O que está acontecendo?

Há um momento em que começo a me afastar da cidade de São Paulo. Quando as luzes diminuem, dando lugar aos faróis dos automóveis ávidos por chegarem a outro destino. Nesse momento, quando sinto que o silêncio começa a se fazer mais presente, dou lugar a uma voz que tem sido constante na rota entre a cidade de São Paulo e a praia de Camburi. São duas horas e vinte minutos na previsão do aplicativo, tempo suficiente para um episódio do podcast Discoteca Básica e para, em seguida, ouvir o disco que foi destrinchado com sabedoria pela voz do jornalista Ricardo Alexandre. Em uma dessas viagens dentro de uma viagem, uma passagem sobre um dos álbuns mais importantes da história, “What’s Going On” – do Marvin Gaye, ficou anotada na cabeça. Resolvi falar com o Ricardo Alexandre e ouvir um pouco mais sobre o assunto. Dessa aula, sai o texto a seguir.

Entre 1962 e 1971, a gravadora Motown, que se intitulava o som da América jovem, havia colocado nada mais, nada menos do que 240 hits no top 40 das rádios norte-americanas. Um número impressionante, fruto de uma visão revolucionária e fortemente empresarial na concepção de hits ao lado dos seus artistas, quase todos negros, aliada à uma construção de sonoridades particulares que influenciaram a música pop como conhecemos até hoje, de Beatles a Beyoncé, de Bob Marley a Frank Ocean. O trabalho da Motown era quase fabril, com a mentalidade de uma linha de produção, com padrão de qualidade, mas dependente de criar em grande escala. Fazia-se muito e aproveitava-se o que engajava mais em formato de baladas, canções românticas e músicas dançantes. E essa fórmula deu muito certo. Nomes? Diana Ross & The Supremes, Stevie Wonder (um dos deuses do meu Olimpo musical), The Four Tops, The Temptations, The Jackson Five, Martha Reeves and The Vandellas e, é claro, Marvin Gaye. 

Marvin, o personagem principal do texto, a voz que parece uma divindade por si só, entra em conflito com esse jeito de criar da Motown e com a sua própria produção. Não obstante ele tem que lidar com a dor do falecimento precoce da parceira musical Tammi Terrell (de Ain’t no Mountain High Enough), com os relatos do irmão que retornara da Guerra no Vietnã, com a violência policial, com o racismo. Nesse balaio todo, Renaldo “Obie” Benson, dos Four Tops, começa a escrever a canção “What’s Going On” depois de testemunhar a polícia atirar contra estudantes no Parque do Povo, em Berkeley, episódio que ficou conhecido como “Quinta-feira Sangrenta”. A frase, que viria depois a se tornar o título da música, é uma reação imediata aos fatos: o que está acontecendo? Al Cleveland entra no bolo e aumenta o espectro da letra; depois, Marvin Gaye chega para dar aquela temperada final no que viria a ser uma das melhores canções de todos os tempos. E aqui começa toda uma peleja com a Motown.

Nas palavras do Ricardo Alexandre, uma explicação para essa inquietação de Marvin: “A arte joga sempre com o imprevisível, com o suspeito, com o impensável. Ela tenta materializar o que foge das estatísticas.” Mas como provar isso dentro de um contexto em que tudo funcionava tão bem? Bom, quando Barry Gordy, o dono da Motown, ouviu a canção pronta, disse apenas: “É a pior coisa que eu já ouvi na vida”. No outro canto do embate, Marvin Gaye exclamava sobre a estranheza de cantar canções de amor com um mundo explodindo à volta. Próximo round.

O controle de qualidade da Motown reprova a música, Marvin pega o seu boné e diz que só voltaria se a canção fosse lançada. Não era bravata. Fato consumado, a gravadora fica sem canções do seu astro para o Natal daquele ano. Cabe ao produtor Harry Balk o papel de sensato e louco ao mesmo tempo. Ele vai contra Barry Gordy, manda prensar 100 mil cópias do single e lança na marra. Sucesso instantâneo nas paradas, “What’s Going On” começa ali a garantir o seu lugar na história, indo contra todas as boas e pretensamente infalíveis fórmulas da Motown.

Parênteses para um detalhe sobre a importância de respeitar o acaso: se você ouvir a música, vai perceber uma sobreposição de vozes do próprio Marvin Gaye. Parece uma ideia genial, pensada e trabalhada, mas foi um acaso. O cantor tinha o costume de registrar diversos takes de voz para escolher a melhor interpretação. Na hora de ouvir, o engenheiro de som colocou, sem querer, dois canais tocando simultaneamente. Marvin usou essa combinação para dar uma camada a mais de molho na canção. Sugiro que procurem no YouTube por registros do canto de Marvin sem os instrumentos. É uma experiência de outro universo.

Continuo com mais uma frase do Ricardo Alexandre: “Eu acredito na cultura de mercado, na arte de consumo… eu não acho que essa seja uma dimensão inimiga da criatividade…” Segue ele: “Por outro lado, se um departamento comercial de marketing que não respeita e não valoriza o artista rebelde, o artista de confronto, a arte fica dominada pela resposta previsível que se pode quantificar e mensurar pelas pesquisas. Isso leva a uma arte estagnada. Leva a uma indústria que só produz o que o público já disse que quer consumir.”

Para finalizar, pergunto sobre um certo otimismo dele em acreditar que a criatividade sempre rompe as barreiras. Ao que ele respondeu: “Em algum momento, os departamentos de marketing tiveram de admitir que talvez Madonna misturando religião com pistas de dança pudesse agradar, que a Legião Urbana com músicas quilométricas e letras sem refrão pudesse funcionar, que talvez Roberto Carlos romper com a fórmula da Jovem Guarda pudesse ser um sucesso. A história mostrou que a ousadia dá certo.” 

Há um momento em que o carro começa a se afastar de Camburi. É quando penso: o que os bastidores de um disco nos reservam desta vez? Toca o próximo episódio. Longa vida à criatividade, aos artistas rebeldes e aos contadores dessas histórias musicais.  

A falta de um retrato completo

“Um fato observado sob um ponto de vista, te dá uma impressão. Observado sob um outro ponto de vista, te dá uma impressão completamente diferente. Porém, só quando você tem o retrato do fato por inteiro é que é possível entender a totalidade do que ocorreu.” Traduzido aos trancos e barrancos, este é um texto que considero fundamental na história da publicidade. 

As cenas que ilustram esse texto contam três momentos bem distintos. Cada frase acompanha um determinado momento. No começo do comercial, vemos um homem que parece estar fugindo. No outro ponto de vista, vemos esse mesmo homem indo na direção de um senhor que está de costas para ele. O senhor parece perceber a chegada do homem e vira para se proteger. Ele usa a sua pasta de trabalho para se defender daquilo que parece ser um assalto. Até que finalmente, a câmera nos revela a cena por inteiro. O homem correu na direção do senhor porque ele estava caminhando próximo a uma obra. Uma parte do material da obra está sendo içada e o homem percebe que o material vai desabar sobre o senhor. Então, aquilo que sob um ponto de vista parecia ser um homem em fuga, que sob outro ponto de vista parecia ser uma cena de assalto, acaba por revelar que era, na verdade, um ato heróico de salvamento. 

