Isto ou aquilo

“Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…

e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.”

Esse poema da Cecília Meireles é uma lembrança terna da escola. Tem aquele sabor de pipoca doce de saco rosa, som de mão batendo nas figurinhas no jogo de bafo, cheiro de cola branca que eu passava na palma da mão e esperava secar para poder puxar como se fosse uma outra pele. Não me recordo da série em que éramos apresentados a essas palavras, mas me parece que foi no tempo certo da compreensão e da magia. O que não foi o caso do romance “Lucíola”, de José de Alencar, do qual guardo um enfado tamanho, que jamais consegui bater os olhos naquelas páginas de novo.

Nesse poema, Cecília Meireles apresenta o dilema das escolhas para o público infantil e traz a perspectiva de que, muitas vezes, para escolher algo é preciso abrir mão de outra coisa. E que não podemos ter tudo o que queremos nem podemos estar, ao mesmo tempo, em todos os lugares que desejamos. O poema é facilmente transponível para a vida adulta, em que o dilema das escolhas continuará sendo um ponto a nos interrogar. Como exemplo, trago a sabedoria do Contardo Calligaris: “Você pode escolher entre ficar em casa ou pegar a estrada e, sem dúvida, faz e fará um pouco dos dois. Mas, quando estiver em casa, tente não sonhar com a estrada e, quando estiver na estrada, tente não lamentar o calor do lar.”

O ponto de reflexão que tento trazer é sobre quando uma escolha não é exatamente uma necessidade. Quando as coisas não precisam ser divididas em um esquema “ou isto ou aquilo”, quando elas podem conviver pacificamente. E você não precisa sacrificar uma possibilidade para vivenciar a outra. No mercado de comunicação, discursos têm uma certa inclinação em decretar a morte de um jeito de fazer em prol do outro. Por uma mera coincidência, esse outro jeito de fazer é aquilo que a pessoa quer vender. Nesse sentido, há anos, abro o noticiário de comunicação em busca do obituário da vez. E, invariavelmente, descubro que estou nesse negócio por teimosia de zumbi.

Nunca se deram tantas voltas para dizer que aquilo que você faz não é publicidade. Releases fazem a rota Paris–Dakar, se preciso, para fugir da palavra. Tem hashtag publi, tem marca aparecendo, mas a pessoa jura de pés juntos que não é publicidade. Uma parte desse escape é fruto de problemas da própria indústria, mas há um naco grande, que vem de uma necessidade de criar antagonismos nem tão antagônicos assim. Consultorias vão acabar com as agências, o modelo in-house vai acabar com tudo. Fogo no parquinho, bomba e apocalipse. Isso tudo com pitadas de tensão entre interrupção e entretenimento. Como se a interrupção fosse uma exclusividade da propaganda dita tradicional. Ou isto ou aquilo.

Comercial ruim, de fato, gera interrupção. Anúncio ruim é interrupção. Estratégia de mídia preguiçosa vai abraçar a interrupção. Merchandising que pesa a mão é interrupção. Pode ser na TV, pode ser na live. Conteúdo excessivo de marca gera interrupção, um pacote mal desenhado de influencers é interrupção. Forçar um podcast de marca porque toda marca tem que ter podcast é interrupção.

PR stunt sem conexão com a marca é uma forma de interrupção. Logomarca desproporcional é interrupção. Tanto faz se é no canto do anúncio ou na lateral do palco. Pre-roll e bumper ad? Interrupção. Se forem ruins, pode multiplicar por dois. Estar nas conversas do consumidor sem pertinência, post ruim patrocinado, feed tedioso, notificações incansáveis no celular: interrupção. Já inconsistência de marca é a interrupção que custa caro demais.

Interrupção não é uma exclusividade de uma plataforma. Há comerciais de TV que geraram entretenimento e entraram para a cultura. Há séries de entretenimento que, com dois minutos, o consumidor pensa que perdeu tempo demais.

Só que, como cantaria a Marisa Monte – “E no meio de tanta gente eu encontrei você”, a notícia de que a Netflix comprou uma cota de patrocínio da Globo. Para gerar leads em larga escala, uma das maiores produtoras de entretenimento do mundo abraçou o que seria impensável. A mesma Netflix que fez a campanha “One Story Away” acontecer na TV, mídia impressa, outdoor e, é claro, digital. Isto e aquilo.

O Spotify também já fez da mídia exterior uma forma poderosa de entreter. Cruzando os dados dos usuários com peculiaridades locais do bairro, revelou-se que o artista mais ouvido pelo bairro mais hypado de NY, o Brooklyn, foi ninguém menos do que Justin Bieber. Isto e aquilo.

A campanha “Up the Vote”, do Reddit, faz um paralelo poderoso sobre engajamento na sua plataforma versus o comparecimento nas eleições. Em um dos exemplos, uma foto de uma banana com o título “Se os votos no Reddit contassem, na vida real, essa banana poderia ter sido eleita para o congresso em 2018”. O formato era um outdoor. Interação entre digital e mídia exterior. Isto e aquilo. Até o TikTok, que diz “Don’t make Ads”, está no Jornal Nacional. Isto e aquilo.

É legítimo dizer que os meios tradicionais têm a mesma força de outros tempos? Claro que não. É legítimo afirmar que tudo o que aconteceu antes está ultrapassado? Tampouco. Há na vida agruras demasiadas em torno da questão “ou isto ou aquilo”. Ora queremos nos ver livres das responsabilidades, ora queremos ser bem-sucedidos. Ora queremos morar na praia, ora queremos o que só a cidade nos oferece. E, assim, nunca estamos nem lá, nem cá. Por isso, olho para a comunicação como um lugar em que o isto e aquilo é possível.

Em duas semanas, a gente volta.

Marcos Medeiros

Em duas semanas, a gente volta. Não precisa tirar nada da mesa. Talvez seja rápido, uma precaução necessária. Nesse tempo, vamos aproveitar para testar novas formas de trabalhar. As aulas presenciais pararam, né? Um tempo a mais com os filhos em casa vai fazer bem a todos. Sabe aquela coisa de cozinhar juntos? É a oportunidade que nos faltava para isso. Almoçar e jantar reunidos, discutindo o que aconteceu no dia. Falaram que temos que lavar todas as embalagens do mercado. É bom tirar a roupa antes de entrar em casa. Não precisa ser no corredor da área comum, não, mas convém deixar os calçados para fora. Ah, por falar em sapatos, vai ser bom ficar 15 dias de chinelo. Temos que comprar máscaras e álcool em gel. Viu que loucura essa coisa de estocar papel higiênico? É cada uma.

Em um mês, a gente volta. Não deve passar disso. Tenta esquecer um pouco o noticiário. Já se adaptou ao Zoom? Cuidado para não mostrar demais a sua casa, hein? Tenho essa paranoia. Escuta, alguém ainda usa Skype? Por via das dúvidas, melhor baixar de novo. Cada reunião pede um aplicativo, cada aula da escola das filhas pede outro. Eu estoquei aplicativos. Periga eu ter uma versão do ICQ, até. Os almoços têm sido bons momentos para conversar, mas pensar no cardápio e cozinhar não está sendo fácil como eu pensava. Acabou o álcool em gel na farmácia. Você ainda tem algum? Tem gente dizendo que é uma gripezinha, que só os idosos vão morrer. Acho melhor nos prepararmos para o pior e esperar o melhor. É do Cortella essa frase? Tem certeza? Não é daquelas frases que atribuem a uma pessoa e nunca é daquela pessoa? Gosto desse pensamento. Tomara que seja do Cortella. Gosto dele, também. Me peguei rindo ao lavar as frutas que chegaram na entrega. É uma tarefa estranha. Você tem acompanhado as notícias da Itália? Sei que falei para você não acompanhar o noticiário, mas estou com medo.

