Chame o bombeiro!

Nesse momento, há alguém caminhando com a cabeça erguida por ter visto o Pearl Jam de perto. Há um homem orgulhoso de ter dividido com o seu rebento as glórias de um solo do Eric Clapton. Há uma mulher que saltita feito menina ao relembrar a emoção de ver o mestre Stevie Wonder entrar no palco. Por todo lado, há aqueles que voltaram da noite do Strokes, do Faith No More, Interpol, Red Hot Chili Peppers, Coldplay ou do Metallica. Cada um exibindo a sua medalha da vitória particular. No celular, no peito em formato de camiseta de camelô comprada na saída ou entupindo a timeline com fotos e mais fotos no Facebook.

No momento em que eu escrevo essas linhas, há desesperados caçando ingressos por exorbitantes 500 reais para o Lollapalooza. Todos esperando por aquele momento em que podem encher a boca, inflar o peito e dizer: Foo Fighters? Vi.

Nunca foi tão fácil dizer que você voltou de um show bom. Mas aí eu pergunto: e os shows ruins? Por que não exibimos o nosso CV dos péssimos momentos presenciados cara a cara? Vamos lá, coragem. Respire fundo e vasculhe o seu passado musical. Tenho certeza de que, em algum recanto, há um pedacinho vergonhoso. Por mais que você esconda, ele está lá, assombrando. Você fecha os olhos e vem aquele medo de ser “taggeado” em uma foto comprometedora segurando um vinil do Engenheiros do Hawaii. Ah, meu caro, você não está sozinho.  Como diz um amigo, o nosso caráter é formado pelo bullying e pelo Paolo Rossi (para você que é mais jovem, troque Paolo Rossi por um momento trágico do seu time). E eu acrescento: música ruim também forma o caráter auditivo.

Meu pai era crítico musical, diretor de shows, jornalista e mais uma pá de funções. Minha mãe é assessora de imprensa, promoter, baladeira e figura constante na cena musical. Bem, pense numa criança nesse ambiente. Você acha que tudo são flores? Ok, a parede de casa era forrada de vinis de cortesia. Porém, ainda moleque, se eu não tivesse ninguém para ficar, poderia ser levado para um show da Joanna. Foram muitos os belos momentos nessa jornada infanto-adolescente. Mas sabe aquele papo de que de graça até injeção na testa? Eu ganhava ingresso para quase todos os shows que aconteciam no Brasil. E ia sem distinção. Logo, os péssimos, aqueles que fariam você enterrar a cara no chão, bem, eu fui.

Vamos a alguns deles. Show do A-Ha na Apoteose. Eu estava lá. O playback engasgou na hora da canção “Hunting High and Low”. A música ia e voltava no mesmo ponto. As meninas chorando em volta, negando que fosse playback. Cyndi Lauper no Maracanãzinho. Fui, também. Ela devia ter duas músicas conhecidas. É mais uma medalha de honra na parede da vergonha. Tina Turner no Maracanã lotado. Vi e não sei até hoje o porquê. Tina Turner sem Ike é Buchecha sem Claudinho, Piu-Piu sem Frajola. Viu? Só de falar já contagia.

Bandas nacionais de um hit só? Devo ter visto todas: Radio Taxi, Eletrodomésticos, Metrô e tantas outras mais. Fazendo um paralelo, eu teria ido ao Restart hoje com aquela mentalidade. Eu ouvia Culture Club para tirar solo de gaita. Gostava de Missing You da Diana Ross e dançava música lenta ao som de Careless Whisper do George Michael. Mais: eu decorei a letra de We are the World. Fui no show do Twisted Sister, gritei com o Quiet Riot, fazia embromation ao som de Xanadu da Olivia Newton-John. Eu fui new wave, tá pensando o quê? Sou da geração Discoteca do Chacrinha e gostava daquilo antes mesmo de ser cult gostar de coisa brega. Eu fui “originals brega”. E lembro do impacto da bunda da Gretchen na tela de uma Philips com seletor de canais. Olha, que gosto refinado eu tinha.

Eu sei que é muito mais bonito, mais honroso falar dos grandes momentos. Eu falarei em algum coluna. Mas junte-se a mim. Liberte os seus traumas, mostre as suas cicatrizes. Há uma faixa podre clamando para ser tocada. Vá para a janela do computador e grite na rede social: eu já cantei “I should have Known Better” do Jim Diamond

. Sem vergonha, sem disfarces. Você tem um arranhão musical que eu sei. Se não tem, é porque não viveu. Vem. Abra suas asas, solte suas feras, o Papa é pop e o pop não poupa ninguém. Nem você, nem eu, nem o mais hipster dos indie cabelinhos.

 

Jim Diamond. O cara de Chame o Bombeiro!

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2 pensamentos sobre “Chame o bombeiro!

  1. Carol disse:

    Maravilhoso esse!

  2. Pensei que só eu tivesse ido a esse show do A-Ha na Apoteose. Minha lista também não é pequena, mas me lembro, de cara, de um show do 14 Bis em um daqueles dois teatros da Praça Tiradentes – não sei se João Caetano ou Carlos Gomes, e do show do U2 num lugar que não sei qual foi porque não consegui chegar.
    Parabéns pela iniciativa do blog e um abraço grande.

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