Arquivo mensal: abril 2012

Keep Cooler. Eu sou free demais.

O clima é de emoção. A sala está cheia. Estou no II Encontro de Pessoas com Bloqueio Criativo. E I de Pessoas com um Sucesso Só. Sabia que mais cedo, mais tarde aconteceria. Essa pressão para escrever a coluna, muito trabalho na agência. Acabaria caindo no lugar-comum de escrever colunas de pessoas que não conseguem escrever colunas. Esse foi o meu discurso de apresentação. Todos me olham. Há uma compreensão tamanha que me sinto acolhido pelo grupo. Cada um naquele lugar teve o seu momento de sucesso. Cada um teve o seu playback no show de calouros. Uma turnê em ônibus leito. A verdade é que nós cantamos as suas músicas e depois, sem escrever uma mísera carta fingindo ser de um fã clube único, os esquecemos. Sensível com o meu pensamento, abraço o companheiro ao lado. Paro ao perceber que é o Thyrso do BBB. Aí, não.

Parada para um suco Tang, acompanhado de biscoitos dos monstrinhos Crec-Crec. Reconheço levemente a figura ao meu lado. Ela se apresenta: prazer, Vange Leonel. O nome não me é estranho, mas não lembro mesmo da música. Ela me diz que o bloqueio veio depois de um banho quente. Bateu aquela friagem e pou: nunca mais saiu nada. Aos poucos, vou olhando ao redor. O loirinho no canto parece o Vinny. Chego perto, ele me oferece um assento cantando: mexe a cadeira, oi. Delicadamente me afasto. Vejo um grupo animado e decido ir até lá. Pego um chiclete Ploc e tomo o rumo. Pergunto: Tudo bem? Ela me fala: Eu sou free, sempre free, eu sou free demais. O sujeito ao lado não perdoa o momento e completa: ela foi dar mamãe, foi dar um serão extra. Opa, esse eu conheço. Fala Silvinho! Revoltado, ele me diz: Silvinho é aquele do urso ali no canto.

Quando começo a me sentir deprimido, vamos para uma nova rodada.  A mediadora é bonita, mas parece um pouco acabada. Ela diz em inglês: Hello, my name is Bo Derek. Penso comigo mesmo: a mulher nota 10 não passa mais de ano, não. É 5 e olhe lá. Ela apresenta uma nova figura para o grupo. O cara fala sem tecla SAP: Hi, I’m Chris de Burgh e emenda do fundo do baú: Lady in Red, is dancing with me…” Isqueiros e telas de celulares acendem. Clima Globo de Ouro toma conta do ambiente. Claudio Zoli tocando de biquini sem parar, Cid Guerreiro cantando ilariê, Pepe e Neném cantando sei lá o que elas cantavam. Rapaziada toda junta no climão.

Eis que chega uma galera da gringa. Chris Isaak entra bancando de dono da praça. Solta Wicked Game. Andrezão do Molejo devolve com algo que parece música. The Weather Girls solta um direto covarde: It’s raining men. Mas o time brasileiro é valente e os Virgulóides já dão na lata um bagulho no bumba. Aí, virou MMA. Sinead O’Connor e Terence Trent Darby chegaram para quebrar. Edson Cordeiro soltou um agudo criminoso e quando o Ferrugem preparava um golpe de bota Ortopé, a Bo Derek parou tudo com um topless muxibamente inesperado. O clima volta ao normal. Alguém liga o CCE, Keep Coolers aparecem geladinhos, um cheiro de mandiopã invade o ar.

Sento ao lado da Claudia Egito e lembro da sua Plaboy. Logo, surge a Mariette, a Lilian Ramos, a Marcia Dornelles. Até a Reny de Oliveira. Comento com ela que achei um absurdo ver a Emília na Playboy. Ela não tomou a pílula falante no dia e me ignorou em silêncio. Começo a ficar cansado. Foi uma sessão musical de final de casamento intensiva. Dou uma geral no salão e encontro uma ideia jogada no canto. Confiro para ver se não era do cara do Molejo. Não era. Saio em disparada para pegar o carro, mas encontro o Benito de Paula no valet. Trocamos uma ideia. Dou a minha que restou, ele não me devolve nada. Saio vazio de novo.  Paciência. Não queria ser famoso mesmo.