Esse é considerado um dos melhores comerciais de todos os tempos. “Points of View” é o nome da peça, o jornal “The Guardian” era o cliente, a agência era a BMP. Frank Budgen foi o redator dessa pequena maravilha que nos ajuda a refletir sobre o papel do jornalismo, mas também sobre como devemos observar os fatos em um mundo cada vez mais complexo. Onde a verdade é facilmente manipulável. Não bastasse ter criado este comercial, Frank construiu uma carreira brilhante como diretor. Das suas mãos e do seu olhar saíram incontáveis obras atemporais da publicidade. “Tag” de Nike, “Mountain” de Playstation, a corrida de lesmas da cerveja Guinness, a fuga do sofá de Reebok são apenas algumas delas. Recomendo a leitura de textos de algumas pessoas que trabalharam com Frank Budgen: https://davedye.com/2019/08/27/hands-up-whos-heard-of-frank-budgen/

“Points of View” é uma peça de publicidade criada no distante ano de 1986. Se parte da realização pode até soar datada para alguns, não podemos dizer o mesmo da mensagem. 36 anos depois continuamos a observar pontos de vistas distintos serem puxados para os extremos sem que a gente consiga chegar a um retrato completo dos fatos. Fica a sensação de que quase ninguém quer ouvir ou refletir. Todo mundo quer apenas falar. Porque dialogar pode nos levar a uma desconstrução das nossas crenças. Ou das nossas verdades absolutas tão valiosas. 

Em uma palestra pré-pandêmica que tive a oportunidade de assistir, o neurocientista Facundo Manes dissertou sobre o fato do cérebro humano trabalhar de uma forma parecida há mais de 60 mil anos. Detectamos o perigo e, então, temos que tomar uma decisão: fugir para sobreviver ou enfrentar. Na palestra, ele ilustrava essa fala com um exemplo de um vulto de uma cobra. O que é mais importante? Sobreviver na crença do deixa para lá ou chegar pertinho e comprovar que é mesmo uma cobra? Pense em quantos incautos (ó que bicho fofinho) e corajosos morreram até que a gente aprendesse a lidar minimamente com as cobras e seus vultos. Uma curiosidade aqui: a antropóloga Lynne Isbell, no livro “The Fruit, the Tree, and the Serpent: Why We See So Well” traça a teoria que o sistema visual evoluiu nos últimos 60 milhões de anos para detectar os répteis. Saber que o perigo (ou a verdade) existe nos poupou da extinção. 

Hoje, para quase todo assunto há a falta de um retrato completo. Um grupo defende a empada com azeitona como a única alternativa possível. O outro defende a extinção das azeitonas nas empadas, nos pastéis e, se possível, em toda a gastronomia. Discutir como chegar naquele ponto entre o esfarelamento e o derretimento perfeito da empada, ninguém quer.  Estamos lidando com assuntos como quem lida com o coentro ou com a bala de canela. É amor ou porrada. É “gosto de sabão”ou “tempero essencial”; “sabor de desinfetante”ou “você não tem paladar para isso”.  É a “coentrização” das discussões em quase todas as esferas. 

Nessa mesma palestra citada, Facundo Manes falou do conforto que existe em ficarmos abraçados às nossas crenças. Especialmente, quando encontramos um grupo para chamar de nosso. Lembro da avó de um amigo que não acreditava de jeito algum que o homem tinha ido à Lua. E da felicidade que ela tinha em citar os amigos que compartilhavam da mesma opinião e de espinafrar o grupo que não acreditava nela. Não havia dominó que resolvesse aquela cisão. Hoje, inclusive, ficou muito mais fácil achar uma turma toda sua. Um exemplo? Vi uma manchete que dizia: “Por dentro do “Tinder antivax”: o grupo de namoro onde vacinado não entra”. 

Volto ao complexo da “coentrização”. Segundo um estudo da Universidade de Chicago feito por Nicholas Ericksson, o coentro é rico em aldeído, um composto orgânico presente na baunilha, na canela e no sabão. Quem não gosta de coentro ou da bala de canela, pode ter uma sensibilidade ao aldeído nos receptores olfativos do cromossomo 11. Daí, fica realmente impossível gostar. Não é uma percepção de gosto. É genético em alguns dos casos. E isso traz uma nova camada de informação para os times do coentro e da bala de canela. Ou, pelo menos, um retrato mais completo mesmo em um assunto tão banal. Ah, caso não seja genético, tente colocar o coentro no início do cozimento que fica mais suave.

Sol e sós

A janela repleta de adesivos contava uma história do surfe no Brasil sem que a gente soubesse. A maioria das marcas não existe mais. Vou citar algumas e peço para que você faça um exercício de visualização desses nomes junto comigo. Muitas dessas marcas carregavam um arco-íris ou um sol. Era uma época de muitas cores e todas essas cores ficavam espalhadas por janelas de quartos, capas de cadernos, janelas laterais dos carros. K&K, Cristal Graffiti, Pier, Company, Pakalolo, ElectricLight, Op, Fico, Tico, Sundek, Redley, Alternativa, Rato de Praia, Hang Ten, Lightning Bolt, Hang Loose. Na TV, a série Armação Ilimitada rompia com os limites da forma de contar história e nos fazia sonhar com a vida de surfista. Os acordes de Girl Afraid, do The Smiths, anunciavam o programa Realce do imortal Ricardo Bocão, personagem fundamental da história do surfe no Brasil, e do seu companheiro lendário, Antônio Ricardo. Foi lá que eu vi a imagem heroica do surfista Michael Ho dropando Pipeline com o braço quebrado. O pier de Ipanema não existia mais, mas a aura permanecia nas areias. O delegado Elói, que se orgulhava de ter prendido Gilberto Gil pelo simples porte de um baseado, marcava preconceito com o seu bordão: nem todo maconheiro é surfista, mas todo surfista é maconheiro. Pais repetiam esse bordão e maldiziam as tatuagens e as pranchas. Enquanto isso, Caetano cantava sobre o dragão tatuado no braço, o calção e o corpo abertos no espaço. O Havaí seja aqui era o sonho de surfistas e até de não surfistas. E continua sendo até os dias de hoje. Há algo de mágico no universo do surfe, uma corrente silenciosa a nos puxar para o fundo do oceano da imaginação. Entre o imaginário e a vida de um surfista de competição há, porém, um redemoinho brutal. Boa parte dos surfistas profissionais vive entre o sol (com uma rotina que nos parece idílica) e o sentimento de estarem sós. Falo disso mais tarde.

Surfistas amadores costumam fazer grandes deslocamentos de carro apenas para surfar. Ou emendar uma sucessão de transportes urbanos pelo prazer de chegar ao mar. Uma viagem internacional de surfe pode consistir em pegar um avião até a Cidade do México, esperar no aeroporto por algumas horas e embarcar para Huatulco. De Huatulco são mais duas horas e meia de carro até Salina Cruz. E de Salina para os picos, a viagem leva, em média, uns 40 minutos sacolejando. Comparado com um roteiro para a Indonésia ou Austrália, é coisa simples, até. Contando assim, essa volta toda para pegar onda não faz sentido algum. Para quem surfa, entretanto, basta uma primeira onda boa para justificar essa peregrinação e esquecer a dor na lombar, sem o uso de Tandrilax. “Sal faz bem” é o jeito que costumo pontuar o apagar das luzes de cada dia incrível no mar. Ou furto aquela frase que aparece em algumas postagens: a cura para tudo é água salgada: suor, lágrimas e o mar. Os adesivos na janela da minha casa eram uma forma de trazer o mar para perto.

