O silêncio enquanto diapasão

Uma dessas infinitas chamadas de vídeo. Naquele instante de silêncio, enquanto se espera por alguém na reunião, surge um canto de passarinho ritmado, alto, orgulhoso. Alguns rostos demonstram que o canto foi notado. Um sorriso surge aqui e ali. Alguém pergunta:

“Esse passarinho cantando está em qual casa?”

Eu respondo:

“É aqui perto. Todo dia, a essa hora, eles cantam.”

“Mas tá alto, né? Ou será que a cidade é que está vazia?”

A gente arriscou algumas respostas embasadas no Manual do Escoteiro Mirim, no programa do Discovery visto em uma madrugada insone e na sabedoria de um sogro, que pareceu ser a melhor das alternativas. A reunião começou. E o pássaro seguiu no seu ritmo como quem marca os passos dos moradores, o mover das folhas das árvores, o balançar da cortina ao vento.

Guardei esse som.

“A vida é tão rica de sugestões, há tanta poesia perdida até no meio da rua, que basta a gente manter os olhos abertos, e a máquina pronta, para selecionar as imagens que tenham significação, e assim interpretar a vida. Eis a fórmula.” Uma fala do fotojornalista Luciano Carneiro, falecido em 1959, que odiava flash, mas viajava o mundo em busca de registrar emoções humanas.

Guardei essa frase e o som do pássaro; deixei-os à espera de um lugar de encontro. Nunca sei ao certo quando isso vai acontecer. Em geral, não acontece. Tenho um arquivo de frases perdidas que nunca encontraram seus novos pares. Às vezes, eu as visito como um cupido reverso, que afasta a cada flechada. Em outras, o acaso dá conta de fazer o elo. Foi quando um novo pássaro cruzou o caminho a cantar e relembrar um artigo da Suzana Herculano-Houzel, para a Folha de São Paulo.

Não fosse a pandemia, talvez não parasse para ler um título que dizia: “Os pássaros estão ouvindo e agradecem o silêncio”. Porém, tenho andado em busca de coisas boas para ler, um lugar de calma. E este parágrafo entregou tudo isso de uma só vez:

“Durante o lockdown, os pássaros urbanos passaram a cantar mais suavemente, em tons mais graves, com muito mais variação de voz. Sem o zum-zum da cidade para abafá-lo, e graças aos tons mais graves, seu canto não só ia mais longe, como também voltou a ser mais complexo, mais cheio de conteúdo. Durante a pandemia, os pássaros urbanos voltaram a cantar como seus primos rurais.”

Não sou um observador de pássaros. O daltonismo me impede de perceber detalhes importantes nas cores. Mas o som que pareceu mais alto na chamada de vídeo ganhou novos contornos com a leitura. Um grande amigo e irmão que mora hoje em Camburi já havia me alertado sobre a importância de perceber esses pequenos animais ao redor. Foi curioso perceber do quanto de cidade ele foi se livrando a cada mensagem na pandemia. Numa hora, o cansaço urbano parecia se esvair. Na seguinte, a explanação sobre um aplicativo que identifica as espécies. Logo depois, registros de frutas cortadas, dispostas em um recipiente na varanda. Até estar cercado de passarinhos. E ouvir além do canto ao redor, ouvir a si mesmo.

Vivemos em um mundo com muitas falas, diversos barulhos, infinitos espelhos e poucos ouvintes. Com tanto som ao redor, às vezes nos esquecemos do nosso canto, de como soamos. Em alguns momentos, parece que estamos emulando uns aos outros. Nas redes sociais, muitas vezes é difícil distinguir quem está falando quando esquecemos a foto do perfil e focamos as palavras. Porque elas se repetem. Repetem-se os discursos, o jeito de escrever, perde-se autenticidade. Pessoas que escreviam de um jeito vão aos poucos se moldando a um modelo de maior engajamento. Nesse modelo, não cabem dúvidas. É fundamental ser assertivo e categórico. Como disse o amigo Rodrigo Resende, a vergonha de exibir virtudes não existe mais. Sem que notemos, o nosso cantar fica dissonante. Ou passa a soar como um cover de outro alguém.

Elizabeth Derryberry foi quem conduziu os estudos sobre o pardal-de-coroa-branca nos arredores de San Francisco. O pássaro foi escolhido por conviver próximo dos humanos, por ser um sobrevivente urbano, como ela mesma define. Além disso, há 30 anos o canto desses animais tem sido gravado, o que traz um efeito comparativo poderoso. O lockdown não estava programado no estudo, nem nas profecias, mas ao chegar ele trouxe o que a Suzana Herculano-Houzel muito bem pontuou como a sua parte favorita: “os pássaros finalmente puderam voltar a se ouvir – e ajustaram suas vozes”.

Talvez seja uma das coisas que mais nos faz falta: voltar a se ouvir. Na ânsia de preencher tantos lugares, vamos perdendo essa capacidade. Para cada rede, uma voz. Para cada postagem, uma expectativa. Para tudo, desafino. O Whindersson Nunes teclou numa madrugada: “Eu amei conquistar, ganhar, vencer, crescer, nada disso foi difícil pra mim, eu amei. Mas hoje a minha cabeça está perturbada demais, acho que essa é a parte mais difícil.” Mesmo ele, que voa tão alto, que voa para onde quiser, sente essa distância do canto.

Na foto que ilustrava a matéria sobre o fotojornalista Luciano Carneiro, ele estava em um avião. No som que ouvi da janela, um pássaro estava prestes a voar. O voo habita em nós como um desejo ancestral, como um Ícaro a desafiar a proximidade do sol, como quem acorda sobressaltado ao se ver caindo enquanto sonha. Um avatar é uma forma de sair de si mesmo e viver um personagem. Nesse sentido, voamos. Mas há sempre a possibilidade de nos esquecermos da importância de pousar. De ouvir a própria voz nesse barulho todo, nesse mundaréu de informações que nunca vai cessar. Seria desejável cantar como os primos rurais, ajustar a voz, não sentir a imensa dor de um desafino. Deve ser bom agradecer o silêncio tal qual um pardal-de-coroa-branca.