Em três meses, a gente volta. Acho melhor pensar assim. Será que vai ter Olimpíada? Fiquei pensando nos atletas que se prepararam para esse momento. Para alguns, esse ano era crucial. Tomara que tenha. Você sabia que mais da metade dos atletas só vai para a Olimpíada uma vez? Não sei de onde veio essa estatística, não. Pareceu real. Agora, é ocupar a cabeça com cursos, com filmes, com entretenimento. Se fosse nos anos 1980, seria mais difícil achar o que fazer. Um amigo vai aprender um instrumento. Outro está fazendo pão. Não sei como dizer para as minhas filhas que isso vai até o fim do ano. Penso em três meses, agora. Tô sendo exagerado? Nunca mais usei uma calça jeans, estou apaixonado pela air fryer. Ah, música alta ajuda na faxina. Penso nas crianças que deveriam estar lambendo o corrimão, comendo terra do parquinho, tomando a vitamina “S”. Ouvi dizer que é bom tomar vitamina D, viu? Porque não estamos pegando mais sol como antes. Vários restaurantes fecharam. Parei de olhar para o mundo porque tem me dado agonia. Nova York pareceu aquela do filme do Will Smith. Qual o nome do filme mesmo? Aquele dos zumbis, caramba. Deixa para lá. Vou fazer um misto para o jantar. Acabaram as ideias de cardápio.

No fim do ano, a gente volta. Não, não deve ter festa da firma. Mas deve ter Natal em família, ao menos isso. Os números estão caindo, o cansaço está aumentando, ninguém aguenta mais isso. Na China, parece que a vida voltou ao normal. Já tem vacina quase aprovada. Com vacina, a gente volta. O pavor são os negacionistas, né? Mas prometi ser otimista e não vou falar disso. Tentei fazer pão. Ficou horroroso. Já vamos para o terceiro litro de álcool em gel em casa. Em compensação, parei de lavar as coisas com a mesma intensidade. As crianças não aguentam mais EAD. Elas querem encontrar os amigos, brigar pelo brinquedo no recreio. Os adolescentes nunca imaginaram ficar tanto tempo com os pais. Não era a hora para isso. Era hora de dar beijo na boca, chegar tarde sem avisar, questionar os comandos, pegar mononucleose. Os adultos também queriam o seu momento de criança. Um colo seria bom. Você está fazendo terapia? Reunião por Zoom é legal, mas cansa, né? Reparei que os atrasos diminuíram. Saudades de abrir pacote de amendoim com a boca.

Em 2021, a gente volta. E volta com tudo. Volta renovado. Estou tentando acreditar nisso. Cancelamos o Natal. Vamos ficar só nós. Não, não tenho tio negacionista na família, não. Cruzes! Vai ter rabanada para alegrar a noite. Rabanada é uma pequena forma de felicidade. Vamos cozinhar menos nesse ano. É sempre um exagero de comida. Paramos de lavar as coisas do mercado. Saiu um estudo que diz que não é isso que nos protege. Máscaras, álcool em gel, distanciamento, sim. Já não sinto mais incômodo atrás da orelha com o elástico da máscara. O fone que uso nas reuniões está se desmanchando lentamente. Talvez eu precise de óculos para perto, excesso de telas. Voltei a ler os jornais porque sempre há a Nova Zelândia como esperança. O Trump perder a eleição ajudou a dar alguma retrospectiva possível para esse ano. Não é medo, agora, é desalento.

Em algum momento, a gente volta. Israel vacinou metade da população. Até o fim de maio, os americanos estarão vacinados. Uma hora chega para todos aqui. Vai demorar, não deveria. As lições bonitas ficaram no primeiro mês da pandemia. Não viu a enfermeira fingindo aplicar vacina em um idoso? Ainda é preciso explicar sobre o uso de máscaras. Os números voltaram a subir. Completou um ano que estamos assim. Todos parecem exaustos. Tem alguma ideia para o jantar? Alguma maneira do tempo acelerar? Cuide-se. Quando chegar o momento, a gente se aglomera comendo terra que nem criança no parquinho das emoções que ficaram contidas.

Uma Austin aonde o SXSW não chega

Austin, Texas, Estados Unidos. Uma cidade que carrega ao seu redor uma nuvem de palavras, tais como tecnologia, vanguarda, inovação, futuro, criatividade, música, blockchain, entretenimento. Aqui, é onde acontece o South by Southwest, mais conhecido pela sigla SXSW. Um festival que, no mundo antes da pandemia, reunia dezenas de milhares de pessoas de diversos países para discutir tendências, apontar direções, lançar novos artistas, debater comportamentos de consumo e outras pautas da nossa sociedade. Até aqui, provavelmente, nenhuma novidade para o leitor do Meio & Mensagem.

Austin, Nova Iguaçu, Brasil. Um bairro que fica próximo à divisa entre os municípios de Nova Iguaçu e Queimados. O nome é uma homenagem ao engenheiro que projetou a linha férrea da região, Charles Ernest Austin. O bairro de Austin é parte de uma região tradicionalmente negligenciada por políticas públicas e com uma nuvem de palavras bem diferentes da sua consagrada homônima. Enchentes, descaso, transporte precário, falta de rede de esgoto. Em matéria publicada no jornal Extra, em novembro de 2020, uma moradora do bairro resume: “Uma rua vira rio. A outra vira lama. A gente precisa urgentemente de asfalto. Mas os candidatos só aparecem aqui de quatro em quatro anosQuando ganham a eleição, somem.”

Austin, Texas, já foi eleita por duas vezes consecutivas como a melhor cidade para se viver nos Estados Unidos. Ostenta também o título de cidade com o maior número per capita de locais com música ao vivo no país. Entretenimento não é um problema. Educação, tampouco. Segundo o U.S. News & World Report’s Ranking, 97% da população de Austin têm o segundo grau completo e 31% têm pós-graduação. A taxa de desemprego fica na faixa de 3%. A cidade tem uma boa concentração de empresas de alta tecnologia e um custo de vida menor quando comparada à região do Vale do Silício. Ainda assim, o Economic Policy Institute’s Family Budget Calculator indica que o preço para se viver em Austin é de US$ 3.197 por mês, por adulto.

Austin, Nova Iguaçu, tem cinco praças consideradas espaços de recreação públicos. A população reclama da ausência de creches, de saneamento básico, de falta de iluminação e de ter que enfrentar longas caminhadas para chegar a um ponto de ônibus. Em matéria da Agência Brasil, encontra-se uma investigação sobre a ação de milícias no bairro: “Os milicianos passaram a controlar pontos de mototáxi, serviços clandestinos de TV e internet e até mesmo fornecimento de água e cestas básicas.” De acordo com dados do IBGE, o salário médio mensal dos trabalhadores formais é de 2,1 salários-mínimos, e a cidade de Nova Iguaçu ocupa a posição de número 4.435º no ranking educacional brasileiro.

Austin, Texas, teve a sua edição do SXSW realizada virtualmente neste ano. Entre as tendências de tecnologia apresentadas, estão a integração do corpo humano aos sistemas inteligentes, o metaverso e novas formas de interação, o avanço acelerado na criação de personas com aplicação de inteligência artificial.