Uma despedida. E algumas dicas.

É com imenso pesar que comunico que não vejo mais pastas. Durante 11 anos em São Paulo, mantive uma média de 2 pastas por semana. Era o mínimo que eu poderia fazer, uma vez que fui tão bem recebido por vários grandes nomes. Entre eles: Ricardo Freire, Marcelo Aragão e o meu amigo Wilson Mateos. Fora o Victor Sant’anna, que me ajudou muito desde os tempos de Rio de Janeiro.

O fato é que não tenho mais tempo para atender aos pedidos que me chegam. E nunca vi pasta de uma maneira leviana. Para não passar pelo papel de “cara que não responde ao email que eu mandei com a minha pasta online”, escolhi parar de ver. E resolvi escrever algumas coisas que falei durante esse tempo. A todos os que eu vi, espero ter ajudado de alguma forma. Aos que gostariam que eu tivesse visto, ficam umas parcas dicas. Espero que ajudem.

Ligar ainda é a melhor forma de marcar uma hora para ver a pasta. Depois, o email. Facebook, Twitter e Instagram, na minha opinião, não são lugares para abordar. Ah, e esqueça aquelas lendas urbanas de ficar com uma seta pendurada no pescoço na frente da agência dizendo: eu queria muito mostrar a pasta aqui. A ideia tem que estar dentro da pasta. Não na hora de agendar.

Conseguiu marcar para mostrar a pasta? Ótimo. Estude a agência. Estude o trabalho do redator ou diretor de arte agendado. Se o cara não é muito fã de títulos, não será a sua pasta que o convencerá do contrário. Troque alguns títulos por outras peças. Claro, se você tiver gordura na pasta para fazer isso. Caso não tenha essa gordura, mude a ordem das peças. Crie intervalos na pasta. Para que o criativo veja algo mais próximo do que ele gosta em intervalos. Saber os estilos de cada agência ou de uma safra de criativos é um estudo que, se não fizer mudar a sua pasta na hora, pode mudar a longo prazo.

Está vindo de outra cidade e não tem muito tempo? Ligue com antecedência. Estude o mapa de São Paulo. Marcar uma pasta na Y&R no mesmo dia de uma visita na F/Nazca pode ser um suplício. Concentre as agências pelas regiões do mapa, sempre que possível. Comece fazendo uma ordem de prioridade das agências que você gostaria de ter uma chance. E depois, olhe o mapa. Espalhe as Top 5 em dias diferentes e boa sorte na hora de ligar.

Está em São Paulo? Marque com calma. Pastas boas se espalham rapidamente.

Não chegue atrasado. Você pode tomar um chá de cadeira, acontece muito, mas é melhor deixar o outro lado em uma posição desconfortável.

Eu sempre pedi um breve resumo da carreira antes de ver a pasta. Achava importante ver o trabalho de acordo com o mercado. Com a realidade local. Se der um espaço, fale sobre isso. Se o cara for minimamente compreensível, vai tentar ver a pasta com outro olhar.

Não seja comentarista da sua própria pasta. Eu sei que é complicado aquele silêncio. Mas comentar a própria pasta aumenta muito as chances de você soar arrogante ou falar algo indevido. Seguindo a linha, evite falar sobre cada prêmio de cada peça. Se for um prêmio importante, quem está vendo quase sempre sabe. E o fato dela ser premiada, não quer dizer que todo mundo tem que gostar. Lembro com tristeza de uma pasta com adesivos pequenos de prêmios.

Pasta é o resumo do que você acha importante no seu trabalho. Várias vezes ouvi: mas essa veiculou. Grandes coisas. Veiculou e era ruim? Não traz mérito algum. Oh, estou dizendo que você tem que montar uma pasta inteira fantasma? Bem, dependendo do seu mercado ou da sua agência, sim. A realidade é dura? Aproveite os mesmos briefings, aproveite a impressora, aproveite um dupla e faça aquilo em que você acredita. Sempre me surpreendi mais com pastas de lugares que eu não esperava ver nada de bom. Porque o cara mostrava discordar daquilo claramente no seu trabalho.

