O outro lado da fita.

O apartamento é grande. Um belo exemplar da velha Copacabana. A vista é inexistente. Estou repleto de espaço e o que posso ver são os discos que me cercam. Há um quarto inteiro reservado só para eles e um solitário sofá. Um empreendimento imobiliário rapidamente acharia um nome em inglês para isso: vinyl room, audio experience room, listening room. Pouco me importava. As madames têm closet para sapatos? Os metrossexuais têm armários para cremes, pinça e secador? Meus pais tinham um quarto para os discos de vinil.

O leitor mais jovem, acostumado com música guardada em HD, talvez não entenda esse sentimento. Normal. Em 2009, um adolescente chamado Scott Campbell trocou o seu iPod por um Walkman. Um experimento de 1 semana. Ele demorou 3 dias para descobrir que a fita tinha um outro lado. O que nos leva a outro fato curioso: a expressão lado B não faz mais sentido. Scott reclamou da capacidade de armazenamento, do peso, da pouca praticidade do walkman, dos ruídos. Com toda razão. Não farei aqui um inocente brado “na minha época era melhor”. Sinto saudades de alguns rituais, da espera, do quarto de vinis. É disso que eu falo.

Voltar a fita K-7 na caneta para economizar pilha do Walkman era um ritual sagrado. Lembro que as locadoras de vídeo cobravam uma taxa extra para quem não entregasse o filme VHS rebobinado. Fita K-7, VHS, locadora de vídeo e rebobinar: tudo caiu em desuso. Mas era uma arte delicada que podia quebrar ou enroscar a fita. Coisa para se gabar no recreio. Como conseguir soprar uma bola dentro da outra de chiclete Ploc ou fazer a Torre Eiffel com o ioiô.

Mesmo cercado  de música, ainda me dava o trabalho de gravar os programas da rádio Fluminense, a Maldita. O Mississipi Dreams era um clássico. Você ficava ouvindo o programa e olhando para a fita. Rezando para dar tempo. Para driblar essa pirataria old school, as rádios colocavam uma vinheta no meio da música. Amaldiçoei cada uma delas, enquanto esperava a pilha ficar na temperatura certa no congelador.

O vinil envolvia uma série de outros rituais. Acertar a agulha entre uma faixa e outra era a técnica em disputa. Quando falo em espera, falo também desse intervalo. Do silêncio que envolvia o começo da primeira faixa de cada lado do disco. Do estalo, do ruído bom. Pronto. Já virei o coroa nostálgico.

Vinil podia ser lavado com água. Era coisa de macho. Não essa frescura do iPod que morre num simples mergulho na privada. Música dava um trabalho danado. Download era um amigo que voltava de viagem com muamba na mala. Era a minha mãe pai entrando em casa com as amostras invendáveis que chegavam das gravadoras. Era o inesperado. Discos não vazavam, havia um longo delay entre exterior e Brasil. É, a gente chamava de exterior.

Subindo a ladeira de volta ao meu apartamento. O trajeto para quarto de vinil era uma viagem pelo mundo da música. O corredor não tinha um espaço sequer nas paredes. Tudo estava coberto com cartazes de shows dirigidos pelo meu pai, eventos que a minha mãe trabalhou, fotos de família com cantores no meio. Não bastasse isso, meu vizinho de baixo era o Sérgio Cabral (o pai). E seu apartamento era outro templo do samba e da MPB. Eu cresci filho único cercado de sons por todos os lados. O tempo passava com o girar de um disco.

O forte do acervo era MPB. Mas o clima Copacabana de mistura não escapou do quarto. Se o bairro é famoso por reunir uma ampla fauna de travestis, jovens e velhinhas de cabelo violeta, o quarto tinha de tudo. Forró, bossa-nova, heavy metal, reggae, rock, ópera e o disco inesquecível: John Mayall & the Bluesbreakers featuring Eric Clapton. A partir da descoberta desse vinil, comecei a ouvir blues. Depois entrei pelo rock. E fui mergulhando cada vez mais fundo na estante até sair dela com uma gaita no bolso. Só mais velho, já com CDs, redescobri a música brasileira.

Um pedaço desse quarto voltou para mim. Falta coragem para adentrar nos vinis, falta espaço na casa, falta uma vitrola. Estou cercado pela facilidade da música digital. E confesso adorar essa tecnologia. Tenho um HD repleto e os links não páram de pipocar na minha tela. Só que tal como um Scott Campbell grisalho, tinha esquecido que na fita há outro lado. Virei em busca do meu passado. E encontrei essas lembranças gravadas.

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6 pensamentos sobre “O outro lado da fita.

  1. Helena Perdiz disse:

    Tá decidido: quando eu crescer, quero ser André Kassu.

  2. Kaike Lamoso disse:

    Muito bacana o texto André. Me fez lembrar da minha educação musical. Dos vinis memoráveis que meu pai me mostrava. Sgt. Peppers, Led Zeppelin IV, um dos Stones que tem uma foto em close de uma calça, com direito a zíper e tudo. Verdadeiras obras de arte.
    Estão todas intactas num listening room. A casa foi construída ao redor dele. A vitrola Techinics continua tinindo, embora ele também tenha um HD lotado de música.
    Vida longa ao vinil e aos lugares onde ele nos leva.
    Abraço

  3. Ana Carolina Costa disse:

    Não tinha lido esse. Amei!!!

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