Austin, Nova Iguaçu, teve uma crise no abastecimento de água no final de 2020. Alguns moradores ficaram duas semanas sem água. Tudo isso no meio de uma pandemia em que a recomendação é lavar as mãos sempre que possível. Não há tendência de mudança para os problemas de sempre, e a discussão agora deve ser em torno do auxílio emergencial. Existe uma única agência bancária nessa Austin.

Não é preciso esmiuçar mais os dados comparativos. Há, entre uma Austin e a outra, um abismo gigantesco. O Instituto de Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) aponta que a pandemia agravou a desigualdade no acesso à internet no Brasil. Diz a matéria do caderno de Economia do jornal O Globo: “Os dados cruzados pelo instituto mostram que só 29,6% dos filhos de pais que não tiveram qualquer instrução têm acesso à banda larga. Nos lares onde os pais têm curso superior, essa parcela sobe para 89,4%. E mais: 55% dos filhos de pais sem instrução não têm acesso à internet. A fatia cai para 4,9% quando os pais concluem a universidade”. Há um processo de exclusão digital em andamento que é pouco discutido. Falamos como se o EAD, o trabalho remoto ou mesmo o Clubhouse fossem uma realidade para a maioria. Parafraseando o Lucas Schuch, talvez a gente se importe demais com dados do SXSW e de menos com os do IBGE. O mesmo IBGE que deve ter um corte de 90% no orçamento do Censo Demográfico de 2021, e o mercado não pareceu reclamar. Há todos os tipos de dados sobre Nova Iguaçu, no IBGE. E é importante para entendermos, em um nível municipal, as condições em que vive cada um dos brasileiros.

Quando pensamos em TV, deduzimos que ela sempre esteve em todos os lares do Brasil. Em 1970, 95% dos lares nos EUA possuíam TV, enquanto, por aqui, esse número era cerca de 24%. A evolução do Brasil nas décadas seguintes dá boas dicas sobre a relação do brasileiro com o meio; 56% em 1980, 74% em 1990, 87% em 2000 e somente em 2008 o Brasil alcança os mesmos 95% dos EUA. Há uma curva longa de tempo entre as duas Austins, mesmo quando falamos de TV.

Na Austin do Texas, antes da pandemia, podíamos ficar na fila das mais incríveis palestras, aprender, escrever textos sobre o que faríamos assim que voltássemos ao Brasil (que o Ryan Wallman chamou de pico da hipérbole ilusória seguido da sensação de que isso vai dar trabalho demais para ser aplicado) e, é claro, ver e ser vistos. Essa é uma Austin rica em soluções, enquanto a Austin daqui é carente delas.

Rir é um ato de resistência

No rosto, um par de óculos escuros e uma máscara com as cores da Portela. O semblante é aquele que está sempre a nos remeter para o recanto de um Brasil que vale a pena. Ele arregaça a manga da camiseta, a enfermeira se aproxima com a vacina, e ele faz uma careta com a picada. É tudo rápido e previsível como tinha de ser. Eu me emociono. O Zeca Pagodinho vacinado é a preservação de uma felicidade que teima em escapar.

A gente deveria ter um canal que transmitisse apenas as pessoas sendo vacinadas, disse uma arroba, no Twitter, da qual não me recordo o nome. O espaço da memória tem sido utilizado demais para o presente e as coisas se embaralham, me desculpem. Eu deixaria esse canal ligado todos os dias.

Chorei com a primeira enfermeira vacinada e com Caetano, porque gente é para brilhar, não para morrer de fome. Gil vacinado trouxe a paz que ele diz invadir o coração e que, de repente, se enche de paz como o vento de um tufão. Alcione é o morro feito de samba, e Rita Lee, que está viva e cheia de graça, faz um monte de gente feliz. Paulinho da Viola, o príncipe da cultura popular e legítimo representante de uma monarquia que vale a pena respeitar: a musical. Para cada um deles, um misto de felicidade pelos imunizados e um lamento pelos que se foram sem essa chance.

Não entendo o processo de demonização da cultura quando a análise é puramente emocional. Não faz sentido essa pecha que tentam emplacar de que artista é vagabundo, simplesmente não faz. Pela análise racional, entendo a castração desejada, infelizmente. Umberto Eco dizia que nas manifestações culturais o que amedronta é o pensamento crítico, a divergência com os valores tradicionais. O que me dá mais um motivo para continuar a amar a cultura e a lembrar de um professor que me disse que os poetas contam o que aconteceu no lado dos derrotados. Minha amiga Zélia Duncan escreveu um texto de que gosto muito e destaco uma parte:

“Você não precisa de artistas?

Então me devolve os momentos bons. Os versos roubados de nós.

As cores do seu caminho.

Arranca o rádio do seu carro.

Destrói a caixa de som.

Joga fora os instrumentos.

E todos aqueles quadros.

Deixa as paredes em branco.”

Os setores cultural e criativo respondem por 2,64% do PIB do Brasil. Poderia e pode ser muito mais. Em um artigo de Marlova Noleto, publicado no Valor Econômico, o retrato é drástico: “Entre os meses de março e abril de 2020, 41% dos respondentes perderam a totalidade de suas receitas e, entre maio e julho, essa proporção aumentou para 48,8%. A pesquisa mostra que as artes cênicas foram as mais afetadas, com a perda total de receita para 63% dos respondentes. Nesse setor, a maioria dos que atuam na área de circo (77%), em casas de espetáculo (73%) e no teatro (70%) perderam a totalidade de suas receitas entre maio e julho.”

Eu pergunto, então: Quanto da nossa sanidade mental está atrelada à existência de diferentes formas de entretenimento a que temos acesso na pandemia? Músicas na rádio, novelas, séries, livros, filmes, dança (sozinho, que seja), lives? A cultura salva ao nos tirar, por minutos que sejam, da realidade. É um efeito mágico.

Guardo músicas como quem guarda camadas profundas de histórias. Um coral de adolescentes cantando Arnaldo Antunes é uma memória lindíssima, apesar da letra triste. Porque eles, aqueles jovens, cantavam seus anseios de peito aberto:

“Socorro, não estou sentindo nada.
Nem medo, nem calor, nem fogo,
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir.

Socorro, alguma alma, mesmo que penada,
Me empreste suas penas.
Já não sinto amor nem dor,
Já não sinto nada.”

Guardo as canções dos Saltimbancos Trapalhões, do Roberto Carlos, da Marisa Monte e do Luiz Melodia como quem resguarda mananciais protegidos. Eu sei o que cada uma daquelas músicas me lembra, e isso é precioso demais.

Talvez eu não consiga mais escutar Beyoncé sem que a imagem feliz do Paulo Gustavo me arrebate. Era a paixão dele. A homenagem na página dela torna as coisas indissociáveis no meu modo de armazenar. A morte do Paulo foi um baque muito duro, em uma hora em que a gente mais precisava da leveza, do sorriso e da arte dele. Perguntei ao amigo Felipe Simi como um personagem como o Paulo Gustavo transcende todas as barreiras em um país como o nosso. Eis a resposta:  “Nós gays sempre fomos tratados no humor como objeto do riso alheio e majoritariamente de forma discriminatória. Paulo mudou isso. Eu conheci o trabalho dele quando ‘Minha mãe é uma peça’ ainda era mesmo uma peça. E achei genial ele usar o humor como veículo de fácil digestão para apresentar as dores e as delícias de sua sexualidade, na perspectiva da própria mãe. Ali era um homem gay, mas era também a alegoria da Dona Hermínia. E Dona Hermínia é a cara da mãe tradicional brasileira: cheia de sentimentos, cheia de erros e acertos, e também cheia de amor e preocupação pelo filho gay. Paulo Gustavo conseguiu transformar o que antes era objeto em sujeito. Um sujeito familiar, de quem qualquer um se sentia amigo. O Brasil talvez nem tenha percebido, mas nunca riu do Paulo. Nós (sempre) rimos (e choramos) com ele.”

