Um gênio incompreendido.

Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, eu podia estar ouvindo Camaro Amarelo na calçada, mas estou aqui escrevendo mais uma coluna. Peço a sua compreensão, portanto. Estava tudo programado para falar sobre o disco que mudou a minha vida. Seria um texto mais doce, com PH neutro, repleto de recordações, com barulho de vitrola e cheiro de vinil. Vai ficar para a próxima. Não resisti a essa polêmica do PSY, Latino e Cauê Moura.

Gangnam Style tem 263 milhões de views no Youtube, enquanto escrevo esse texto. É o hit do sul-coreano Psy. Ok, você já sabe disso. Já sabe que é uma crítica social ao bairro dos milionários de Seoul. E que vem embalada em um clipe com uma coreografia inusitada e uma melodia absolutamente grudenta. Caso não saiba, uma perguntinha: como está a sua vida aí no Azerbaijão? O fato seria esse, mas eis que a Indústria Latino de Fabricação de Hits descobre a canção. E resolve fazer mais uma de suas versões.

“Despedida de solteiro” é o nome dessa preciosidade. Uma poesia de fazer inveja ao mais talentoso dos letristas. Aldir Blanc? Chico Buarque? Vinicius? Bob Dylan? Tolos que não chegam aos pés com tênis 12 molas do nosso verdadeiro poeta. “As minas todas nuas, as latinetes de topless e de bumbum pra lua.” Sinta a rima, sinta o fluir das palavras, sinta o dedo no pulso do povo. “Laçar, puxar, beijar. Pra galopar.” O que dizer sobre esse verso? É a dancinha sul-coreana traduzida em palavras que só um grande artista seria capaz de captar.

O talento que já havia sido exibido na versão do hit romeno “Dragostea Din Tei” ficou mais apurado. A técnica mais precisa. O tempo está jogando a favor de Latino. “Festa no Apê” resgatava a importância da palavra bundalelê e a necessidade de rimas nunca antes pensadas. Em outro verso, ele dizia com esmero “vou zoar o mulherio e a chapa vai esquentar”. É a linguagem da rua a serviço da melodia. Fazer o complicado é fácil, difícil é fazer o simples. Afinal, quem gostaria de ver a palavra “escafandrista” em uma letra que fala sobre futuros amantes? O amor, segundo Latino, é paixão, é libido, é orgia, é transgressão de conceitos.

O talento aqui é indomável. Um bom resumo dessa força chamada Latino pode ser explicada em outro hit adaptado: “Quem pode domar a força que entra nas suas veias? Fica quente, gruda na gente. Ferve, esquenta, incendeia.” É incontrolável. É um rio caudoloso em ideias, em sucessos e que, por isso mesmo, coleciona críticos. E o que é um crítico? Um sujeito incapaz de realizar algo próximo de tal genialidade. Um frustrado. Um coitado que nega o calor do brasileiro. Enquanto isso, a agenda de Latino está cheia, os programas de TV o querem, o cachê não pára de subir. Toma essa!

O que o insolente Cauê Moura não entendeu é que pega mal falar do que o Brasil canta. E Latino esqueceu as suas próprias palavras de minutos de sabedoria “tô nem aí, pode ficar com seu mundinho, que eu tô nem aí…” e respondeu ao desconhecido. Não deveria. Sua importância para a cultura nacional é quase maior do que tudo, só perde para o seu talento. Tudo o que é rejeitado e pisoteado é porque é sucesso, ele explicou em recente entrevista. Repararam na inversão da lógica? Na visão de 180 graus sobre a palavra? Ele sabe tudo, seus pobres de espírito.

Latino é a voz da laje, da esquina, da quebrada. Mas é também a voz que encanta a classe AAA em suas festinhas. Porque chique é estar conectado com as tendências que embalam o povão e pagar 400 reais para dançar funk. Não é mais calça da Gang, é Diesel. É fingir que você é do povo. “Eu tenho um amigo da classe C” é o novo must.

Você, senhor das certezas, fique tranquilo. Latino jamais fará uma versão de uma música do Led Zeppelin, do Radiohead, do Mumford & Sons, do Otis Redding, do que é sucesso apenas no seu mísero mundo. Não mesmo. O GPS está apontado para os top charts globais. É um estetoscópico a espera de um batimento mais acelerado. Um ultrassom pronto para exibir um novo rebento. Uma forte contração preparada para expelir um novo hit. E só você e o Cauê Moura não entendem. Vida longa para esse gênio da canção. Que ele seja sempre abençoado com essa verve poética, com esse som rico em melodias e essas letras que emocionam. Snif.

PS: 598 milhões de views até o momento. 

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3 pensamentos sobre “Um gênio incompreendido.

  1. Guigo disse:

    Para quem quiser comparar as letras, aqui vai a tradução do Sr. Psy

    http://letras.mus.br/psy/gangnam-style/traducao.html

  2. N. disse:

    Vou ser clara, até o presente momento não havia ouvido falar de você, mas li alguns dos textos aqui do blog, e devo dizer que me surpreendi por não conhecer nenhum deles.

    Agradáveis, verdadeiros e falam exatamente o que precisa ser dito, independente de agradar ou não.

    Ainda bem que ainda existem pessoas assim.

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