Arquivo mensal: julho 2012

Templo Shaolin da Camuflagem Profissional.

Após anos observando os grandes mestres ninjas da camuflagem profissional, resolvi abrir o meu alfarrábio e revelar um conjunto de técnicas milenares. Com elas, você parecerá sempre mais ocupado que os outros usando uma porcentagem mínima da sua força. Você será um Shaolin do disfarce, um mestre do mimetismo, um Obi-Wan Kenobi da difícil arte de tirar da reta. Entrará em contato e harmonia com o melhor do ócio. Aquele que sugere que você trabalha, enquanto está descansando. Bruce Lee dizia: seja como água. Eu digo: seja como um cafezinho eterno da tarde.

Movimento 1: não respire, bufe. Com uma simples mudança no ato de respirar e um conjunto de pequenos barulhos, você parecerá mais tenso. E tensão sugere trabalho.

Movimento 2: um samurai não anda sem a sua espada, portanto ande sempre com um papel na mão. Serve qualquer um. De envelope pardo a folha em branco. O importante é sugerir que você carrega algo importante.

Movimento 3: antes de caminhar em direção à sua mesa, pegue um café. Isso dá a impressão que você já estava no ambiente há mais tempo que os outros. Essa técnica somada a um pequeno esporro aleatório no caminho é imbatível. Só tenha em mente que esse movimento deve ser feito sem a presença de uma mochila nas costas.

Movimento 4: no Taekwondo, o grito kiai é parte essencial da luta. Quanto mais poderoso o grito, menos frágil o lutador parece. Eleve o tom da sua voz ao confrontar um problema. Mesmo que seja um bem pequeno. Dê o seu kiai, mas tenha a certeza de estar sendo observado. Quanto mais indignado esse brado, mais ocupado você parece.

Movimento 5: domine uma técnica desconhecida. Analista de stopping power, redator de storytelling, manager de brand content, CEO de psicologia de concept. Todas essas são novas habilidades que dizem que só você pode fazer uma coisa que ninguém mais é capaz.

Movimento 6: o kung fu é baseado em animais, a camuflagem profissional, também. Técnica hipopótamo de espalhamento. Imprima muitas cópias do seu trabalho e espalhe de modo a criar uma sensação visual de dedicação.

Movimento 7:  o disparo de email na madrugada. Esse é um velho conhecido. Mandar emails em alguns horários é provar que você estava na agência enquanto todos os outros estavam em suas casas. Ao utilizar essa técnica, lembre-se de apagar o “enviado pelo iPhone”. Também muito funcional e com ampla área de acerto: a disfarçada tuitada do fim de semana. Basta um título levemente irônico: vida é o que acontece lá fora. Ou uma imagem da sua mesa de trabalho com a legenda: meu fim de semana perfeito. E pronto: você consagra a sua imagem profissional.

Movimento 8: empurre com a barriga até precisar do fim de semana. Outro conjunto de habilidades com grande resultado. Porque quem trabalha no fim de semana é mais dedicado.

Movimento 9: o desaparecimento no grupo, uma técnica ninja que pode ser aperfeiçoada desde a escola. Simples e fácil de empregar, a base é sempre dividir o seu trabalho com muitos. E sumir no meio dele. Com isso, você consegue estar presente em diferentes projetos ao mesmo tempo que está ausente em todos eles. Harmoniza muito bem com ficha técnica e isenção de responsabilidades durante o processo.

Movimento 10: desvio do osso. Essa técnica exige anos e anos de prática, mas pode livrá-lo do job osso para sempre. Consiste em ter muitas dúvidas e dificuldade nos trabalhos mais difíceis. O treinamento facial da expressão de sofrimento é fundamental. Assim como um certo ar de culpa por não ter conseguido resolver o job no prazo. Aos poucos, você será lembrado como um esforçado, que tentou de tudo, mas não conseguiu. O job osso cairá nas mãos de um incauto que o resolverá. E o terreno ficará livre para o filé.

Movimento 11: a necessidade de decorar o dia do rodízio dos chefes. Um dia que você pode chegar mais cedo no trabalho: 10:01.

Movimento 12: técnica de valorização do job na mesa. Qual o segredo para você pegar menos jobs que as outras duplas? Baixa velocidade na entrega. Como fazer isso sem parecer que você é lento, mas dedicado? Aqui, entra o treino. Valorize cada passo no processo, cada reunião, cada impressão. Enriqueça a sua função com uma técnica molecular de nomeação. Escrevendo um comunicado de rádio? Não. Você está gerindo uma nova forma de pensamento de áudio. Criando um roteiro? Nada disso. Redefinindo a forma como a marca se comunica.

Movimento 13: o Kung Fu Panda tem o golpe de dedo Ushi? A publicidade tem golpe de puxa-saco Ushi. Talvez a técnica mais antiga e a mais difundida. Quando bem empregada, é infalível.

