Crédito ou débito?

Um resto de café gelado no fundo da xícara. Um pequeno biscoito amanteigado com a sorte de não ter sido devorado. Um garçom levemente ansioso com uma máquina na mão. Esse era o momento mais angustiante do almoço para o meu amigo Cesar Herszkowicz. Quando surgia o pavoroso enigma: é débito ou crédito? Em seguida, a mesa inteira passava por longos segundos de sofrimento. Uma espera que sempre terminava com o Cesinha dando a resposta errada. Para ele, o mundo carecia de uma nova palavra: “crébito”.

Penso nesse enigma. Na ausência do meio-termo. Você tem que optar pelo crédito ou débito. Só que é muito mais fácil entrar no débito do que ficar no crédito. A regra vale para conta bancária ou relacionamentos.

O gerente do banco liga para avisar que a sua conta entrou no vermelho. O caixa eletrônico faz questão de ressaltar que a taxa agora é mais pesada. O Serasa adentra nos seus sonhos. O débito nunca passa desapercebido. É como o primeiro fio de cabelo branco. Um exibido. O crédito é o esperado. O comum. Para que o gerente note a sua existência, você precisa de uma conta eikebatistiana. Caso contrário, você não fez mais do que a sua obrigação de estar no azul.

De um jeito ou de outro, estamos sempre devendo. Mesmo sem saber. São tantas as funções que algo ficará pendente no balanço final. O profissional exemplar, em alguma hora, vai descobrir que está em débito com a família. A mãe dedicada sente-se em débito com a profissão. O amigo entra em débito por não responder uma ligação. Nos múltiplos personagens que exercemos, há algum que ficou aquém do esperado. Que não bateu a meta. Ficamos a esperar um gerente personnalité que nunca surge. E assim,  entramos no cheque especial das relações.

Procuramos conforto na crença de que o montante de crédito vai amortizar a dívida. Sinto informar: não vai. Se você não cumpriu com as expectativas, não adianta discar 1. Se você deu um mole, não tente teclar 2. Pegue o seu extrato e confira. Aquela informação com letras pequeninas é o seu crédito. O asterisco de letras garrafais vermelhas é o seu débito.

Volto para a cena do almoço. Pego o biscoito amanteigado. O Cesinha estava certo. A vida deveria ter uma maquininha diferente da Cielo. Uma que permitisse a pergunta: é “crébito”, senhor?

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