Caro Ronnie Von,

há algum tempo atrás, eu comecei a simpatizar com a Norah Jones. Explico. Eu recebi um arquivo de um amigo contendo o álbum “Rome”. E ela era um dos destaques. Em minha defesa, gostaria de ressaltar a presença do Jack White no mesmo álbum. O que eu acredito, apesar daquele jeitão andrógino, elevar a testosterona dessa pequena história. Mas o fato é que muito próximo a passar a gostar da Norah Jones, eu comprei uma ecobag. E agora, toda vez que vou a supermercado, carrego a dita cuja no meu carro. Macho que é macho não tem bolsa, tem? Fui criado assim. Agora, tenho um combo ecobag + Norah Jones.

A partir de então, comecei a rever o meu comportamento. No último mês, fiz uma viagem de estudo para o Japão. Fui estudar muito (com trocadilho, Agamenon). E descobri a Miku Htsune. Um holograma que, muito antes daquele do Tupac Shakur, encanta os japoneses. É ridiculamente perfeito. Interage com os fãs, caminha por toda a extensão do palco e existe há 3 anos, pelo menos. Depois descobri o AKB48. Um modelo de banda de adolescentes que revolucionou o mercado fonográfico. São quase 100 meninas que parecem saídas de um cruzamento de um Pokemon com a Hello Kitty. O segredo para os recordes de venda em meio a um período em que todos fazem download é bem simples: hand shaking events. Isso mesmo. Você compra um CD da banda e tem direito a apertar a mão de uma das integrantes em um evento. Como a banda tem quase 15 meninas em sua formação principal, todos compram mais de um CD. Criando assim, um evento de apertar mão. Voltei fã da Miku Hatsune e do AKB48. Não pela música, mas pelo modelo de negócio. Mas ando preocupado ainda assim. Meus amigos acham que eu mudei. Afinal, para quem sempre falou de acordes bluseiros, aquela coisa de macho tosco, pega mal falar de um holograma fofinho, não é?

Ronnie, estou em conflito. Cantarolei um refrão de uma música da Florence and The Machine. Em seguida, sem perceber, já estava baixando o disco. Não gostei, mas ainda assim fiquei preocupado. Aproveito para confessar que inconscientemente eu defendo a Ivete quando falam da Cláudia Leitte. Não gosto de nenhuma das duas cantando, mas acho a Ivete autêntica. Só que ter uma posição na briga entre duas cantoras sempre me pareceu algo estranho. Suspeito. Uma coisa Barbra Streisand x Gloria Gaynor. Pois agora, cá estou eu, levantando a bandeira do Sangalo Sport Club e cantando: poeira, poeira, levantou poeira. Eu deveria avaliar apenas o nível gostosura das duas, não?

Ser um homem feminino não fere o meu lado masculino? Se Deus é menina e menino, sou masculino e feminino? Não cante, Ronnie. Apenas leia a minha carta. É sincera. Não depilo a sobrancelha, não raspo o peito, passei filtro solar recentemente, gosto de estilos de dois acordes. Mas o mundo está mudando. Vi recentemente um cartaz (evitarei a expressão lambe-lambe) falando de um show do Information Society. Eu já dancei ao som deles. Do Pet Shop Boys. Ainda pequeno, cantarolava Xanadu. Era  por achar a Olivia Newton John a gostosinha da época ou por Xanadu mesmo? Tenho um pequeno trauma com musicais desde “Sete Noivas para Sete Irmãos”, um dos exercícios mais profundos de respeito a minha mãe que me lembro de ter feito. Desde aquele dia, nunca mais vi um musical sem cair no sono. Tirando a peça do Tim Maia que era espada. Mas é impossível negar que já cantei Xanadu-u-u.

Mas alto lá. Pensando bem , a Norah Jones é defensável. É aquela “girl next door”, como diz o Max de Castro. Tem maldade e parece possível. E “Rome” é bom demais. Fora que tem o Danger Mouse na produção. Logo, contrariando o que você deve estar pensando agora, tudo o que falei é absolutamente normal. Não significa nada.  Não são questões. E mesmo se fossem, pouco importa. Ivete? Pegável. Claudia Leitte? Pegável. Olivia Newton John? Já foi.

Dei essa volta toda, apenas para disfarçar uma pergunta que realmente me aflige: eu bati os pés no chão, enquanto a TV  tocava a profunda canção “Eu quero tchu, eu quero tchá”. Ronnie, significa que eu tenho mau gosto musical?

Coluna de julho da Billboard Brasil.

E o grande Ronnie Von respondeu. 

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6 pensamentos sobre “Caro Ronnie Von,

  1. fabiochap disse:

    Se for possível, poste a resposta dele, Kassu.
    =P

  2. Opa! Eu curto Florence. E acho ela bem pegável. Abraços, Kassu

  3. Kassu, esse foi um dos textos que mais me fez rachar o bico aqui na tela. Muito bacana o estilo “transeunte” que você imprime aos textos, brilhante e divertidíssimo. Fui até buscar referências da tal da Miku Hatsune e do AKB48 no Google…

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