Um levantamento de 2019 feito pelo Instituto Brasileiro de Surfe (Ibrasurfe) constatou que o esporte movimenta R$ 7 bilhões ao ano em pranchas, roupas e acessórios, sendo que 70% do público consumidor é composto por não praticantes. São admiradores que vestem as marcas como quem veste uma praia paradisíaca. Nesse sentido, a roupa de surfe cumpre a mesma função do adesivo na capa do caderno. Ela faz com que você se sinta parte daquele universo, ela ajuda no sonho de parecer estar lá. A indústria do surfe no Brasil tem tudo para crescer ainda mais nos próximos anos. São mais de 50 milhões de pessoas acima de 18 anos que dizem se identificar com o estilo de vida e, pelo menos, três milhões de homens e mulheres surfando pelo Brasil. O crowd só deve engrossar.

Aqui, volto para o surfe profissional e a sua imagem quase perfeita. Um surfista ou uma surfista de competição lidam com percalços incalculáveis. Digo incalculáveis por dois motivos. Porque, inconscientemente, foi criada a sensação de que aquilo ali é o trabalho dos sonhos, que eles não têm problemas, que é só surfar e pegar sol. E porque o custo para correr um circuito e ter alguma chance de entrar na Liga Mundial é proibitivo. Para disputar todas as etapas do QS, o Qualifying Series, eu chutaria algo na faixa de R$ 200 mil reais. Se der tudo muito certo, ainda vêm as etapas CS, a Challenger Series. Medina, Ítalo Ferreira, Tati Weston, Filipe Toledo e mais alguns poucos nomes ganham os olhares das marcas. Mas a realidade é que há uma infinidade de atletas por todo Brasil com pouquíssimo apoio. Mesmo na Liga Mundial, há uma disparidade de investimento. O Jadson André, surfista potiguar, que o diga. A Brazilian Storm, que tanto assombra os gringos, poderia ser muito mais poderosa. Surfistas profissionais sonham com o adesivo no bico de prancha.

Conheci recentemente o surfista Victor Costa. Nascido e criado na Vila de Ponta Negra, Natal. Surfe sólido e bonito, atleta focado, carreira repleta de títulos amadores, uma história de vida daquelas que você abraça no primeiro capítulo. Entre tantas coisas que me chamaram atenção nele, a visão sobre o mundo do surfe de competição e as suas barreiras no Brasil. Com 22 anos, Victor deveria estar com todo suporte possível para correr as etapas do circuito de classificação. Não está. Nem ele, nem tantos amigos e amigas que ele cita elogiando. Victor desenvolveu uma visão sobre o surfe que começa a desenhar uma nova carreira para ele. Ele é obcecado por cada detalhe da movimentação de um surfista. E sabe ajudar a corrigir esses movimentos. Vai ser um técnico brilhante. Mas muito antes disso, é um surfista que dá gosto de ver na água.

Há entre o adesivo na janela e o adesivo no bico de prancha, um imenso espaço a ser preenchido pelas marcas. É preciso fazer com que o consumidor sonhe com o mar, mas é preciso dar suporte para que a nova geração de surfe possa chegar ainda mais forte no circuito. Meninos e meninas repletos de talento não faltam. E eles não deveriam estar sós.

Sabedoria de um cão velho (escrito antes dele partir)

O meu cão deita sob a luz do sol sempre que o sol se faz possível. Ele parece saber o momento certo de caminhar até a varanda e soltar o corpo como quem ouve Caymmi à tarde, na praia, vento no coqueiro imaginário. O suspiro de descanso cruza a casa. O ronco se faz ouvir. De todos nós, ele é o ser mais sábio da quarentena porque vive cada momento como se fosse eterno. Não satisfeito, ele faz questão de exibir uma ausência de pressa e se espreguiça longamente, como quem faz do ato uma lição do professor de “Sociedade dos Poetas Mortos”. Ele é o John Keating do lar, personagem de Robin Williams, a nos relembrar aquela tatuagem dos anos 90: carpe diem. Ele será meu ponto de reflexão.

Nas atuais circunstâncias, eu jamais deveria ter lido “A Peste”, de Albert Camus, mas li porque me foi irresistível. A verdade humana que exala das páginas chega ao presente com uma atualidade premonitória e me leva a refletir sobre a triste capacidade que o ser humano tem de repetir os mesmos erros. Apesar de escrito em 1947, o romance soa como um estudo preciso sobre os dias de hoje. Um dos personagens, em dado momento, diz: “O que é verdade em relação aos males deste mundo é também verdade em relação à peste. Pode servir para engrandecer alguns. No entanto, quando se vê a miséria e a dor que ela traz, é preciso ser louco, cego ou covarde para se resignar à peste.” Não farei grandes ilações, mas basta adicionar um “e daí?” para sabermos de quem o personagem estaria falando por agora.

Volto ao cão da casa, agora com o seu devido nome: Pulga. Um senhor de 13 anos de idade, que tem a coluna cansada e uma audição que capta apenas os sons que lhe importam: o toque do interfone, o barulho da faca a cortar o pão francês, o abrir da porta do quarto, a ração que ressoa no pote. Sua audição seletiva, que lhe dava ares de felino, foi se aprimorando com o passar do tempo. Invejo essa capacidade porque ouço demais – e porque convivo, neste momento, com uma obra cujo um dos maquinários parece uma bruxa a uivar pela manhã. Sinto que, se eu quisesse conversar com ele sobre “A Peste”, só depois de muita insistência, receberia uma resposta neste estilo: “é, as coisas se repetem, sei como é. Corta um pão francês quentinho que eu chego logo mais”. Simplificaria tudo.

Em recente entrevista, o filósofo Mario Sergio Cortella deu mais uma aula. Não é o tipo de coisas que gostamos de ler, porém se faz necessário. “(…) quando se olha a humanidade ao longo da história, percebe-se que nunca demos sinais de que aquilo que nos traumatiza, quando termina, nos redime. As lições são aprendidas por uma parte, mas há uma outra parte que só quer voltar ao normal”.

Ressalto o Cortella porque, como seres humanos, tendemos a evitar a dor (como a de refletir sobre nós mesmos) e muitas vezes negamos os sinais que vão contra as nossas crenças. Deveríamos caminhar todos para tirar alguma boa lição dessa experiência, mas parece utopia ou sonho bom da quarentena. Em uma metáfora exagerada, penso no terraplanista convicto que estava prestes a fazer um cruzeiro para comprovar sua tese. Um cruzeiro que iria até a beira do mundo usando – veja você – um sistema GPS (pode pesquisar essa notícia na internet). Sem perceber, podemos ser “o terraplanista das nossas crenças” quando não as confrontamos.

O Pulga carrega as certezas que lhe cabem e, mesmo assim, são vãs. Ele anda um pouco esquecido e, por vezes, parece não saber exatamente onde está. Mas há um outro lado dessa vivência: ele quase se afogou na quarentena e não se traumatizou. Por esquecer, ele não remói as coisas. Meia hora após o susto, ele estava feliz porque era hora do jantar e podia tentar a sorte de cadeira em cadeira, na esperança de um naco de carne. Ele vive o presente, não faz grandes desenhos de futuro, esquece o que o machucou no passado. Uma lição um tanto complicada para reles humanos, ele deve pensar.

Anotei também uma frase do sociólogo francês Dominique Wolton, profundo estudioso da comunicação. Disse ele: “Por que nessa pandemia as pessoas foram para a janela cantar e se comunicar com outras pessoas? Porque queremos sempre encontrar alguém, abraçar alguém. É aquilo que defendo há 30 anos: a superioridade da comunicação humana sobre a técnica”. Abraço esse pensamento em um abraço possível nos dias de hoje. O empobrecimento das interações humanas é um dos traços da atualidade. Ganhamos no avanço tecnológico, perdemos na convivência com o outro.

