se encerra. O fim é o início. E uma vez sabendo o destino, ele começa a construir o enredo.

A proposta desse texto, porém, é outra. Enquanto estava a fuçar um tema para o artigo, encontrei essa frase do autor: “A linguagem científica é uma ponte para mergulhar de cabeça em sensações humanas,” Essa palavras combinadas têm um aspecto singular quando relembro a formação de Ted: ciência da computação. Busco as cenas de A Chegada e evitando o spoiler, confirmo que é da emoção humana que fala o filme. Da necessidade do diálogo, das escolhas que fazemos, da importância de tentar compreender o outro, mesmo que esse outro seja um heptápode. A ciência para Ted Chiang é a vestimenta perfeita para fazer questões filosóficas sobre nós. Em um trecho do livro, ele diz: “A liberdade não é uma ilusão: ela é perfeitamente real no contexto da consciência sequencial”. A matemática aqui está a serviço de um desejo humano.

Escrevo em meio aos posts sobre o SXSW (alguns bem bons). Escrevo sob o impacto de ler a palavra complexidade repetidas vezes. Não tenho receio da palavra em si, mas de como ela pode ser interpretada fora de contexto. A confusão entre complexidade e falar difícil tem sido uma tônica no nosso mercado. Há uma distância entre ouvir, assimilar e pôr em prática. Que cada um que lá esteve pense no objetivo concreto final para desenhar essas novas histórias. E que elas aconteçam de verdade.

Se me falassem na época do vestibular que um profissional das exatas teria como preocupação questões humanas, eu desacreditaria. O alerta redobra porque percebo que estamos colocando diversas camadas de complexidade ao redor das ideias. Volto-me a Ted Chiang. Quando um homem da informática crê que o desafio é transformar material absurdamente técnico em material meramente técnico, é inevitável não pensar: não estamos transformando o simples (não o simplório) em material absurdamente complicado? Mesmo que no discurso?

 

 

 

 

Bote a mão no vinil

Aperto a tecla de rewind. Não existe onomatopéia para esse som. A cortina do box segurava as gotas de água do banho. Não importava o quão forte o chuveiro fosse, a cortina tremulava, mas impedia o banheiro de ficar molhado. Eu não lembro que idade eu tinha, talvez 4 anos. É uma memória de quando o meu HD ainda estava vazio e, mesmo hoje, ainda consigo acessar essa imagem. Eu ficava olhando aquilo encantado. Até que veio o rompante: se ela segura a água em gotas, como se comportaria com um baldinho de praia cheio. Acumulei a água e já me sentindo o descobridor dos sete mares, tirei a prova real. Óbvio que a cortina não segurou, o chão ficou encharcado e eu apaguei um possível castigo da lembrança. Na infância, fui soterrado por um armário em meio a uma escalada, coloquei fogo na banheira, parei em uma emergência oftalmológica por escavar embaixo de um sofá, fiz guerra de água-viva e caroço de pitomba empanado na areia. Por sorte, encontrei os livros, a música, as ondas e as redações na escola para extravasar de forma menos inconsequente, essa curiosidade.

Continuo no rewind até me ver inserido na série Hip-Hop Evolution da Netflix. Ao meu lado, o mito Grandmaster Flash. Ao redor, centenas de bolachas de vinis. Entre nós, uma história sobre quando os tabus são quebrados sem que você precise ficar de castigo.

Houve um tempo em que tocar no meio do disco era proibido. O mito era que ao fazer isso, o disco estragaria, a agulha padeceria com a proximidade daqueles dedos. Não encostarás jamais no centro de um vinil girando na vitrola, era o que estava gravado na pedra fundamental ou escrito com caneta para retroprojetor na contracapa primordial. E assim todos seguiam sem questionar.

No primeiro episódio da série, descobrimos que a mixagem naquela época era feita de duas maneiras bem distintas. Nas rádios, o volume de uma canção diminuía para que a outra começasse. Era uma troca simples, ainda que mágica para o ouvinte. E aí surge o DJ Kool Herc e quebra tudo. Seu estilo de mixar muda o foco da música como um todo para a parte mais suingada, o break, onde o baixo e a bateria ditavam o ritmo. Com duas cópias de um mesmo disco, ou com vinis diferentes,  Kool Herc era capaz de estender a música infinitamente com uma batida nunca antes ouvida. Assim, ele inicia a cultura hip-hop.