As pequenas expectativas contra o cometa decepção

IMG_2048(Pequeno prólogo sem grandes conexões)

“O homem com teorias assertivas não estremece, não balança, ele vai. A segurança forjada em previsões sobre um capítulo da história que ninguém conhece. Carregado de certezas, cercado de múltiplos eus nas redes sociais, tudo é reforço, tudo é escudo. Ele sobe no palco com projetor de slides e mira a laser, aponta a direção, não esmorece. A persona moderna, trabalhada em quotes, que nada teme, nem permite espaço para dúvidas. Um ser sólido, um coach de si mesmo. Todos os dias, em frente ao espelho, ele mira, admira, mas não toca a imagem refletida. Um gesto pode ser o início de uma desconstrução que – ele sabe – está à espreita.”

Parei de escrever para valorizar as minhas dúvidas, recuei, vi de fora, olhei para dentro. Saltei do idealizado de tudo que já tinha escrito para o real sem escalas, queda livre. Um ano brutal, duro, com o noticiário a consumir as entranhas. Pessoas queridas saindo de cena na agência, fogo amigo. Na rota da vida real, não tem Waze. Não há nada que nos avise sobre os descaminhos, os acidentes no percurso ou sobre a possibilidade de um retorno. 2019 pareceu, desde o início, estar calcado em uma charge do Benett, em que um enorme cometa chamado decepção ruma para dizimar pequenas expectativas. Poderia não falar sobre isso, seria mais seguro manter uma postura infalível, mas eu me cansei desses personagens.

Eu sou daltônico. Enxergo as cores extremas, perco muitas nuances de transição. E isso, diversas vezes, respingou em meus textos, atitudes e posicionamentos. Gostar muito, desgostar na mesma proporção. Aquela zona central onde reside o espaço do diálogo, o ponto de equilíbrio, as tais camadas de cinzas, tudo ignorado quando a raiva batia. Agora, cercado de discursos de ódio por todos os lados, vejo claramente as perdas. Decidi voltar a escrever como um daltônico que busca as cores de transição, como um cara que precisa de um pouco de docilidade nestes tempos brutos. Não deixarei a acidez e a contundência de lado, mas vou usá-las com parcimônia.

Essa não é uma decisão solitária. Ela nasce do olhar curioso e, por vezes, assustado das minhas filhas para esse mundo. Renasce do mantra repetido pela minha esposa de que é preciso mudar o foco. “De todas as atitudes que tomei baseadas no ódio, me arrependo”, disse Emicida. Estou com ele. AmarElo é outro ponto de conexão com o que me importa. Ao contrário desse governo, tenho fé na música e no poder da cultura. AmarElo foi uma experiência religiosa, portanto. Uma reza cantada a desviar o cometa decepção, fluoxetina musical, esperança. As lindas pequenas expectativas sobrevivem ao redor.

Retorno porque os idiotas estão cheios de razão na Terra Plana. E eu estou no embalo do Bertrand Russel: quero as dúvidas. Escrever é se expor, mas já paguei o preço e trago novos boletos. Troco cada certeza entreouvida pela calma que me faltava ao redigir. Porque, como disse o mesmo Emicida em mais outro petardo sintético: a calma é revolucionária.

(Epílogo sem grandes pretensões)

Na solidão do espelho, o homem sabe que tudo é imagem. E sem ninguém a observar, ele toca o reflexo. A desconstrução não está mais à espreita. Agora, ela é um fato, é ressignificação.

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Nunca coma a jujuba roxa

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Um texto dedicado a todos que trabalharam na F/Nazca. E aos que sonharam trabalhar lá.

Encontrei o meu e-mail de despedida da F/Nazca. Nele encontrei lembranças, particularidades e registros que são uma parte importante do que carrego de leveza na bagagem. O enigma da jujuba, ali no título, era uma frase – se não me falha a memória – do Wilson Mateos, para alertar que a roxa carregava a tabela periódica completa. Nunca mais peguei uma sequer. Já para os potes de polvilho, dispostos em salas de reunião com temperaturas de fazer a ponta do dedo cair, não havia uma regra. Eu sempre cavei em busca dos queimados. O polvilho torradinho era uma ponte aérea direto para quem eu fui na infância. Aqueles potes na sala eram pedaços do Rio, com vista para o parque.

República do Líbano, 253. Na primeira vez que eu disse o destino para o taxista, em Congonhas, falei com orgulho. Ele retrucou: doix? Deslumbrado e convidado para adentrar naquele recanto que chamei de casa, sem imaginar que ali eu ouviria a maior quantidade de nãos até aquele ponto da minha carreira. Eu tinha um adesivo da F/Nazca no carro, usava uma camiseta de quando eles “demitiram” a agência toda na mudança para o digital, absorvia tudo o que acontecia a minha volta. Até hoje, não sento na cabeceira de nenhuma mesa porque, nas salas 2 e 3, uma certa cadeira tinha dono. Já na sala 4, a escolha da cadeira era aleatória. E a sala 1? Bom, era pequenina. Um refúgio para cantarmos os grandes sucessos da Sônia Rocha (jovens, deem uma busca). Na Copa de 2002, a gente gritava a plenos pulmões:

Porque a Itália é feita de música,

a Itália é feita de flores.

Na Itália só se fala de amores,

a Itália é plena de cores.

Por falar em canções, como não lembrar do hit “O nosso amor é Lincoln”, um verdadeiro poema com o trocadilho que mais irritava o menino do preá assombrado. E por falar em Lincoln, a gente tinha uma votação para eleger o grande momento do ano em que ele estava envolvido. O Grand Prix eterno é o dia do caderno. Não vai ter graça escrito (eu sei), porque isso pressupõe uma imitação com a boca levemente mole e um assovio ao fim. Mas vale o resumo: o Lincoln aproxima-se do Nogueira e pergunta: Você por acaso tem aquele caderno do plano de saúde? Em seguida, ele se assusta com a própria frase e diz em voz alta, como quem duvida de si: Caderno? Sobre o Nogueira, eu escrevi no e-mail: Se ele tem uma foto sua, trate-o bem. Nog é o segundo exato que antecede o nascimento dos memes. Já o Misterioso Professor Quintanilha, cujo nome não revelarei, guardava recortes que eram um Google analógico da propaganda.