Chorei pelo Paulo como se fosse esse amigo que eu queria perto, pensei na sua mãe e em tantos que precisavam do Paulo não só para sorrir ou para amar, mas também por ele ser um recanto do Brasil onde a gente poderia morar e ser feliz. Penso na partida dele como se o elástico dos absurdos não devesse esticar mais. E relembro uma canção que ouvi a minha filha cantar e que certamente poderia ser sobre ele:

“Não se assuste, pessoa,

Se eu lhe disser que a vida é boa

Enquanto eles se batem, dê um rolê e você vai ouvir

Apenas quem já dizia

Eu não tenho nada

Antes de você ser, eu sou,

Eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés.”

Porque fazer arte, cantar, amar e rir são formas de resistência.

Entre a beleza do banal e a grandeza do inesperado

Um post recente, em uma rede qualquer, mostrava um cartaz grudado num muro. E a frase era esta: “Se der vontade, suma um pouco. Não para que os outros sintam a sua falta. Mas para que você relembre quem você é”.

Um texto de 2012, do Jonathan Franzen, trazia, entre tantas verdades belas e duras, este pensamento: “Se uma pessoa, no entanto, dedica sua existência a ser curtível e passa a encarnar um personagem bacana qualquer para atingir tal fim, isso sugere que perdeu a esperança de ser amado por aquilo que realmente é.”

Eu tenho rodeado por esses dois fragmentos em busca das palavras certas para entrar neste novo ano que se anuncia. Em 2020, comecei escrevendo sobre um 2019 que me havia sido terrível e o quanto eu desejava a calma revolucionária sugerida pelo poeta Emicida. Calma e 2020 na mesma sequência. Que escolha, não? Relendo, agora, penso que ou foi um brutal erro de cálculo ou um lembrete futuro de que não há como prever as palavras certas. O disco AmarElo foi o meu ritual simbólico de entrada em 2020, meu guia. Para 2021, um ano incerto como um plano geral de vacinação, penso em duas imagens e seus simbolismos que me trouxeram conforto, um com a beleza banal, outro com a grandeza.

Começo pela banal sanduicheira de metal, redescoberta em toda a sua simplicidade. Talvez você se lembre daquele design peculiar: duas hastes finas de metal que vão ao encontro de um quadrado —também metálico — repleto de pequenas bolinhas na superfície. Na ponta das hastes de metal, um acabamento de madeira para que a gente coloque as mãos e não se queime. Há também um ganchinho que prende as hastes, mas atrapalha mais do que ajuda. Joguei fora. Essa sanduicheira, esse pequeno utensílio doméstico, habita o lugar mais protegido da memória afetiva. Guardava dele sabores de infância, uma certa dose a mais de manteiga, o queijo derretido que teimava em fugir  do receptáculo, o contato próximo ao fogo, o cheiro que tem o mesmo poder hipnótico de chuva em dia quente.

Por estar tão resguardado na memória, relutava em comprar esse objeto novamente. Mas ainda assim o fiz e, ao contrário do guarda-chuva de chocolate, não houve decepção nesse reencontro. A tal sanduicheira de metal ainda forja os melhores sabores, com uma simplicidade que faz falta nos dias de hoje. Apenas um misto-quente feito da maneira mais ordinária e não menos gostoso por isso.

O segundo elemento é a imagem que mais vi nos últimos tempos: Marina Abramović no MoMA. Desconhecia por completo o trabalho da artista e fiz dessa descoberta tardia um lugar quente para estar. Foram incontáveis os momentos em que me peguei abrindo um vídeo da performance The artist is present. Tudo ali é bonito, não há nada
que se possa alterar, e a ausência absoluta de diálogo torna a cena ainda mais emblemática. Há apenas a artista em uma cadeira, à espera de uma pessoa que queira se sentar de frente para ela; entre uma e outra, apenas uma mesa. Repito: tudo ali é bonito, tocante e possível. Durante três meses, Marina dedicou mais de 700 horas a esse trabalho que exige um esforço com o qual não estamos mais acostumados a lidar: o silêncio. Não há esconderijos ou subterfúgios, tudo o que se tem naquele momento são duas pessoas e as diferentes emoções que acontecem a cada novo breve encontro. No ato singelo de olhar verdadeiramente para o outro.

A cena mais famosa dessa performance circula pela internet, e você não precisa conhecer nada da história entre a artista e aquele homem de barba e cabelo grisalhos. Tudo fica evidente através do olhar entre eles, de pequenos e poderosos gestos. Há, entre os dois, um mundo inteiro de relatos que nos são contados sem uma palavra sequer. Ulay é o nome do homem de cabelos grisalhos. Marina e ele viveram um relacionamento amoroso e foram parceiros de performance por anos. Quando você pesquisa sobre os dois, surgem as imagens que aqueles olhos marejados tanto diziam. Na performance Rest Energy, uma flecha é apontada por Ulay na direção do coração de Marina, que segura o arco. O que impede o disparo é o equilíbrio entre os dois corpos. A imagem é deslumbrante.

Outro momento? Para marcar o fim da relação, eles saíram de pontos opostos da Grande Muralha da China e andaram até um passar pelo o outro; então, dali em diante, seguiram seus caminhos individuais. Não me recordo de um término mais bonito. A cena do MoMA é sobre reencontro entre os dois. Todo aquele silêncio é um lugar de entrega, sabedoria e beleza profunda que não me canso de visitar.

Na falta de palavras, ou tateando para encontrar mais sentido, resolvi arriscar a praticar um pequeno exercício de ficar mais quieto. De um breve sumiço, quiçá. Há um mês estou longe de São Paulo e tento aprender esse outro ritmo. Não há planos de ser eremita ou coisa do gênero, mas há de se buscar um equilíbrio nessa ansiedade de ter que ver, postar, curtir, ser curtível e, talvez por isso, não estar presente para saborear o trivial e encarar o não esperado. Como o misto-quente na sanduicheira de metal ou como o desafio de deixar uma cadeira vazia de frente para você (ou um sofá no que depender da coragem) e estar aberto ao que vier em 2021.

P.S.: “Ninguém entende que o mais difícil é fazer algo que é quase nada. Isso exige 100% de você, não há mais história para contar, não há objetos dos quais se esconder, não há nada. É só a sua presença, você só tem a sua energia e nada mais.” Marina Abramović

O silêncio enquanto diapasão

Uma dessas infinitas chamadas de vídeo. Naquele instante de silêncio, enquanto se espera por alguém na reunião, surge um canto de passarinho ritmado, alto, orgulhoso. Alguns rostos demonstram que o canto foi notado. Um sorriso surge aqui e ali. Alguém pergunta:

“Esse passarinho cantando está em qual casa?”

Eu respondo:

“É aqui perto. Todo dia, a essa hora, eles cantam.”

“Mas tá alto, né? Ou será que a cidade é que está vazia?”

A gente arriscou algumas respostas embasadas no Manual do Escoteiro Mirim, no programa do Discovery visto em uma madrugada insone e na sabedoria de um sogro, que pareceu ser a melhor das alternativas. A reunião começou. E o pássaro seguiu no seu ritmo como quem marca os passos dos moradores, o mover das folhas das árvores, o balançar da cortina ao vento.

