Do que eu falo quando eu falo de natação.

DCIM100GOPRO

Eu nado quase todos os dias na hora do almoço. Quando me perguntam o porquê, digo que é para não ficar maluco. Uma frase de efeito que costuma funcionar no elevador. Só que ela tem um tanto de verdade. Nadar é um ponto de equilíbrio. Sempre me assustou o orgulho que os criativos têm das suas mazelas. Essa competição de “eu me ferrei mais do que você”, “eu virei mais noites”, “eu trabalhei mais fins de semana”. Uma disputa de cicatrizes que não leva a lugar algum. Que nos envelhece, apenas. Nadar é, portanto, uma quebra no dia. Não é sobre lazer. É sobre um outro foco. Sobre reservar um espaço na agenda para algo que muito me importa: eu mesmo.

Todo mundo conhece o roteiro de um almoço com amigos do trabalho, não? De entrada, são as reclamações do dia, depois temos as agruras do job na mesa. Para harmonizar a conversa, fala-se mal do chefe, do cliente, do mercado. De sobremesa, quando todos estão relaxados, fala-se das mulheres da agência. E pronto, voltamos felizes para a mesa e podemos coletar material para o dia seguinte. Pode soar um exagero, mas repare como os assuntos nos almoços são cíclicos. Como as pessoas não desligam. Nadar é ter uma hora no dia sem falar de trabalho.

Em uma brilhante aula de psicologia na Berlin School, o professor Robert Weisz disse que o papel de um líder criativo é espalhar boa energia para a sua equipe. A prática no Brasil mostra o contrário, mas deixo essa análise de lado. Minha questão imediata: se eu espalho boa energia, como eu recarrego a minha bateria? Se estresse é déficit de energia, como regular? O encantador Robert foi direto. Você, muitas vezes, terá que procurar por essa energia fora do trabalho. Porque ao virar um diretor de criação, você tem que lidar com essa demanda sem esperar nada em troca. Eu nado para liberar as tensões, controlar a raiva, ter outros assuntos.  Para reencontrar a essência perdida na pressão do dia a dia. É uma terapia em que você executa os dois papéis: terapeuta e paciente. “We are the person that we are but also the person that we were”, concluiu Robert Weisz.

Cada vez mais, as decisões de trabalho são tomadas em grupo. Os processos hoje envolvem muito mais pessoas do que antigamente. Apresentações são divididas em etapas. Não raro, temos que contar a mesma ideia dezenas de vezes. Dentro e fora da agência. Vivemos em um corredor polonês em que muitos opinam e poucos decidem. A certa altura, fica difícil saber quem está fazendo o quê. As funções se perdem. E, como nos tempos da escola, há sempre alguém que só faz a capa do trabalho. Então, nadar é voltar a ter autonomia.

Quase tudo o que acontece dentro de uma piscina é de sua responsabilidade. O seu tempo piorou? Não adianta culpar o colega da raia ao lado. Você e o seu treinador decidem o ritmo, o ciclo das braçadas, o planejamento da prova. No momento em que você mergulha, não dá para dividir a tarefa. Não dá para compartilhar as decisões. Mesmo no revezamento, as funções estão absolutamente estabelecidas. Nadar é reconhecer a sua individualidade. Admitir as suas fraquezas. E valorizar os pontos fortes. Natação é, também, sobre reequilibrar as conquistas. Quando 10 Leões em Cannes parecem pouco, é bom ter uma atividade em que 10 centésimos parecem muito.

Para alguns, nadar esvazia a mente. Eu nado para reocupar. Para encontrar outro tema durante o dia. E convenhamos, nada como alinhar algo que seja apenas o ombro. Na piscina, são raros os que sabem com o que eu trabalho. Só interessa o nado, a técnica, o estilo e, sim, a competição. Parece contraditório sair de um ambiente competitivo para mergulhar em um outro. Há uma razão. Dentro de uma piscina, não há privilégios. A cada treino, o grupo todo tem uma média de 10 tiros. De estilos diferentes. De metragens distintas. Você vai perder uns tantos, tenha certeza. Nado em um exercício diário de humildade. Que me relembra a importância de treinar. De fazer muito para chegar a um resultado. Não há dom. Há disciplina.

