O povo quer música.

Eu sou um leigo em música clássica. Gosto de ouvir, mas não saberia citar o nome de uma orquestra. Não ligo o nome à obra. Meu conhecimento nessa área é restrito a toques de celular e a musiquinhas de espera. É a minha vergonha musical. Só equilibrada pelo fato de eu não suportar qualquer estilo que termine com a palavra “universitário”.

Acontece que música clássica me emociona, mesmo não conhecendo nada. Quando estive em Berlim pela primeira vez, o que logo me chamou atenção foi a trilha sonora dos taxistas. Ou eles escutam música clássica ou hits esquecidos dos anos 80. Ou eles exaltam o conhecimento que me falta ou passeiam pelos sucessos represados pelo muro. Para um carioca acostumado com taxistas embalados no funk e sem amortecedores, Berlim me emocionou na primeira corrida.

No segundo módulo da Berlin School, tive uma chance única. A escola nos convidou para um evento da série Casual Concerts na Deutsches Symphonie-Orchester Berlin. Tudo parecia perfeito. O lugar é inacreditavelmente lindo. O som chega limpo a todos os recantos. Uma plateia absolutamente elegante e concentrada. Um espirro não se atreveria a escapar em tal espaço com vergonha de sair do tom.

A ideia do Casual Concerts é excelente. O maestro faz o papel de um professor. Tugan Sokhiev foi o nosso condutor nessa viagem pela Sinfonia Nº 7 de Antonín Dvorák, que tinha tudo para ser inesquecível. O maestro nos leva a entender as passagens, as intenções de vários momentos da Sinfonia. Ele explica cada detalhe com afinco. Nos primeiros 10 minutos, tive a certeza de que seria uma noite incrível. Ele ressaltava os porquês, o estilo, a linha histórica, os motivos. O problema é que a explicação levou tempo demais. A partir de um determinado momento, Deutsches Symphonie-Orchester parecia um lindo Keynote. A baqueta virou um enter que mudava as telas. A trilha era bonita, mas o peso da pálpebra começou a ser inevitável.

Após 50 minutos de introdução, o maestro finalmente iniciou a Sinfonia. Que veio a durar menos do que a explicação. Cada detalhe estava tão racionalizado, que a emoção fugiu sorrateira. Eu estava cansado. Quando conseguia conectar uma passagem da Sinfonia Nº 7, eu buscava pela razão. Ticava a minha lista como quem diz: essa eu lembro.

Na saída, comentei com meus colegas de classe (gosto de ter 40 anos e falar isso) que o concerto tinha me lembrado um erro recorrente em reuniões. O excesso de racionalização. Do mesmo jeito que o maestro tentava transformar em lógica o que muitas vezes nos emociona por ser ilógico, as apresentações tendem a exaltar o racional. Na ânsia de explicar como chegamos lá, perdemos o sentimento de aproveitar o “lá”.

No Casual Concerts, não houve equilíbrio. Meus colegas Chacho, Simon, Eduardo e Lea saíram antes do término. Lea escreveu sobre o meu comentário que agora percorro de novo. Parte da plateia chegou cansada na execução da peça. O que me faz pensar que não é por acaso que reuniões muito longas costumam terminar com refação. Quanto mais tempo temos para racionalizar, menos nos deixamos levar pelo instinto. Precisei de meses para ouvir a Sinfonia Nº 7 novamente. Livre de todos os porquês, enfim, aproveitei. Achei sentido quando não busquei por um. Tugan Sokhiev me deu a razão. A Sinfonia me trouxe a emoção. Se tivesse que escolher entre as duas, não hesitaria. O povo quer música.

Coluna para o blog do Meio&Mensagem.  

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6 pensamentos sobre “O povo quer música.

  1. Ana Teresa disse:

    show Kassu!!!!

  2. Penelope disse:

    As pessoas tem ficado cada dia mais chatas mesmo.
    Busca-se explicação para tudo. Tudo tem que fazer sentido: impossível!
    Somos diferentes e por isso, sentimos ou racionalizamos, de forma diferente uns dos outros. Que assim seja!

  3. Guilherme Maia disse:

    Acho que uma aula de apreciação faz mais sentido quando você estuda música, quando está estudando uma peça ou uma disciplina. Quando eu cantava em um coro lírico, o ano em que – além de técnica vocal e ensaios – tivemos aulas de fonética e de apreciação musical foi o ano em que mais aprendi a realmente fazer música e a compor. Mas estávamos sempre imersos. Eram meses de imersão na 9ª de Beethoven, no Requiem de Mozart, na Lobgesang de Mendelssohn etc. Entendo como o mesmo processo de encontrar a verdade por trás de um produto, como você mesmo disse em uma entrevista. E aí atulhar um monte de informação em 50 minutos e esperar que as pessoas se lembrem, é esperar demais. Com a partitura na mão, vendo tudo o que cada um faz, já é difícil acompanhar tudo que está acontecendo. Imagina sem.

    O que eu quero dizer é que aí nunca foi chato e nunca se tornou algo racional, por mais que entendêssemos as razões por trás de determinada passagem. Muito pelo contrário, a poesia só se intensificou e o que cantávamos fazia mais sentido (uma palavra que eu associo muito mais a “sentir” do que a “pensar”). E ainda hoje quando eu ouço novamente uma sinfonia que ouço todo dia, ou pego a partitura para analisar, ainda hoje eu saco algo novo, vejo algo que havia passado despercebido. É muita beleza para enxergar de uma vez só. Mas havia o contexto: o envolvimento.

    Vejo nesse seu relato uma tendência que venho percebendo nas faculdades de música, na formação que meus amigos que estudam composição estão tendo. A camada acadêmica está racionalizando demais a coisa toda. É uma busca sôfrega por fazer o que nunca foi feito, por percorrer caminhos não trilhados que acaba redundando nesse excesso de razão e embota a capacidade dos alunos de enxergarem a beleza por trás do simples, do que eles julgam clichê. Em vez de bons compositores, vejo um bando de matemáticos musicais. Entendo essa busca, e entendo como essencial, mas eu acho que está sendo canalizada de forma burra. E isso só vem servindo para distanciar ainda mais a música clássica das pessoas, Nada mais detestável que a forma como posicionaram a música clássica ao longo das décadas.

    Enfim, eu só teria essa aula de novo depois de ouvir bastante a sinfonia. Aí eu garanto que será de grande proveito. Mas independente disso, eu queria dizer uma coisa: eu creio que todo bom compositor, ou bom criativo em geral (e aí você se encaixa), cria suas coisas a partir de um motivo, a partir da ideia em seu estado mais essencial, de subpartícula. E a partir daí ele expande esse motivo em um universo. Como um big bang. Essa é uma ideia que me persegue tanto que até escrevi sobre isso uma vez: http://maiaguilherme.com.br/post/20885135161/todo-ser-humano-e-capaz-de-provocar-um-big-bang

    Se você consegue enxergar esse motivo no meio do caos de uma sinfonia, em uma ideia para uma campanha, ou qualquer outra coisa, acho que aí é a junção perfeita entre razão e emoção. E é aí que está o barato da coisa toda (ao meu ver, é claro).

    Abraço (e desculpe qualquer impertinência)

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