Arquivo mensal: junho 2013

Meu cérebro, um Bóson de Higgs.

Olho para cima em busca de luz solar. Não há nada. Estou bem abaixo do nível do solo. Ao meu lado, um cientista estranhamente barbudo me explica como os dados sobre colisões de feixes de partículas de prótons podem ajudar a recriar um pequeno Big Bang. Ele dedilha um violão, percebo sua longa unha de porcelana. Ele começa a cantarolar baixinho: o Bóson de Higgs é uma partícula de Deus, tá tudo bem, não tenha medo do buraco negro, negro. Os cientistas batem palmas ao seu lado. Telas de celulares iluminam o ambiente fazendo o papel de isqueiros. Leio a placa: Grande Colisor de Hádrons. Nessa hora, dois feixes de prótons são impelidos a uma energia de 1,18 (TeV). Como eu sei isso? Estava na canção do barbudo. Começo uma corrida desenfreada porque desenfreada é uma palavra que só pode ser usada com corrida. E me pego carregado por uma massa de sumérios.

Não entendo nada do que os sumérios dizem. Reparo uma estranha semelhança entre o líder dos sumérios e o cientista que rimava bóson com próton. O idioma é aglutinante, feito por elos, por inflexão, me explica pela linguagem universal dos sinais, o barbudo.  Sinto um clima de Wikipedia no ar. Estou confuso. O elenco de sumérios parece saído do Porta dos Fundos. Rezo para que o Fabio Porchat apareça dizendo que é tudo brincadeira. Começa uma nova canção no estranho idioma. Olho com atenção. Os sumérios são os membros do Hurtmold. Caio no sono.

Abro os olhos. Ao meu lado está Sergei Paradjanov. Ele me explica o sentido filosófico do filme “A cor da romã”. Desconheço Paradjanov, nunca comi romã. Ele insiste em me explicar a linguagem simbólica e onírica de sua película. Argumento que sou muito raso. Uma piscina de criança perto da sua visão. Ele projeta imagens aleatórias. Sergei é a cara do barbudo cientista-sumério. Comento essa peculiaridade com ele. A resposta vem em canção. A letra diz que o ser humano é mímese, que é o cerne da nossa existência.

Maria Gabriela Llansol surge em grande estilo. Uma figura interessante. O Paradjanov-cientista-sumério comenta que compartilha com a escritora o uso do cotidiano com chave para infinito. Desconfio que ele está completamente chapado. Procuro pela lata de leite condensado. Ele continua a filosofar dedilhando um violão. Eu não entendo nada do que ele fala. Não vejo os signos, as conexões, a harmonia do seu palavreado. Não capto nenhuma metáfora, nem as referências. Estou fora do tom. Sou uma nota dissonante. Caetano surge do nada como um Mestres dos Magos. Pego o meu unicórnio e espero por uma saída. E ele diz olhando nos meus olhos: “Cê’ é burro cara, que loucura. Como você é burro, que coisa absurda.”

O desespero é grande. Preciso sair desse ambiente indefinido. Repleto de simbologias que não estou apto para traduzir. Sinto um cheiro de dama-da-noite no ar. Caio na bobagem de comentar com o meu Paradjanov-cientista-sumério-filósofo. Ele diz que a identificação é uma amálgama das coisas. Putz, agora não entendi mesmo. Meu barbudo me guia para o fim da minha ignorância. E puxa uma poesia do abstrato. Diz que a dama-da-noite tem um fulgor vizinho nas memórias. Que faz dobrar o joelho da gente quando passa. Entendo que lugar é esse. Estou preso em uma entrevista do Marcelo Camelo. Eu me ajoelho. Rogo ao Deus das partículas de prótons para me tirar desse lugar.