Grandmaster Flash, um inquieto por natureza, resolve ir adiante. As questões que ele lança parecem óbvias quando olhamos hoje, mas soam como sacrilégio se localizadas na época. Se as chances de colocar a agulha no lugar certo eram pequenas, porque focar na agulha? Como deixar de ser um adivinho? E no momento mais emocionante da série, ele explica: “Depois de tentar muitas coisas diferentes, eu coloquei os dedos no vinil. Soltei, parei, soltei, parei. Eu sabia que tinha controle absoluto do disco.”  Munido de um giz de cera, Flash caminha para queimar no inferno dos paradigmas e faz um risco circular no disco para marcar o início do beat escolhido. E faz uma linha que ajude a contar as voltas dadas até o fim da seleção. O vinil gira, ele faz a contagem, freia com a mão e gira ao contrário. Com esse advento, o trecho passa a ter início e fim certeiros. E a música nunca mais foi a mesma.

Ao não seguir o estatuto do condomínio musical, Grandmaster Flash muda a equação e Nelson George sintetiza a conquista: “A ideia de que a tecnologia não era só para tocar o disco. Eu posso tocar a tecnologia”. E esse é o ponto central para discos ou marcas. Quem mixa ainda são as pessoas.

Criatividade é hackear o sistema. Se é proibido, questione. Se parece uma tábua com mandamentos, rasure. O ponto de virada acontece quando tabus são ignorados. O cofundador da Netflix, Mitch Lowe, revelou que no início da companhia todo mundo dizia que era uma ideia estúpida. Ou seja, uma das empresas que melhor utiliza o cruzamento de big data com criatividade começou desacreditada.

Eu fracassei jogando água na cortina do box. Algumas lampejos são apenas imbecis mesmo. Porém com a invenção do scratch, tive a alegria de girar Stairway to Heaven ao contrário na tentativa de escutar uma mensagem diabólica. A lição de Grandmaster Flash é que inovação nasce quando você bota a mão no vinil sem pedir licença, nem benção. Ainda que muita gente estranhe o silêncio da pausa, o tempo há de se encarregar de celebrar o momento da quebra. Tenha sempre na cabeça que histórias de pessoas que fizeram o apenas trivial não costumam render uma série. A evolução pertence aos inconformados, aos inquietos.

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Pobre do diretor de marketing do Blade Runner

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Alguém seleciona o Harrison Ford já consagrado como Indiana Jones, reúne com o Ridley Scott após assombrar o mundo com Alien, um Rutger Hauer tinindo na ponta dos cascos (expressão de 1981 para ser compatível), a câmera apaixonada por cada segundo da Daryl Hannah em ação, uma direção de arte primorosa, uma trilha sonora enigmática e um roteiro intocável. Aí, digamos que você é o sortudo produtor que terá o árduo trabalho de aprovar essa ideia. Moleza, você pensa. É só ficar esperando o dinheiro entrar e vislumbrar aquele lindo bônus ao fim da jornada. Acontece que “Blade Runner” foi um fiasco de bilheteria. O espectador só veio a descobrir para valer essa maravilha do cinema no VHS e, em seguida, no DVD. Toda aura em torno do caçador de replicantes Rick Deckard levou um vagaroso tempo para ser construída. Parte dela teve que ser modelada em um primeiro ano de fracasso e não entendimento do público.

“O Grande Lebowski”, dos irmãos Coen, é outro clássico que sofreu por 6 semanas em cartaz e naufragou. Hoje, o filme é objeto de adoração mundo afora, já foi interpretado em inúmeras teses acadêmicas, inspirou fantasias de Halloween, livros, virou uma “religião” (aspas para reforçar que é ironia), o Dudeism. Há 15 anos, o Lebowski Fest celebra o filme com os seus mantras, drinques e fãs. É difícil imaginar a marca Irmãos Coen sem o Dude, palavra de quem tem um boneco do Lebowski na sala de casa.

Sabe o “Clube da Luta”? O cultuado filme do David Fincher? Outro fracasso. Custou US$ 63 milhões e arrecadou US$ 37 milhões. Já fez as contas do ROI desse ano, né? Uma tragédia completa. A audiência só apareceu na venda do DVD em uma curva não muito acelerada, mas suficiente para levantar mais de US$ 100 milhões em vendas e consolidar o filme como inovador, emblemático e tantos outros adjetivos.

“A Fantástica Fábrica de Chocolate”, versão original: fuén, fuén, fuén. Se hoje ele é um clássico é porque a reprise na TV o fez assim. Aos poucos, as pessoas foram digerindo aquela linguagem, a punição das crianças. “Um Sonho de Liberdade” é mais um ícone dessa curva lenta de compreensão. Fiasco no cinema, sucesso na TV, na venda em VHS e locação. Nos dias de hoje, essa obra segura o número 1 na lista de avaliação dos usuários do IMDB.

Exemplos não faltam na música, nas artes plásticas, na literatura. O ser humano tende a rejeitar o novo. Muitas vezes, quando somos confrontados com algo diferente, nosso cérebro organiza uma reação de ansiedade e temor. Na época em que “Pulp Fiction” foi lançado, o conceito de um filme com histórias paralelas, idas e vindas, não era lá tão comum. Na minha sessão, um sujeito gritou: “não tô entendendo porra nenhuma”.