 Da F/Nazca, guardo superstições estranhas. Em que outro lugar o fato de ver o gambá do estacionamento seria considerado um sinal de sorte? Lá, apenas. O bicho era soturno, tímido, mas quando surgia, você jurava que teria uma ideia. Em dias de desespero, eu deixava uns polvilhos espalhados, para facilitar. Outra superstição: o macarrão do America dava azar. Já a sobremesa, Farofino, era sinal de sorte. Ainda no quesito alimentação, havia a infinita disputa entre a Portuguesa da Camelo e a Castelões, da Brás. E era fundamental escolher um time. Muitos mudavam de lado da torcida da pizza só pelo prazer de tumultuar. Importante: arroz era assunto a ser evitado durante uma época.

No e-mail, um dos itens alertava para o perigo das reuniões feitas no período da manhã. Parecia que uma aura (não é áurea que fala, cacete) reprovadora abraçava as salas e esmagava qualquer resquício de ideia. Outro grande teste de coragem era falar com pessoas de óculos escuros. Isso para um carioca era para lá de estranho, mas em São Paulo aprendi que o uso de óculos escuros pode acontecer em ambientes fechados. Vai entender. Só sei que esse pequeno objeto a cobrir olhos mortais era um indicativo de risco. Não tinha São Bono Vox, nem São Jorge Benjor, os protetores do artifício, que salvasse. Sobre reuniões: você podia medir a duração pelos origamis do Fernand. Ou medir o tempo em que você estava na agência pelas tatuagens do Armando.

Apelidos. Naquela época, eles surgiam aos montes. O Fernando Nobre virou o Praianinho só porque alguém encasquetou que ele tinha cara de quem carregava sempre uma cadeira de praia no porta-malas do carro. A Juliana Uchoa era a Sação, porque uma vez ela disse “essa ação” com um sotaque ainda mais mineiro que o habitual. A Keka ficava irritada quando falavam Kéka. E o Valmir tinha muitos apelidos guardados para disparar a qualquer momento. O mesmo Valmir que uma vez flagrou o Fabio brigando com a impressora, porque ela tinha comido o papel, e soltou a pedrada: Tá achando que só eu me fodo aqui, é? E gargalhou no final. Já a Fátima, 25 anos de F/Nazca, café impecável, reprovou uma campanha do Fabio com um simples “ih” no meio da apresentação. Lá tinha dessas coisas que pegavam até o dono de surpresa.

Quando cheguei, o endereço era o já famoso quadrado branco do parque. Sentia uma pequena inveja de não ter vivenciado o predinho. Quer dizer, era uma grande inveja mesmo. Tanto que guardo a melodia de um refrão cantado em uma festa de fim de ano, na qual eu não estava: a pele, a pele, a pele não é órgão (ritmo de canto de torcida).

Não escrevi na despedida sobre a decodificação da coçada de sobrancelha do Fabio. Nem pretendo escrever agora. Essa parte fica guardada para um outro texto que me foi pedido carinhosamente e no qual só confirmarei a conexão com a F/Nazca. Porém, deixei avisado, em 2008: Discutir com o Fabio é um jogo de xadrez. Só que você já começa em xeque-mate. Já discutir com o Edu é como ir a um show da Dercy Gonçalves. Muito palavrão e muito resmungo, apesar de ele ser o Milli Vanilli do mau humor, tudo fake. No quesito discussão, entenda: não havia gritos, show de esporro para uma plateia emudecida. Os ânimos só ficavam mais exaltados em partida de minissinuca e futebol. Já no final do e-mail, havia o item: Vai aprovar algo na segunda-feira, de manhã? Torça pelo Vasco.

O Vasco era assunto muito sério. Campo minado total. Eu pisei uma vez nessa bomba, com força. Lembro do silêncio do ambiente, seguido de uma sucessão de mensagens (o ICQ dando aquele gritinho: oh, oh…) perguntando se eu estava louco. O Fabio não falou nada, deixou o silêncio se prolongar por uma eternidade. Ele não esperava que fosse surgir uma superstição entre nós no quesito Flamengo e Vasco. Em toda final ou jogo importante que o Flamengo ganhou do Vasco, nós estávamos em cidades diferentes. Ele no Rio, eu em São Paulo. Ele em São Paulo, eu em Guarulhos, que seja. Tem funcionado para o lado do rubro-negro desde então.

No e-mail, lembrei também que as grandes histórias da agência surgiam de madrugada. E a gente invadia muito esse horário. Era uma equipe enxuta e absolutamente unida. “Ah, mas se vocês trabalhavam muito, a agência não podia ser isso tudo de bom”. O tempo é quem se encarrega de assentar as experiências e trazer um olhar equilibrado. Pelo retrovisor, digo que as amizades que fiz por lá valeriam cada segundo (Alô, grupo Originals… chora, cavaco!). Isso sem falar do clima, da chance de trabalhar e conviver com tantas pessoas talentosas. Os momentos ruins vieram também, mas são infinitamente menores quando comparados com o que tenho de boas lembranças. Sabe aquela história de “um dia você vai rir disso”? Pois então.

Um alerta que mantenho: se o Marcão Monteiro falasse metade do que ele pensa, já estava preso. Uma atualização que merece ser feita: ao mesmo tempo, é uma pena que ele não fale aquelas coisas que ficam presas em uma risada tímida. Naqueles tempos, o PowerPoint era o Oswaldo Montenegro dos programas. Fosse hoje a despedida, avisaria que o Keynote aceita tudo.

Mesmo aqui, tento não chegar ao final daquele e-mail. Desde a saída do Fabio, eu busco entender, em vão, o que leva um grupo de comunicação a sacrificar a agência que abriu uma avenida inteiramente nova na propaganda brasileira. O estilo da F/Nazca é inimitável. É um traço bem característico, sem muitas licenças, passional. Afinal, o Fabio não montava apenas uma equipe, ele construía torcidas. A gente amava, odiava, sofria e comemorava com intensidade. Só com a distância, fui procurar um equilíbrio desses sentimentos, mas ainda hoje percebo esse jeito passional.

Retorno para a nostalgia. “Você pode ter cargo, talento, dinheiro. Mas se o seu Geraldo não sabe o seu nome, você não é nada.” Esse mandamento foi fundamental para a minha sensação de pertencimento, na F/Nazca. Quando o seu Geraldo falou o meu nome, senti como se tivesse cruzado o Canal da Mancha nadando, de moleton. Era um feito inédito. O seu Geraldo gostava de chamar o carro do Renato Simões de rabecão, para a nossa alegria.

