O meu King favorito.

Caminho pela beira da estrada 61. Acho difícil que ele vá aparecer. É gente demais em volta. O lugar do pacto virou um ponto turístico. Penso que se ele apareceu para o Ralph Macchio, o Karate Kid, por que deixaria de aparecer para mim? Preciso da benção do senhor de todos os blues. Na dúvida pelo ritual necessário, tento todos. Corto o dedo e deixo o sangue gotejar na encruzilhada. Acendo uma vela. Começo a tocar gaita na tentativa de evocar um trem. Nada. Já estava desistindo, quando eis que surge Robert Johnson em carne e osso. Ou quase isso. Eu:

–       Salve, salve meu São Crossroads. Estou prestes a cometer um sacrilégio, preciso do seu aval.

Ele está sentado numa cadeira, na mesma posição da sua foto imortal. Pernas cruzadas e chapéu. E me diz:

–       Sacrilégio? É comigo mesmo, malandragem. Manda a letra.

Estranho ele usar uma gíria atual, mas beleza. Sigo:

–       Seu Robert, sabe o que é, o B.B. King não é o meu King favorito. Não é por ele que eu luto. Tem solução?

Ele sorri:

–       Hmmmm, seu caso é grave, my son. Reza 15 “The Thrill is gone” e open um Jack Daniels pro Satan.  Com B.B. King não se mexe.

O Robert Johnson começou a falar que nem o Joel Santana. Evito comentar. Pergunto na mesma língua:

– Only isso?

Robert Johnson:

–       You didn’t need to cut o dedo. Quer um band-aid?

E some. Andei até Clarksdale à toa. Faço um curativo no dedo. Band-aid da Hello Kitty? Porra, Robert. Putz, esqueci de perguntar se ele não ficou puto com o Steve Vai duelando com o Karate Kid. Ele merecia algo melhor.

Depois de cantar o hino do condado de B.B. King 15 vezes, crio coragem. São três os Kings do blues. B.B. , Albert e Freddie. B.B.King é o dono do maior reino e do maior número de súditos. Nada mais merecido. Basta uma nota na sua guitarra para saber quem está tocando. Um estilo único que ajudou a fundamentar o blues no cenário mundial. Carismático, dono de uma voz que beira à perfeição, um showman como poucos. Meu primeiro contato com o Rei foi no disco “Live in Cook County Jail”. Escutava em looping. Está tudo ali. Todos os mandamentos para adentrar no reino do blues. Sem trombetas anunciando, apenas Lucille. B.B. King é e sempre será o maior dos Reis.

Albert King é o canhota de ouro da trinca. Trajando uma Flying V com as cordas invertidas, era capaz de dar aquelas notas que você sente na espinha. Para pisar no seu reino é preciso cantar o hino é “Born under a bad sign.” Mas para ser um súdito é preciso aprofundar-se no seu estilo. Harmoniza bem com o piso grudando de cerveja, shots de whisky e aquele clima “te considero para caralho” no fim da noite. Vi o Grande Rei Albert numa noite em 1992. Poderia ser um de seus cavaleiros, poderia lutar por ele, não fosse o próximo nome da lista.

Se eu tivesse que lutar por um desses Reis, lutaria por Freddie King. “Burglar” é a minha Excalibur, “Pack it up” é o meu hino. Freddie é o meu King favorito, por mais profano que seja dizer isso quando B.B.King está na disputa. Seu reino não é o maior, mas é onde eu me sinto melhor. Tecnicamente era um guitarrista imbatível. Ele e Buddy Guy são os meus favoritos nesse quesito. Buddy que poderia muito bem ter um King no seu nome. A voz é poderosa, daquelas que derrubam um exército. E desde sempre ele apontava para o futuro. “Pack it up” é um primor. É blues, rock, funk e tem as convenções mais intrincadas. É daquelas canções de calar a boca de quem acha que blues é simples.  O Rei Freddie fez de mim um súdito fiel e a ele serei devoto por todo sempre. Por “Getting Ready”, por “Texas Cannonball”, pelo luxo de ter Eric Clapton na guitarra base. Na minha subida aos céus, troco as harpas pela guitarra de Freddie. No inferno já deve ter uma banda de blues boa, só peço que ele faça os solos.

Conto com a clemência de B.B. e de Albert. Meu reino é de Freddie. Por ele, fui a uma encruzilhada na esperança da benção de Robert Johnson. Aliás, pedir benção para um sujeito que fez pacto com o diabo é pecado? Pouco importa. Preciso é entender que cacete ele fazia com um band-aid da Hello Kitty

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5 pensamentos sobre “O meu King favorito.

  1. Snow disse:

    Sonny Boy Williamson I ou Sonny Boy Williamson II ?

    Abs.

    • andrekassu disse:

      O Sonny Boy II é bem impressionante. A voz era sensacional. O timbre único. O problema é o que o Big Walter Horton dizia que ele roubou o seu estilo. Eu ouvi mais o II do que o I. Ficaria com ele. Apesar de adorar o Sonny Boy I.

      • Snow disse:

        Eu não conhecia essa história do Walter Horton não, interessante. Esse era um monstro também hein? Gosto muito dele e do seu discípulo, Carey Bell. Eu ouvi mais o Sonny Boy II. Quem nunca roubou licks dele que atire a primeira Hohner.

      • andrekassu disse:

        Tem um cd dele (não lembro qual) com umas entrevistas entre as faixas. E numa delas, ele conta essa história.
        Era um monstro. Fine Cuts e o cd com o Carey Bell são perfeitos. Can’t keep loving you é outro cd antológico.

  2. Snow disse:

    O Fine Cuts e aquele com o Carey Bell são incríveis. Esse com entrevistas não conheço, vou procurar. Valeu a dica.

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