O tão falado disruptivo demanda um tempo de entendimento. E essa curva pode ser oposta à de ROI, o que não significa que ela não posssa tornar-se ascendente em algum momento. Há de se tomar cuidado com o excesso de euforia e certeza de que medir tudo a todo instante é um sinal claro e indubitável de sucesso. Os  discursos dos especialistas têm repetido um erro comum: para marcar um território, matam o outro. É o fim da subjetividade, antes todos criavam no faro, agora é tudo certeiro, os dados são mais importantes que a ideia. Vamos com calma, minha gente. Há que se coexistir.

O primeiro ano de um hipotético diretor de marketing de “Blade Runner” teria sido um pesadelo. Os dados seriam taxativos, a marca Ridley Scott estaria condenada. Já o que foi construído ao longo do tempo, incluso o tropeço inicial, tem um valor incalculável.

Informações que já conhecemos são mais facilmente assimiladas. Daí termos Velozes e Furiosos parte 8, Jason parte infinita e tantas fórmulas rentáveis. Ok. Mas vamos deixar um espaço para um Lebowski, um Willie Wonka. Mesmo que a curva diga não naquele segundo.

 

 

Com prazer vale dois

O nadador francês Florent Manaudou não gosta de treinar. O prazer dele é ganhar. Bastam duas frases para evidenciar uma certa incompatibilidade entre a ambição do atleta e a dedicação necessária para atingir o objetivo. Manaudou evoca o espírito do baixinho Romário em um esporte individual, veste o traje impermeável da marra e cria uma equação de enlouquecer qualquer técnico. Só que não satisfeito, o francês honra com as suas palavras. Ele ganha.

Nos Jogos Olímpicos de 2012 em Londres, Florent chegou à final dos 50m livre para ser aquele coadjuvante bacana que acena para a torcida, mergulha e valida o espírito esportivo ao cumprimentar o campeão (que já arrancou a touca, os óculos e urra socando a água). O francês que estava na raia 7, o que torna o feito ainda mais incrível, obteve o melhor tempo de reação na largada e abocanhou a prova, deixando Cesar Cielo em terceiro. Em 2016, os papéis se inverteram,  Manaudou chegou ao Rio como o favorito e perdeu a final por um centésimo de segundo. Reformulando: levou a prata, o que para ele não foi o suficiente. Florent anunciou que vai dar um tempo das piscinas, diminuir radicalmente a intensidade dos treinos. Ele tem apenas 26 anos.

Alex Pussieldi, a voz da natação na transmissão dos Jogos, escreveu em seu blog sobre a precoce saída de cena. O título da matéria sintetiza: quando o prazer de ganhar é maior do que o gosto pelo esporte. Ou como Alex reafirma quase ao fim, Manaudou sucumbiu à falta de amor pela natação. O talento do francês é tão brutal que lhe permitiu liderar a elite por anos, mas seu estilo de nado custa caro aos músculos, às articulações, dói. Aí, você adiciona à receita um punhado de resistência aos treinos, uma pitada de brigas com o técnico e voilá: ele perdeu o tesão de nadar. O caminho não importava mais, nem o destino.

No início desse ano, a jornalista gastronômica Alexandra Forbes abordou o suicídio do chef suíço Benoît Violier em um artigo denso, carregado dos dilemas que os renomados chefs enfrentam. Se por um lado, os rankings e guias podem alçar um profissional ao estrelato, por outro eles carregam a pressão, a tensão e uma carga emocional gigantesca para estar sempre no topo. À frente do premiadíssimo Restaurant de l’Hôtel de Ville, Benoít repetiu o ato trágico do chef Bernard Loiseau que em 2003 não suportou a possibilidade de ver o seu restaurante perder uma estrela (e, como consequência, uma margem alta de clientes) e deu fim a uma carreira brilhante. Vem do delicado e magnífico filme “Ratatouille”, da Pixar, uma homenagem a Loiseau. Puxando na memória e no Google, relembro que o ratinho Remy tinha como inspiração o chef Gusteau, que faleceu de tristeza após uma crítica do severo Anton Ego. Sem o bordão de Gusteau que repetia que qualquer um pode cozinhar, Remy não poderia sonhar. E não sonhar é render-se aos pesadelos.

Florent Manaudou vai dedicar uma parte do seu tempo ao handebol em busca do prazer do esporte e de uma distância da pressão da mídia. Entendo sua angústia e respeito a sua coragem que a caixa de comentários, o ralo do mundo, diz não existir mais. Alguns bons profissionais saíram das agências por motivo semelhante e quase todos reencontraram um sorriso que parecia anestesiado há tempos atrás. Um deles parece ter criado uma resistência única aos fios brancos.