É preciso encerrar o texto, mesmo com tantas histórias a me rondar. Mas calma, que eu ainda não falei do Edu Martins, o Gudin. Ele rende um livro de causos. Um deles envolve o hábito de jogar videogames de F-1 contra o Fabio. Sim, ele tinha essa imunidade diplomática sonhada por todos. Bom, quando ele saiu da F/Nazca, caminhou até a mesa do Fabio e revelou um segredo escondido por anos: Quando entrar na curva, aperta tal botão para o carro não derrapar. Foi embora, orgulhoso, sob uma nuvem de xingamentos. Detalhe importante: eu comecei a trabalhar na mesma semana em que a Lu Rodrigues. A Lu (que não ouvia Metallica e tinha um cabelo com apelido) que casou com o Marcão Medeiros que hoje é meu dupla e sócio. Tudo encadeado.

Há 11 anos, fechei o computador logo depois do envio do e-mail e levantei da minha mesa com lágrimas de episódio do This is Us. As mesmas que vieram quando li a carta de saída do Fabio. Trabalhar na F/Nazca era bom para caralho. Essa era a frase final do e-mail de despedida. Minhas filhas nasceram quando eu estava lá e, até hoje, quando passamos em frente à agência, elas comentam algo e eu conecto diversas memórias. Desde a Ju entrando fantasiada de Minnie na criação até a Clarinha pegando as danadas das jujubas nas salas de reunião. Outra conexão. Eu e a Penélope saímos de um apartamento com vista parcial da praia direto para a São Paulo da Avenida Santo Amaro. Foi duro. A nossa labrador, Paçoca, veio na mudança e entendeu menos ainda. Sem calçadão, o jeito era andar no parque para amenizar. Um certo domingo, olhando a F/Nazca, nós ouvimos um grito: Tá virando paulista, hein? Era o Fabio da janela. O mesmo Fabio que achou a Penélope engraçada porque ela ameaçou passá-lo por um corredor polonês, caso ele não aprovasse uma ideia minha.

Em um ano tão bruto como este, escuto o áudio do menino das três conchadas de galinha quase todos os dias para recuperar a docilidade. E digo para quem decidiu esse destino da F/Nazca: ô amigo, rá, tu ratiou parça, tu ratiou muito, muito, muito. Eram três conchadas, repito, três conchadas de criatividade, a gente saiu de lá embuchado de memória boa. Pode perguntar pro Cauã, se tu quiser.

 

 

 

 

Quatro centésimos

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Pode testar no cronômetro: quatro centésimos de segundo. Bata o dedo na tecla para começar e tente parar nessa fração. Nessa tentativa, observe a velocidade com que esses centésimos passam. Faça uma correlação com o que você chama de muito ou pouco tempo. Quatro centésimos de segundo na história que conto deram origem a coisas inesperadas. Centésimos que são um salto, da dor às mais variadas conquistas.

Seletiva de natação para os Jogos Olímpicos de Atlanta. O atleta Marcos Medeiros já tinha batido o tempo que precisava no treino. Hora da prova. Ele salta, bate a mão na chegada e olha para o relógio. Quatro centésimos o tiram da Olimpíada. Nessa hora, as lesões doem mais do que nunca, ele repassa os treinos exaustivos, o acordar de madrugada, os gritos dos técnicos, o cheiro de cloro, o raspar dos pêlos e até da pele, o som da largada, a distância de casa. Nessa hora, ele determina o fim da carreira de atleta. É quando eu ganho um dupla, amigo, irmão e sócio. O que era dor, nunca esquecida, vira uma carreira que tem, naquele sistema militar de treinamento, um alicerce inquebrável. Ou quase.

O Marcão tem uma tradição que muito preocupa quem gosta dele. O susto de fim de ano. Na primeira vez, foi um acidente de moto em que ele só não bateu as botas porque, primeiro, ele não usa botas mesmo, e, depois, porque o parafuso passou a um centímetro de uma importante veia que não arrisco o nome. Nesse dia, a parte prática dele vendeu a moto a caminho do hospital. Quando cheguei à emergência, ele estava dando entrada. O médico olhou para mim e disse: “você estaria morto se o acidente tivesse sido contigo”. Não foi. O inquebrável não quebrou.

No ano retrasado, ele chegou na agência com um braço igual ao do Popeye. Eu falei: “acho que você tem que ir agora ao hospital”. Ele olhou e disse com a maior calma do mundo: “vai voltar para o lugar”. Não voltou. O susto foi tão leve que ele quis compensar. Nesse fim de ano, ele foi atropelado por um patinete na contramão da ciclovia da Faria Lima. Quatro centésimos de segundo, penso eu, impediram que um carro o atropelasse na rua. Sim, ele caiu na rua com a bicicleta, e a clávicula quebrou. Naquele momento, naquele átimo, o sinal de trânsito estava fechado. Ele já está inteiro mais uma vez. Dia desses, ele colocou um filme do Wolverine para ver aqui na sala. Achei graça.

Posso falar de detalhes fundamentais da nossa carreira aqui. Seria um tanto óbvio. Falo, então, do que não se pode imaginar ao olhar o trabalho. A mãe do Marcão e a minha se foram em um intervalo de 8 meses. Um foi o alicerce do outro. É mole ser parceiro no palco de um GP, difícil é uma dupla resistir ao silêncio do outro, a não produtividade, à dor. Quando ele não conseguia sequer pensar, eu trabalhava em dobro. Quando era eu que não me movia, ele fazia o mesmo. Quem estava de fora não percebia muito. Nada foi combinado, apenas foi assim.

Essa inteligência emocional nos faz saber quando qual dos dois deve ir àquela reunião. Nem é preciso falar. Não foram poucas as vezes que ele disse: “vai nadar, essa eu toco”. Essa sintonia já foi questionada por pessoas da equipe. “Vocês ensaiaram o discurso” é o que ouvimos. Não. Em momentos distintos, falamos a mesma coisa sobre uma ideia ou sobre uma postura. É zero ensaio, e muito conhecimento.

