Arquivo mensal: outubro 2013

O meu lado Delei.

Quando eu era um pivete de Copacabana, tinha um jogador no Fluminense chamado Delei. Era uma época áurea do trocadilho carioca. Da piada popular. “You talk too much”, canção épica do Run DMC, virou Melô do Taca Tomate. Uma bonita música de Natal era conhecida como Melô do Sexo Anal, porque dizia “quero ver você não chorar, não olhar pra trás”. Não havia espaço para o politicamente correto. O Didi fumava e chamava o Mussum de grande pássaro. Valia tudo. O menor aluno da minha sala carregava o apelido de “estuprador de Fofolete”. Sem processo, sem medo, sem censura. Eram tempos diferentes. Eu estava no meio de uma geração inteira que cantou “tocando de biquíni sem parar” quando o certo era B.B. King. E nesse momento, Delei virou sinônimo de atrasado. Delei=delay, sacou?

De uma certa forma, eu me considero um Delei da música. Eu chego atrasado muitas vezes. Por birra, pirraça ou por ignorância mesmo. Para manter uma opinião polêmica, posso evitar uma determinada banda por anos. Aconteceu algumas vezes. Acredito até que tenho melhorado com a idade. Consigo admitir o erro em intervalos mais curtos. Recentemente, eu tomei um asco do Daft Punk sem nem ouvir o álbum novo. A profusão de “gênio” nas redes sociais era tamanha que, como um menino que recusa cebola sem provar, eu não ouvi. E não gostei. Vociferei contra, aqui e ali. E eis que o caboclo Nile Rodgers me pegou desprevenido. O pé começou a bater no chão, o dedo a tamborilar, senti uma energia estranha. Os tambores do terreiro uniram-se ao verso “I’ll just keep playing back, these fragments of time…”. Cantei para subir.

É uma evolução. Eu evitei os Beatles por anos e anos. Razão? Reafirmar a minha crença de que os Stones eram melhores. Uma bobagem como descobri tempos depois. É uma daquelas discussões infrutíferas. Onde os lados não costumam ceder. Típico assunto que surge em mesa de bar depois de algumas tantas cervejas. Aquela hora em que as pessoas começam a disputar questões existenciais do naipe de: você prefere cachorro ou gato? Frankenstein Jr. ou Johnny Quest? PSOL ou PSB? Scheila Carvalho ou Sheila Mello? Eu disputava e ainda disputo algumas. Quando tomei vergonha na cara e parei de comparar, descobri toda a plenitude dos Beatles. Acabei me sentindo um energúmeno, um jegue-jumbo, uma ameba. Toda a coleção de adjetivos da saudosa quinta série.

Ser um Delei é descobrir o Chico Science depois que ele morreu. Só que tendo que perder um show para isso. É ter que passar uns 2 anos negando a existência do Nirvana para descobrir o que eles significavam em um show na Apoteose. É passar anos sem ouvir bossa-nova, porque não pegava bem gostar dela na galera que eu andava. É ouvir Portishead quando a onda depressiva já tinha passado. É dizer que não gosta de heavy metal e colocar todas as bandas do estilo no mesmo saco. E, por isso, ouvir Black Sabbath com um atraso considerável. É ter como princípio negar tudo que é hype. É não ouvir a banda da semana por desacreditar em bandas da semana. É pau, é pedra, é o fim do caminho da aceitação.

Um verdadeiro Delei não escuta uma banda quando as seguintes frases são proferidas: “você tem que ouvir isso!”. “Você vai rever os seus conceitos quando ouvir isso!”. “O NME diz que você precisa ouvir isso!”. “O mundo está ouvindo isso!”. Por princípio, o Delei-moleque, o Delei-arte nega tudo que venha com exclamações. Nesse momento, as capas de proteção entram em modo on. E pronto: ele não vai ouvir justamente porque indicaram. Eu falo porque fui um mestre nessa arte. No kung fu musical, eu seria o especialista nos movimentos da anta. Da mula. Do empacado.

A idade trouxe um tico de tolerância. Um pouco de nada. O suficiente para me arrepender de algumas tontices. Música é coisa séria. Ainda hoje, tento não ver o iPod dos amigos para não me decepcionar. Fico sentido quando descubro que uma pessoa de que eu gosto ouve sertanejo universitário. Tenho uma certa ânsia quando alguém defende, mesmo que na mesa ao lado, a originalidade do Sambô. Recuso as certezas dos indie-cabelinhos.