Dramatizo o exemplo dos chefs porque há como morrer aos poucos. Uma receita infalível é trabalhar sem prazer, fazendo de todos dias uma eterna segunda-feira. Como um noticiário que encerra a sua transmissão com a revoada de passarinhos para que ainda possamos sonhar, recorro ao Remy. Do mesmo jeito que o crítico volta à infância ao provar um singelo prato de ratatouille, é fundamental buscar a razão pela qual escolhemos o nosso trabalho. E torço para que ela seja sempre mais pessoal do que balizada pelo crivo do outro.

Retidão não aceita desaforo

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Não sou metódico o suficiente para carregar um caderno e ir anotando as coisas ao longo do tempo, nem desorganizado o bastante para perder o que eu acho interessante. Entre post-its opacos, fotos de livros, artigos, links bookmarqueados e notas arquivadas no celular, invariavelmente, sou impactado por algo que julgava esquecido. No dia 3 de Abril de 2014, registrei um debate entre John Hegarty, David Droga e Dave Trott em torno da coragem na publicidade. Resgato desse fantástico encontro, algumas frases:

“Agências não tomam grandes decisões, elas fazem recomendações. Quando falamos sobre agências serem corajosas, não somos, os clientes é que são.” Sir John Hegarty.

 “Coragem é colocar as suas crenças acima do instinto de auto-preservação.” David Droga.

 “Coragem é levar o negócio (da agência e do cliente) para lugares perigosos por uma boa razão”. Esta, infelizmente, sem o autor confirmando a ausência de método por essas bandas de cá.

 Já no dia 11 de setembro de 2016, de uma rara conversa com Isay Weinfeld no Festival do Clube, reservei com cuidado uns muitos aprendizados. Entre tantas coisas, Isay falou sobre a relação de confiança que precisa ser estabelecida com o cliente e o quanto ele preza por cada detalhe:

“Às vezes se esquece que a obra é para quem pediu, não para você. Eu não projeto para mim, projeto para o outro.”

“95% do meu trabalho é psicanálise. Os outros 5% são sobre pensar em tudo o que foi dito”.

Em 2002, sem mês específico, anotei em um arquivo de Word sobre a recusa de um tatuador. Segue o evento reescrito com tintas de hoje: Certo dia, na hora do almoço, adentrei em um estúdio de tatuagem com um colega de trabalho. Eu sabia exatamente o que queria, ele não. O tatuador pediu para que cada um descrevesse o que gostaria de fazer e, em seguida, observou calmamente os desenhos já existentes nos corpos daqueles estranhos. Por um tempo, ele pareceu absorto, distante e, enfim, deu o seu parecer: tatuo você na semana que vem. Já para o cidadão ao meu lado, ele não hesitou: não vou tatuar você. O meu amigo inflamou-se de raiva, tentou encontrar uma resposta para aquela sentença. No afã, acabou dando uma carteirada: mas eu vou pagar. E o profissional já calejado por anos de estúdio, retrucou: um trabalho que eu não acho coerente dói mais em mim do que em você, prefiro não fazer.

Distantes no tempo e nos arquivos, enxergo nesses eventos pontos que se conectam em uma espinha dorsal. Na frase de John Hegarty há uma desconstrução inusitada e verdadeira. Coragem no Keynote, todo mundo tem, mas na hora de pagar a conta, a decisão é de um lado. Respinga em todos? Respinga, mas a tinta pesa mais para o cliente. É uma reflexão que nos ajuda a rebalancear o ego. David Droga abre o leque da bravura e inclui as duas partes. É necessário, sim, enfrentar esse instinto que pode ser o do bônus garantido no fim do ano, da cadeira confortável e do salário alto, dos vícios em apostar nos mesmos formatos, nas fórmulas que deram certo para o concorrente. Coragem é sobre andar por caminhos não trilhados lembra o anônimo que estava lá e eu não anotei.

Do quase silencioso Isay, retiro a observação sobre ficar atento para que o ego de quem faz não se sobressaia ao trabalho pedido. Não criamos para nós mesmos, não somos nós que habitaremos aquele ambiente, que vestiremos aquela campanha. A boa relação parte do entendimento verdadeiro sobre o outro, do que ele precisa e carrega junto à possibilidade do não.

Do tatuador, o rigor que sublinha a importância de manter a coerência sobre aquilo que você acredita ferir os seus princípios. Não é seguir a corrente, usar uma ética descartável, pegar todo e qualquer trabalho visando apenas faturar. Das anotações, percebo que retidão também não aceita desaforo.

