O macaco de 7 estômagos.

Nas ilhas Mentawai, esquina com o fim do mundo, morava um pequeno símio de vícios peculiares. Ele roubava os shampoos dos hóspedes do surf camp para saborear. Aos poucos, foi sofisticando o paladar. E passou a beber de verdade. Talvez buscando algo com mais álcool do que enxaguante bucal (se é que isso é possível). O macaquinho passou, então, a roubar garrafas de destilados e levar para o topo da árvore. Jogava o líquido lá de cima e descia rapidamente para lamber o chão. Depois, veio a descoberta das latas de cerveja Bintang.

Um belo dia, o mundo ficou colorido. Efeito dos anti-inflamatórios descobertos nas mochilas dos surfistas. A sofisticação era tamanha que ele aprendeu a diferenciar, pelas cores, qual droga dava mais onda. E ficava chapado vendo o sol se pôr como uma capa do Grateful Dead. Certa vez, ao engolir uma enorme quantidade de erva, entrou em coma por 5 dias. E sobreviveu. Os dias de junkie do rockstar de Sumatra lhe deram a alcunha de “macaco de 7 estômagos”. Tamanha era a sua capacidade de processar qualquer coisa. O fim só chegou por um misterioso envenenamento.

Calma que o assunto vai chegar em música. Acabo de voltar de Mentawai: 27 horas de avião, 2 de carro e 16 de barco para chegar em ondas perfeitas. Apenas 6 amigos. Sem wi-fi, sem sinal de celular, isolamento completo. O resultado é que, em horas, todos nós já estávamos nos comportando como primatas. Xixi? No mar mesmo. Banho? Ah, vá, ninguém precisa ficar cheiroso só com homens em volta. A vida no barco é simples. A única tecnologia eram os iPods e aí morava o perigo.

Há pouco tempo, viajar para longe carregando música era complicado. Você escolhia alguns CDs ou, para os mais velhos, como eu, gravava fitas K7 com uma seleção para ouvir no walkman. Hoje, viajamos com a coleção completa no bolso. Esse era o meu medo. Vai que um se revela fã ardoroso de Kleiton e Kledir. Não dava pra fugir a nado.

Eis que descubro que ficamos primatas até no gosto musical. Voltamos à essência. A convivência em grupo nos obriga a fazer escolhas menos ousadas de playlist. Some isso à distância de casa e a MPB explode nas caixas. É imediato. Os indonésios adoraram Jorge Ben. E ganhamos o nosso número 1 do ranking Sumatra da Billboard. Tim Maia andou bem também, éramos os descobridores dos 7 mares. Às 6 da manhã, surgia um Keith Jarrett para acalmar. Ou um Buddy Guy & Jr. Wells. Cada um de nós foi jogando para a galera. Tocando um playlist que não surpreendia, mas divertia demais. Led, Beatles, Stones, Santana, Bob Marley, Clapton, samba de raiz, bossa-nova. Tudo sem o compromisso de ser o primata-alfa da discotecagem. O raciocínio era binário. Choveu? Hora de ouvir Riders on the Storm. Como chimpanzés, estávamos preocupados em encaixar apenas a peça quadrada no buraco quadrado.

E aí, eu volto ao macaco dos 7 estômagos. A história nos foi contada pelo Greg, o nosso surf guide californiano. Que aos poucos foi se revelando como o alter ego do símio. Com cerveja aberta às 9 da manhã, Greg foi a alegria do barco. No primeiro contato, ele ouvia death metal no volume morte aos tímpanos. Criei na hora uma imagem musical dele. E temi pelos dias seguintes. Até que, depois de horas de surfe, um Miles Davis invade o ambiente,  misturado com o curry no ar. Pergunto na hora: quem colocou esse som? Greg levanta a mão que não está segurando a cerveja. Vasculho seu iPod em busca de saber quem é e o que ouve nosso guia. Encontro Billie Holiday, Etta James, Buena Vista Social Club, Coltrane, Chet Baker, metal, progressivo, pop indiano, Zappa, Tom Jobim. Céus, ele é eclético. Estou salvo.

Greg quebrou meu julgamento. Eu, que sempre evitei conhecer as coleções dos amigos com medo de me decepcionar, estava ali, tomando uma aula em plena Sumatra. O cara do death metal era o mesmo que colocava Signed, Sealed, Delivered para tocar. Resolvi contar que o tinha prejulgado. Já com umas cervejas e caipirinhas a mais na fuça, abrimos o jogo e dissemos que ele parecia ser o próprio macaco de 7 estômagos. Para ficar no básico, Greg bebia cerveja e comia cereal com leite ao mesmo tempo. Entre suas inovações, destaque para o mix de Dorflex com vodka. Talvez por ser o final de viagem, ele adorou o apelido. Já estávamos naquele momento “I consider you a lot”.

Moral da história? Como diria uma canção do Willie Dixon, nunca julgue o livro pela capa. Greg tinha 7 estômagos para digerir doses cavalares de Bintang e uma imensa discografia. E, ao contrário de seu alter ego símio, nenhum de nós tentou envenená-lo com sertanejo universitário.

PS: para os amigos Marcello, Gil, Ricardo, Tomas e Carlinhos. Obrigado.

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