Há alguns anos, tive um professor com o qual o treino não rendia. Meus tempos chegavam num patamar e ali ficavam. Demorei a entender a causa. Comecei a prestar mais atenção nas aulas. Logo, percebi que ele pedia coisas que não faziam muito sentido. Série de borboleta com palmar, por exemplo. Algo que só destrói os seus ombros. A sequência de treinos não tinha uma lógica. Ele pedia, eu executava. Até que um dia, ele nadou. E tudo ficou claro. Ele não nadava bem. Pedia séries sem noção porque não sabia quanto elas doíam.

Logo depois, veio um sujeito que parece o Biff do “De Volta para o Futuro”. Está sempre prestes a executar um bullying. Ele grita, provoca, tira onda. Não, não é um ditador. É um tipo engraçado que nada muito. Ele só pede o que é capaz de ser executado. Todos que nadam com ele baixaram os tempos. Ao seu jeito, ele sabe tirar o melhor da equipe. O ambiente fica divertido mesmo com tanto sofrimento. Já fiz séries de quase vomitar. E saí tranquilo da piscina. Costumo perguntar para ele, em uma sensação de quase-morte: Márcio, o que eu estou fazendo aqui? E dou uma risada no fim da frase. Nadar com ele é entender que uma equipe entrega mais quando está feliz. E que eles podem sair doloridos e realizados da piscina. Desde que o seu comando faça sentido para eles. E que os respeite individualmente.

No livro do qual roubo o título desse artigo, o autor Haruki Murakami revela uma interessante frase que rodou pelas redes sociais: a dor é inevitável. Sofrer é opcional. Vale para a piscina, para o mar, para o trabalho. Nadar é, por fim, mergulhar em si mesmo para tentar sair uma pessoa melhor.

Para os professores : Ademir Paulino e Wanderley Santos. E, óbvio, para o que mais me atura: Márcio Ramos. 

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91 pensamentos sobre “Do que eu falo quando eu falo de natação.

  1. Meu amigo, parece que fui eu que escrevi o texto. Me identifiquei com 99% do que escreveste, com especial desprezo pelo borboleta com palmar. Um abraço. Roberto.

  2. Fernando Nobre disse:

    E por isso também ainda encontra energia e inspiração para escrever com tamanha lucidez, talento e fluidez. Um prazer ler este teu texto, Kassu.

  3. Sergio disse:

    A frase “We are the person that we are but also the person that we were” não é de Robert Weisz. É do Engenheiros do Havaí.

  4. Texto simplesmente maravilhoso. Não faço natação como você Kassu, mas uso meu horário de almoço para jogar tênis, às vezes para correr ou para qualquer atividade física que me faça suar e ser feliz, trabalhando o corpo e, consequentemente, a cabeça. Parabéns à décima potência. ; )

  5. André, parabéns! Adorei o texto nadar é isso mesmo.

  6. Renan Lima disse:

    a parte da mesa de almoço no horário de expediente é hilária

  7. Sthefan Ko disse:

    Puta texto. Parabéns! Era o que eu precisava ler. Me fez lembrar o quanto esse esporte é foda. Ainda mais quando quebra o dia ao meio. Volto a nadar amanhã.

  8. gustavo franklin disse:

    Preciso começar a nadar em vez de almoçar. Brilhante Kassu. Abração!

  9. Camila Bueno disse:

    Kassu, parabéns pelo belíssimo texto!
    Como o Roberto Angeli comentou: me identifiquei 99% …
    No momento que li passou um “filminho” na minha cabeça sobre a minha rotina. E para mim, nadar é:
    “Uma quebra no dia. Não é sobre lazer. É sobre um outro foco. Sobre reservar um espaço na agenda para algo que muito me importa: eu mesmo” André Kassu.
    Abraço.

