Saiu o resultado. Um texto de 2006.

O programa está aprovado, mas precisamos de alguns ajustes.”
Assim começou a reunião.

– Primeiro é bom ressaltar que esse é um programa que tem todos os pré-requisitos para ser um sucesso de audiência, a pequena mulher disse.

–  Ele tem um algo a mais. Mas alguns ruídos surgiram e seria bom que fossem suprimidos. Vamos a eles?

Os grupos compreenderam exatamente a função de cada um dos personagens. Isso ficou muito claro. O que usa peruca foi sucesso absoluto. É engraçado, é popular e tem uma risada que desperta empatia imediata.  Mas em quase todos os grupos, especialmente dos homens entre 30 e 40 anos, a piada de puxar a peruca da careca não foi bem e deve ser repensada. Acharam de mau
gosto e excludente. Surgiu também a questão se a risadinha dele não era um pouco afeminada. Mas isso é coisa para pensar depois.
O personagem que faz o papel de escada foi bem avaliado também. Mas todas as piadas em torno dele foram mal. Perua, camufla, santa e algumas outras colocam em dúvida sua masculinidade e são extremamente preconceituosas.

Aqui vale colocar um comentário de uma dona de casa pesquisada: “É um programa para crianças. Não quero que meu filho cresça discriminando os outros com essas piadinhas. Isso não é o que eu ensino e espero para o seu futuro”.

Vamos continuar? A figura central do programa é unanimidade. Foi considerado extremamente carismático e os seus jargões são repetidos em todos os grupos. Mas temos alguns pontos a ser discutidos. Como quase todas as piadas têm esse personagem como ponto de partida, ele foi considerado homofóbico, preconceituoso e até mesmo racista. Outro ponto negativo é que ele trata as mulheres de uma forma pejorativa. A expressão bicho-bom, por exemplo, deve ser cortada. E gostosonas de saia curtinha balançando as nádegas não são o tipo de atração que uma mãe espera para o seu filho. Em um grupo ou outro, pediram para que ele não fumasse também. Mas isso é um detalhe.

E como falamos em racismo, vamos ao personagem negro. Que grande ator, não? Mas esse deu ruído em cem por cento dos grupos. Primeiro ponto: a bebida. Por que logo o negro é o bêbado? E por que o negro fala errado? Não estaria aí um preconceito velado? E mais: bebida e criança em horário nobre? Isso gerou muita discussão, algumas inflamadas. Em um dos grupos, um senhor negro ficou indignado. Disse que esse personagem jogava por água abaixo anos de luta. Era tão e somente um pinguço que, ainda por cima, aceitava
ser chamado de asa-de-graúna, entre outros apelidos de mau gosto.

Portanto, piadas e apelidos de tons preconceituosos devem ser evitados. E o nome do personagem deve ser trocado.  Afora isso, o nome Os Trapalhões não foi bem. Um dos grupos sugeriu Os Engraçadões. De qualquer jeito, devemos criar um outro nome que mantenha o espírito do programa e fique bem no aumentativo.

Em resumo é isso. Vamos às mudanças com a certeza de que faremos desse programa o maior sucesso de todos os tempos.

P.S.: precisamos de um novo animatic para a semana que vem.

Publicado em 09/01/2006. No site do CCSP.
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2 pensamentos sobre “Saiu o resultado. Um texto de 2006.

  1. Pedro Oliveira disse:

    Escrito há 6 anos e mais contemporâneo do que nunca.

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