Arquivo mensal: outubro 2012

Um gênio incompreendido.

Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, eu podia estar ouvindo Camaro Amarelo na calçada, mas estou aqui escrevendo mais uma coluna. Peço a sua compreensão, portanto. Estava tudo programado para falar sobre o disco que mudou a minha vida. Seria um texto mais doce, com PH neutro, repleto de recordações, com barulho de vitrola e cheiro de vinil. Vai ficar para a próxima. Não resisti a essa polêmica do PSY, Latino e Cauê Moura.

Gangnam Style tem 263 milhões de views no Youtube, enquanto escrevo esse texto. É o hit do sul-coreano Psy. Ok, você já sabe disso. Já sabe que é uma crítica social ao bairro dos milionários de Seoul. E que vem embalada em um clipe com uma coreografia inusitada e uma melodia absolutamente grudenta. Caso não saiba, uma perguntinha: como está a sua vida aí no Azerbaijão? O fato seria esse, mas eis que a Indústria Latino de Fabricação de Hits descobre a canção. E resolve fazer mais uma de suas versões.

“Despedida de solteiro” é o nome dessa preciosidade. Uma poesia de fazer inveja ao mais talentoso dos letristas. Aldir Blanc? Chico Buarque? Vinicius? Bob Dylan? Tolos que não chegam aos pés com tênis 12 molas do nosso verdadeiro poeta. “As minas todas nuas, as latinetes de topless e de bumbum pra lua.” Sinta a rima, sinta o fluir das palavras, sinta o dedo no pulso do povo. “Laçar, puxar, beijar. Pra galopar.” O que dizer sobre esse verso? É a dancinha sul-coreana traduzida em palavras que só um grande artista seria capaz de captar.

O talento que já havia sido exibido na versão do hit romeno “Dragostea Din Tei” ficou mais apurado. A técnica mais precisa. O tempo está jogando a favor de Latino. “Festa no Apê” resgatava a importância da palavra bundalelê e a necessidade de rimas nunca antes pensadas. Em outro verso, ele dizia com esmero “vou zoar o mulherio e a chapa vai esquentar”. É a linguagem da rua a serviço da melodia. Fazer o complicado é fácil, difícil é fazer o simples. Afinal, quem gostaria de ver a palavra “escafandrista” em uma letra que fala sobre futuros amantes? O amor, segundo Latino, é paixão, é libido, é orgia, é transgressão de conceitos.

O talento aqui é indomável. Um bom resumo dessa força chamada Latino pode ser explicada em outro hit adaptado: “Quem pode domar a força que entra nas suas veias? Fica quente, gruda na gente. Ferve, esquenta, incendeia.” É incontrolável. É um rio caudoloso em ideias, em sucessos e que, por isso mesmo, coleciona críticos. E o que é um crítico? Um sujeito incapaz de realizar algo próximo de tal genialidade. Um frustrado. Um coitado que nega o calor do brasileiro. Enquanto isso, a agenda de Latino está cheia, os programas de TV o querem, o cachê não pára de subir. Toma essa!

O que o insolente Cauê Moura não entendeu é que pega mal falar do que o Brasil canta. E Latino esqueceu as suas próprias palavras de minutos de sabedoria “tô nem aí, pode ficar com seu mundinho, que eu tô nem aí…” e respondeu ao desconhecido. Não deveria. Sua importância para a cultura nacional é quase maior do que tudo, só perde para o seu talento. Tudo o que é rejeitado e pisoteado é porque é sucesso, ele explicou em recente entrevista. Repararam na inversão da lógica? Na visão de 180 graus sobre a palavra? Ele sabe tudo, seus pobres de espírito.

Latino é a voz da laje, da esquina, da quebrada. Mas é também a voz que encanta a classe AAA em suas festinhas. Porque chique é estar conectado com as tendências que embalam o povão e pagar 400 reais para dançar funk. Não é mais calça da Gang, é Diesel. É fingir que você é do povo. “Eu tenho um amigo da classe C” é o novo must.

Você, senhor das certezas, fique tranquilo. Latino jamais fará uma versão de uma música do Led Zeppelin, do Radiohead, do Mumford & Sons, do Otis Redding, do que é sucesso apenas no seu mísero mundo. Não mesmo. O GPS está apontado para os top charts globais. É um estetoscópico a espera de um batimento mais acelerado. Um ultrassom pronto para exibir um novo rebento. Uma forte contração preparada para expelir um novo hit. E só você e o Cauê Moura não entendem. Vida longa para esse gênio da canção. Que ele seja sempre abençoado com essa verve poética, com esse som rico em melodias e essas letras que emocionam. Snif.