Já o meu cão velho pensa diferente. Ele ganhou mais do que sempre teve. Mencionei a coluna cansada, mas, desde o começo da pandemia, ele parece não sentir mais dor. A movimentação dele pela casa ganhou contornos de um Benjamin Button: um idoso jovem a pedir para jogar o brinquedo, a dar pequenas corridas, a fugir da hora de escovar. Por estarmos todos juntos, ele está infinitamente mais feliz. A todo momento, há um carinho, uma fala, um encontro de corredor. Sumiram as dores, melhorou o humor. Bastou mais interação.

Outro detalhe que gosto muito nele (e nos cães em geral) é a falta de pudor na hora de mostrar que sente saudades, que ama uma pessoa. Das saídas de casa, todo retorno tem a trilha sonora de um uivo quase rosnado que ele faz. Esse som estranho, de um cão que não sabe latir, é conhecido por todos que ele ama. Fosse um humano, o Pulga estaria a cantar na janela com voz esganiçada ou a abraçar cada um em casa, sabendo que é melhor pecar pelo excesso do que pela ausência de carinho.


Enquanto escrevo, ele está deitado embaixo da mesa. Ele soltou um suspiro que é o som do seu corpo relaxando. Há nesse suspiro muito mais do que sou capaz de traduzir. Hoje fez sol, o vento bate no coqueiro imaginário e olho para ele como quem mira um sábio. Porque mal sabe ele que tudo sabe.

Pequena ode aos quietos

Em um processo de seleção, marquei uma conversa com um redator. Nas palavras da pessoa que o indicou, não sobravam dúvidas: “É um cara que todo mundo quer estar perto, aquele que a gente procura nos problemas porque sabe que ele vai te ouvir”. Curiosidade nas alturas, fui rumo à videoconferência na esperança de que a tela fosse um mero detalhe entre nós. E assim foi. No meio do papo, verbalizei que ele parecia maduro demais para a idade, como quem carrega uma antiga sabedoria na pequena mochila da vida. A surpresa, no entanto, veio de um questionamento que ele trazia consigo: que talvez fosse quieto demais, que postasse de menos, que não era uma figura que se destacava nas redes sociais, por assim dizer. A conversa se esticou ainda mais, desejei que a gente estivesse num boteco, mas findamos como quem anseia pela segunda dose da vacina para um encontro real. Ele não aceitou a proposta, mas guardei uma admiração grande e, de quebra, fiquei com os seus questionamentos na cabeça. Tomei como meus. Afinal, o que é aparecer de menos quando se tem um bom trabalho?

Não há aqui a intenção de uma comparação entre os personagens, mas me lembrei dessa conversa quando o Charlie Watts faleceu. Da bateria do Charlie pulei para a marcenaria do Paulinho da Viola. E vou tentar fechar esses pontos abertos como quem traça uma pequena ode aos mais quietos.

Por uma dessas bobagens irresistíveis e até inexplicáveis, tendemos a escolher a parte favorita de um conjunto. Outro dia, vi uma postagem que dizia: “Você tem uma boca favorita do fogão, pode revelar.” Eu tenho. É a do canto inferior direito. O mesmo vale para integrantes de bandas. Dos Rolling Stones, o meu Stone de coração é o Keith Richards. Porém, Charlie Watts era – por quilômetros de distância – o mais elegante deles. Talvez o roqueiro mais inesperado e indecifrável em seu jeito sem alardes e no sorriso contido.

Quando pensamos nos Stones, os riffs de guitarra e a performance explosiva de Mick Jagger parecem tomar a frente. Acontece que boa parte do jeito da banda tocar deriva daquela batida quase simplista, enigmática, sem exibicionismo. Na canção “Miss You”, famosa por uma gaita que todos conseguem cantarolar, a bateria de Charlie Watts imprime uma elegância invejável. O mesmo vale para “Start me Up”, em que o baterista preenche os intervalos com a sua batida seca e uma assinatura musical que todo musicista sonha para si. Ele era identificável com poucas notas. Segundo o baterista Charles Gavin, Watts conseguiu um lugar raro:   “Ele alcançou no instrumento algo muito difícil para todos os músicos, que é a lei básica do ‘menos é mais’.” Mesmo olhando para a bateria isoladamente, Charlie Watts era econômico. Por toda a vida, ele usou o mesmo modelo, uma “Gretsch” sequinha, sem grandes arroubos. A batida dele deu à banda um elemento complicado de se copiar. Afinal, quem ousaria ser tão simples? Na minha canção favorita da banda, “Gimme Shelter”, a entrada da bateria é uma coisa linda dentro de tantas coisas bonitas da música.

De Watts pulo para Paulinho da Viola, cuja quietude emana muita sabedoria e cuja elegância – olha ela de novo – nos convida a abraçar os detalhes. Pois, se vivemos em um mundo onde todos falam ao mesmo tempo, é preciso saber apreciar quem se faz ouvir sem estardalhaço. Paulinho é o meu recanto de quase silêncio cantado. Se para alguns artistas há uma certa atração nossa em aumentar o volume para escutar, com ele sinto que a música parece estar sempre em uma frequência possível de se ouvir até no volume um. É como um mantra. Desde o tom da voz até o jeito de tocar, tudo nele me acalma. As letras mais dolorosas, inclusive. “Desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão”. As palavras são escolhidas em um trabalho de marcenaria fina. Uma outra arte que, aliás, ele também domina quietinho.

A música de Paulinho é atemporal como o seu aprumo. Em 1969, cantava palavras que poderiam ser ditas hoje:

“Me perdoe a pressa.

É a alma dos nossos negócios.

Oh! Não tem de quê. Eu também só ando a cem.

Quando é que você telefona?”

Paulinho é um mar calmo de silêncio, em um universo bravio de falas.

Pequena pausa. No episódio “A Era dos Introvertidos”, do podcast Boa Noite Internet, Cris Dias nos leva por um passeio que recomendo ouvir. O mesmo Cris, em 2012, reflete sobre uma matéria que sugeria que introversão era um tipo de chatice: “Será essa mais uma prova de como nossa sociedade acha que ser extrovertido é sempre certo e ser introvertido é sempre errado?”.

Se uma árvore cai em uma floresta e não há ninguém para ouvir, ela faz barulho? Não sei. Mas houve um tempo em que voltar pra floresta e encontrar o tronco no chão era o suficiente. Há uma ansiedade nos dias de hoje de que o fazer não parece bastante. É preciso mostrar o que se fez, é preciso postar, contar, colocar destaque. Há uma pressão para fazer barulho, para comprovar que caiu o tronco.

Se na música observo os que sabem usar a quietude, na vida não entendo quem esquece o poder compositor do silêncio. Vivemos em uma orquestra em que prevalece um desespero para que escutem o instrumento que você está tentando tocar, pois todos os outros estão tocando ao mesmo tempo e a esperança de um solo é ínfima. Nesse mundo, uma pessoa com um trabalho muito bom pode questionar que aparece de menos. Prefiro sugerir outro prisma: em uma indústria em que a criatividade é uma peça importante, não é emblemático que a grande maioria dos posts de autoelogio disfarçado pareçam ser os mesmos? Essa é uma questão que deixo no mar, que não tem cabelos que a gente possa agarrar. E que ele nos leve para caminhos mais quietos e elegantes de se navegar.

PS: Dedicado ao Pulga, o cão que acompanhou a minha família por quase 14 anos com seu silêncio sábio. E à minha sogra que tanto me ensinou e que me entendia no barulho e no sossego.

