Se dirigir, não escute música alta.

As campanhas de segurança no trânsito foram nos doutrinando com o passar do tempo. Nos anos 80, acredite, se você colocasse o cinto de segurança, o motorista diria: “Tá pensando que eu não sei dirigir?”. Olhando hoje parece espantoso, naquela época era comum. Aos poucos, a maioria da população aprendeu a importância de usar o cinto. Já tivemos campanhas para nos ensinar a atravessar na faixa, para reduzir a velocidade, para respeitar o pedestre. Atualmente, as mais comuns são as que reforçam o conceito de “se beber, não dirija” e as que pedem para não enviar SMS enquanto estiver dirigindo. Todas são fundamentais. Agora, sinto falta de uma em especial: se for ouvir música alta que, pelo menos, ela preste.

Parece um teorema. O volume da música é inversamente proporcional à qualidade dela. Você já deve ter vivido essa situação. O carango parado no sinal e você sente o vidro tremer. O banco parece uma daquelas tristes poltronas de massagem expostas no corredor do shopping. Tudo vibra. A sensação é a de que um T-Rex está se aproximando na dança do passinho. Até que você olha para o lado e vislumbra um sujeito de vidros abertos que sacoleja ao som de um funk proibidão. Os óculos na cabeça, a camiseta regata, essa marra que tu tem qualé e o indefectível orgulho. Repare no olhar das pessoas que ouvem música alta no trânsito. Vem carregado de uma certeza que só os deuses do semáforo têm.

A equação da música alta também pode ser descrita de uma outra forma. A soma de um braço para fora da janela com a potência da caixa de som é igual ao quadrado da imbecilidade. Eu tenho verdadeiro pavor de motoristas com braço para fora. Você avista um e pode começar a contar os segundos que ele vai demorar para fazer uma cagada. Motoristas com braço para fora não dão seta, acreditam que bater com a mão na lateral do carro ajuda a acelerar, travam cruzamentos, colam na traseira de ambulância, jogam guimba de cigarro na rua e, claro, ouvem música alta. De preferência, ruim.

O carro com o som tunado é uma invenção tenebrosa. Feita para aterrorizar transeuntes inocentes. Pancadão, gravão, subwoofer com cone emborrachado. Até os nomes das aparelhagens assustam. O sujeito gasta uma fortuna, calcula a potência dos amplificadores e depois divide pela tensão das baterias e fontes. Faz toda uma engenharia cara e de resultado estético duvidoso para no fim tocar o que mesmo? Aqueles estilos sobre os quais já escrevi: os que terminam em “ejo” ou “universitário”.

Não me recordo de ter visto um carro passando com Chico Buarque a todo volume. Nunca vi uma disputa de som em posto de gasolina com John Lee Hooker explodindo nas caixas. Nem fui acordado na madrugada por um modelo rebaixado tocando Stan Getz com João Gilberto. Jamais fui sacudido no sinal pelo Jack White que toca no tunado ao lado. Não imagino a possibilidade de um automóvel acordar a vizinhança com um som da Motown. Muito menos com Miles Davis. Carros com música alta só tocam “The worst of”. E costumam ter uma buzina com ideia. A do grito do Tarzan sai bastante.

O carro com som no talo é a consagração da falta de educação. O ápice da ostentação da breguice. O suprassumo do mau gosto musical. Em um mundo em que tudo se compartilha, o sujeito sai de casa com a crença de que todos querem ouvir a sua música. Ele espera pelos dedões de like da vida real. Ele anseia por mãos formando um coraçãozinho. Ele quer a sua inveja, mano. E cuidado: ele manda beijo na sua alma.

Nos meus piores pesadelos, eu me imagino preso em um carro desses. Os tapetes imitando chão de ônibus, o painel neon com tons psicodélicos e um medley com o melhor do Gusttavo Lima tocando em looping. Eu vou batendo nas janelas e gritando pela cidade: esse carro não é meu! Esse carro não é meu! E o motorista de cabelo descolorido, com o braço para fora da janela, pede: dá para falar mais baixo que eu tô querendo curtir meu som numa boa? Sinceramente, era só o que me faltava. Tomar um esporro do Belo.

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6 pensamentos sobre “Se dirigir, não escute música alta.

  1. Vinícius Pinheiro disse:

    André

    Parabéns, seus textos são excelentes… sempre com bom-humor

    Tenho uma dúvida profissional, quais seus trabalhos publicitários que mais gosta? Se tiver um tempo me diz também quais campanhas que você admira…

    Abs

  2. andrekassu disse:

    Obrigado Vinicius. Deixa o seu email que eu respondo com calma as perguntas. Abraço.

  3. Andrea disse:

    Também tenho pavor de motorista com braço pra fora. Sinal inequivoco de um babaca, correlação de 100%. Adorei o texto e o video sobre the innovation of loneliness do outro.

  4. agnaldo disse:

    Ótimo texto André ! Concordo com tudo o que você escreveu ,mas faço uma ressalva:A população não aprendeu a usar o cinto e sim se viu obrigada para não ser multada.O mesmo deveria ser feito com esses motoristas que fazem dos seus carros verdadeiras casas noturnas ambulantes.Enquanto não se multar de maneira com que o infeliz sinta a dor nos bolsos teremos que nos acostumar a ver essas aberrações motorizadas pelas vias da cidade.

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