PS: 598 milhões de views até o momento. 

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O método Sarkisiano.

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Você é um daqueles que acredita que é relativamente tranquilo chegar em uma ideia? Então, você nunca viu o Gustavo Sarkis trabalhando. Imagine aquela posição clássica do Chico Xavier psicografando. Agora, adicione o drama da chegada cambaleante daquela maratonista suíça nas Olímpiadas de 1984. O Sarkis criando é algo por aí. É sofrido, é duro, é emblemático. Para quem acredita em inspiração no ar, em flanar à espera da iluminação, em todas as bobagens do gênero, é um soco de realidade.

A direção de criação me deu a oportunidade de entender mais sobre os métodos que cada um tem para chegar em uma ideia. O que já era algo que eu adorava observar, hoje ficou mais fácil. Meter nome na ficha técnica sem fazer nada também é fácil, mas isso é assunto para outro texto. O fato é que escolhi falar do Sarkis porque ele é o cara mais disciplinado que já conheci trabalhando. Ressalto o trabalhando porque a caminho da academia, ele é facilmente seduzido por um almoço. Mesmo que seja no fatídico America. Outro motivo é que ele está longe, na distante California. E sabe como são homens, né? Sempre difícil elogiar quando o cara está logo ali pertinho.  Afinal, qualé, tá me estranhando? (cusparada no chão, coçada no saco). E, claro, ele é um redator brilhante.

Logo que eu cheguei na AlmapBBDO, percebi o sofrimento do Sarkis. Não resisti a isso e num ato típico de bullying, ao invés de roubar o lanche do coleguinha, resolvi tirar umas fotos escondidas dele trabalhando. Rapidamente, eu coletei um enorme acervo. Ele com a testa encostada na mesa, ele com a mão na cabeça em desespero, ele olhando para o monitor perdidamente, ele com as mãos em oração, ele atormentado. Um tempo depois, minha filha pegou o meu celular, viu as fotos e me perguntou: pai, quem é esse seu amigo tão triste? Era uma dor contagiante.

Gustavo Sarkis vem de uma escola de redatores focados. O fone no ouvido só toca música em caso de esquizofrenia. É um Peltor anti-ruído desses que os caras usam à beira de uma turbina de avião. Ele não usa MSN, iChat, joguinhos e, arrisco dizer, que nem vê putaria. Não há distração em seu mundo. É um pólo oposto do meu jeito de fazer. Coleciona pequenos pedaços de papéis com anotações aleatórias. Coisas quem nem são, mas que podem ser. Esse método rendia dezenas de páginas de ideias, toneladas de roteiros. Não, não são todos embaixo do mesmo conceito. Ele abre picadas e caminhos para todos os lados. É um peregrino faminto, fominha, incansável, obstinado em levar a maior e melhor pilha. Apresentar ideias ao lado dele é como fazer xixi ao lado do Kid Bengala. E ele adora repetir, tal qual Dulcídio Caldeira (também conhecido como Obsessídio Caldeira), que a ideia nasce do herpes.

Ele sempre vai até o limite para criar qualquer coisa. Lembro que na época do cachorro-peixe, havia um outro roteiro brilhante para a mesma campanha. Ele descartou no caminho por crer que bastava aquele. Não me lembro dele agindo como estrela, não me recordo dele destratando ninguém, nem de permitir que o seu o ego saísse fazendo besteira por aí.

Sarkis está entre os meus redatores favoritos por ser simples mesmo sendo tão complicado criando. Eu gostava de implicar dizendo que ele era baiano de condomínio. Cresceu jogando capoeira no carpete, enquanto as suas ideias eram nutridas com danoninho e lactobacilos vivos importados. Bobagem. Ele é bom porque faz muito. Porque gosta. E porque não se deixou enganar pelo falso glamour que nos cerca. É um cara que faz falta por perto (arroto e mais uma cusparada no chão). Nesse momento, deve ter um americano olhando o Gustavo criar. Acostumado com todos os clichês de uma nação alegre e sacolejante, ele pensa: e eu que achava que os brasileiros não sofriam por nada.

PS: o vídeo da maratonista suiça. Também em Los Angeles, só que em 1984.