Guardei esse som.

“A vida é tão rica de sugestões, há tanta poesia perdida até no meio da rua, que basta a gente manter os olhos abertos, e a máquina pronta, para selecionar as imagens que tenham significação, e assim interpretar a vida. Eis a fórmula.” Uma fala do fotojornalista Luciano Carneiro, falecido em 1959, que odiava flash, mas viajava o mundo em busca de registrar emoções humanas.

Guardei essa frase e o som do pássaro; deixei-os à espera de um lugar de encontro. Nunca sei ao certo quando isso vai acontecer. Em geral, não acontece. Tenho um arquivo de frases perdidas que nunca encontraram seus novos pares. Às vezes, eu as visito como um cupido reverso, que afasta a cada flechada. Em outras, o acaso dá conta de fazer o elo. Foi quando um novo pássaro cruzou o caminho a cantar e relembrar um artigo da Suzana Herculano-Houzel, para a Folha de São Paulo.

Não fosse a pandemia, talvez não parasse para ler um título que dizia: “Os pássaros estão ouvindo e agradecem o silêncio”. Porém, tenho andado em busca de coisas boas para ler, um lugar de calma. E este parágrafo entregou tudo isso de uma só vez:

“Durante o lockdown, os pássaros urbanos passaram a cantar mais suavemente, em tons mais graves, com muito mais variação de voz. Sem o zum-zum da cidade para abafá-lo, e graças aos tons mais graves, seu canto não só ia mais longe, como também voltou a ser mais complexo, mais cheio de conteúdo. Durante a pandemia, os pássaros urbanos voltaram a cantar como seus primos rurais.”

Não sou um observador de pássaros. O daltonismo me impede de perceber detalhes importantes nas cores. Mas o som que pareceu mais alto na chamada de vídeo ganhou novos contornos com a leitura. Um grande amigo e irmão que mora hoje em Camburi já havia me alertado sobre a importância de perceber esses pequenos animais ao redor. Foi curioso perceber do quanto de cidade ele foi se livrando a cada mensagem na pandemia. Numa hora, o cansaço urbano parecia se esvair. Na seguinte, a explanação sobre um aplicativo que identifica as espécies. Logo depois, registros de frutas cortadas, dispostas em um recipiente na varanda. Até estar cercado de passarinhos. E ouvir além do canto ao redor, ouvir a si mesmo.

Vivemos em um mundo com muitas falas, diversos barulhos, infinitos espelhos e poucos ouvintes. Com tanto som ao redor, às vezes nos esquecemos do nosso canto, de como soamos. Em alguns momentos, parece que estamos emulando uns aos outros. Nas redes sociais, muitas vezes é difícil distinguir quem está falando quando esquecemos a foto do perfil e focamos as palavras. Porque elas se repetem. Repetem-se os discursos, o jeito de escrever, perde-se autenticidade. Pessoas que escreviam de um jeito vão aos poucos se moldando a um modelo de maior engajamento. Nesse modelo, não cabem dúvidas. É fundamental ser assertivo e categórico. Como disse o amigo Rodrigo Resende, a vergonha de exibir virtudes não existe mais. Sem que notemos, o nosso cantar fica dissonante. Ou passa a soar como um cover de outro alguém.

Elizabeth Derryberry foi quem conduziu os estudos sobre o pardal-de-coroa-branca nos arredores de San Francisco. O pássaro foi escolhido por conviver próximo dos humanos, por ser um sobrevivente urbano, como ela mesma define. Além disso, há 30 anos o canto desses animais tem sido gravado, o que traz um efeito comparativo poderoso. O lockdown não estava programado no estudo, nem nas profecias, mas ao chegar ele trouxe o que a Suzana Herculano-Houzel muito bem pontuou como a sua parte favorita: “os pássaros finalmente puderam voltar a se ouvir – e ajustaram suas vozes”.

Talvez seja uma das coisas que mais nos faz falta: voltar a se ouvir. Na ânsia de preencher tantos lugares, vamos perdendo essa capacidade. Para cada rede, uma voz. Para cada postagem, uma expectativa. Para tudo, desafino. O Whindersson Nunes teclou numa madrugada: “Eu amei conquistar, ganhar, vencer, crescer, nada disso foi difícil pra mim, eu amei. Mas hoje a minha cabeça está perturbada demais, acho que essa é a parte mais difícil.” Mesmo ele, que voa tão alto, que voa para onde quiser, sente essa distância do canto.

Na foto que ilustrava a matéria sobre o fotojornalista Luciano Carneiro, ele estava em um avião. No som que ouvi da janela, um pássaro estava prestes a voar. O voo habita em nós como um desejo ancestral, como um Ícaro a desafiar a proximidade do sol, como quem acorda sobressaltado ao se ver caindo enquanto sonha. Um avatar é uma forma de sair de si mesmo e viver um personagem. Nesse sentido, voamos. Mas há sempre a possibilidade de nos esquecermos da importância de pousar. De ouvir a própria voz nesse barulho todo, nesse mundaréu de informações que nunca vai cessar. Seria desejável cantar como os primos rurais, ajustar a voz, não sentir a imensa dor de um desafino. Deve ser bom agradecer o silêncio tal qual um pardal-de-coroa-branca.

As pequenas expectativas contra o cometa decepção

IMG_2048(Pequeno prólogo sem grandes conexões)

“O homem com teorias assertivas não estremece, não balança, ele vai. A segurança forjada em previsões sobre um capítulo da história que ninguém conhece. Carregado de certezas, cercado de múltiplos eus nas redes sociais, tudo é reforço, tudo é escudo. Ele sobe no palco com projetor de slides e mira a laser, aponta a direção, não esmorece. A persona moderna, trabalhada em quotes, que nada teme, nem permite espaço para dúvidas. Um ser sólido, um coach de si mesmo. Todos os dias, em frente ao espelho, ele mira, admira, mas não toca a imagem refletida. Um gesto pode ser o início de uma desconstrução que – ele sabe – está à espreita.”

Parei de escrever para valorizar as minhas dúvidas, recuei, vi de fora, olhei para dentro. Saltei do idealizado de tudo que já tinha escrito para o real sem escalas, queda livre. Um ano brutal, duro, com o noticiário a consumir as entranhas. Pessoas queridas saindo de cena na agência, fogo amigo. Na rota da vida real, não tem Waze. Não há nada que nos avise sobre os descaminhos, os acidentes no percurso ou sobre a possibilidade de um retorno. 2019 pareceu, desde o início, estar calcado em uma charge do Benett, em que um enorme cometa chamado decepção ruma para dizimar pequenas expectativas. Poderia não falar sobre isso, seria mais seguro manter uma postura infalível, mas eu me cansei desses personagens.

Eu sou daltônico. Enxergo as cores extremas, perco muitas nuances de transição. E isso, diversas vezes, respingou em meus textos, atitudes e posicionamentos. Gostar muito, desgostar na mesma proporção. Aquela zona central onde reside o espaço do diálogo, o ponto de equilíbrio, as tais camadas de cinzas, tudo ignorado quando a raiva batia. Agora, cercado de discursos de ódio por todos os lados, vejo claramente as perdas. Decidi voltar a escrever como um daltônico que busca as cores de transição, como um cara que precisa de um pouco de docilidade nestes tempos brutos. Não deixarei a acidez e a contundência de lado, mas vou usá-las com parcimônia.