O ano acabou

Foto: Marcão Medeiros

Vai, pega uma cerveja gelada, que o ano acabou. Não teve samba na rua, não teve euforia libertina, ficou uma demanda reprimida, e o churrasco, até isso derrapou. O ano acabou. 

Vai, abre essa cerveja gelada, pega aquele copo americano riscado, risca o calendário, olha pra frente, o tempo parece nublado, mas não tem jeito. Foguete não dá ré, mas as ideias retrocedem. Bora puxar esse bonde rumo ao que vem. O ano acabou, e quem não está acabado?

Vai, serve, escuta o barulhinho, enche o copo devagar como uma sexta que nunca chega, como os minutos na sala de espera. Reflete o que passou, já enxugou a mágoa, mas não passou pano. Torce. Torce para entrar molhado de água salgada. Torce, que o ano acabou. 

Vai, é hora de aproveitar aquele primeiro gole. Preparar um passeio pelas lembranças boas que sobraram. Rodar pelos caminhos que valeram. Vai, que é vacina, não é cloroquina. Como escutei outro dia, estamos com os dedos roxos de carregar as sacolas pesadas, mas ninguém solta até chegar em casa. O ano acabou, mas a gente segue daqui.

Vai, encosta o copo na mesa, passa a mão pela marca do líquido que ficou na madeira, esfrega o dedo fazendo com ele um novo desenho, não pensa demais. Já são quase dois anos duríssimos e com tanta gente que partiu num rabo de foguete. Choram Marias e Clarices. A gente sonha viver um momento histórico, mas ninguém avisa que a gente não escolhe o momento. Você pensou que seria incrível estar na Queda do Muro, no sítio dos Novos Baianos, no estádio com um Pelé de 17 anos a desfilar lençóis, e o destino veio com pandemia. É sacanagem. O ano acabou. 

Vai, vamos puxar algumas lembranças boas daqui, pois chorando eu vi a mocidade perdida. Não quer ir? Eu vou. Deixa que eu puxo as primeiras que me vêm. Depois é a sua vez, combinado? Gilberto Gil na cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras trouxe aquele efeito solar que só alguns fatos e pessoas são capazes de produzir. Não pela Academia, mas pelo que Gil representa na cultura brasileira, com sua erudição popular que transcende o saber acadêmico porque Deus lhe deu régua, compasso e poesia. Teve gente que chiou um chiado de remédio efervescente. Fez barulho e sumiu na água amarga. É gente sem sim, sem som, sem sal. Gil é refazenda, refavela, refestança. Gil é Drão, de um amor que é como um grão que morre e nasce trigo, vive e morre pão. E a fé tá num pedaço de pão, como ele cantou em “Andar com Fé”. Gil é o canto de Caetano a nos lembrar que só os sons e os dons geniais nos salvarão das trevas e nada mais. O ano acabou.

Vai, não vai, sigo eu. Sorve a cerveja, então. Entrei o ano lendo “Torto Arado” e, como tantos outros leitores, ainda sou capaz de sentir a aflição da junção das palavras faca e língua. Na sequência, pedi para um amigo uma lista de livros de autores brasileiros. Pedir listas para amigos abre muitas portas, e aqui não foi diferente. Através dele li “O Avesso da Pele”, do Jeferson Tenório; “Solução de Dois Estados”, do Michel Laub; “Marrom e Amarelo”, do Paulo Scott; “Enterre os Seus Mortos”, da Ana Paula Maia, e “Suíte Tóquio”, da Giovana Madalosso. Tem coisa boa pra valer sendo escrita no Brasil. Não o bastante, ainda teve o retorno do Marçal Aquino, com capa lindíssima do Marcelo Tolentino. Marçal sabe dos paranauês todos. Outro que sabe demais é o professor Luiz Antonio Simas, que soltou um livraço sobre o Maracanã. E teve o Chico Buarque em contos. A arte literária brasileira contemporânea fará ainda mais sentido nos anos seguintes. O ano acabou. 

Vai não, agora engatei. Lembrei do xadrez com capoeira do amigo Felipe Silva. Vida longa à Gana. Salve, Ary! Salve, simpatia! Boa noite, boa noite, bom dia. Salve, Jorge! Salve, Mano Brown! Salve, Mano a Mano! O melhor conteúdo do ano vem cercado de muita gente boa fazendo acontecer. Semayat Oliveira, Jaque de Paula, Renata Hilario (obrigado por mexer no texto), Eliane Dias, Kaire Jorge, Jef Delgado. A curiosidade que sobra no Mano e a genuína vontade de ouvir criaram um lugar especial demais para ficar em 2021. O cara está ali entregue para aprender, trocar, inspirar, espalhar conhecimento. “O doutor era gangueiro” foi um dos risos mais soltos que deixei no ano. Os chiadores chiam, e o Mano Brown sabe mais que a Academia da Porra Toda. O Coruja versando em quatro minutos, também. O ano acabou.

Vai, vai, malandra, a Anitta tomou conta do mundo. A Rayssa Leal tomou conta das pistas. Ficamos com aquela sensação de inveja da confraternização entre as atletas do skate. Em um mercado que puxa para baixo, é bom ver quem joga para cima. No dia em que a Rayssa estava na competição, cortei a mão num pote de vidro. Esperei tudo acabar para ir a um posto de saúde local e levar pontos. O médico esqueceu uma lasca grande de vidro dentro da minha mão, tive que fazer uma cirurgia depois, mas é outra história. A fadinha nos salvou momentaneamente; a vacina, também. A skatista filipina encheu o coração. O ano acabou.

Vai, voa para a Lua, disse para a minha sogra que partiu no ano. Vai, voa para o céu dos cães, o céu para onde eu quero ir, disse para o meu cão que partiu também. O momento em que a dor vira uma saudade quente é uma das chaves que a gente deveria ter num molho no bolso, para lembrar sobre a importância dos ciclos da vida. O ano acabou.

Vai, abre outra cerveja, beba com moderação, viva com menos moderação. Aquela sensação de que as coisas estavam sob controle era uma ilusão. Bastou um vírus. Os profetas do novo normal faturaram alto? O Ailton Krenak tem uma resposta para eles, a pandemia não vem para nos ensinar nada. A fome ronda o país. O ano acabou.

Vai, que eu vou na sequência. No nosso mundinho, teve o documentário dos Beatles. “Get Back”, “Don’t Let me Down”, “Let it Be” e um Paul McCartney exalando brilho. Não se ouve um “genial” no estúdio. Nenhum. Já ouvi tanto “genial” gasto à toa, mas chega desse papo. Como diria Jorge Ben: em cima. Como canta um samba: mete o pé, vai na fé. O ano acabou. 

Vai.

Isto ou aquilo

“Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…

e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.”

Esse poema da Cecília Meireles é uma lembrança terna da escola. Tem aquele sabor de pipoca doce de saco rosa, som de mão batendo nas figurinhas no jogo de bafo, cheiro de cola branca que eu passava na palma da mão e esperava secar para poder puxar como se fosse uma outra pele. Não me recordo da série em que éramos apresentados a essas palavras, mas me parece que foi no tempo certo da compreensão e da magia. O que não foi o caso do romance “Lucíola”, de José de Alencar, do qual guardo um enfado tamanho, que jamais consegui bater os olhos naquelas páginas de novo.