Há uma brincadeira que ele gosta de repetir: “se você fosse do meu tamanho, ia dar cagada”. Ele sabe que quando eu tenho raiva não é coisa pouca. Eu vou estalar o pescoço, girar a língua com a boca fechada e soltar pedrada. Já aconteceu de eu estar estalando o pescoço e ele tomar a frente. Uma curiosidade aqui: um cara que tinha problemas com nós dois um dia veio tirar satisfação apenas com a minha pessoa. Eu teria feito o mesmo no lugar dele. Com o tempo, aprendi a usar (o verbo é esse mesmo) essa figura de proteção. Ele é o meu Urso Judeu de Bastardos Inglórios. Tem hora que eu penso: “tem certeza de que você quer que eu chame o Urso?”.

Quando implantamos a agência, ouvi: “sociedade com amigo dá merda”. Já deu. Não uma merda grande, mas atritos que foram resolvidos com uma conversa para aparar as poucas arestas que restavam. Somos um monstro de duas cabeças. Vale morder os outros, mas sem se atacar. É assim que tem funcionado.

Ele é tosco, verdade seja dita. Em um jantar de harmonização, ele terminou a taça de vinho antes de o prato ter chegado. O maître ficou indignado. Sem carboidratos, ele vira um bicho. A galera daqui é testemunha de uma dieta que, quando chegou ao fim, chamamos de momento de pacificação. Porém, no geral, é só tamanho mesmo. Ele é um Sulley. Era para assustar as criancinhas, mas o efeito é contrário.

Ele é obsessivo. Prometeu que desenharia mais, faz um desenho encrenca por dia. Colocou na cabeça que vai aprender a tocar guitarra, logo mais vai estar tirando solos do Stevie Ray Vaughan. Decidiu que a fotografia vai ser o seu trabalho na aposentadoria, já descolou uma viagem para fazer um curso na Índia. Ele é o seu próprio treinador.

Minhas filhas o chamam de Cacão, o que dá noção do tempo que estamos nessa estrada. E do carinho construído. E aqui, volto a falar de tempo como quem procura um fechamento do texto. Quatro centésimos. Olhe de novo no cronômetro. Esses centésimos deram a ele uma nova carreira, uma família linda, um lugar para o qual ele não precisa olhar para o placar. Quatro centésimos. Menos que um tic. O tempo que eu precisei para ganhar um dupla, um amigo, um irmão, um sócio. E – por que não dizer? – um segurança.

 

 

 

 

Vini e o chocolate escondido na gaveta.

Um dia a minha filha indagou: pai, eu nunca sei quando você está falando sério ou ironizando. A irmã respondeu: dessa vez era ironia. E eu falei: é um treino para a vida.

Corte abrupto de narrativa.

Eu e o Marcão conversamos com o Chuck Porter por telefone muito antes do começo da CP+B Brasil. Na ligação, o Chuck falou poucas coisas (como de costume). Entre elas: vamos seguir em frente; preciso de um business plan. Travamos. Como fazer um business plan?

Nesse momento da história, surge a figura do Vinicius Reis. Ou melhor: o Vini. Um amigo de longa data do Marcão que segundo consta nos alfarrábios publicitários tinha o apelido de presidente até quando era estagiário. Eu não o conhecia. O Vini arrumou o tal plano de negócios, voamos para Miami e a agência nasceu.

Vini era uma ponta, eu era a outra, Marcão no meio equilibrava as forças. A sociedade funcionava assim. Se fosse muito para o meu lado, caos. Se fosse muito para o lado do Vini, obsessão por detalhes. E a disputa acontecia. Quando  mais crica ele era, mais eu não seguia as regras. Quanto mais eu não seguia as regras, bem, você entendeu. Do jeito que estava sendo desenhado, tinha tudo para ganhar o prêmio de cabo de guerra mais estúpido do ano.

Marcão já cansado de fazer o papel de juiz, as duas pontas extenuadas, soltamos a corda. E começamos a nos entender. O que me leva a essa reflexão agora no aniversário da coisinha mais obsessiva do mundo, o Vini.

Em geral, fala-se muito dos caras da criação. E pouco dos caras de negócio. Serei sucinto aqui: sem o Vini, a gente estaria falido ou preso. Não havia outra hipótese. Ele é o cara que vai abrindo a picada na mata fechada, eu e o Marcão chegamos na sequência arrancando um erva daninha aqui e ali e tentando fazer os sinais para que as pessoas prefiram essa estrada. O trabalho dele é mais árduo que o nosso, acredite. Se não acredita, tente acompanhar um dia na agenda dele de ligações, anotações, pensamentos sobre como crescer e onde erramos. Um exemplo disso? Quando estávamos na obra da agência, ele pediu para a gente checar o que parecia errado. Com esforço, anotamos 27 falhas. Ele chegou em 154. E ainda provou que o teto do andar era levemente torto.

O Vini entende muito de criação. A gente aprendeu com ele a entender sobre o negócio. E a respeitar as decisões dele. Eu já começo a semana sabendo que vou ouvir um “trânsito do Morumbi tá foda”, “puta que pariu, sócios”, “que semana, hein?”, “Má, gatinha, depois te ligo”. Eu sei que ele não vai me ouvir na primeira vez e vai repetir o que eu falei como se fosse algo inédito logo depois. Que vai procurar erro de digitação em cada apresentação. Ele circula pelo mesmo assunto até ter certeza que não há nada equivocado. É o nosso João Gilberto cantando “O Pato” em looping, só que o gato não pula da janela nessa história.

No fim do ano passado, eu o chamei de tutor em um post. Muita gente viu ironia. Volto, então, às minhas filhas. Eu estava falando sério daquela vez. O Vini foi o meu treinador para uma vida de empresário para a qual eu não estava preparado. Até sapato ele me fez comprar. Nessa sociedade, só temo pelas comidas que deixamos na mesa. Toda a classe e estilo do nosso V.R., o Vila Romana Vinicius Reis, vai embora quando se trata de roubar um quitute. Feliz aniversário, Bibicius, Que a vida seja repleta de gavetas com chocolates escondidos.

 

 

Escrevo porque não sei desenhar

Escrevi um texto para esta coluna, reli e não fez muito sentido. De alguma forma soou repetitivo ou como se eu estivesse tateando apenas a superfície de um assunto no qual não quero mais entrar. Busquei outros temas. Pensei no mais óbvio: o menino Neymar e a estranheza que senti em todos os jogos. A equipe pronta para entrar em campo, e ele chegando por último, com um intervalo quase calculado. Poderia fazer uma relação com as estrelas mimadas que já vi e o estrago silencioso que isso causa aos que estão ao redor, mas pareceu mais do mesmo. Sobre o comercial de desculpas, há muito já falado.