Essa não é uma decisão solitária. Ela nasce do olhar curioso e, por vezes, assustado das minhas filhas para esse mundo. Renasce do mantra repetido pela minha esposa de que é preciso mudar o foco. “De todas as atitudes que tomei baseadas no ódio, me arrependo”, disse Emicida. Estou com ele. AmarElo é outro ponto de conexão com o que me importa. Ao contrário desse governo, tenho fé na música e no poder da cultura. AmarElo foi uma experiência religiosa, portanto. Uma reza cantada a desviar o cometa decepção, fluoxetina musical, esperança. As lindas pequenas expectativas sobrevivem ao redor.

Retorno porque os idiotas estão cheios de razão na Terra Plana. E eu estou no embalo do Bertrand Russel: quero as dúvidas. Escrever é se expor, mas já paguei o preço e trago novos boletos. Troco cada certeza entreouvida pela calma que me faltava ao redigir. Porque, como disse o mesmo Emicida em mais outro petardo sintético: a calma é revolucionária.

(Epílogo sem grandes pretensões)

Na solidão do espelho, o homem sabe que tudo é imagem. E sem ninguém a observar, ele toca o reflexo. A desconstrução não está mais à espreita. Agora, ela é um fato, é ressignificação.

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Nunca coma a jujuba roxa

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Um texto dedicado a todos que trabalharam na F/Nazca. E aos que sonharam trabalhar lá.

Encontrei o meu e-mail de despedida da F/Nazca. Nele encontrei lembranças, particularidades e registros que são uma parte importante do que carrego de leveza na bagagem. O enigma da jujuba, ali no título, era uma frase – se não me falha a memória – do Wilson Mateos, para alertar que a roxa carregava a tabela periódica completa. Nunca mais peguei uma sequer. Já para os potes de polvilho, dispostos em salas de reunião com temperaturas de fazer a ponta do dedo cair, não havia uma regra. Eu sempre cavei em busca dos queimados. O polvilho torradinho era uma ponte aérea direto para quem eu fui na infância. Aqueles potes na sala eram pedaços do Rio, com vista para o parque.

República do Líbano, 253. Na primeira vez que eu disse o destino para o taxista, em Congonhas, falei com orgulho. Ele retrucou: doix? Deslumbrado e convidado para adentrar naquele recanto que chamei de casa, sem imaginar que ali eu ouviria a maior quantidade de nãos até aquele ponto da minha carreira. Eu tinha um adesivo da F/Nazca no carro, usava uma camiseta de quando eles “demitiram” a agência toda na mudança para o digital, absorvia tudo o que acontecia a minha volta. Até hoje, não sento na cabeceira de nenhuma mesa porque, nas salas 2 e 3, uma certa cadeira tinha dono. Já na sala 4, a escolha da cadeira era aleatória. E a sala 1? Bom, era pequenina. Um refúgio para cantarmos os grandes sucessos da Sônia Rocha (jovens, deem uma busca). Na Copa de 2002, a gente gritava a plenos pulmões:

Porque a Itália é feita de música,

a Itália é feita de flores.

Na Itália só se fala de amores,

a Itália é plena de cores.

Por falar em canções, como não lembrar do hit “O nosso amor é Lincoln”, um verdadeiro poema com o trocadilho que mais irritava o menino do preá assombrado. E por falar em Lincoln, a gente tinha uma votação para eleger o grande momento do ano em que ele estava envolvido. O Grand Prix eterno é o dia do caderno. Não vai ter graça escrito (eu sei), porque isso pressupõe uma imitação com a boca levemente mole e um assovio ao fim. Mas vale o resumo: o Lincoln aproxima-se do Nogueira e pergunta: Você por acaso tem aquele caderno do plano de saúde? Em seguida, ele se assusta com a própria frase e diz em voz alta, como quem duvida de si: Caderno? Sobre o Nogueira, eu escrevi no e-mail: Se ele tem uma foto sua, trate-o bem. Nog é o segundo exato que antecede o nascimento dos memes. Já o Misterioso Professor Quintanilha, cujo nome não revelarei, guardava recortes que eram um Google analógico da propaganda.

 Da F/Nazca, guardo superstições estranhas. Em que outro lugar o fato de ver o gambá do estacionamento seria considerado um sinal de sorte? Lá, apenas. O bicho era soturno, tímido, mas quando surgia, você jurava que teria uma ideia. Em dias de desespero, eu deixava uns polvilhos espalhados, para facilitar. Outra superstição: o macarrão do America dava azar. Já a sobremesa, Farofino, era sinal de sorte. Ainda no quesito alimentação, havia a infinita disputa entre a Portuguesa da Camelo e a Castelões, da Brás. E era fundamental escolher um time. Muitos mudavam de lado da torcida da pizza só pelo prazer de tumultuar. Importante: arroz era assunto a ser evitado durante uma época.

No e-mail, um dos itens alertava para o perigo das reuniões feitas no período da manhã. Parecia que uma aura (não é áurea que fala, cacete) reprovadora abraçava as salas e esmagava qualquer resquício de ideia. Outro grande teste de coragem era falar com pessoas de óculos escuros. Isso para um carioca era para lá de estranho, mas em São Paulo aprendi que o uso de óculos escuros pode acontecer em ambientes fechados. Vai entender. Só sei que esse pequeno objeto a cobrir olhos mortais era um indicativo de risco. Não tinha São Bono Vox, nem São Jorge Benjor, os protetores do artifício, que salvasse. Sobre reuniões: você podia medir a duração pelos origamis do Fernand. Ou medir o tempo em que você estava na agência pelas tatuagens do Armando.

Apelidos. Naquela época, eles surgiam aos montes. O Fernando Nobre virou o Praianinho só porque alguém encasquetou que ele tinha cara de quem carregava sempre uma cadeira de praia no porta-malas do carro. A Juliana Uchoa era a Sação, porque uma vez ela disse “essa ação” com um sotaque ainda mais mineiro que o habitual. A Keka ficava irritada quando falavam Kéka. E o Valmir tinha muitos apelidos guardados para disparar a qualquer momento. O mesmo Valmir que uma vez flagrou o Fabio brigando com a impressora, porque ela tinha comido o papel, e soltou a pedrada: Tá achando que só eu me fodo aqui, é? E gargalhou no final. Já a Fátima, 25 anos de F/Nazca, café impecável, reprovou uma campanha do Fabio com um simples “ih” no meio da apresentação. Lá tinha dessas coisas que pegavam até o dono de surpresa.

Quando cheguei, o endereço era o já famoso quadrado branco do parque. Sentia uma pequena inveja de não ter vivenciado o predinho. Quer dizer, era uma grande inveja mesmo. Tanto que guardo a melodia de um refrão cantado em uma festa de fim de ano, na qual eu não estava: a pele, a pele, a pele não é órgão (ritmo de canto de torcida).

Não escrevi na despedida sobre a decodificação da coçada de sobrancelha do Fabio. Nem pretendo escrever agora. Essa parte fica guardada para um outro texto que me foi pedido carinhosamente e no qual só confirmarei a conexão com a F/Nazca. Porém, deixei avisado, em 2008: Discutir com o Fabio é um jogo de xadrez. Só que você já começa em xeque-mate. Já discutir com o Edu é como ir a um show da Dercy Gonçalves. Muito palavrão e muito resmungo, apesar de ele ser o Milli Vanilli do mau humor, tudo fake. No quesito discussão, entenda: não havia gritos, show de esporro para uma plateia emudecida. Os ânimos só ficavam mais exaltados em partida de minissinuca e futebol. Já no final do e-mail, havia o item: Vai aprovar algo na segunda-feira, de manhã? Torça pelo Vasco.