Um Delei convive com o vício do pré-julgamento. Ele só aprende a disfarçar ou a dosar. Na dúvida, é melhor colocar um fone e evitar a discussão. Um Delei erra muitas vezes. E acerta outras tantas (obrigado, Sade). É um projeto de polemista.

Eu admito a minha porção Delei. É o meu lado atrasado. Não à toa, tem o nome de um ex-jogador do Fluminense.

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Até o fim do corredor.

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Não tenho a poesia do André Laurentino para retratar os fatos. Nem vejo a vida com a leveza do Miguel Bemfica. Faz-me falta a elegância e a diplomacia do Mario D’Andrea. Se pudesse, tomaria essas qualidades como minhas. Na ausência dessa possibilidade, percorro por novas questões que podem soar duras para alguns e alentadoras para outros.

O ano: 1971. O lugar: a consagrada Universidade de Stanford. O assunto: um grupo de psicólogos liderados por Philip Zimbardo resolve simular a vida em uma prisão. Uma ideia simples até. Estudantes com perfis psicológicos semelhantes foram divididos em dois grupos distintos: guardas e prisioneiros. O estudo deveria durar 2 semanas, mas teve que ser encerrado abruptamente em 6 dias. Esse foi o tempo necessário para que alguns guardas se tornassem violentos e iniciassem uma série de abusos de poder. No lado oposto, os prisioneiros, mesmo sabendo que faziam parte de uma simulação, aceitaram as humilhações e passaram a obedecer às ordens mais absurdas. O Experimento da Prisão de Stanford é o nome desse estudo. Fosse uma fábula, a moral da história seria uma frase presente na análise oficial do experimento: “Dentro de cada um de nós há um conformista e um totalitário, e não é preciso muito mais do que o uniforme certo para que ele venha à tona”.

Eu tenho uma pequena obsessão por prisões. Algo que me faz saltar de Brubaker a Prison Break. De Estação Carandiru a Memórias de um Sobrevivente. De Alcatraz a Última Fortaleza. Não tem nada a ver com a qualidade da história. O que me atrai no tema é o aspecto humano. O comportamento dessas pessoas em uma situação limite. Como um obeso que se aproxima do elefante para sentir-se magro, passeio pelas cadeias para sentir-me livre. Gosto de entender as normas, as regras que são criadas atrás das grades, as relações que são construídas neste ambiente.

O Edu Lima, vulgo Eduardo, tem uma coletânea de frases que poderia ser intitulada de Minutos de Pancadaria. Diz uma delas que ele adora repetir: você só conhece uma pessoa quando ela está no poder ou na merda. O que me leva de volta ao Experimento de Stanford. E, inevitavelmente, me faz andar por uma nova analogia sobre comando e comandados. Sobre por que precisamos ter a consciência em relação as pessoas que nos cercam.  E como devemos caminhar pelos corredores.

Somos todos, em graus diferentes, prisioneiros do cotidiano. Por mais que você ame o que faz, em alguma hora vai se pegar dentro de uma rotina. Onde a cela pode ser um conference call ou uma reunião mais longa do que deveria. Um cálculo simples mostra que vivemos mais a vida do trabalho do que a que acontece lá fora. E tal e qual aquele presídio no caminho para Guarulhos, ficamos a olhar para o outdoor da modelo vestindo lingerie, onde se lê: Hope. Em um convívio de tantas horas, é natural, portanto, que surjam desavenças, disse-me-disse, grandes amizades, companheirismo. Tudo está separado por uma linha bem tênue. Que pode se firmar ou quebrar com o passar dos dias.

Li “Carcereiros” sem a menor intenção de encontrar correlações. Foi com uma certa surpresa que me peguei comparando a função de chefe com a de agente penitenciário. São raros os livros que eu sublinho. Esse não teve jeito. O trecho a seguir explica o porquê: “Cumprir o expediente em contato direto com homens enjaulados não é uma profissão qualquer, exige equilíbrio psicológico, perspicácia, sabedoria, capacidade de discernimento, astúcia e atenção permanente.”