Lembrei, então, do último artigo do Pyr Marcondes, especificamente deste trecho: “Criatividade? Bem, amigos, no dia em que não houver criatividade nesta indústria, ela deixa de ser esta indústria.” Discordo da afirmação porque tem muita gente, mas muita mesmo, que não está nem aí para a criatividade, que simplesmente executa fórmulas e, ainda assim, ganha uma fortuna. Sem falar dos profetas escondidos atrás de jargões inventados de marketing e cargos com pouco sentido. Sei lá, deu preguiça de comprar mais essa discussão e isso me levou a um lugar que eu já visitava em pensamentos esporádicos. Nesse lugar, eu não escrevo mais esta coluna, dou um tempo. Resolvi ficar por lá.

Em um mercado em que muitos têm um posicionamento que lembra aquele slogan do melhor hambúrguer do mundo, a melhor pizzaria da cidade, o mais qualquer coisa, um certo questionamento soou como um jeito de escrever. O discurso engessado ou muito ensaiado e a metáfora exaustivamente repetida que diz “propaganda não é corrida de 100 metros” nunca me apeteceram.

Escrevo porque não sei desenhar. Às vezes, sai uma caricatura; outras vezes, um traço simplório; em algumas delas, o realismo. Em todas, preciso colocar no papel. Nesse tempo de Meio&Mensagem, algumas colunas ficaram guardadas em arquivos com senha, mas tirei da cabeça, expurguei. Sou grato aos meus sócios por serem diretos quando eu mais precisava e resilientes na blindagem, mais grato ainda à minha esposa, a Peu, que disse que a decisão de parar faz valer os cabelos brancos.

Em um espaço cedido, há que de se pisar com o respeito a quem lhe faz a gentileza. Há uma linha bem fininha que devemos tentar não cruzar. É óbvio que, ao expor meu pensamento, estou a vender o que acredito. Mas daí a nomear o que a minha agência fez ou faz, os cases dos quais participei, os feitos pretensamente heróicos, elogiar cliente em meio à concorrência, há um abismo enorme e já preenchido, com louvor, nesse mercado. Da editoria do Meio&Mensagem, tive um campo aberto, mas tentei ficar na faixa que me cabia. Não muito na sombra, nem muito no sol. Tenho cá para mim que eles receberam algumas ligações indignadas e seguraram a bronca. Coisas que só uma mesa de bar, daqui uns dez anos, poderão revelar. Não por isso, agradeço ao Salles Neto e ao Marcelo Gomes pela confiança, à Regina Augusto pelo início da jornada, ao Ale Zaghi Lemos pelo convite e insistência delicada (você bem sabe que resisti a ocupar essas linhas), à Eliane Nunes pela compreensão (desculpe-me por entregar os artigos em cima do laço) e ao Jonas pela sinceridade e por entender que eu precisava desse tempo.

Saio deste espaço pela intuição de que era o momento e pelo receio de me repetir. Saio porque há gente demais com muitas certezas, e eu resolvi valorizar as minhas dúvidas. Se nesse tempo eu não aprender a desenhar, volto a escrever. Foi um prazer.

 

 

 

 

Desprazer, meu nome é Norman

“Apresentamos o Norman, a primeira inteligência artificial psicopata do mundo”, disseram os pesquisadores do MIT Media Lab, em comunicado. “Ele foi inspirado no fato de que os dados usados para ensinar um algoritmo podem influenciar significativamente seu comportamento. Norman sofreu de prolongada exposição aos piores recantos do Reddit — o maior fórum de discussões da internet — e representa um estudo de caso sobre os perigos da inteligência artificial quando dados enviesados são usados em algoritmos de aprendizado de máquina.”

Já escrevi por aqui sobre uma mania de guardar notícias, anotações ou coisa que o valha na esperança de que eles repousem e criem nova vida. O trecho acima descansou pouco. A data remete a 16 de abril, deste estranho ano de 2018. Publicada no jornal O Globo, a matéria trazia algumas imagens do teste de Rorschach, aquele das manchas de tinta, sabe? Somos dois na superfície do assunto. Criado em 1921 pelo psiquiatra Hermann Rorschach, esse é um teste psicológico projetivo, composto por 10 manchas de tinta impressas em cartões (cinco em preto e branco, cinco em cores). A ideia de Hermann era explorar as representações imaginárias das pessoas a partir das imagens mostradas.

Corte bruto no espaço-tempo. O tal Norman foi alimentado com imagens do lixo e do chorume da internet. O mesmo algoritmo foi exposto aos bancos de dados COCO (objetos comuns em contexto, na sigla em inglês) para ter uma base de comparação. As respostas para o teste foram absolutamente opostas. Um vaso com flores visto de perto, respondeu o robô-padrão. Um homem é morto a tiros, disse Norman. Um grupo de pássaros em cima de um galho de uma árvore, falou o padrão. Já Norman entendeu como a imagem de um homem sendo eletrocutado e morrendo em seguida.

Terminada a matéria, imaginei que deve ser assim que nascem os eleitores de um certo candidato da extrema direita. Pobres algoritmos alimentados pelo medo do outro, pelo ódio e por uma fé cega de que uma arma nas mãos resolverá qualquer problema. Não me proponho, entretanto, a seguir por esse caminho. Há outro mais fértil e inspirador. O psicanalista Donald Woods Winnicott, recente obsessão da minha esposa, é quem me faz trilhar: “É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral; e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o (verdadeiro) eu”. Criatividade é, nesse sentido, a capacidade de diferentes abordagens do indivíduo à realidade externa. E isso vale para o que nos agrada ou desagrada. Viver a vida com criatividade nos traz a noção de que ela vale a pena, mesmo quando os fatos indicam o contrário.

O escritor Haruki Murakami disse que sua vontade de escrever teve como origem uma partida de beisebol. Ao ouvir o “som agradável” do taco atingindo a bola, ele teve a tal certeza: “Nesse momento pensei subitamente, sem nenhum contexto e sem nenhum fundamento: ‘É, talvez eu também possa escrever romances’”. Sem querer comparar, mas foi em um show do Caetano e seus filhos que pensei no Norman, no Murakami, na violência que nos cerca e nas relações que gostaria de construir. Tomado pela delicadeza que havia no palco, na generosidade, na inventividade de Tom, optei pelo que vale a pena.