Nesse poema, Cecília Meireles apresenta o dilema das escolhas para o público infantil e traz a perspectiva de que, muitas vezes, para escolher algo é preciso abrir mão de outra coisa. E que não podemos ter tudo o que queremos nem podemos estar, ao mesmo tempo, em todos os lugares que desejamos. O poema é facilmente transponível para a vida adulta, em que o dilema das escolhas continuará sendo um ponto a nos interrogar. Como exemplo, trago a sabedoria do Contardo Calligaris: “Você pode escolher entre ficar em casa ou pegar a estrada e, sem dúvida, faz e fará um pouco dos dois. Mas, quando estiver em casa, tente não sonhar com a estrada e, quando estiver na estrada, tente não lamentar o calor do lar.”

O ponto de reflexão que tento trazer é sobre quando uma escolha não é exatamente uma necessidade. Quando as coisas não precisam ser divididas em um esquema “ou isto ou aquilo”, quando elas podem conviver pacificamente. E você não precisa sacrificar uma possibilidade para vivenciar a outra. No mercado de comunicação, discursos têm uma certa inclinação em decretar a morte de um jeito de fazer em prol do outro. Por uma mera coincidência, esse outro jeito de fazer é aquilo que a pessoa quer vender. Nesse sentido, há anos, abro o noticiário de comunicação em busca do obituário da vez. E, invariavelmente, descubro que estou nesse negócio por teimosia de zumbi.

Nunca se deram tantas voltas para dizer que aquilo que você faz não é publicidade. Releases fazem a rota Paris–Dakar, se preciso, para fugir da palavra. Tem hashtag publi, tem marca aparecendo, mas a pessoa jura de pés juntos que não é publicidade. Uma parte desse escape é fruto de problemas da própria indústria, mas há um naco grande, que vem de uma necessidade de criar antagonismos nem tão antagônicos assim. Consultorias vão acabar com as agências, o modelo in-house vai acabar com tudo. Fogo no parquinho, bomba e apocalipse. Isso tudo com pitadas de tensão entre interrupção e entretenimento. Como se a interrupção fosse uma exclusividade da propaganda dita tradicional. Ou isto ou aquilo.

Comercial ruim, de fato, gera interrupção. Anúncio ruim é interrupção. Estratégia de mídia preguiçosa vai abraçar a interrupção. Merchandising que pesa a mão é interrupção. Pode ser na TV, pode ser na live. Conteúdo excessivo de marca gera interrupção, um pacote mal desenhado de influencers é interrupção. Forçar um podcast de marca porque toda marca tem que ter podcast é interrupção.

PR stunt sem conexão com a marca é uma forma de interrupção. Logomarca desproporcional é interrupção. Tanto faz se é no canto do anúncio ou na lateral do palco. Pre-roll e bumper ad? Interrupção. Se forem ruins, pode multiplicar por dois. Estar nas conversas do consumidor sem pertinência, post ruim patrocinado, feed tedioso, notificações incansáveis no celular: interrupção. Já inconsistência de marca é a interrupção que custa caro demais.

Interrupção não é uma exclusividade de uma plataforma. Há comerciais de TV que geraram entretenimento e entraram para a cultura. Há séries de entretenimento que, com dois minutos, o consumidor pensa que perdeu tempo demais.

Só que, como cantaria a Marisa Monte – “E no meio de tanta gente eu encontrei você”, a notícia de que a Netflix comprou uma cota de patrocínio da Globo. Para gerar leads em larga escala, uma das maiores produtoras de entretenimento do mundo abraçou o que seria impensável. A mesma Netflix que fez a campanha “One Story Away” acontecer na TV, mídia impressa, outdoor e, é claro, digital. Isto e aquilo.

O Spotify também já fez da mídia exterior uma forma poderosa de entreter. Cruzando os dados dos usuários com peculiaridades locais do bairro, revelou-se que o artista mais ouvido pelo bairro mais hypado de NY, o Brooklyn, foi ninguém menos do que Justin Bieber. Isto e aquilo.

A campanha “Up the Vote”, do Reddit, faz um paralelo poderoso sobre engajamento na sua plataforma versus o comparecimento nas eleições. Em um dos exemplos, uma foto de uma banana com o título “Se os votos no Reddit contassem, na vida real, essa banana poderia ter sido eleita para o congresso em 2018”. O formato era um outdoor. Interação entre digital e mídia exterior. Isto e aquilo. Até o TikTok, que diz “Don’t make Ads”, está no Jornal Nacional. Isto e aquilo.

É legítimo dizer que os meios tradicionais têm a mesma força de outros tempos? Claro que não. É legítimo afirmar que tudo o que aconteceu antes está ultrapassado? Tampouco. Há na vida agruras demasiadas em torno da questão “ou isto ou aquilo”. Ora queremos nos ver livres das responsabilidades, ora queremos ser bem-sucedidos. Ora queremos morar na praia, ora queremos o que só a cidade nos oferece. E, assim, nunca estamos nem lá, nem cá. Por isso, olho para a comunicação como um lugar em que o isto e aquilo é possível.

Em duas semanas, a gente volta.

Marcos Medeiros

Em duas semanas, a gente volta. Não precisa tirar nada da mesa. Talvez seja rápido, uma precaução necessária. Nesse tempo, vamos aproveitar para testar novas formas de trabalhar. As aulas presenciais pararam, né? Um tempo a mais com os filhos em casa vai fazer bem a todos. Sabe aquela coisa de cozinhar juntos? É a oportunidade que nos faltava para isso. Almoçar e jantar reunidos, discutindo o que aconteceu no dia. Falaram que temos que lavar todas as embalagens do mercado. É bom tirar a roupa antes de entrar em casa. Não precisa ser no corredor da área comum, não, mas convém deixar os calçados para fora. Ah, por falar em sapatos, vai ser bom ficar 15 dias de chinelo. Temos que comprar máscaras e álcool em gel. Viu que loucura essa coisa de estocar papel higiênico? É cada uma.

Em um mês, a gente volta. Não deve passar disso. Tenta esquecer um pouco o noticiário. Já se adaptou ao Zoom? Cuidado para não mostrar demais a sua casa, hein? Tenho essa paranoia. Escuta, alguém ainda usa Skype? Por via das dúvidas, melhor baixar de novo. Cada reunião pede um aplicativo, cada aula da escola das filhas pede outro. Eu estoquei aplicativos. Periga eu ter uma versão do ICQ, até. Os almoços têm sido bons momentos para conversar, mas pensar no cardápio e cozinhar não está sendo fácil como eu pensava. Acabou o álcool em gel na farmácia. Você ainda tem algum? Tem gente dizendo que é uma gripezinha, que só os idosos vão morrer. Acho melhor nos prepararmos para o pior e esperar o melhor. É do Cortella essa frase? Tem certeza? Não é daquelas frases que atribuem a uma pessoa e nunca é daquela pessoa? Gosto desse pensamento. Tomara que seja do Cortella. Gosto dele, também. Me peguei rindo ao lavar as frutas que chegaram na entrega. É uma tarefa estranha. Você tem acompanhado as notícias da Itália? Sei que falei para você não acompanhar o noticiário, mas estou com medo.

Em três meses, a gente volta. Acho melhor pensar assim. Será que vai ter Olimpíada? Fiquei pensando nos atletas que se prepararam para esse momento. Para alguns, esse ano era crucial. Tomara que tenha. Você sabia que mais da metade dos atletas só vai para a Olimpíada uma vez? Não sei de onde veio essa estatística, não. Pareceu real. Agora, é ocupar a cabeça com cursos, com filmes, com entretenimento. Se fosse nos anos 1980, seria mais difícil achar o que fazer. Um amigo vai aprender um instrumento. Outro está fazendo pão. Não sei como dizer para as minhas filhas que isso vai até o fim do ano. Penso em três meses, agora. Tô sendo exagerado? Nunca mais usei uma calça jeans, estou apaixonado pela air fryer. Ah, música alta ajuda na faxina. Penso nas crianças que deveriam estar lambendo o corrimão, comendo terra do parquinho, tomando a vitamina “S”. Ouvi dizer que é bom tomar vitamina D, viu? Porque não estamos pegando mais sol como antes. Vários restaurantes fecharam. Parei de olhar para o mundo porque tem me dado agonia. Nova York pareceu aquela do filme do Will Smith. Qual o nome do filme mesmo? Aquele dos zumbis, caramba. Deixa para lá. Vou fazer um misto para o jantar. Acabaram as ideias de cardápio.