 

 

Uma carta para o Mauro, um telegrama para o Eduardo

Meu caro Mauro,

uma mensagem de voz pelo WhatsApp talvez resolvesse, quiçá um antigo SMS, mas era muita coisa nessa caixola, caraminholas remexidas pelo seu último artigo, sobre a Menina da Vale. Em seu ótimo texto, você toca nas feridas, trabalha o acontecimento com cuidado e ainda indica uma saída esperançosa. Só que tem uma passagem que me levou a um questionamento:

“Nos dias de hoje, as pessoas não compram você pelo que você vende de você mesmo, mas sim pelo que você faz e entrega. Aceitemos ou não, mas títulos, currículos e medalhas não têm mais valor como antigamente”.

Torço muito para que isso seja uma verdade a curto prazo, mas divido com você algumas dúvidas sobre os profissionais do auto-manifesto.

Outro dia quase engasguei com o café, veja você. Estava eu a ler um jornal quando descobri que assessora de casamento agora é chamada de wedding planner. Desde então, procuro diferenciar uma função da outra. Há alguma distinção? Ou é apenas uma vestimenta chique-estaile ? Anos atrás, dei de frente com um cargo mezzo pomposo, mezzo bobo, algo ao estilo de “ninja of concept”. Por acaso, tive a chance de perguntar ao diretor do setor, o motivo dele deixar um funcionário usar aquela nomenclatura. E o diretor, sem titubear, respondeu: porque ele acredita.

Não sou contra anglicismos e descobri que lá nos Estados Unidos, há quem também questione essas invencionices. Fiz uma mistureba de coisas que achei para exemplificar como é possível complicar sem aprofundar: só um Paradigm Breaker com uma paixão por resolver problemas pode encontrar essa saída. Vamos focar em um modus-operandi indelével para colaborativamente criarmos uma estratégia que funcione como um trigger que mais que uma fagulha, é um questionamento da semiótica por trás da marca. Nesse cenário, um Head of Future Trends, adapta-se conectando os pontos ainda inexistentes entre demanda e o que está a se formar. Juro, não entendi nada. Mas se cabe outra confissão, na minha área, é comum pegar carona na ficha técnica e construir um personagem premiado. É aquele ditado: o sucesso tem vários pais, o fracasso é orfão.

Na série Cooked, o Michael Pollan diz-se impressionado com a capacidade que temos em complicar um churrasco. Carvão, fogo, carne e sal não são artigos de uma ciência complexa, nem de uma arte intocável. Uso esse paralelo nos perfis rebuscados do Linkedin e funciona.

Nesse universo da inflada molecular de currículos, ainda há pouco Ferran Adriá para muita espuma. Percebo que na ânsia de gerar caldo, o pessoal confunde complexidade da comunicação com complicação. Revelo, pois, uma pequena mania quando vou a restaurantes. Digamos que seja um italiano. Na primeira visita, eu peço invariavelmente uma receita clássica. Um molho ao sugo, um pesto, um carbonara. Porque se o cara errar o básico, não vai ser o cogumelo selvagem com alcachofra que vai salvar.

Mauro, estou na torcida para que as suas palavras sejam mais certeiras que as minhas cismas. O seu texto carrega uma esperança de que há uma mudança em curso e é nela que me apego. Afinal, ninjas e complicadores costumam sumir na fumaça. Grande abraço.  ______________________________________

Caro Eduardo Tracanella,

a sua questão de 13 de maio de 2016, abre aspas, se o nosso mercado fosse um país, ele seria o país que a gente tanto sonha?, fecha aspas, continua a ecoar.

Saudações. A.K.

 

O artigo do MauroSegura:  http://www.meioemensagem.com.br/home/opiniao/2016/09/05/a-bel-pesce-em-cada-um-de-nos.html

O artigo do Eduardo Tracanella:

Cuspindo para cima

 

 

 

 

 

 

Do que eu ainda falo quando falo de natação

Olimpíadas, hora de voltar para um assunto que me faz bem. O escritor Nick Hornby atrelava a ascensão e a queda do Arsenal aos momentos da sua vida. Segundo ele, tudo estava correlacionado. Se eu fizesse o mesmo com o Flamengo, teria que desenhar uma infância memorável e uma vida adulta sofrida (com picos de felicidade vascaínos e Pet). Por isso, procuro algumas conexões na piscina. Quando estou bem, nado sem pensar e faço os melhores tempos. Quando estou com raiva, o braço entra mais forte, a técnica se perde e canso invariavelmente. Se decepcionado, nado sem objetivo algum. O quadril desce e a superfície é algo a se evitar.

Experimento entrar na piscina e no trabalho como se cada dia fosse um recomeço. Escolho de largada apagar todos números da cabeça. Sejam eles os do 100m livre ou os dos prêmios. Ao zerar o meu relógio, descubro em muitas oportunidades uma sensação inspiradora. A de voltar a comemorar as conquistas, por menores que sejam. Reencontro o prazer dos centésimos no trabalho. Dos detalhes que fazem diferença ao fim do dia, que nos devolvem zerados para casa. É um aprendizado que demanda foco na sua raia. Até porque, quando você olha demais para o lado, pode dar com a testa na parede.