O Vasco era assunto muito sério. Campo minado total. Eu pisei uma vez nessa bomba, com força. Lembro do silêncio do ambiente, seguido de uma sucessão de mensagens (o ICQ dando aquele gritinho: oh, oh…) perguntando se eu estava louco. O Fabio não falou nada, deixou o silêncio se prolongar por uma eternidade. Ele não esperava que fosse surgir uma superstição entre nós no quesito Flamengo e Vasco. Em toda final ou jogo importante que o Flamengo ganhou do Vasco, nós estávamos em cidades diferentes. Ele no Rio, eu em São Paulo. Ele em São Paulo, eu em Guarulhos, que seja. Tem funcionado para o lado do rubro-negro desde então.

No e-mail, lembrei também que as grandes histórias da agência surgiam de madrugada. E a gente invadia muito esse horário. Era uma equipe enxuta e absolutamente unida. “Ah, mas se vocês trabalhavam muito, a agência não podia ser isso tudo de bom”. O tempo é quem se encarrega de assentar as experiências e trazer um olhar equilibrado. Pelo retrovisor, digo que as amizades que fiz por lá valeriam cada segundo (Alô, grupo Originals… chora, cavaco!). Isso sem falar do clima, da chance de trabalhar e conviver com tantas pessoas talentosas. Os momentos ruins vieram também, mas são infinitamente menores quando comparados com o que tenho de boas lembranças. Sabe aquela história de “um dia você vai rir disso”? Pois então.

Um alerta que mantenho: se o Marcão Monteiro falasse metade do que ele pensa, já estava preso. Uma atualização que merece ser feita: ao mesmo tempo, é uma pena que ele não fale aquelas coisas que ficam presas em uma risada tímida. Naqueles tempos, o PowerPoint era o Oswaldo Montenegro dos programas. Fosse hoje a despedida, avisaria que o Keynote aceita tudo.

Mesmo aqui, tento não chegar ao final daquele e-mail. Desde a saída do Fabio, eu busco entender, em vão, o que leva um grupo de comunicação a sacrificar a agência que abriu uma avenida inteiramente nova na propaganda brasileira. O estilo da F/Nazca é inimitável. É um traço bem característico, sem muitas licenças, passional. Afinal, o Fabio não montava apenas uma equipe, ele construía torcidas. A gente amava, odiava, sofria e comemorava com intensidade. Só com a distância, fui procurar um equilíbrio desses sentimentos, mas ainda hoje percebo esse jeito passional.

Retorno para a nostalgia. “Você pode ter cargo, talento, dinheiro. Mas se o seu Geraldo não sabe o seu nome, você não é nada.” Esse mandamento foi fundamental para a minha sensação de pertencimento, na F/Nazca. Quando o seu Geraldo falou o meu nome, senti como se tivesse cruzado o Canal da Mancha nadando, de moleton. Era um feito inédito. O seu Geraldo gostava de chamar o carro do Renato Simões de rabecão, para a nossa alegria.

É preciso encerrar o texto, mesmo com tantas histórias a me rondar. Mas calma, que eu ainda não falei do Edu Martins, o Gudin. Ele rende um livro de causos. Um deles envolve o hábito de jogar videogames de F-1 contra o Fabio. Sim, ele tinha essa imunidade diplomática sonhada por todos. Bom, quando ele saiu da F/Nazca, caminhou até a mesa do Fabio e revelou um segredo escondido por anos: Quando entrar na curva, aperta tal botão para o carro não derrapar. Foi embora, orgulhoso, sob uma nuvem de xingamentos. Detalhe importante: eu comecei a trabalhar na mesma semana em que a Lu Rodrigues. A Lu (que não ouvia Metallica e tinha um cabelo com apelido) que casou com o Marcão Medeiros que hoje é meu dupla e sócio. Tudo encadeado.

Há 11 anos, fechei o computador logo depois do envio do e-mail e levantei da minha mesa com lágrimas de episódio do This is Us. As mesmas que vieram quando li a carta de saída do Fabio. Trabalhar na F/Nazca era bom para caralho. Essa era a frase final do e-mail de despedida. Minhas filhas nasceram quando eu estava lá e, até hoje, quando passamos em frente à agência, elas comentam algo e eu conecto diversas memórias. Desde a Ju entrando fantasiada de Minnie na criação até a Clarinha pegando as danadas das jujubas nas salas de reunião. Outra conexão. Eu e a Penélope saímos de um apartamento com vista parcial da praia direto para a São Paulo da Avenida Santo Amaro. Foi duro. A nossa labrador, Paçoca, veio na mudança e entendeu menos ainda. Sem calçadão, o jeito era andar no parque para amenizar. Um certo domingo, olhando a F/Nazca, nós ouvimos um grito: Tá virando paulista, hein? Era o Fabio da janela. O mesmo Fabio que achou a Penélope engraçada porque ela ameaçou passá-lo por um corredor polonês, caso ele não aprovasse uma ideia minha.

Em um ano tão bruto como este, escuto o áudio do menino das três conchadas de galinha quase todos os dias para recuperar a docilidade. E digo para quem decidiu esse destino da F/Nazca: ô amigo, rá, tu ratiou parça, tu ratiou muito, muito, muito. Eram três conchadas, repito, três conchadas de criatividade, a gente saiu de lá embuchado de memória boa. Pode perguntar pro Cauã, se tu quiser.

 

 

 

 

Quatro centésimos

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Pode testar no cronômetro: quatro centésimos de segundo. Bata o dedo na tecla para começar e tente parar nessa fração. Nessa tentativa, observe a velocidade com que esses centésimos passam. Faça uma correlação com o que você chama de muito ou pouco tempo. Quatro centésimos de segundo na história que conto deram origem a coisas inesperadas. Centésimos que são um salto, da dor às mais variadas conquistas.

Seletiva de natação para os Jogos Olímpicos de Atlanta. O atleta Marcos Medeiros já tinha batido o tempo que precisava no treino. Hora da prova. Ele salta, bate a mão na chegada e olha para o relógio. Quatro centésimos o tiram da Olimpíada. Nessa hora, as lesões doem mais do que nunca, ele repassa os treinos exaustivos, o acordar de madrugada, os gritos dos técnicos, o cheiro de cloro, o raspar dos pêlos e até da pele, o som da largada, a distância de casa. Nessa hora, ele determina o fim da carreira de atleta. É quando eu ganho um dupla, amigo, irmão e sócio. O que era dor, nunca esquecida, vira uma carreira que tem, naquele sistema militar de treinamento, um alicerce inquebrável. Ou quase.

O Marcão tem uma tradição que muito preocupa quem gosta dele. O susto de fim de ano. Na primeira vez, foi um acidente de moto em que ele só não bateu as botas porque, primeiro, ele não usa botas mesmo, e, depois, porque o parafuso passou a um centímetro de uma importante veia que não arrisco o nome. Nesse dia, a parte prática dele vendeu a moto a caminho do hospital. Quando cheguei à emergência, ele estava dando entrada. O médico olhou para mim e disse: “você estaria morto se o acidente tivesse sido contigo”. Não foi. O inquebrável não quebrou.