No fim do ano, a gente volta. Não, não deve ter festa da firma. Mas deve ter Natal em família, ao menos isso. Os números estão caindo, o cansaço está aumentando, ninguém aguenta mais isso. Na China, parece que a vida voltou ao normal. Já tem vacina quase aprovada. Com vacina, a gente volta. O pavor são os negacionistas, né? Mas prometi ser otimista e não vou falar disso. Tentei fazer pão. Ficou horroroso. Já vamos para o terceiro litro de álcool em gel em casa. Em compensação, parei de lavar as coisas com a mesma intensidade. As crianças não aguentam mais EAD. Elas querem encontrar os amigos, brigar pelo brinquedo no recreio. Os adolescentes nunca imaginaram ficar tanto tempo com os pais. Não era a hora para isso. Era hora de dar beijo na boca, chegar tarde sem avisar, questionar os comandos, pegar mononucleose. Os adultos também queriam o seu momento de criança. Um colo seria bom. Você está fazendo terapia? Reunião por Zoom é legal, mas cansa, né? Reparei que os atrasos diminuíram. Saudades de abrir pacote de amendoim com a boca.

Em 2021, a gente volta. E volta com tudo. Volta renovado. Estou tentando acreditar nisso. Cancelamos o Natal. Vamos ficar só nós. Não, não tenho tio negacionista na família, não. Cruzes! Vai ter rabanada para alegrar a noite. Rabanada é uma pequena forma de felicidade. Vamos cozinhar menos nesse ano. É sempre um exagero de comida. Paramos de lavar as coisas do mercado. Saiu um estudo que diz que não é isso que nos protege. Máscaras, álcool em gel, distanciamento, sim. Já não sinto mais incômodo atrás da orelha com o elástico da máscara. O fone que uso nas reuniões está se desmanchando lentamente. Talvez eu precise de óculos para perto, excesso de telas. Voltei a ler os jornais porque sempre há a Nova Zelândia como esperança. O Trump perder a eleição ajudou a dar alguma retrospectiva possível para esse ano. Não é medo, agora, é desalento.

Em algum momento, a gente volta. Israel vacinou metade da população. Até o fim de maio, os americanos estarão vacinados. Uma hora chega para todos aqui. Vai demorar, não deveria. As lições bonitas ficaram no primeiro mês da pandemia. Não viu a enfermeira fingindo aplicar vacina em um idoso? Ainda é preciso explicar sobre o uso de máscaras. Os números voltaram a subir. Completou um ano que estamos assim. Todos parecem exaustos. Tem alguma ideia para o jantar? Alguma maneira do tempo acelerar? Cuide-se. Quando chegar o momento, a gente se aglomera comendo terra que nem criança no parquinho das emoções que ficaram contidas.

Uma Austin aonde o SXSW não chega

Austin, Texas, Estados Unidos. Uma cidade que carrega ao seu redor uma nuvem de palavras, tais como tecnologia, vanguarda, inovação, futuro, criatividade, música, blockchain, entretenimento. Aqui, é onde acontece o South by Southwest, mais conhecido pela sigla SXSW. Um festival que, no mundo antes da pandemia, reunia dezenas de milhares de pessoas de diversos países para discutir tendências, apontar direções, lançar novos artistas, debater comportamentos de consumo e outras pautas da nossa sociedade. Até aqui, provavelmente, nenhuma novidade para o leitor do Meio & Mensagem.

Austin, Nova Iguaçu, Brasil. Um bairro que fica próximo à divisa entre os municípios de Nova Iguaçu e Queimados. O nome é uma homenagem ao engenheiro que projetou a linha férrea da região, Charles Ernest Austin. O bairro de Austin é parte de uma região tradicionalmente negligenciada por políticas públicas e com uma nuvem de palavras bem diferentes da sua consagrada homônima. Enchentes, descaso, transporte precário, falta de rede de esgoto. Em matéria publicada no jornal Extra, em novembro de 2020, uma moradora do bairro resume: “Uma rua vira rio. A outra vira lama. A gente precisa urgentemente de asfalto. Mas os candidatos só aparecem aqui de quatro em quatro anosQuando ganham a eleição, somem.”

Austin, Texas, já foi eleita por duas vezes consecutivas como a melhor cidade para se viver nos Estados Unidos. Ostenta também o título de cidade com o maior número per capita de locais com música ao vivo no país. Entretenimento não é um problema. Educação, tampouco. Segundo o U.S. News & World Report’s Ranking, 97% da população de Austin têm o segundo grau completo e 31% têm pós-graduação. A taxa de desemprego fica na faixa de 3%. A cidade tem uma boa concentração de empresas de alta tecnologia e um custo de vida menor quando comparada à região do Vale do Silício. Ainda assim, o Economic Policy Institute’s Family Budget Calculator indica que o preço para se viver em Austin é de US$ 3.197 por mês, por adulto.

Austin, Nova Iguaçu, tem cinco praças consideradas espaços de recreação públicos. A população reclama da ausência de creches, de saneamento básico, de falta de iluminação e de ter que enfrentar longas caminhadas para chegar a um ponto de ônibus. Em matéria da Agência Brasil, encontra-se uma investigação sobre a ação de milícias no bairro: “Os milicianos passaram a controlar pontos de mototáxi, serviços clandestinos de TV e internet e até mesmo fornecimento de água e cestas básicas.” De acordo com dados do IBGE, o salário médio mensal dos trabalhadores formais é de 2,1 salários-mínimos, e a cidade de Nova Iguaçu ocupa a posição de número 4.435º no ranking educacional brasileiro.

Austin, Texas, teve a sua edição do SXSW realizada virtualmente neste ano. Entre as tendências de tecnologia apresentadas, estão a integração do corpo humano aos sistemas inteligentes, o metaverso e novas formas de interação, o avanço acelerado na criação de personas com aplicação de inteligência artificial.

Austin, Nova Iguaçu, teve uma crise no abastecimento de água no final de 2020. Alguns moradores ficaram duas semanas sem água. Tudo isso no meio de uma pandemia em que a recomendação é lavar as mãos sempre que possível. Não há tendência de mudança para os problemas de sempre, e a discussão agora deve ser em torno do auxílio emergencial. Existe uma única agência bancária nessa Austin.

Não é preciso esmiuçar mais os dados comparativos. Há, entre uma Austin e a outra, um abismo gigantesco. O Instituto de Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) aponta que a pandemia agravou a desigualdade no acesso à internet no Brasil. Diz a matéria do caderno de Economia do jornal O Globo: “Os dados cruzados pelo instituto mostram que só 29,6% dos filhos de pais que não tiveram qualquer instrução têm acesso à banda larga. Nos lares onde os pais têm curso superior, essa parcela sobe para 89,4%. E mais: 55% dos filhos de pais sem instrução não têm acesso à internet. A fatia cai para 4,9% quando os pais concluem a universidade”. Há um processo de exclusão digital em andamento que é pouco discutido. Falamos como se o EAD, o trabalho remoto ou mesmo o Clubhouse fossem uma realidade para a maioria. Parafraseando o Lucas Schuch, talvez a gente se importe demais com dados do SXSW e de menos com os do IBGE. O mesmo IBGE que deve ter um corte de 90% no orçamento do Censo Demográfico de 2021, e o mercado não pareceu reclamar. Há todos os tipos de dados sobre Nova Iguaçu, no IBGE. E é importante para entendermos, em um nível municipal, as condições em que vive cada um dos brasileiros.