Como um carcereiro, eu tenho nas mãos o controle das horas da equipe. O simples ato de demorar para ver um trabalho porque eu estava mais interessado no Statigram pode implicar na perda do fim de semana de alguém. Não o meu. O do outro. Porque há essa diferença que já ressaltei anteriormente. A chefia é um posto isolado. E nesse posto, você pode seguir por dois caminhos. Como um calouro que sofreu um trote mais bruto, você pode pensar em dar o troco quando virar veterano. Ou pode decidir fazer o oposto. É uma escolha movida por uma soma de experiências, aprendizados e, por que não dizer, caráter. Carcereiros podem se inclinar pela violência, mas ela já estava ali latente. Tenho uma mania de olhar para as pessoas e imaginar como elas seriam no poder. Recomendo. Tende a ser revelador.

Eu sou um sujeito desconfiado. Certo é o Curupira que já nasceu com os dois pés atrás. Ao longo do tempo, essa característica me poupou de umas tantas decepções e me privou de boas surpresas. Drauzio Varella me traz um espelho ao descrever o que passa na cabeça de um carcereiro: “Logo cedo aprende a desacreditar, a suspeitar de complôs existentes ou imaginários, a ir atrás de explicações lógicas para acontecimentos obscuros, a buscar sentido nas atitudes e nos gestos mais insignificantes. Comportam-se como montadores de quebra-cabeças a encaixar as peças que se ajustam, sem perder de vista o formato das que estão soltas.” Um líder precisa olhar para a equipe e tentar antever essas nuances. Não é uma tarefa fácil. Exige inteligência emocional aguçada, capacidade de se colocar em um lugar que não o seu e de bloquear essas sensações na hora de voltar para casa. Não por acaso, agentes penitenciários vivem em um clima de permanente tensão. O que nos faz pensar porque é que quando vamos ao médico, ele diz: ah, isso é estresse.

Por favor, não estou falando que o ambiente de trabalho é uma prisão, mas avisei no início que me falta poesia. Eu poderia dividir os departamentos como pavilhões e até traçar as peculiaridades de cada um. Não é essa a intenção. A análise é muito mais na condição do carcereiro e do seu aparente domínio do ambiente. Na relação dele com quem o cerca. Na prisão, os agentes não temem o barulho. Eles temem o silêncio. O perigo real mora na quietude à sua volta. Ao terminar o livro, criei um exercício de empatia que serve para todos os líderes. Se você fosse um carcereiro e tivesse uma rebelião, o que aconteceria? Você chegaria ao fim do corredor ou seria apunhalado com uma chave de fenda repleta de rancor? Você seria protegido por ser um “mano de responsa” ou viraria a farra da multidão enfurecida?

Líderes não pensam nessa hipótese porque ela é simplesmente impossível. Na vida real, as pessoas precisam pagar as contas e podem aceitar condições com a mesma facilidade dos presos de Stanford. Não por acaso você nunca ouviu falar de uma equipe que tenha juntado um chefe no pátio. No exercício da carceragem, a liderança real é poder caminhar desarmado pelas celas abertas e ainda assim chegar na porta de saída. Quem se arrisca?

Às vezes, basta um pão doce.

Há muito tempo, quando o Flamengo ainda ganhava, saí do Maracanã com um amigo e ele cismou de comprar um pão doce. Achamos uma padaria próxima e ele comprou o tal colegial com aquela camada branca de açúcar. Corremos para o ponto e pegamos o 433 rumo à Copacabana. Reparo que um sujeito estranho está no banco da frente. Mal o ônibus anda e o indivíduo começa a olhar para trás. Surge uma tensão no ar. Ele resolve se virar completamente e pergunta: me dá um pedaço do pão doce? O meu amigo recusa sem pestanejar. O sujeito insiste. Eu resolvo virar o negociador e falo: dá um pedaço para o cara. O meu amigo cede e reparte a iguaria ao meio. O homem agradece e seguimos a viagem. Alguns minutos depois, ele avisa ao motorista que vai descer. Levanta, olha para trás e mostra uma faca na cintura. Com o semblante mais calmo do mundo, ele revela o seu dilema: se você não me desse o pão doce, eu ia assaltar os dois. E sai de cena anestesiado sob o efeito do açúcar. Eu dou uma porrada no ombro do meu amigo como quem diz: e você não queria dar um pedaço, hein?