Abriu a pasta com Leão? Bem, tomara que o resto dela segure esse rojão. Caso contrário, deixe para o final.

Você é repleto de Leões, mas não tem um trabalho que preste na rua. Xi….

Assuntos fáceis demais: evite. Ande pelas encrencas, pelo trilho sujo, pelo osso. Na sua agência tem produtos agrícolas? É esse que você tem que pegar e destrinchar. É melhor isso do que ficar nas ONGs e camisinhas da vida.

Se você é redator, tenha ao menos uma prova de que sabe escrever na pasta. Apps, ações, cases são ótimos. Mas há uma geração inteira que pensa fora da “caicha”. Com ch mesmo. Porque não sabe escrever o básico. Pensa na ferramenta, antes do seu próprio ofício. Se você é diretor de arte, coloque um all-type. Parece fácil, mas é onde a grande maioria desliza. A vida não é um adsoftheworld. Boa parte dos jobs tem pouco prazo. E não é com uma referência cool de um ilustrador finlandês que você vai resolver.

Sobre referências da internet. Avise quando for uma. Dê crédito à fonte. É melhor isso do que ser descoberto depois. Podendo evitar, evite.

Eu sempre preferi ver 5 campanhas de 4 peças do que 20 ideias isoladas. Campanhas com conceito são a prova de que você consegue ver o todo com um pouco mais de maturidade.

Cases, apps, ações. Dê mais ou menos peso, dependendo do lugar que você vai mostrar a pasta.

Diferente pode ser ruim. Pode ser uma direção de arte cool-hipster-style, um filme cabeça e ser ruim ainda assim.

Deixar ou não um CD com a sua pasta? Eu diria que não. Só se for um CD do Black Keys de presente. Mande o link depois.  CDs e brindes ruins de produtora costumam ter o mesmo destino. Sinto dizer.

Você vai ouvir coisa que não gostaria. Se não quer críticas, fique em casa. Claro, existem jeitos de criticar. Se o cara for um babaca (sim, eles existem), use como motivação. Há um clichê que sempre se confirma: o mundo dá voltas. Prove que ele estava errado. Há um outro ensinamento do Edu Lima que eu gosto muito: quem fala esquece, quem ouve, nunca.

Mostrou a pasta na agência que você queria? Não ligue no mês seguinte para outro criativo do mesmo lugar. Sempre soa como se a opinião do primeiro não tivesse importado.

Pasta nunca está boa. Fique inquieto com a sua. Quer um exemplo? Você mostra a pasta para um cara e no ano seguinte mostra de novo. Tudo o que ele esperava ver era uma renovação. E você levou a mesma pasta, igualzinha. Sem perceber, você desce um degrau no conceito do cara.

Um jeito Luciano Lincoln de avaliar o trabalho: todo fim de ano, reúna o que você produziu de melhor. Olhe com calma. Espalhe as peças no chão (ele fazia isso). Você sempre tem algo para melhorar. Você pode ter passado o ano inteiro só resolvendo pepinos e não fez nenhuma campanha de conceito forte. Logo, comece o ano por aí.

Para finalizar: não acredite mais em release do que em fazer. Seja justo. Mantenha um senso crítico mais apurado com o seu trabalho do que com o dos outros. Alimente o seu ego como se ele fosse um modelo do SPFW.

Acredite em uma regra básica: sentar a bunda na cadeira e fazer muito. Os caras que eu mais admiro fazem assim até hoje. Boa sorte.

 

 

 

 

 

 

 

Você é light, raio, star e luar.