Winnicott acreditava que quanto mais radical é uma pessoa, mais pobre culturalmente ela é (alô, extremistas). Norman nos alerta, da pior maneira, que o ensinamento de valores éticos na inteligência artificial (puro reflexo de nós mesmos) é um passo distante. Entre fechar com Norman, prefiro Winnicott.

“Se a garotinha nos disser que quer voar, não nos limitemos a responder: ‘As crianças não voam’. Pelo contrário, devemos agarrá-la e fazê-la girar em torno da nossa cabeça, colocando-a depois no alto do armário, de modo que ela sinta realmente que está voando como um pássaro para o seu ninho.”

Criatividade é necessária para que a gente nunca se esqueça de sonhar em voar. Nem de ensinar a sonhar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Coluna do meio. Deu zebra.

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O enigma é lançado pelo guia turístico de Moscou. O frio não permite grandes elucubrações. A praça está tomada de policiais vestindo aquela coisa meio chapéu, meio gorro felpudo. Ushanka é o nome, descubro em uma pesquisa com os dedos congelados. Há barreiras por todos os lados, grades de ferro e um palco montado para o sorteio da Copa do Mundo. Sirenes não há. Um tira, palavra adorada desde a infância, vasculha os carros estacionados com uma espécie de vassoura com detector de metais na ponta, enquanto sósias de Stalin caminham à procura de uma foto remunerada. Apreensão no ar. O guia, porém, está com o seu grupo parado em frente ao imponente Hotel Moskva. Ele não parece ligar para nada do que acontece ao redor, toda a sua atenção está retida na edificação. O enigma é simples: o que há de diferente na fachada desse hotel? Escuto uma voz interna que diz “tempo” e penso no botão vermelho que devo apertar ao saber a resposta. Não sei. O guia faz a revelação.

(Nesse momento, a narrativa é interrompida para um flashback histórico que visa esclarecer o enigma. Trilha sugerida: Back in the U.S.S.R., The Beatles.)

Anos 30. A lenda diz que coube ao arquiteto Alexei Shchusev a dura missão de aprovar o seu projeto de fachada para o Hotel Moskva com o líder soviético Joseph Stalin, o real, não os sósias que perambulam por lá. A pressão não era pequena, posto que existia uma grande expectativa em torno da construção. Precavido, Shchusev levou duas opções de desenho, cada qual com suas peculiariades, embora levemente semelhantes. O problema é que ambos estavam na mesma página, e o líder, não percebendo, fez um xis marcando a sua escolha. O xis foi cravado no meio. Nem em uma nem em outra. Exatamente no meio, como quem aposta em um empate.

O arquiteto deixa a sala sabendo que questionar o líder não é uma opção. A obra é erguida com as duas fachadas laterais distintas. Uma mais austera, outra com leves adornos. A construção ganha um status de marco histórico. Frank Lloyd Wright, em visita a Moscou, ao se deparar com o hotel, afirmou ser um dos edifícios mais feios do mundo.

(Jump cut para os dias de hoje. Metáforas corporativas. Sugestão de trilha: Think, Aretha Franklin.)

Quando um líder não é claro nas suas escolhas, a equipe tende a correr atrás de todas as opções, tal e qual um David Luiz perdido no jogo contra a Alemanha. O que acarreta em um gasto desnecessário de energia e, em grande parte, com resultados pífios.

Um líder que comanda pelo temor, e não pelo respeito, dificilmente ouve um questionamento. Lá está ele, claramente equivocado, apontando para o precipício; e o rebanho corporativo, mesmo sabendo o fatal destino, o segue sem que ninguém levante a mão e fale: “olha, isso que você está falando não faz sentido”. O eu líder, o eu que tudo faço, o eu que sou foda não aceita contraposição.

Na direção de criação, a palavra direção não está ali para fazer figuração. E isso vale para todos os cargos de diretoria. Em algum momento, você tem de fazer uma escolha, apontar um caminho. Não dá para se esquivar.

Se a sua equipe não entende o que você fala, você tem um problema. Se ela não entende e sente que não há espaço para a pergunta, você tem dois. Se ela já não escuta o que você fala – porque, afinal, tudo terá de ser feito do seu jeito –, você não tem mais equipe, tem assalariados.

Juntar uma ideia daqui com outra dali raramente gera algo memorável. Na maioria das vezes, o que temos é um sushi de burrito. Parece que agrada a japoneses, parece que agrada a mexicanos, mas é uma bizarrice.

O meio é um lugar morno.

(Trilha final: Public Enemy, Don’t Believe the Hype)

A história do Hotel Moskva tem contornos de uma lenda, uma fake news de raiz. A versão alternativa diz que outro arquiteto do time e Shchusev não conseguiram chegar a um acordo e, então, fizeram uma fachada ao gosto de cada. O que nos leva ao mesmo resultado. Que o diga Frank Lloyd.

Vamos falar sobre o não falado?

Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando na direção contrária. Ele os cumprimenta e diz: “Bom dia, meninos, como está a água?” Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta: “Água? Que diabo é isso?” Assim, David Foster Wallace abriu um discurso de paraninfo para os formandos de uma universidade norte-americana, alertando para a consciência de que o real e o essencial ficam escondidos na obviedade, ao nosso redor.

Conversei com a Ritinha Almeida, a mente inquieta e brilhante do planejamento, que, a cada encontro, mesmo que seja breve, vem com um chacoalhão diferente. Quando fomos apresentados, ela saiu com essa, logo depois do prazer em conhecer: abriu uma agência? Não vai fazer a cagada de subir no salto, hein? Dessa vez, não era sobre o mercado que eu queria falar. O assunto que me interessava era o “Vamos falar sobre o luto?”, um projeto voluntário de um grupo de amigas que juntas criaram algo que emociona, toca e tenta tornar o luto um assunto possível. Já faz um tempo que eu conheci o site através do querido Paulinho Camossa, com o seu depoimento “Vai viver, cara”. Sem hesitar, posso dizer que é das coisas mais lindas e plenas que já li.