Flano até chegar na Zona Oeste da minha alucinação. Agora, tudo parece ser uma filmagem em Super-8. A nostalgia pode ser tocada com os dedos. Lagartixas, samambaias e insetos tropicais nos acolhem como entes queridos e mágicos. Tudo é vida, tudo é música, tudo é tão complicado que Jung não encontraria a correlação. Penso em comprar uma Barsa de significados de sonhos. Ouço uma frase de Cesare Pavese ecoar: “poesia é quando um idiota olha para o mar e diz que parece azeite.” Finalmente, entendi uma frase. Vejo o mar se transformar em azeite. Eu sou o idiota, comemoro. O portal é aberto nesse instante. Passo entre sumérios, grandes colisores, romãs. Grito adeus a esse mundo onde a minha inteligência foi reduzida a um Bóson de Higgs. Pego um biscoito da sorte e mordo na vã tentativa de entender algo. A resposta surge no papel molhado de saliva: a vida é bem menos complexa do que uma resposta do Marcelo Camelo. Relaxe.

 

O povo quer música.

Eu sou um leigo em música clássica. Gosto de ouvir, mas não saberia citar o nome de uma orquestra. Não ligo o nome à obra. Meu conhecimento nessa área é restrito a toques de celular e a musiquinhas de espera. É a minha vergonha musical. Só equilibrada pelo fato de eu não suportar qualquer estilo que termine com a palavra “universitário”.

Acontece que música clássica me emociona, mesmo não conhecendo nada. Quando estive em Berlim pela primeira vez, o que logo me chamou atenção foi a trilha sonora dos taxistas. Ou eles escutam música clássica ou hits esquecidos dos anos 80. Ou eles exaltam o conhecimento que me falta ou passeiam pelos sucessos represados pelo muro. Para um carioca acostumado com taxistas embalados no funk e sem amortecedores, Berlim me emocionou na primeira corrida.

No segundo módulo da Berlin School, tive uma chance única. A escola nos convidou para um evento da série Casual Concerts na Deutsches Symphonie-Orchester Berlin. Tudo parecia perfeito. O lugar é inacreditavelmente lindo. O som chega limpo a todos os recantos. Uma plateia absolutamente elegante e concentrada. Um espirro não se atreveria a escapar em tal espaço com vergonha de sair do tom.

A ideia do Casual Concerts é excelente. O maestro faz o papel de um professor. Tugan Sokhiev foi o nosso condutor nessa viagem pela Sinfonia Nº 7 de Antonín Dvorák, que tinha tudo para ser inesquecível. O maestro nos leva a entender as passagens, as intenções de vários momentos da Sinfonia. Ele explica cada detalhe com afinco. Nos primeiros 10 minutos, tive a certeza de que seria uma noite incrível. Ele ressaltava os porquês, o estilo, a linha histórica, os motivos. O problema é que a explicação levou tempo demais. A partir de um determinado momento, Deutsches Symphonie-Orchester parecia um lindo Keynote. A baqueta virou um enter que mudava as telas. A trilha era bonita, mas o peso da pálpebra começou a ser inevitável.

Após 50 minutos de introdução, o maestro finalmente iniciou a Sinfonia. Que veio a durar menos do que a explicação. Cada detalhe estava tão racionalizado, que a emoção fugiu sorrateira. Eu estava cansado. Quando conseguia conectar uma passagem da Sinfonia Nº 7, eu buscava pela razão. Ticava a minha lista como quem diz: essa eu lembro.

Na saída, comentei com meus colegas de classe (gosto de ter 40 anos e falar isso) que o concerto tinha me lembrado um erro recorrente em reuniões. O excesso de racionalização. Do mesmo jeito que o maestro tentava transformar em lógica o que muitas vezes nos emociona por ser ilógico, as apresentações tendem a exaltar o racional. Na ânsia de explicar como chegamos lá, perdemos o sentimento de aproveitar o “lá”.

No Casual Concerts, não houve equilíbrio. Meus colegas Chacho, Simon, Eduardo e Lea saíram antes do término. Lea escreveu sobre o meu comentário que agora percorro de novo. Parte da plateia chegou cansada na execução da peça. O que me faz pensar que não é por acaso que reuniões muito longas costumam terminar com refação. Quanto mais tempo temos para racionalizar, menos nos deixamos levar pelo instinto. Precisei de meses para ouvir a Sinfonia Nº 7 novamente. Livre de todos os porquês, enfim, aproveitei. Achei sentido quando não busquei por um. Tugan Sokhiev me deu a razão. A Sinfonia me trouxe a emoção. Se tivesse que escolher entre as duas, não hesitaria. O povo quer música.

Coluna para o blog do Meio&Mensagem.