Nesse momento turbulento do mercado, do País, tenho nadado sem pressão, mais leve. O que me faz lembrar dos ex-atletas que treinavam comigo. Todos tinham na cabeça seus recordes dos tempos mais jovens. Alguns conseguiam lidar com a ideia de aquele número mágico no cronômetro não seria mais alcançado. Outros, não. Esses nadavam à procura do passado, mesmo sabendo que o certo na natação é manter a cabeça centrada. Por ter começado depois de burro velho, não tenho registro qualquer dos meus tempos. Não nado para buscar o que eu fui, nado para o que serei.

Nadar é também um exercício fundamental sobre o silêncio. Repare na quantidade de pequenos sons que nos rodeiam. O teclar, o vibrar do celular, o aviso de email. Trememos em abstinência pela simples possibilidade de não responder a esses chamados. Mergulho para ouvir menos, busco a desconexão.

Cada treino é um ensinamento sobre os próprios limites e um aprendizado sobre as dores. Respeito mais o meu corpo na piscina do que na agência. Se o ombro apita, corro para os elásticos. Se a lombar reclama, evito nadar peito e borboleta. A ideia é ter esse mesmo grau de alerta para o trabalho e ser capaz de escutar o que um torcicolo pode significar. Muito antes que o corpo comece a nos sabotar aos poucos. E ser capaz de enxergar esses detalhes nas pessoas que me importam. Entender, por exemplo, que aquela perna balançando é muito mais do que uma perna balançando.

Respirar, essa arte esquecida, é outro ponto crucial. Eu acreditava que quanto menos eu respirasse, mais rápido seria. Pode funcionar para os 50m livre. Passa a ser uma tática mortal para as distâncias maiores. A ligação é precisa quando pensamos em processos de trabalho. Já vi amigos perdendo o cabelo, outros com herpes, alguns com crise de ansiedade, pela ânsia vã de serem infalíveis. Por acharem que vão resolver tudo sozinhos. O ser humano falha e essa é uma das belezas que nos separa das máquinas, dos arrogantes. Respiro e valorizo cada segundo de descanso na borda, em casa.

Na piscina, pouco importa quem você é lá fora. De touca e óculos, fica difícil manter a pose. Treino hoje com uma galera que é faixa preta na arte de zoar o próximo. Pode ser milionário, condecorado, bajulado. Se chegar segundos atrás, vai ouvir. E acredite: isso torna todos ali mais humanos, menos intocáveis.

Regresso a esse tema e convido você a encontrar a sua piscina, seja ela qual for. Mergulhe sem medo. Olhe para a sombra no fundo, mas não tente alcançá-la. Deixe que ela há de encontrar um outro alguém que você não vê há tempos. Um você mais inteiro, mais verdadeiro.

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O mundo é menor do que o Largo do Machado

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A lufada gelada do ar-condicionado da recepção é acolhedora. A camisa empapada de suor clama por uma cerveja gelada. Eles adentram o bar do hotel com um objetivo comum. Um longo gole é seguido de um silêncio. Como desconhecidos que se esbarram no elevador, eles recorrem ao clima e comentam sobre o calor sufocante de Guayaquil. O que é surpreendente visto que um é mexicano e o outro é brasileiro. O assunto dura pouco. Novo gole, novo silêncio. Os dois publicitários estavam ali para um evento e, como não podia deixar de ser, falam sobre trabalho. Primeiro, o choque em perceber as infinitas restrições à propaganda no Equador. Lá, o governo tem um controle muito rígido sobre o conteúdo e a produção das agências e clientes. O desconhecimento cria uma sensação de profunda ignorância em ambos. O mexicano, antevendo o silêncio, lança a pergunta:

–  Você estava na equipe que ganhou o GP de Press em 2010?

O brasileiro diz que sim. O mexicano prossegue:

– Eu era da equipe que perdeu esse mesmo GP.

É impossível negar o constrangimento que parece escorrer pelo balcão e inundar tudo ao redor. Aquelas duas histórias, antes isoladas, resolveram se encontrar não em Cannes, mas no improvável bar de um hotel no Equador. Um rápido salto no tempo para situar os fatos.

Em 2010, a Ogilvy do México ganhou o GP de Press. Os vencedores embarcaram em um vôo para a França felizes da vida. Logo no desembarque, descobriram que haviam perdido o prêmio. O motivo? A peça havia sido inscrita no ano anterior, fato esse que só foi descoberto no dia seguinte ao julgamento. A dor de um tornou-se a glória do outro em uma reviravolta de novela mexicana ou brasileira, tanto faz.