Lembre-se: só o domínio completo dessas técnicas leva ao estado de invulnerabilidade. Kiai!

Caro Ronnie Von,

há algum tempo atrás, eu comecei a simpatizar com a Norah Jones. Explico. Eu recebi um arquivo de um amigo contendo o álbum “Rome”. E ela era um dos destaques. Em minha defesa, gostaria de ressaltar a presença do Jack White no mesmo álbum. O que eu acredito, apesar daquele jeitão andrógino, elevar a testosterona dessa pequena história. Mas o fato é que muito próximo a passar a gostar da Norah Jones, eu comprei uma ecobag. E agora, toda vez que vou a supermercado, carrego a dita cuja no meu carro. Macho que é macho não tem bolsa, tem? Fui criado assim. Agora, tenho um combo ecobag + Norah Jones.

A partir de então, comecei a rever o meu comportamento. No último mês, fiz uma viagem de estudo para o Japão. Fui estudar muito (com trocadilho, Agamenon). E descobri a Miku Htsune. Um holograma que, muito antes daquele do Tupac Shakur, encanta os japoneses. É ridiculamente perfeito. Interage com os fãs, caminha por toda a extensão do palco e existe há 3 anos, pelo menos. Depois descobri o AKB48. Um modelo de banda de adolescentes que revolucionou o mercado fonográfico. São quase 100 meninas que parecem saídas de um cruzamento de um Pokemon com a Hello Kitty. O segredo para os recordes de venda em meio a um período em que todos fazem download é bem simples: hand shaking events. Isso mesmo. Você compra um CD da banda e tem direito a apertar a mão de uma das integrantes em um evento. Como a banda tem quase 15 meninas em sua formação principal, todos compram mais de um CD. Criando assim, um evento de apertar mão. Voltei fã da Miku Hatsune e do AKB48. Não pela música, mas pelo modelo de negócio. Mas ando preocupado ainda assim. Meus amigos acham que eu mudei. Afinal, para quem sempre falou de acordes bluseiros, aquela coisa de macho tosco, pega mal falar de um holograma fofinho, não é?

Ronnie, estou em conflito. Cantarolei um refrão de uma música da Florence and The Machine. Em seguida, sem perceber, já estava baixando o disco. Não gostei, mas ainda assim fiquei preocupado. Aproveito para confessar que inconscientemente eu defendo a Ivete quando falam da Cláudia Leitte. Não gosto de nenhuma das duas cantando, mas acho a Ivete autêntica. Só que ter uma posição na briga entre duas cantoras sempre me pareceu algo estranho. Suspeito. Uma coisa Barbra Streisand x Gloria Gaynor. Pois agora, cá estou eu, levantando a bandeira do Sangalo Sport Club e cantando: poeira, poeira, levantou poeira. Eu deveria avaliar apenas o nível gostosura das duas, não?

Ser um homem feminino não fere o meu lado masculino? Se Deus é menina e menino, sou masculino e feminino? Não cante, Ronnie. Apenas leia a minha carta. É sincera. Não depilo a sobrancelha, não raspo o peito, passei filtro solar recentemente, gosto de estilos de dois acordes. Mas o mundo está mudando. Vi recentemente um cartaz (evitarei a expressão lambe-lambe) falando de um show do Information Society. Eu já dancei ao som deles. Do Pet Shop Boys. Ainda pequeno, cantarolava Xanadu. Era  por achar a Olivia Newton John a gostosinha da época ou por Xanadu mesmo? Tenho um pequeno trauma com musicais desde “Sete Noivas para Sete Irmãos”, um dos exercícios mais profundos de respeito a minha mãe que me lembro de ter feito. Desde aquele dia, nunca mais vi um musical sem cair no sono. Tirando a peça do Tim Maia que era espada. Mas é impossível negar que já cantei Xanadu-u-u.

Mas alto lá. Pensando bem , a Norah Jones é defensável. É aquela “girl next door”, como diz o Max de Castro. Tem maldade e parece possível. E “Rome” é bom demais. Fora que tem o Danger Mouse na produção. Logo, contrariando o que você deve estar pensando agora, tudo o que falei é absolutamente normal. Não significa nada.  Não são questões. E mesmo se fossem, pouco importa. Ivete? Pegável. Claudia Leitte? Pegável. Olivia Newton John? Já foi.

Dei essa volta toda, apenas para disfarçar uma pergunta que realmente me aflige: eu bati os pés no chão, enquanto a TV  tocava a profunda canção “Eu quero tchu, eu quero tchá”. Ronnie, significa que eu tenho mau gosto musical?

Coluna de julho da Billboard Brasil.

E o grande Ronnie Von respondeu. 

Antes e depois da fama.