Quando pensamos em TV, deduzimos que ela sempre esteve em todos os lares do Brasil. Em 1970, 95% dos lares nos EUA possuíam TV, enquanto, por aqui, esse número era cerca de 24%. A evolução do Brasil nas décadas seguintes dá boas dicas sobre a relação do brasileiro com o meio; 56% em 1980, 74% em 1990, 87% em 2000 e somente em 2008 o Brasil alcança os mesmos 95% dos EUA. Há uma curva longa de tempo entre as duas Austins, mesmo quando falamos de TV.

Na Austin do Texas, antes da pandemia, podíamos ficar na fila das mais incríveis palestras, aprender, escrever textos sobre o que faríamos assim que voltássemos ao Brasil (que o Ryan Wallman chamou de pico da hipérbole ilusória seguido da sensação de que isso vai dar trabalho demais para ser aplicado) e, é claro, ver e ser vistos. Essa é uma Austin rica em soluções, enquanto a Austin daqui é carente delas.

Rir é um ato de resistência

No rosto, um par de óculos escuros e uma máscara com as cores da Portela. O semblante é aquele que está sempre a nos remeter para o recanto de um Brasil que vale a pena. Ele arregaça a manga da camiseta, a enfermeira se aproxima com a vacina, e ele faz uma careta com a picada. É tudo rápido e previsível como tinha de ser. Eu me emociono. O Zeca Pagodinho vacinado é a preservação de uma felicidade que teima em escapar.

A gente deveria ter um canal que transmitisse apenas as pessoas sendo vacinadas, disse uma arroba, no Twitter, da qual não me recordo o nome. O espaço da memória tem sido utilizado demais para o presente e as coisas se embaralham, me desculpem. Eu deixaria esse canal ligado todos os dias.

Chorei com a primeira enfermeira vacinada e com Caetano, porque gente é para brilhar, não para morrer de fome. Gil vacinado trouxe a paz que ele diz invadir o coração e que, de repente, se enche de paz como o vento de um tufão. Alcione é o morro feito de samba, e Rita Lee, que está viva e cheia de graça, faz um monte de gente feliz. Paulinho da Viola, o príncipe da cultura popular e legítimo representante de uma monarquia que vale a pena respeitar: a musical. Para cada um deles, um misto de felicidade pelos imunizados e um lamento pelos que se foram sem essa chance.

Não entendo o processo de demonização da cultura quando a análise é puramente emocional. Não faz sentido essa pecha que tentam emplacar de que artista é vagabundo, simplesmente não faz. Pela análise racional, entendo a castração desejada, infelizmente. Umberto Eco dizia que nas manifestações culturais o que amedronta é o pensamento crítico, a divergência com os valores tradicionais. O que me dá mais um motivo para continuar a amar a cultura e a lembrar de um professor que me disse que os poetas contam o que aconteceu no lado dos derrotados. Minha amiga Zélia Duncan escreveu um texto de que gosto muito e destaco uma parte:

“Você não precisa de artistas?

Então me devolve os momentos bons. Os versos roubados de nós.

As cores do seu caminho.

Arranca o rádio do seu carro.

Destrói a caixa de som.

Joga fora os instrumentos.

E todos aqueles quadros.

Deixa as paredes em branco.”

Os setores cultural e criativo respondem por 2,64% do PIB do Brasil. Poderia e pode ser muito mais. Em um artigo de Marlova Noleto, publicado no Valor Econômico, o retrato é drástico: “Entre os meses de março e abril de 2020, 41% dos respondentes perderam a totalidade de suas receitas e, entre maio e julho, essa proporção aumentou para 48,8%. A pesquisa mostra que as artes cênicas foram as mais afetadas, com a perda total de receita para 63% dos respondentes. Nesse setor, a maioria dos que atuam na área de circo (77%), em casas de espetáculo (73%) e no teatro (70%) perderam a totalidade de suas receitas entre maio e julho.”

Eu pergunto, então: Quanto da nossa sanidade mental está atrelada à existência de diferentes formas de entretenimento a que temos acesso na pandemia? Músicas na rádio, novelas, séries, livros, filmes, dança (sozinho, que seja), lives? A cultura salva ao nos tirar, por minutos que sejam, da realidade. É um efeito mágico.

Guardo músicas como quem guarda camadas profundas de histórias. Um coral de adolescentes cantando Arnaldo Antunes é uma memória lindíssima, apesar da letra triste. Porque eles, aqueles jovens, cantavam seus anseios de peito aberto:

“Socorro, não estou sentindo nada.
Nem medo, nem calor, nem fogo,
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir.

Socorro, alguma alma, mesmo que penada,
Me empreste suas penas.
Já não sinto amor nem dor,
Já não sinto nada.”

Guardo as canções dos Saltimbancos Trapalhões, do Roberto Carlos, da Marisa Monte e do Luiz Melodia como quem resguarda mananciais protegidos. Eu sei o que cada uma daquelas músicas me lembra, e isso é precioso demais.

Talvez eu não consiga mais escutar Beyoncé sem que a imagem feliz do Paulo Gustavo me arrebate. Era a paixão dele. A homenagem na página dela torna as coisas indissociáveis no meu modo de armazenar. A morte do Paulo foi um baque muito duro, em uma hora em que a gente mais precisava da leveza, do sorriso e da arte dele. Perguntei ao amigo Felipe Simi como um personagem como o Paulo Gustavo transcende todas as barreiras em um país como o nosso. Eis a resposta:  “Nós gays sempre fomos tratados no humor como objeto do riso alheio e majoritariamente de forma discriminatória. Paulo mudou isso. Eu conheci o trabalho dele quando ‘Minha mãe é uma peça’ ainda era mesmo uma peça. E achei genial ele usar o humor como veículo de fácil digestão para apresentar as dores e as delícias de sua sexualidade, na perspectiva da própria mãe. Ali era um homem gay, mas era também a alegoria da Dona Hermínia. E Dona Hermínia é a cara da mãe tradicional brasileira: cheia de sentimentos, cheia de erros e acertos, e também cheia de amor e preocupação pelo filho gay. Paulo Gustavo conseguiu transformar o que antes era objeto em sujeito. Um sujeito familiar, de quem qualquer um se sentia amigo. O Brasil talvez nem tenha percebido, mas nunca riu do Paulo. Nós (sempre) rimos (e choramos) com ele.”

Chorei pelo Paulo como se fosse esse amigo que eu queria perto, pensei na sua mãe e em tantos que precisavam do Paulo não só para sorrir ou para amar, mas também por ele ser um recanto do Brasil onde a gente poderia morar e ser feliz. Penso na partida dele como se o elástico dos absurdos não devesse esticar mais. E relembro uma canção que ouvi a minha filha cantar e que certamente poderia ser sobre ele:

“Não se assuste, pessoa,

Se eu lhe disser que a vida é boa

Enquanto eles se batem, dê um rolê e você vai ouvir

Apenas quem já dizia

Eu não tenho nada

Antes de você ser, eu sou,

Eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés.”

Porque fazer arte, cantar, amar e rir são formas de resistência.