Agosto de 2015, Guayaquil.  Anos depois, as partes envolvidas estavam frente à frente pela primeira vez. O mexicano segue na sua busca:

–  Sinceramente, você tem alguma ideia de como isso aconteceu? O boato que chegou a nós é que como a Revista Billboard faz parte do grupo que é dono do Adweek, um jornalista denunciou.

Um respiro profundo. O brasileiro retruca:

–  O que ouvimos no Palais é que um criativo mexicano de uma agência concorrente delatou para a organização.

O outro desacredita:

– Não pode ser. Ninguém faria isso.

Cada um tem agora uma inédita versão e muitas incertezas. Durante anos, acreditaram em algo que pode não ter sido assim. Entre esses dois relatos, há a verdade. Só que ao confrontar teses tão distintas, eles acabam de realizar que nunca saberão ao certo o que se passou. O silêncio domina o recinto e não arreda mais o pé. Sentindo que o bar havia encolhido, o brasileiro recorda de um amigo que costumava repetir: o mundo é menor do que o Largo do Machado. Ele tinha razão.

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De tudo o que acontece nos festivais, o que mais me fascina é o drama humano. Muito se escreve a respeito dos premiados, dos cases, das palestras. Pouco é registrado sobre as tristezas, as lamúrias, os confrontos, os dilemas. Vislumbro algumas teorias já construídas sobre o ano que vem. Que seremos mais inovadores, mais integrados. Recorro, pois, a um texto de 1910 do magistral João do Rio:  “Há tanta gente à janela, porque, realmente, sem o saber, um instinto vago lhes diz que vem aí o préstito ou a procissão. Apenas não sabem qual é o préstito. Não saber, e ficar, e não ver, e continuar, é o que se chama esperança. Nós somos o povo mais cheio de esperança da terra – porque vivemos à janela.”

Há uma procissão de novas metas, mais cobranças da rede, o porvir. Ao fim dessa passagem, guardaremos o lado da história que nos convém, uma vez que raramente teremos o Equador para entender o outro. Que dirá um João do Rio a registrar os dramas reais, enquanto flana pela Croisette. Assim, a maioria pode olhar 2017 do conforto da janela.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Briefing não é livro de colorir

 

Os dados eram esperados, não há uma grande revelação, nem nada. Segundo a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 44% do brasileiros não lêem, 30% nunca compraram um livro, 63% declaram não terem sido incentivados a ler. Detalhe importante: para a pesquisa, leitor é quem leu um livro por inteiro ou partes do mesmo nos últimos 3 meses. A Bíblia aparece como o mais lido, o que faz sentido se pensarmos na forma em que é consultada. Um aspecto estarrecedor é que metade dos professores entrevistados diz não ter lido livro algum recentemente, porém 84% deles se intitulam leitores. Contraditório, não? Sem uma política clara de educação no país há décadas, o retrato é óbvio e triste.

Vamos adicionar outro fator. O livro mais vendido de 2015, de acordo com o ranking da PublishNews, foi “Jardim Secreto” de  Johanna Basford. Não leu? Tudo bem, ninguém leu mesmo. É um livro de colorir para adultos. O segundo lugar? De colorir, também. E mesmo com tanta cor, não consigo deixar de pensar que para quem gosta de literatura, esse é um cenário cinza.

Construo aqui uma ponte rumo a outro objeto de leitura que deveria ter o limite de duas páginas: o briefing. Se fizéssemos uma pesquisa Retratos da Leitura de Briefing no Brasil, os números seriam igualmente desanimadores. Na averiguação, teríamos que fazer um recorte especial:  leu o briefing inteiro; leu parcialmente. Na bolsa de apostas, colocaria dinheiro que a segunda categoria venceria por nocaute. Se a ficha técnica é o maior ponto de discórdia na criação, o briefing é o ponto nevrálgico da relação entre todos os departamentos da agência, entre agência e clientes, entre emplacar e refazer. Faço, então, algumas considerações soltas sobre o tema:

  • Todo briefing pode ser negado contanto que seja discutido no início. Espernear na véspera da reunião não resolve nada.
  • A criação tem que participar do processo de construção do briefing. Eu sei que é mais fácil culpar o outro, mas esse papel de criativo mimado em 2016 não cai bem.
  • O fato de preencher todas as caixas do briefing não resolve o problema. Ao fim, você precisa ter definido em uma frase o que precisa ser dito.
  • Manifestos podem conter tudo o que um briefing pede e ainda assim não serem efetivos. Um grupo de estudantes na Alemanha criou um site em que você pode ouvir o áudio de um manifesto com a imagem de outra campanha. Ninguém notou a diferença.
  • Hoje, as conversas mais interessantes acontecem na mídia. Ou a mídia entra no início ou a gente finge que o trabalho foi integrado.
  • Briefing não é livro de colorir. Ficar rabiscando e sublinhando ele por inteiro, só significa uma coisa: não está claro.
  • Agência não é Game of Thrones. Disputa entre reinos gera os piores briefings.
  • Contrariar o briefing por contrariar é a infantilização do processo criativo.
  • A única maneira de zerar uma prova de redação é fugir do tema. A regra vale para a hora de criar.
  • A razão tem que estar no briefing, a emoção na ideia. Quem só procura pelo racional na hora de ver a campanha, tende a não se emocionar.
  • Se você é cliente, coloque-se no lugar da agência. Se é agência, coloque-se no lugar do cliente. Empatia costuma poupar uma pá de discussões.