No ano retrasado, ele chegou na agência com um braço igual ao do Popeye. Eu falei: “acho que você tem que ir agora ao hospital”. Ele olhou e disse com a maior calma do mundo: “vai voltar para o lugar”. Não voltou. O susto foi tão leve que ele quis compensar. Nesse fim de ano, ele foi atropelado por um patinete na contramão da ciclovia da Faria Lima. Quatro centésimos de segundo, penso eu, impediram que um carro o atropelasse na rua. Sim, ele caiu na rua com a bicicleta, e a clávicula quebrou. Naquele momento, naquele átimo, o sinal de trânsito estava fechado. Ele já está inteiro mais uma vez. Dia desses, ele colocou um filme do Wolverine para ver aqui na sala. Achei graça.

Posso falar de detalhes fundamentais da nossa carreira aqui. Seria um tanto óbvio. Falo, então, do que não se pode imaginar ao olhar o trabalho. A mãe do Marcão e a minha se foram em um intervalo de 8 meses. Um foi o alicerce do outro. É mole ser parceiro no palco de um GP, difícil é uma dupla resistir ao silêncio do outro, a não produtividade, à dor. Quando ele não conseguia sequer pensar, eu trabalhava em dobro. Quando era eu que não me movia, ele fazia o mesmo. Quem estava de fora não percebia muito. Nada foi combinado, apenas foi assim.

Essa inteligência emocional nos faz saber quando qual dos dois deve ir àquela reunião. Nem é preciso falar. Não foram poucas as vezes que ele disse: “vai nadar, essa eu toco”. Essa sintonia já foi questionada por pessoas da equipe. “Vocês ensaiaram o discurso” é o que ouvimos. Não. Em momentos distintos, falamos a mesma coisa sobre uma ideia ou sobre uma postura. É zero ensaio, e muito conhecimento.

Há uma brincadeira que ele gosta de repetir: “se você fosse do meu tamanho, ia dar cagada”. Ele sabe que quando eu tenho raiva não é coisa pouca. Eu vou estalar o pescoço, girar a língua com a boca fechada e soltar pedrada. Já aconteceu de eu estar estalando o pescoço e ele tomar a frente. Uma curiosidade aqui: um cara que tinha problemas com nós dois um dia veio tirar satisfação apenas com a minha pessoa. Eu teria feito o mesmo no lugar dele. Com o tempo, aprendi a usar (o verbo é esse mesmo) essa figura de proteção. Ele é o meu Urso Judeu de Bastardos Inglórios. Tem hora que eu penso: “tem certeza de que você quer que eu chame o Urso?”.

Quando implantamos a agência, ouvi: “sociedade com amigo dá merda”. Já deu. Não uma merda grande, mas atritos que foram resolvidos com uma conversa para aparar as poucas arestas que restavam. Somos um monstro de duas cabeças. Vale morder os outros, mas sem se atacar. É assim que tem funcionado.

Ele é tosco, verdade seja dita. Em um jantar de harmonização, ele terminou a taça de vinho antes de o prato ter chegado. O maître ficou indignado. Sem carboidratos, ele vira um bicho. A galera daqui é testemunha de uma dieta que, quando chegou ao fim, chamamos de momento de pacificação. Porém, no geral, é só tamanho mesmo. Ele é um Sulley. Era para assustar as criancinhas, mas o efeito é contrário.

Ele é obsessivo. Prometeu que desenharia mais, faz um desenho encrenca por dia. Colocou na cabeça que vai aprender a tocar guitarra, logo mais vai estar tirando solos do Stevie Ray Vaughan. Decidiu que a fotografia vai ser o seu trabalho na aposentadoria, já descolou uma viagem para fazer um curso na Índia. Ele é o seu próprio treinador.

Minhas filhas o chamam de Cacão, o que dá noção do tempo que estamos nessa estrada. E do carinho construído. E aqui, volto a falar de tempo como quem procura um fechamento do texto. Quatro centésimos. Olhe de novo no cronômetro. Esses centésimos deram a ele uma nova carreira, uma família linda, um lugar para o qual ele não precisa olhar para o placar. Quatro centésimos. Menos que um tic. O tempo que eu precisei para ganhar um dupla, um amigo, um irmão, um sócio. E – por que não dizer? – um segurança.

 

 

 

 

Vini e o chocolate escondido na gaveta.

Um dia a minha filha indagou: pai, eu nunca sei quando você está falando sério ou ironizando. A irmã respondeu: dessa vez era ironia. E eu falei: é um treino para a vida.

Corte abrupto de narrativa.

Eu e o Marcão conversamos com o Chuck Porter por telefone muito antes do começo da CP+B Brasil. Na ligação, o Chuck falou poucas coisas (como de costume). Entre elas: vamos seguir em frente; preciso de um business plan. Travamos. Como fazer um business plan?

Nesse momento da história, surge a figura do Vinicius Reis. Ou melhor: o Vini. Um amigo de longa data do Marcão que segundo consta nos alfarrábios publicitários tinha o apelido de presidente até quando era estagiário. Eu não o conhecia. O Vini arrumou o tal plano de negócios, voamos para Miami e a agência nasceu.

Vini era uma ponta, eu era a outra, Marcão no meio equilibrava as forças. A sociedade funcionava assim. Se fosse muito para o meu lado, caos. Se fosse muito para o lado do Vini, obsessão por detalhes. E a disputa acontecia. Quando  mais crica ele era, mais eu não seguia as regras. Quanto mais eu não seguia as regras, bem, você entendeu. Do jeito que estava sendo desenhado, tinha tudo para ganhar o prêmio de cabo de guerra mais estúpido do ano.

Marcão já cansado de fazer o papel de juiz, as duas pontas extenuadas, soltamos a corda. E começamos a nos entender. O que me leva a essa reflexão agora no aniversário da coisinha mais obsessiva do mundo, o Vini.

Em geral, fala-se muito dos caras da criação. E pouco dos caras de negócio. Serei sucinto aqui: sem o Vini, a gente estaria falido ou preso. Não havia outra hipótese. Ele é o cara que vai abrindo a picada na mata fechada, eu e o Marcão chegamos na sequência arrancando um erva daninha aqui e ali e tentando fazer os sinais para que as pessoas prefiram essa estrada. O trabalho dele é mais árduo que o nosso, acredite. Se não acredita, tente acompanhar um dia na agenda dele de ligações, anotações, pensamentos sobre como crescer e onde erramos. Um exemplo disso? Quando estávamos na obra da agência, ele pediu para a gente checar o que parecia errado. Com esforço, anotamos 27 falhas. Ele chegou em 154. E ainda provou que o teto do andar era levemente torto.

O Vini entende muito de criação. A gente aprendeu com ele a entender sobre o negócio. E a respeitar as decisões dele. Eu já começo a semana sabendo que vou ouvir um “trânsito do Morumbi tá foda”, “puta que pariu, sócios”, “que semana, hein?”, “Má, gatinha, depois te ligo”. Eu sei que ele não vai me ouvir na primeira vez e vai repetir o que eu falei como se fosse algo inédito logo depois. Que vai procurar erro de digitação em cada apresentação. Ele circula pelo mesmo assunto até ter certeza que não há nada equivocado. É o nosso João Gilberto cantando “O Pato” em looping, só que o gato não pula da janela nessa história.

No fim do ano passado, eu o chamei de tutor em um post. Muita gente viu ironia. Volto, então, às minhas filhas. Eu estava falando sério daquela vez. O Vini foi o meu treinador para uma vida de empresário para a qual eu não estava preparado. Até sapato ele me fez comprar. Nessa sociedade, só temo pelas comidas que deixamos na mesa. Toda a classe e estilo do nosso V.R., o Vila Romana Vinicius Reis, vai embora quando se trata de roubar um quitute. Feliz aniversário, Bibicius, Que a vida seja repleta de gavetas com chocolates escondidos.