“You’re my yes and never my no. When she’s so crazy, she kiss me in the mouth and…”. A melodia não me é estranha. Com um esforço, abro os olhos e sinto que estou deitado em algo fofo. Forço a vista e percebo que estou mergulhado em centenas de calcinhas. Wando está no violão e ao seu lado Whtiney Houston cantarola sua mais famosa canção: “my iáiá, my iôiô.” Tento me desvencilhar das lingeries em volta. Atrevida, Malícia, Panterona,  Baratinha de Friburgo. Estou no purgatório dos nomes, penso. Fico de pé e caminho com uma Doce Delírio pink com fenda presa na canela. Vislumbro a cena por inteiro. Estou numa espécie de barco das almas sem o Woody Allen filmando.

Tento em vão descobrir como fui parar ali. Eu jurava que a maldição era da letra W. Na minha lógica, a Morte estava fazendo uma espécie de jogo. Um “stop” macabro. Agora, letra W: e com uma foice, ela ceifava os nomes da lista. Logo, eu não deveria estar ali. E sim, o Wilson Sideral, o will.i.am. , o Whitesnake, o Weezer, o Woody Harrelson, o Wolf Maya ou o cabelo do Wolf Maya. Ledo engano. Ao invés da Winona Ryder furtando uns acepipes para saborearmos no caminho do túnel de luz, cá estou eu com o Wando e a Whitney. Não é exatamente a trilha que eu esperava para o meu fim.

Abro uma lata de pêssego em calda e me entrego ao balanço. É a minha imaginação ou tem um espelho no teto desse barco? Deixa para lá. Me aconchego no colchão de água e abro o jogo com os dois. Nem morto escutaria um disco inteiro deles. Tarde demais, me diz com lábios pré-preenchimento, o obsceno Wando. Faço um discurso pomposo culpando a Whitney por toda uma geração de cantores que esticam as notas em firulas intermináveis. Por todos os candidatos do American Idol que gritam. Pelo trauma de ver o Guarda-Costas dublado. E o que ela me diz? And I will always love youuuuuuu… Porra, Whitney essa era o outro motivo.

Do nada, estou na tenda dos prazeres. Wando me oferece uma maçã. Recuso. Só como a da Turma da Mônica. Reforço mais uma vez que nunca gostei de nenhuma de suas canções. Que podia o Donny Hathaway cantar, o Stevie Wonder, a Aretha Franklyn que eu não mudaria a opinião. Climão no ar. Senti que peguei pesado e alivio comentando que ele virou um gênio. Palavra cada vez mais banalizada essa. Compôs Rebolation? Gênio. Juntou duas vogais e fez um refrão? Gênio. Tudo é gênio, basta uma olhada no twitter. Eis que Wando me olha e recita poeticamente: um amor quando se vai, deixa a marca da paixão feito cio de uma loba. Não entendo a metáfora, mas penso que podia ser um peixe para em seu límpido aquário mergulhar. Fazer borbulhas de amor para te encantar não é Wando. Ele é maior que isso.

A embarcação segue no swing, no clima de motel flutuante. Finjo que estou em um desses karaokês moderninhos repletos de hipsters e curto. Desisto de procurar o barco da Etta James. Me entrego aos pêssegos, abraço uma boneca inflável e escuto Wando cantando Moça, agora na versão “Young woman” para a Whitney. Começo a aceitar o destino. Sinto que vou entrar num túnel de luz, raio, estrela e luar. Whitney me convence que Love will save the day e que eu vou para Where Do Broken Hearts Go.

Estava completamente So Emotional, chorando coração, até que, apareceu o Kevin Costner. Ele grita: Kassu? A letra K não é agora. Vamos nessa! Eu estava certo. Depois da maldição dos 27, veio a maldição do W. Se cuida Compadre Washington. Subo no seu jet-ski sem explicar que na verdade meu nome é com C. Kevin Costner me leva para Waterworld. Tento argumentar uma ida para Dança dos Lobos ou Intocáveis que seja, mas ele diz que fica para a próxima. Kevin e suas guelras me dizem para esperar a barca Rio-Niterói. Estou no meio do nada. Toca Wando no alto-falante. A TV anuncia a reprise de Guarda-Costas. Nada mudou. Volto com uma pergunta: quantas pessoas entenderam “me suja de carmim”?