  10. Sylvio Mello disse:

    Parabéns pelo texto Kassu ! Keep swimming, keep surfing !

  11. Que texto incrivel, me afoguei nas suas palavras! Sou tb um publicitário que nada pra não enlouquecer.

  12. Leandro Luiz disse:

    Clap, clap, clap, clap.

  13. cris bussab disse:

    Eu nadava, pelo menos 3000 mts as 6h da manha todo dia… e percebo como faz diferença na minha vida não nadar… suas palavras me fizeram entender porque eu nadava tanto e porque faz tanta falta. Parabens

  14. Lindo, lindo. 100% tênis, talvez o único esporte mais solitário que a natação. (Os dois são individuais mas a pressão de sacar para fechar um set o nadador não tem… imagino 😉

    • andrekassu disse:

      Depois que eu li a biografia do Agassi, tenho certeza absoluta das semelhanças. Só que o tênis exige isso em sequência. A cada fim de set. Aliás, biografia impressionante essa.

      • rcordani disse:

        A pressão da natação é mais intense justamente por ser muito concentrada. Às vezes o sujeito treina quarto anos para resolver tudo em menos de um minuto!

  15. Ana disse:

    Kassu, sua alma falou!

  16. Sensacional! Nadar não deixa com que eu gaste saúde e dinheiro com antidepressivos, análises, bobagens e outras pessoas. “Eu podia estar roubando” ou “eu podia estar sentada, tomando um chocolate quente” são pensamentos do pós-quase-morte. Mas a gente sabe que depois vem a sensação delícia de ter completado o treino e melhorado o nado. No pain, no gain! Obrigada pelo texto. Minha loucura não é a única…

  17. Daniel Barci disse:

    Muito bom Kassu. Nadar é saber tbm o valor de uma boa respiração. Abs!

  18. Rafael disse:

    Muito bom, Kassu.
    Admiro seu trabalho faz tempo.

    Abraço.

  19. Marcus disse:

    Nadando de braçada nas letrinhas. Parabéns querido Kassu. 0 # )

  20. elvis disse:

    onde vc nada

  21. Flávia Rubim disse:

    e eu, que 2 dias após me despedir do meu nadador barbudo do livro mais lindo dos últimos tempos, encontrei outra piscina funda aqui!! que alegria*

  22. Belo texto. O meu jiu-jitsu é a sua natação. Esse mundo da publicidade necessita de momentos que nos coloquem de volta com os pés no chão. Lindo e inspirador texto.

  23. Brilhante. Simplesmente, brilhante. O Cielo das palavras. Parabéns, Kassu!

  24. Americo Vizer disse:

    Boua! E ainda jogou a boia pra galera. Mto bom!

  25. rcordani disse:

    Muito bom! Eu treino às vezes depois do trabalho e às vezes no almoço, ambos são ótimos. O ruim é ficar sem nadar…

  26. edu henrique disse:

    Caro Kassu. Além da admiração por seu trabalho fora das piscinas, agora esse texto! Nossas rotinas se assemelham. Mas ainda não encontrei a raia que vai me levar a “cuidar melhor do que mais me importa”. No entanto, após o seu texto, essa busca vai ficar insana e rapidinho te conto o que encontrar. Valeu mesmo!!!
    Abraço.
    Edu Henrique

  27. Karen Athie disse:

    quel legal andré, nadar é um pouco também como escrever, um olho dentro e outro fora da água. continue nadando e escrevendo…

  28. Bom texto! Nadar para mim é uma forma de escape mas também um encontro comigo mesmo. Tipo uma meditação ativa, olhando pra risca preta do fundo… Abraços!