O sujeito é um zé ruela, todo simpático, humilde, faz sucesso, sobe no salto Lady Gaga e esquece o passado. Já ouviu uma história assim? Pois eu vi várias delas de camarote, atrás da cortina, no canto de um palco. Minha infância e adolescência foi uma espécie de antes e depois da fama. Vi cabelos ficarem lisos de repente, nomes mudarem, o passado ser escondido entre adjetivos edificantes. Acompanhar o trabalho da minha mãe como assessora de imprensa foi uma formação de caráter com glamour. Quietinho no meu canto, fui o Nelson Rubens de mim mesmo. E cresci com algumas lições dessa época.

Para não complicar a dona Ivone Kassu, deixarei os detalhes sórdidos de lado. Esses só devem preocupar no dia em que ela escrever uma biografia. Daqui, só me autorizo a dizer que realmente a fama pode mudar as pessoas. Ou que elas nem sempre são o que parecem na TV. Mas que alguns continuam os mesmos. E viraram grandes exemplos para mim.

Antes, uma pausa para o intervalo adolescente: os ingressos cortesia. Como ganhei amigos com esses danados. Era matemático o esquema. Um evento de rock era divulgado e cá choviam os telefonemas de amigos. “E aí?. “Quanto tempo…Tava pensando mesmo em você.” Rapaz que saudades, viu? Lembra daquela esbórnia que a gente fazia no maternal?” Bastava olhar no relógio e contar os segundos para a verdadeira pergunta: escuta, você me arruma um ingresso para o Hollywood Rock? Tava doido para ir com você. Demorei a perceber esse truque. Desvendei os amigos no tu-tu-tu-tu que ficava no telefone segundos depois do evento que fosse. Até que aprendi a separar. A cortesia me ensinou antes do Facebook a separar amigos de conhecidos.

De volta a programação com duas pequenas histórias que guardo com carinho. Para azar de muitas mulheres envolvem dois grandes ídolos. Um foi aquele rapaz de tem aquelas letras mais ou menos. E um olho que dizem ser verde, mas que no meu daltonismo, prefiro não acreditar. Minha mãe estava envolvida em um grande projeto com esse tal de Francisco. E o formoso moço, na época com seus 40 anos, já derretia corações femininos. Mesmo um pirralho como eu percebia isso. Sei que era humilde, tranquilo, atencioso e tinha um defeito fatal: era tricolor. Num belo dia, rodeado pelas filhas, ele resolve contar uma piada de salão. Sem palavrão, um chiste singelo. Lembro vagamente, mas vou arriscar. Era um cara que tava com um cachorro no cinema. E a pessoa ao lado fala abismada: um cachorro no cinema? E o dono responde: é, mas ele prefere ler. Terminada a piada foi um silêncio sepulcral na mesa. As filhas não riram. A mais velha ainda disse: ai, pai. E o tal Francisco teve que engolir esse desprezo, enquanto as mulheres no mundo suspiravam.

A outra envolve o Rei. Minha mãe é assessora do homem faz tempo. Tive a sorte de estar nos bastidores muitas vezes. Em uma dessas, testemunhei algo inesquecível. Um diretor dava chiliques com a equipe inteira. Direito a saltinhos e tudo mais. Tensão no ar porque o homem estava chegando e tudo tinha que estar tinindo. Rabo entre as pernas, carinhas de muxoxo e eis que sem soar as trombetas, entra o Rei. O diretor muda para o módulo cordial e acelera a realeza. Diz que tem poucos minutos para a gravação começar. O Rei olha para os súditos curvados em respeito e diz em tom afinado: primeiro, eu preciso cumprimentar todos eles. E um a um, ele estica a mão não por demagogia, mas por não saber fazer diferente. Ao fim, com todos aliviados, ele fala: agora, podemos começar.

Olhando para trás, lembro das fábulas e procuro a moral da história que guardei. Se até o Francisco tem os seus dias de fracasso, não acredite que você acertará todos os dias. Se o Rei é cordial com todos, não será você que recusará um bom dia, será?

Uma coluna para a edição de junho da Billboard. Sem saber, já era uma homenagem.

Essa biografia está relativamente pronta. E sem nenhuma história proibida. Apenas, as boas. 

Perguntas sem respostas.

Pai, por que a vovó tem cabelo vermelho e todas as outras têm cabelo branquinho?

Como é que a vovó consegue combinar tantos anéis e tantos colares?

Por que só a nossa vovó pinta as unhas de verde?

A vovó é meio maluca, não é?

Por que a vovó sempre traz um ovo de Páscoa com um sabor que nunca ouvimos falar?

Por que ela dorme em todas as peças infantis e diz que não dorme?

Por que a vovó conhece tanta gente? Ela é famosa?

Se a vovó é de Itu como é que ela calça 33?

Por que a vovó virou uma estrela?

E agora? O que a gente faz quando der vontade de falar com ela? Essa eu acho que consigo responder. Sabe esse amor que ficou guardado? Você pega a caixinha e abre. Pode ser que saia uma lembrança boa, um cheiro, uma risada. É só abrir e, clic, sai até mesmo um textinho, viu?

Para a Juju e Clarinha.