Arquivo mensal: agosto 2012

A vida da minha mãe são as canções do Roberto.

Eu preciso abrir esse texto em confissão. Toda vez que ouço o Roberto Carlos cantando “Emoções”, meus olhos se enchem de lágrimas. É uma das músicas mais lindas da MPB. Mas a parte que me cabe a emoção é que, desde que ouço esta canção, ouço a vida da minha mãe.

Ainda pequeno vi a dona Ivone Kassu adentrar um avião do Roberto. Era uma excursão pelo Brasil afora. Se não me engano, chamada “Emoções”. Foram meses revendo a minha mãe em datas esporádicas. Ela, com um cabelo curtinho, voltava e me abraçava falando: “Deco”. Era um abraço de saudade pura e o sorriso de um trabalho realizado.

Hoje, ainda me sinto como esse menino. À espera de ouvir meu apelido de infância, de vê-la sair de um avião, de um show, de uma estreia. De voltar para mim, apenas. Mas ela resolveu sair no meio da festa. Logo ela, que sempre esperou até o último segundo de cada peça, de cada show, de cada momento. Saiu enquanto havia uma imensa plateia à sua espera.

Adiei escrever esse texto por dias e dias. Chegou a hora. Penso no Roberto e no Erasmo. O privilégio que me foi concedido de estar perto desses dois grandes homens. Penso na minha mãe. Penso nas canções que hoje ganham novo significado. Quando ouço “eu quero ter um milhão de amigos”, sei que minha mãe teve cada um deles. Como disse o doce Padre Jorjão, se tudo que vem de Itu é grande, o coração da minha mãe era enorme. Soube arrumar um espaço para cada um desses amigos. Para o repórter que estava iniciando, para o aprendiz de cantor, para a jovem atriz, para a diva, para a estrela, para o consagrado, para o Rei. Sem distinções. Todos eram amigos e juntos eram um milhão.

Hoje, eu fecho os olhos e a ouço cantar “não adianta nem tentar, me esquecer. Durante muito tempo em sua vida, eu vou viver.” E respondo: “não tentarei, não esquecerei.” Canções que eu imaginava serem de amor homem x mulher, hoje soam filho x mãe. E canto baixinho “Das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que eu gosto de ter. Só assim sinto você bem perto de mim outra vez.” Nessa mesma música, penso em todas as brigas e diferenças que tivemos. Ela, inebriada pelo mundo, eu, quieto no canto. E, agora, sei que Roberto já cantava “Você foi, dos amores que eu tive, o mais complicado e o mais simples pra mim.”

Olho para as minhas filhas e lembro de um lindo texto que a minha mãe me deu no nascimento da Julia. Um texto do Afonso Romano de Sant’Anna chamado “Antes que eles cresçam”. Que fala do amor que uma mãe tem que reter e que ser avó é poder libertar todas essas correntes. Penso no que ela reteve. E me vem a canção “Tenho às vezes vontade de ser novamente um menino e na hora do meu desespero gritar por você. Te pedir que me abrace e me leve de volta pra casa.” Para a rua General Barbosa Lima, 95. Onde o sinteco estalava durante a noite, onde a casa era enorme para um filho único, mas onde havia você. A minha Lady Laura.

Poderia citar diversas músicas daquele que foi um dos homens mais importantes da vida da minha mãe. Um Rei que eu passei a idolatrar ainda mais pelas palavras e pelo carinho que me deu na despedida. Mas existe a canção, a definitiva. Aquela que mexe comigo enquanto digito cada uma dessas palavras: “Emoções”. O avião que a levou para longe de mim, dessa vez não retorna.

Minha mãe seguiu cada palavra dessa música. Cada proposta. “Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo…” Estreias, shows, festas, jantares, não importa. Ela viveu cada momento. “Detalhes de uma vida, histórias que eu contei aqui.” Minha mãe é um pilar essencial na assessoria de imprensa e na divulgação da cultura brasileira. Ela, de fato, contou aqui. “O importante é que emoções eu vivi” é a frase que resume a vida dessa mulher.

E agora, cá estou eu. Não o André, mas o Deco. Olho para trás, tentando encontrar um ressignificado. E lhe digo, mãe: “Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer…. Como é grande o meu amor por você.”

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