Relembro essa história ao descobrir que sou ríspido ao responder os emails. Quer dizer, não descobri nada. Tive que ser alertado dessa minha mania. Lógico que a minha primeira reação foi desdenhar. Dizer que era uma bobagem. Que, afinal, isso é trabalho. Um tempo depois parei para pensar.

A minha caixa postal está sempre cheia. Acabei desenvolvendo um sistema pragmático de respostas. Ok, combinado, feito, nem ferrando, amanhã falamos, não posso, não dá, comece a rezar. Um misto de ranzinzice com ironia. Sendo essa última, a especialidade da casa.

Uma das primeiras descobertas da direção de criação é que a sua ironia vira verdade. Então, tem que usar com parcimônia. Antes, eu dizia “não vou nessa reunião nem que você queira muito” e todo mundo ria. Hoje, se eu disser a mesma coisa, a mensagem é replicada: ele não vai na reunião. Ser chefe é ser levado ao pé da letra. Mesmo que você não queira, há uma distância. A confiança para alguns assuntos se esvai. No lugar, surge uma barreira que funciona como proteção para os dois lados. O problema é que ao mesmo tempo que protege, cada lado cria a sua verdade. Como bem diz o meu amigo Marco Monteiro, você sabe que é chefe quando deixa de ter assunto no café para ser o assunto do café.

Sinto que o trabalho nos embrutece aos poucos. Então, olho para o 433 como quem lê as escritas do Profeta Gentileza. À procura de uma docilidade esquecida. Estamos sempre no limite. Do tempo, do prazo, da paciência, do entendimento. Nesse ambiente, uma simples palavra pode ter um efeito poderoso. Um obrigado dito de verdade. Um parabéns olhando no olho. Um pedido de desculpas sincero. Repare que eu reforço com verdade, olho no olho e sinceridade. Porque no mundo onde curtimos tudo a todo instante, as palavras perderam a importância. Clicar na mãozinha do like não é exatamente gostar. É preciso ir além das águas rasas de um parabéns pelo Facebook. Boa parte das encrencas podem ser evitadas se você levar em consideração o outro. No fundo, todos nós queremos um reconhecimento legítimo.

Uma regra básica na negociação de reféns diz o seguinte: o sequestrador quer ser ouvido. O exemplo é exagerado de propósito. Pense em quantas negociações você faz ao longo do dia. Compare com as vezes em que você escutou o tema negociado verdadeiramente. A balança é desequilibrada. Eu sou réu confesso. Já deixei de olhar para o atendimento e foquei em qualquer coisa no meu monitor, na vã esperança de que o problema fosse embora. Ele nunca foi. Desentendimentos começam quando a gente não escuta o outro. Ou finge que escuta puxando um lado apenas do fone. Desse jeito, os reféns não sobrevivem.

Volto ao meu pragmatismo. Não há como ser longo e delicado em cada email, mas dá para ser mais cuidadoso. Para alguns é o excesso de exclamações ou a repetição de vogais. Não gosto muiiitooooo do resultado da equação!!! Nos dias de hoje, ler com atenção já é uma gentileza. Ouvir, então, é quase luxo. Contardo Calligaris escreveu um texto do qual gosto muito. Chama-se Oito normas de conduta cotidiana para o cidadão moderno. Escolho uma das normas: “Todos os pedidos podem ser recusados, mas devem ser, ao menos, reconhecidos. Portanto é proibido recusar sem falar.”

Você pode chegar longe sem precisar pensar em nenhuma norma. Nenhuma regra. Pode ser respeitado distribuindo carteirada e dando gritos no corredor. Viver à base de top-down. Há casos e mais casos de líderes que escolheram essa postura e foram bem sucedidos. Não é a única. Claro que ser legal e estar certo não é compatível a toda hora. Frustrar pessoas faz parte do nosso job. Talvez o ideal seja nem tão desconectado emocionalmente, nem tão passional. Um meio-termo.

Sento novamente no ônibus com o olhar de hoje. Para evitar um problema, às vezes, basta um pão doce. Um pequeno pedaço. Eu já deveria saber.