Arquivo mensal: setembro 2012

2016: Imagina na Olimpíada.

Londres 2012 acabou naquele clima de Globo de Ouro trabalhado em muito dinheiro e com doses extras de Botox. E algumas perguntas ficaram no ar: como serão as festas de abertura e encerramento da Rio 2016? Que delegação musical brasileira pretendemos colocar para derrotar aquele final épico com o The Who? E a mais importante: se o Van Halen tocasse “Jump”, a Fabiana Murer pularia ou culparia o vento?

Sejamos sinceros, tirando alguns esportes, nossas chances de medalha não são das maiores. Artur Zanetti, por exemplo, tem 1,56. E a Sarah Menezes, 1, 54… Temos o judô, o vôlei, a prata do futebol e aquele iatismo popular e moleque jogado por sobrenomes bem brasileiros como Scheidt e Grael. O hipismo, um esporte praticado nas ruas de todo Brasil, teria alguma chance. Mas como bem lembrou um dos atletas (de duas patas, no caso), “a cultura do Brasil é voltada para o cachorro. Enquanto, na Europa todo mundo tem um cavalo.” Desculpa esfarrapada, infelizmente, não é uma modalidade.

Sendo assim, enquanto o governo diz que está tudo certo e os atletas ficam à margem e só serão lembrados na véspera, restam as festas. Aqui está a nossa grande chance de brilhar. E tenho uma proposta: se todo atleta tem que atingir um determinado índice para ter o direito de entrar nos Jogos Olímpicos, nada mais justo do que exigir o mesmo das atrações musicais. Para garantir o nosso êxito, sugiro algumas normas.

Todo o estilo musical terminado em “ejo” está automaticamente impedido de participar da Rio 2016. Sertanejo, Pagonejo, Funknejo e Molejo, portanto, estão fora. Ritmos com a palavra “univesitário” agregada ao nome também ficam na porta. Seja ele sertanejo (para garantir), pagode ou pagode.

Letras dobradas no nome eliminam o atleta. Exemplos aleatórios: Gusttavo Lima e Claudia Leitte. O duplo “t” pode trazer sorte, dinheiro e bonança pela numerologia. Mas as regras aqui são outras. E duplicar a letra desnecessariamente é doping de mau gosto musical.

O índice de rimas, inspirado em trabalho do jornalista Gustavo Martins, definirá boa parte da festa. Após um longo estudo feito entre 2001 e 2005, o repórter concluiu que as rimas mais executadas no Brasil são: assim/mim, coração/paixão, dizer/você, fim/mim, esquecer/você e coração/solidão. Um bom critério, portanto, seria cortar sumariamente todo músico que já tenha abusado dessas rimas. Como o estudo terminou em 2005, gostaria de acrescentar a rima acreditar/amar. Para garantir que o Luan Santana não adentre o recinto.

Axé, funk e mamilos são assuntos polêmicos. O axé pode ser eliminado no critério rima. Ou no critério cidade natal de criação. Mas para garantir, sugiro a utilização do índice de repetição de vogais. Ou das dancinhas. Repetiu vogal demais? Fora. Tem uma coreografia? Fora. Isso derruba de uma só tacada o axé e o kuduro, ainda que eu acredite que até lá esse kuduro já esteja mole. Mesmo transgredindo diversos critérios aqui estabelecidos, o funk carioca dificilmente estará fora da festa. Porque a cidade natal pode sobrepor os direitos, nesse caso. Minha sugestão é a norma do proibidão: se tem palavrão, não entra. Regra careta, mas evita a possibilidade de ver a Tati Quebra-Barraco em HD.

Para finalizar, o Índice Criança Esperança. Que consiste em evitar que mais do que 6 artistas do programa fiquem reunidos na mesma noite nos Jogos Olímpicos. O coreógrafo daquilo ali também merece um corte. E o Índice Show para Excitar Gringos. Que nada mais é do que tomar cuidado para que o samba não seja mostrado como um show manjado de mulatas saculejantes.

Temos tudo para fazer a festa mais emocionante de todos os tempos. Basta fugir dos clichês e torcer para que o Michel Teló já esteja excursionando com o Beto Barbosa em 2016. Na dúvida, coloca o Jorge Ben Jor para tocar “A Tábua de Esmeralda” que não tem erro. E que o vento não nos atrapalhe.

Quando se é único.

Pesam sobre o filho único todas as expectativas da casa. Ele é o centro das atenções, o protagonista solitário das histórias contadas para os amigos, o depósito unificado de afeto, o singular. Tido como reizinho, o filho único carrega desde pequeno o cetro que não escolheu. E caminha pela vida com a sua coroa cravejada de divagações em um eterno “e se?”.

É do filho único saber conviver com o silêncio. O que a muitos amedronta, é um parceiro antigo para ele. Amigo invisível? O filho único tem uma turma deles. São adversários fundamentais na mesa de botão e no videogame. Sem eles, o filho único chuta a bola e é a parede que devolve. Com eles, a bola é devolvida por esses companheiros.

Sem irmão mais velho, o filho único aprende muito rápido a fechar a porta do quarto, porque são muitos lá fora, no mundo. E quando grande, sabe como ninguém trancar-se em si mesmo.

O filho único ri discretamente quando irmãos brigam. E sonha quando eles se abraçam. Como disse o André Laurentino, em um texto que inspirou esse: “Muitas janelas são alternativas, são outras vidas que não a dele, outros sonhos.” É um observador nato. Ser filho único é não achar estranho alguém almoçar sozinho. É a volta da escola, o jantar da noite em que seus pais saíram, o lanche no primeiro dia de aula.

Apesar da fama de mimado, o filho único tem que saber se virar. Ele é obrigado a criar suas próprias alternativas. Com tantas expectativas, ele aprende a ser responsável. A ter que tomar decisões sozinho. A evitar pedir ajuda. Pode ser perdido no trânsito ou em uma crise. A primeira alternativa nunca é o outro porque esse outro nem sempre esteve lá. Filhos únicos dão o seu jeito.

Eles não saltam de grandes alturas sem conferir o fundo. Não entram em ambientes sem analisar cada minúcia. Não deixam missões pela metade.

Uma vez, liguei para minha mãe e disse: “Mãe!” E ela me respondeu: “Quem é?” Rimos. Eram muitos os pupilos ao seu redor. Creio hoje que essa ligação me preparou levemente para a despedida. Quando não sou nem filho, nem único. Quando escrever é largar o cetro e abrir uma porta de frente para as minhas filhas. No plural.