Arquivo mensal: setembro 2012

Quando se é único.

Pesam sobre o filho único todas as expectativas da casa. Ele é o centro das atenções, o protagonista solitário das histórias contadas para os amigos, o depósito unificado de afeto, o singular. Tido como reizinho, o filho único carrega desde pequeno o cetro que não escolheu. E caminha pela vida com a sua coroa cravejada de divagações em um eterno “e se?”.

É do filho único saber conviver com o silêncio. O que a muitos amedronta, é um parceiro antigo para ele. Amigo invisível? O filho único tem uma turma deles. São adversários fundamentais na mesa de botão e no videogame. Sem eles, o filho único chuta a bola e é a parede que devolve. Com eles, a bola é devolvida por esses companheiros.

Sem irmão mais velho, o filho único aprende muito rápido a fechar a porta do quarto, porque são muitos lá fora, no mundo. E quando grande, sabe como ninguém trancar-se em si mesmo.

O filho único ri discretamente quando irmãos brigam. E sonha quando eles se abraçam. Como disse o André Laurentino, em um texto que inspirou esse: “Muitas janelas são alternativas, são outras vidas que não a dele, outros sonhos.” É um observador nato. Ser filho único é não achar estranho alguém almoçar sozinho. É a volta da escola, o jantar da noite em que seus pais saíram, o lanche no primeiro dia de aula.

Apesar da fama de mimado, o filho único tem que saber se virar. Ele é obrigado a criar suas próprias alternativas. Com tantas expectativas, ele aprende a ser responsável. A ter que tomar decisões sozinho. A evitar pedir ajuda. Pode ser perdido no trânsito ou em uma crise. A primeira alternativa nunca é o outro porque esse outro nem sempre esteve lá. Filhos únicos dão o seu jeito.

Eles não saltam de grandes alturas sem conferir o fundo. Não entram em ambientes sem analisar cada minúcia. Não deixam missões pela metade.

Uma vez, liguei para minha mãe e disse: “Mãe!” E ela me respondeu: “Quem é?” Rimos. Eram muitos os pupilos ao seu redor. Creio hoje que essa ligação me preparou levemente para a despedida. Quando não sou nem filho, nem único. Quando escrever é largar o cetro e abrir uma porta de frente para as minhas filhas. No plural.

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