Antes e depois da fama.

O sujeito é um zé ruela, todo simpático, humilde, faz sucesso, sobe no salto Lady Gaga e esquece o passado. Já ouviu uma história assim? Pois eu vi várias delas de camarote, atrás da cortina, no canto de um palco. Minha infância e adolescência foi uma espécie de antes e depois da fama. Vi cabelos ficarem lisos de repente, nomes mudarem, o passado ser escondido entre adjetivos edificantes. Acompanhar o trabalho da minha mãe como assessora de imprensa foi uma formação de caráter com glamour. Quietinho no meu canto, fui o Nelson Rubens de mim mesmo. E cresci com algumas lições dessa época.

Para não complicar a dona Ivone Kassu, deixarei os detalhes sórdidos de lado. Esses só devem preocupar no dia em que ela escrever uma biografia. Daqui, só me autorizo a dizer que realmente a fama pode mudar as pessoas. Ou que elas nem sempre são o que parecem na TV. Mas que alguns continuam os mesmos. E viraram grandes exemplos para mim.

Antes, uma pausa para o intervalo adolescente: os ingressos cortesia. Como ganhei amigos com esses danados. Era matemático o esquema. Um evento de rock era divulgado e cá choviam os telefonemas de amigos. “E aí?. “Quanto tempo…Tava pensando mesmo em você.” Rapaz que saudades, viu? Lembra daquela esbórnia que a gente fazia no maternal?” Bastava olhar no relógio e contar os segundos para a verdadeira pergunta: escuta, você me arruma um ingresso para o Hollywood Rock? Tava doido para ir com você. Demorei a perceber esse truque. Desvendei os amigos no tu-tu-tu-tu que ficava no telefone segundos depois do evento que fosse. Até que aprendi a separar. A cortesia me ensinou antes do Facebook a separar amigos de conhecidos.

De volta a programação com duas pequenas histórias que guardo com carinho. Para azar de muitas mulheres envolvem dois grandes ídolos. Um foi aquele rapaz de tem aquelas letras mais ou menos. E um olho que dizem ser verde, mas que no meu daltonismo, prefiro não acreditar. Minha mãe estava envolvida em um grande projeto com esse tal de Francisco. E o formoso moço, na época com seus 40 anos, já derretia corações femininos. Mesmo um pirralho como eu percebia isso. Sei que era humilde, tranquilo, atencioso e tinha um defeito fatal: era tricolor. Num belo dia, rodeado pelas filhas, ele resolve contar uma piada de salão. Sem palavrão, um chiste singelo. Lembro vagamente, mas vou arriscar. Era um cara que tava com um cachorro no cinema. E a pessoa ao lado fala abismada: um cachorro no cinema? E o dono responde: é, mas ele prefere ler. Terminada a piada foi um silêncio sepulcral na mesa. As filhas não riram. A mais velha ainda disse: ai, pai. E o tal Francisco teve que engolir esse desprezo, enquanto as mulheres no mundo suspiravam.

A outra envolve o Rei. Minha mãe é assessora do homem faz tempo. Tive a sorte de estar nos bastidores muitas vezes. Em uma dessas, testemunhei algo inesquecível. Um diretor dava chiliques com a equipe inteira. Direito a saltinhos e tudo mais. Tensão no ar porque o homem estava chegando e tudo tinha que estar tinindo. Rabo entre as pernas, carinhas de muxoxo e eis que sem soar as trombetas, entra o Rei. O diretor muda para o módulo cordial e acelera a realeza. Diz que tem poucos minutos para a gravação começar. O Rei olha para os súditos curvados em respeito e diz em tom afinado: primeiro, eu preciso cumprimentar todos eles. E um a um, ele estica a mão não por demagogia, mas por não saber fazer diferente. Ao fim, com todos aliviados, ele fala: agora, podemos começar.

Olhando para trás, lembro das fábulas e procuro a moral da história que guardei. Se até o Francisco tem os seus dias de fracasso, não acredite que você acertará todos os dias. Se o Rei é cordial com todos, não será você que recusará um bom dia, será?

Uma coluna para a edição de junho da Billboard. Sem saber, já era uma homenagem.

Essa biografia está relativamente pronta. E sem nenhuma história proibida. Apenas, as boas. 

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