Curtir para ser curtido.

Eu nem deveria tocar nesse assunto, uma vez que o Jonathan Franzen o fez tão brilhantemente em seu artigo “Curtir é covardia”, que o tema parece encerrado. São tantas as verdades claramente explicadas, que o perigo aqui é apenas repetir o que já foi dito. Aceito o risco.

Curtimos na esperança de sermos curtidos, também. É uma regra subliminar. Um jogo não explicado, mas que está ali. Repare como muitas vezes um like só vem na sua direção se você deu um outro antes. Que um elogio só vem se você elogiou. É certo que muitas vezes acontece pelo acaso mesmo. Seguimos tantas pessoas que nos esquecemos das que realmente gostamos. Fulano curte a sua foto no Instagram. Automaticamente, você lembra que esse fulano tem grandes fotos e curte as dele numa recíproca honesta, verdadeira. Mas que, por seguir tantos, você vem esquecendo. Fulano, nesse caso, pode ser um amigo, um conhecido, um desconhecido. Você o segue porque gosta das fotos dele, oras. O que importa ali é isso, afinal, não? Bem, não. Conte com a possibilidade de que amigos seus tenham fotos ruins. E que você, portanto, pode não querer seguir ou distribuir likes feito um Silvio Santos no auditório. Por uma questão social, somos induzidos a curtir o que não curtimos, de fato.

Claro que curtir fotos ruins não é um crime. Até porque ruim é um critério subjetivo. Para o meu amigo Marcos Medeiros, ruins são todas as fotos de comida e feeds que parecem álbum de família. Agora, há fotos que você sabe qual significado tem para aquela pessoa. Exemplo: um amigo seu é fã de um artista, você sabe disso, ele fotografa meio fora de foco e joga. É uma foto com história. Eu, por exemplo, tendo a dar like em qualquer foto do Rio de Janeiro por um motivo passional. Porque me leva de volta ao berço. O ponto é: ninguém é menos amigo de ninguém por discordar. É a opinião sincera do outro que nos impede de passar ridículo até. De usar acaju, que seja.

A regra vale para o Facebook, também. Lá, a expectativa de um retorno é ainda maior. Somos avisados de aniversários de pessoas com que nos importamos e isso é um facilitador. Mas somos avisados das que pouco fazem diferença e, por uma ferramenta que não a nossa memória, damos o mais raso dos parabéns. Afinal, pega mal não dar. Nivelamos amigos e conhecidos sem grandes distinções que não o tamanho das nossas mensagens ou a quantidade dos nossos likes.

No mundo real, há uma imensa massa de pessoas que não quer opinião. Quer apenas a confirmação. Não é à toa ouvirmos: pensei numa ideia do caralho, o que você acha? E ai de você se não gostar. Não é uma atitude condizente com um mundo de curtir e distribuir corações virtuais. Como diz o Franzen: “Todos nós podemos suportar momentos em que não somos curtidos, pois existe uma gama virtualmente infinita de curtidores em potencial”. Você pode não me curtir, mas 89 outros curtiram e isso basta. Em um jogo social, não opinamos, falamos o que o outro espera ouvir.

Eu sou viciado no Instagram. E muitas vezes me peguei contando os likes. Eu sou a prática da teoria. Ao me observar fazendo isso, percebi que estava querendo ser curtível. Com tantos cuidados para não jogar fotos das minhas filhas, estava exposto do mesmo jeito. Resolvi mudar o jeito de usar. No mundo do curtir para ser curtido, em que likes assemelham-se a moedas, parece mais valioso trocar 1000 emoticons pela sinceridade. Mesmo que você perca seguidores, avatares e a mão de um amigo fazendo joinha.

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5 pensamentos sobre “Curtir para ser curtido.

  1. João Mendes disse:

    Curti, curti e curti. E compatilharei. Saudades, praianinho. abraço.

  2. costanormando disse:

    2 likes.

  3. Tiasley disse:

    Observar é o segredo para transformar(-se). Faço questão de comentar, ao invés de compartilhar ou curtir, porque sei que isso é mais legal pra quem escreve em um blog. rs
    Aliás, blog favoritado. Um abraço.

  4. Y. disse:

    O feedback “curtir” é válido quando provém de um único indivíduo para outro único indivíduo, independente do motivo ou do resultado que ele gera pra quem recebeu, por uma única razão:

    é, indiscutívelmente, um estímulo vital para a continuidade de um trabalho, seja este trabalho bom ou ainda ruim. A busca pela aprovação não é um problema, mas sim característica de um trabalho amador e/ou uma personalidade que se encontra num estágio básico de construção.

    Porém, é algo de que conseguimos nos libertar quando o trabalho que desenvolvemos se encontra em um estágio mais profundo, mais refinado, aumentando a nossa perçepção das diferentes realidades e por consequência encorpando a personalidade a níveis cada vez mais complexos e bem definidos.

    Salvo algumas raras iluminadas exceções, imunes desde sempre, da opinião/reconhecimento público.

    Agora as empresas sim, comprando, trocando, pedindo “likes”, isto sim, é completamente ridículo.
    Elas anulam essa energia potencial do “curtir” a nada, nos fazendo questionar a autenticidade do feedback que recebemos.

    Insight muito criativo Kassu, curti!
    parabéns

    Y.

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