  29. Nilson Claret disse:

    Me identifiquei muito com o texto, mas também nado para descarregar a tensão acumulada no período da manhã e volto para o trabalho a tarde muito mais leve.
    Parabéns e um abraço

  30. Fabiana Tassi disse:

    Oi, André
    Um texto espontâneo que deixou os professores mais motivados ainda.
    Desejo ótimas braçadas em nossa piscina.
    Um grande abraço, Fabiana Tassi
    Ger. Aqua. Cia Athletica

  31. Demais!!! Concordo plenamente e ainda acrescento a dedicaçao do André !!!
    Meninos vcs sao tudo de bom ! E Nadar nos renova!

  32. Wanderley Santos disse:

    Amigão, obrigado pela dedicatória.
    Vou estar sempre por perto, talvez na raia ao lado, talvez na borda.
    Você é um cara sensacional dentro e fora da água.
    Seja sempre bem vindo em nossa piscina.
    E se possível, me faça uma visitinha qualquer dia a noite.
    Abraço.

  33. Gabriel disse:

    Texto espetacular e inspirador! Genial!

  34. José Roberto Salvini disse:

    André, sensacional o texto. Como colega da raia ao lado, compartilho integralmente. Abraço

  35. Mauricio Hidalgo disse:

    Direto na veia. Coisa rara ver analogias sutis, sábias e humanas entre esporte, trabalho , cotidiano e a vida. Valeu colega de raia.

  36. Tati disse:

    Querido amei seu texto, fiquei com vontade de começar a nadar hoje mesmo! Beijos

  37. Camila e Marcio disse:

    André, saudades de dar umas braçadas por aí! Estamos distantes da cia, mas a natação continua sendo uma constante nas nossas vidas! Cabe aqui também uma homenagem ao Edu Alde, formador dessa galera fiel do almoço!
    Lindo texto, parabéns. Abs.

  38. Tatiana disse:

    voltando a nadar depois de ler este texto… parabéns!

  39. Acho que nunca li um texto que me identificasse tanto. Sei como essa vida corrida de Publicitário e minha mãe já prevendo o meu futuro,rs… me colocou na natação aos 5 anos. Foi amor a primeira vista, nunca mais parei e esse sentimento só cresceu ainda mais. Ela faz vc querer se superar a cada momento e aperfeiçoar a sua técnica. Mas, nunca vi como uma coisa competitiva, mas sim como um dos momentos que me sinto plena.

    • andrekassu disse:

      Que bom que você se identificou. Quando falo de competição, falo de superação, também. Se não fossem as raias ao lado, eu não baixaria os tempos. Perderia a referência. Um puxa o outro ali. E no fim, todo mundo sai ganhando.

  40. Marcus Seixas disse:

    Esse texto foi muito inspirador…tão inspirador que voltei pro muay thai, que é a minha natação! Parabéns Kassu!

  41. Eliane Filgueira disse:

    Maravilhoso texto… me identifico totalmente, belas palavras. Sou apaixonada por natação tão igualmente pela corrida assim como a canoagem… enfim a água exerce um poder maravilhoso sobre essa pessoal!!!
    Parabéns!!!
    Amei só vem a reforçar aquilo que acredito para a vida!!!

  42. Rafael disse:

    Parabéns pelo belo texto, e suas palavras serviram-se como um alento para nossas angústias do dia a dia.
    Nadei durante um bom tempo durante meu horário do almoço, e ouvindo você falar me retratou-me a um velho e bom passado..voltarei sim as raias!!

  43. Roberto disse:

    Parabens otima reflexao!!

  44. Querido, não te conheço, nado porque amo e não costumo competir porque acho chato, mas me identifiquei, nadar transforma meu dia e minha vida. Grata pelo texto! beijos Mariana

  45. Maria Augusta Costa disse:

    Boa filosofia de vida. Nadar é o melhor exercício que conheco, e bom para todos que amam a liberdade de movimentos.

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