Assumidamente involuído.

Pega o martelo, olha a platéia de cima, busca um braço esticado ou qualquer outro gesto, e bate. Em suma, era assim que via o seu próprio trabalho. Fazia-o por herança, e porque nada mais sabia. Seu avô foi perfeito, seu pai manteve o padrão. Ele, não. Ele apenas parecia o que nunca quis ser. Ninguém desconfiava. Nem os senhores distintos, muito menos as senhoras com hálito de vinho em taça de plástico. Só ele sabia o nada que era.

Certa vez, leiloou um Basquiat. Um pequeno desenho. Teceu uma longa explanação sobre o sentido da obra, impressionou, vendeu. Odiava Basquiat e aqueles desenhinhos primários. Odiava ainda mais Pollock. Quebrava porcelanas, vasos raros, tacava fogo em manuscritos, enfiava a faca em telas, cortava a cabeça de esculturas. Tudo em silêncio, na sua imaginação, sem deixar rastros.

Era extremamente preparado. Dedicou-se com afinco à arte de decorar. Decorou verbetes, textos, nomes, tintas, estilos, correlações entre artistas, períodos. Era sábio e era nada. Sem disfarces, era pathéthique. Nem o tempo gasto em discursos imaginários, nem o preparo do gesto perfeito, nada o salvava da mediocridade que sentia ao olhar-se no espelho.

Ele odiava o que fazia. Ele implicava com leiloeiros, apreciava mais os falsários. E se sentia um misto dos dois, o que aumentava a sua angústia. Sentia-se mal em desempenhar aquele papel que não escolheu. Pudesse ele, teria nascido pintor. Dos bons, mas incapaz de desenvolver um estilo. Viria ao mundo com a missão de falsificar pequenas obras (as grandes chamam atenção demais). Queria ser sorrateiro e passar para a frente a sua arte do nada. Só para ver o leiloeiro vender aquilo que não era. E alguém comprar o que imaginava ser. Como ele fazia todos os dias consigo mesmo. Sonhava ser outro para ser ele mesmo sem dilemas, sem questões. Assumidamente involuído.

Texto publicado na Revista Piauí. Julho de 2007. Vencedor do concurso “Encaixe essa frase”. Nesse texto, a frase a ser encaixada era: Ele implicava com leiloeiros, apreciava mais os falsários.

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6 pensamentos sobre “Assumidamente involuído.

  1. Pedro disse:

    Curto, enxuto e bom para o caralho.

  2. Bruno Pereira disse:

    Pô, Kassu, me lembrou tanto o desassossego de Pessoa… Principalmente pelo final.
    Muito bom. Muito bom te ler.

  3. Flo Lear disse:

    Não conhecia seu blog, achei muito bacana. Me prendi nesse texto porque sempre quis participar do “encaixe sua frase” e nunca fui em frente. Vou tentar na próxima.
    Bjs, Flo (ex atend. Almap)

    • andrekassu disse:

      É um jeito diferente de escrever. Você ter que encaixar uma frase. Talvez um dos mais complicados. Tente, sim. No fim, é divertido porque força você a mudar o estilo. Bjs

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