No ano passado, a REI fechou todas as suas lojas na Black Friday. Não sei se nasceu de um briefing ou não, mas pense na coragem dessa ação? Fechar quando poderia vender. Para uma marca de de artigos outdoor, a mensagem não poderia ser mais pertinente. Torço para que o case de REI fature tudo em Cannes, não só porque ele traz uma ideia poderosa, verdadeira, sem truques. Torço porque há nele, uma lição imprescindível: ler o cliente ainda é a melhor ferramenta de criatividade para uma agência. Pode ser um briefing, pode ser uma oportunidade. Só não pode não ler.

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Dados sem uma visão humana são apenas dados

Dos anos de terapia, há um aprendizado que tornou-se um ilustre e aguardado visitante. De quando em quando, lá vem ele bater na porta das minhas certezas. Toc toc. E diz ele bem baixinho, com uma voz feminina carregada de sotaque paulistano: quando você joga muito luz sobre um único ponto, cria uma enorme área de sombra. E, às vezes, a solução está na sombra. Esse pensamento me acompanha nos mais variados assuntos. Não foi uma surpresa, portanto, que ao ler a frágil explicação para a queda da ciclovia do Rio, ele tenha surgido novamente.

Chocado pela obviedade da tragédia, vinha eu procurando mais informações sobre o fato, quando passei os olhos nesta nota publicada pelo Ancelmo Gois. “Quando desabou o viaduto da Paulo de Frontin, em 1971, matando 26 pessoas, o escritor Autran Dourado (1926-2012) disse numa entrevista ao “JB”:

— Se os engenheiros que o projetaram tivessem lido Machado de Assis não errariam nos cálculos, porque saberiam pensar. E teriam uma formação humanista.” Meu pensamento tinha agora uma nova companhia.

O laudo preliminar do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) indica que a ciclovia caiu por um erro primário. Não havia um cálculo estrutural prevendo que a ação de uma onda ascendente poderia atingir a plataforma. Traduzindo: os “peritos” não imaginaram que algumas ondas batem na pedra e sobem com força. Eles ticaram os itens que, em uma visão limitada, deixariam a obra de pé: vigas, ok; capacidade de sustentar uma força de cima para baixo, ok; impacto de uma onda nos pilares, ok. Se tivessem uma visão humanista, não precisariam nem calcular. Bastaria perguntar para os pescadores da região, para os bodyboarders da Laje do Sheraton, para os moradores do condomínio Ladeira das Yucas, para qualquer carioca que tenha parado para admirar uma ressaca no Leblon. Creio que todos os personagens diriam: as ondas sobem. Deixo de fora dessa parábola, a incompetência e a bandalheira em obras públicas.

Anos atrás, meu braço esquerdo entrou em uma dormência contínua (eu sou canhoto). Um renomado ortopedista solicitou um sem-número de ressonâncias. No resultado dos exames, porém, não havia nada que justificasse aquela dor. O especialista, do alto de sua sabedoria inabalável, receitou anti-inflamatório e fisioterapia. Dever cumprido, próximo paciente. Pois bem, o diagnóstico era síndrome de Burnout. Focado no único ponto de luz, o ortopedista não observou o todo. Não me fez uma questão sequer além da tríade: escápula-ombro-cotovelo. Quem olhou foi o meu clínico geral e a mesma terapeuta que me ensinou umas tantas coisas. Para ambos, a resposta estava na sombra, na essência de que somos complexos.

Sem uma visão humana, ondas destroem, braços dormem, algoritmos erram. Nessa corrida pelo Big Data, pela ciência exata da mídia programática, o grande perigo que as marcas correm está na possível ausência do valor emocional agregado. Muitos peritos, na ânsia de defenderem o seu terreno, têm deixado de lado a emoção como fator preponderante da equação. Números, números, números, alguns dizem. E dados que dispensam a subjetividade do ser humano são apenas dados.

Na grande tragédia, o descaso. No pequeno evento particular, o ego do especialista. Na certeza de que basta ler os algoritmos que o resultado vem, a cegueira. De tudo isso, um novo velho aprendizado. Na possibilidade, converse com o pescador, leia Machado de Assis, olhe o conjunto inteiro, ande pela sombra.