Conecto essa ponte com a Rita, e ela conduz o raciocínio: “A gente se transforma. É uma transformação imediata na sua vida. Você tem que ter uma nova visão e raramente fica no mesmo lugar. Primeiro, você tem um tranco. Eu não sabia que eu conseguiria lidar com um troço desses. Ao mesmo tempo, isso te deixa em outro nível para aguentar as coisas. Eu consigo olhar o mundo de um jeito diferente agora.” Ler os relatos também nos transforma a cada linha. É um exercício de empatia, do qual não saímos os mesmos.

Pergunto se os homens têm dificuldade em tocar no assunto luto. Não me espanto quando ela diz que quase 90% do público é feminino. Relembro a cultura do engole o choro, e é a minha mulher, psicóloga, que esclarece: “Quem não vive o luto dificilmente sai dele. E, assim, não há como se reinventar.”

Não sei ao certo quando e como devo falar sobre a experiência pessoal da Rita com o luto. Ela percebe, óbvio, e me enlaça: “Eu ganhei a possibilidade de falar do meu filho de um jeito muito de boa, sem vergonha, lembrando dele com carinho. A presença dele é muito maior em mim.” A capacidade de se colocar no lugar do outro, que ela exala, cobre a sala com a sensação de um cobertor quente e acolhedor. A conversa tem desdobramentos que a tentativa de reprodução aqui não chegaria aos pés do relato dela. Desligo o gravador, mergulho.

Discutimos a cultura egoica do mercado, questiono se não ficamos na superfície das coisas, ela relembra que, antes da causa, é imprescindível haver uma verdade. Desistimos dessa rota. Eu abandono a tentativa de fazer qualquer metáfora ou correlação com o que aprendi e ouvi. Escrevo aqui apenas como um convite para você conhecer o projeto. E quando digo conhecer, quero dizer estar aberto a se emocionar no meio da sua rotina.

Roubo mais uma vez da minha mulher: “Muitas pessoas são felizes e não sabem. Nao são capazes de perceber, pois estão olhando para o que não conseguiram, não fizeram, não conquistaram, não visitaram. Na outra ponta, há as pessoas com sensibilidade e percepção aguçada para o todo, para as conquistas e que aprendem com as perdas.”

E essa reflexão me leva aos peixes, à Rita, ao projeto, ao seu grupo de amigas que reinventam a vida. Ela sabe que diabo é a água, que há diferentes temperaturas no percurso. E, assim, ela continua a nadar e, de quebra, a nos levar com a corrente.

 

O ego, ele e eu

Éramos apenas nós três naquele canto do restaurante: o ego dele, ele e eu. A leitura corporal, na aproximação às cadeiras, me diz que eles escolheram os lugares. Sento de costas para um enorme espelho que dá uma certa amplitude ao ambiente. Percebo que eles não focam em mim. Solto um pigarro que aprendi a fazer imitando um amigo e pergunto se posso ligar gravador. Ele faz que sim, o ego assente efusivo e espalha-se ocupando a mesa. Os dois ajeitam-se cuidadosamente. O garçom se aproxima, eles pedem um espumante (o mais caro), escolho uma água com gás e limão espremido, não sem antes pensar que o limão espremido deve ter aumentado o tempo dos pedidos desde que virou moda. O ego fica ressentido por não ser reconhecido pelo rapaz, ele sugere silêncio, o ego solta um comentário mastigado, algo como “que lástima essa juventude que não reconhece os grandes”. Aperto o play do aplicativo, e isso me traz a lembrança de que o som do minigravador da Casio era mais simbólico.

Agradeço pelo tempo deles, faço um preâmbulo elogioso, pensado para amolecer a carne, e eles se envaidecem. Ele era um cara legal, relembro, e, por isso, pergunto quando o ego começou a tomar conta da cena. Ele não consegue responder, é atropelado pela primeira de muitas explanações: “Ele não existiria como vocês o conhecem sem que algumas regras do superego tivessem sido rasgadas. Inibição? Preferimos exibição, exaltação, aquela pulsão primitiva escondidinha, o desejo pelo sucesso sem acompanhantes.”

Não olho para o ego durante segundos, isso cria um incômodo, é proposital. Volto meu olhar para aquele sujeito equilibrado que surgia nas primeiras entrevistas, quando ainda não era tão reconhecido. Questiono se ele não sente saudade daquela pessoa que foi. O superego, ressentido com a resposta anterior, interfere. Ouço uma voz quase inédita: “Sinto. Esse personagem tomou conta e ele tem um custo. Não distingo mais o que é amizade ou interesse, preciso de muito para ser feliz, perdi amigos por ficha técnica.” Quando o ego interrompe: “Papinho besta. Comi a sua empatia, lambi os dedos e você gostou dessa liberdade, das ausências repentinas de consciência sobre quem o cerca. Foi um trabalho de equipe que nos levou até esse patamar, não tente pular fora, jogando tudo na minha conta.”

Acalmo os ânimos com um novo ramalhete de elogios, chegam os espumantes e a água com gás, esqueci de pedir gelo. Já não sei por que vim, talvez o romantismo de acreditar que havia ali um resquício de simplicidade. E há. Ele puxa um fiapo da calça, com um leve olhar perdido. Lembro de ter visto esse tique ao rever suas primeiras entrevistas. É uma busca por segurança. Nem tudo ali é inabalável como ele faz crer ao falar. O discurso centrado no “eu” construiu camadas de máscaras, mas ele ainda está ali. Falo da sua infância no subúrbio, das ruas de paralelepípedo, do cinema que virou igreja evangélica, do sabor da bala Banda. Ele ressurge e o embate é inevitável. Ele diz pipa, o ego rebate voo de primeira classe. Ele fala pracinha, salada mista, e o ego contrapõe com cinco estrelas, camarote vip. Ele revive a sensação de raspar a massa de bolo crua, o ego enumera delícias mundo afora. Ele desiste cansado. O ego parece saciado, engano meu.

Eles degustam meu dissabor em uma sequência de “eu fiz”. Os garçons e eu viramos um teatro de bonecos. Por sorte, alguma conexão me trouxe uma canção do Luiz Melodia e agora batuco de leve, com os dedos na mesa, para marcar o tempo de “se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais”. Pago a conta, ficamos de pé, e eu finjo: “foi um prazer”. Eles dizem juntos: “entendemos que tenha sido”. Ao encontrar a rua, sento para olhar os pedestres e imaginar suas vidas. Teria sido mais interessante gastar o tempo aqui, reflito com uma certa trava de limão na boca.