Minha biografia não autorizada

Meu nome é Sanderley Silva de Souza, mas a galera me chama de Sandinho Quebra Tudo. Minha história é a mesma de tantos meninos que nasceram na favela. Cresci sonhando em ser jogador de futebol, mas sempre fui um pereba de marca maior. Insisti por um tempo até perceber que gandula era a única posição disponível. A torcida perdeu um jogador para xingar, mas o funk ganhou um novo personagem: eu.

Baile funk era a minha área. Ainda moleque, sacudia meus gambitos como ninguém. A galera dizia que eu não tinha osso. Era sinistro. O som estourando nas caixas e eu quebrando na pista, mermão. Devia pesar uns 50 quilos. Moleque criado sem iogurte, só na base do angu. Era o palito, o chassi de borboleta, o tripa de mico. Não tinha essa de bullying, não. A zoação era forte. Tomava cascudo no recreio, saía correndo pelas vielas, era só esculacho dos maiores. A dança foi a minha vingança. Neguinho teve que me engolir. Eu criei o passinho antes do nada. Viajei pelo mundo todo, arrebentei coração geral. As minas de Malhação? Peguei todas, cumpadi. Anos depois, vi que tinham roubado a minha ideia do passinho. Fiquei tranquilão. Já tava montado na grana. Ah, te falei que eu criei o proibidão?

Mentira. Meu nome é Daniel Schiavon. Nasci em berço de ouro. Melancia lá em casa nem tinha semente. O leite era só de cabra. Achocolatado? O suíço. Construí uma fortaleza de músculos à base de proteína importada e personal trainer na academia do meu jardim, a Body Tech My Home.  Nunca trabalhei, muito menos passei férias no Brasil. Um dia cansei dessa vida ociosa e tive uma luz. Decidi que seria DJ. Fiz um intensivo com o Moby. Aula particular mesmo, sabe? Aí, toquei em Ibiza, St. Tropez, Milão. Minha história é a redenção do luxo e da sofisticação. Eu inspirei dezenas de jovens milionários a seguirem o meu exemplo. O meu mantra banhado a ouro é: faça pouco, mas conquiste tudo.

Bem, vou começar de novo. Agora é sério. Eu sou o compositor anônimo de todos os axés criados até hoje. Fui o responsável pela musicalização infinita das vogais. Eu antevi as modas. Eu criei as danças da garrafa, do carrinho de mão, do jacaré. Sim, a culpa é minha. Eu analisei a cadeia hereditária, fiz a mistura do Brasil com Egito, fui para a ilha, ilha do amor, Madagascar, abri a roda e enlargueci, fiz zum zum na cama e gemi sem sentir dor. Sou o maior de todos. Posso ser um desconhecido, mas minhas canções ecoam no seu inconsciente. Lembram fim de casamento, festa de firma, noite no karaokê. Aqui, contarei como criei mais de mil canções utilizando um sofisticado sistema que mistura livros da segunda série e um globo de bingo. Meu nome é Alê Ylê. E essa seria a minha biografia não autorizada escrita por mim mesmo. Seria, né Paula Lavigne?

Eu tinha vários planos. Já previa o sucesso. Era a chance de recriar a minha história de um jeito que ela não aconteceu. Seria repleta de aplausos, de glamour, de “causos” não vividos. Porque é fácil para um Chico Buarque não querer que alguém escreva sobre ele. Ele não precisa. Com aqueles olhos verdes, eu não daria nem bom dia para o mundo. A bajulação, os gritos de “lindo”, as mulheres jogadas aos pés. É uma vida invejável. Agora, e eu? A biografia não autorizada era uma chance mínima de reconhecimento. Tinham que estragar.

Djavan tem medo que decifrem a verdade por trás dos versos de açaí, guardiã, zum de besouro, um ímã, branca é a tez da manhã. Já euzinho estou de peito aberto para inventar o que bem entendo sobre mim mesmo. Dê-me esse direito, Caetano. Prefiro pedir para você do que para o Bolsonaro. Que aliás anda orgulhoso de você ter a mesma tese que ele. Não é fofo? Peço para você descer desse palco, Gil. Minha alma não cheira a talco, mas minha vida tem cheiro de fralda usada em bumbum de bebê. Quero uma biografia inventada. Quero chegar aonde nunca cheguei.

Peço a vocês considerarem a minha proposta com carinho. Eu ainda não defini que vida terei nessas páginas recriadas, inclusive aceito sugestões. Posso ser um sertanejo, rei da lambada, criador do kuduro, roqueiro de Cristo. E ó, não preciso de todas as vantagens que um artista ganha, não. Aqueles convites VIPs, Ilha de Caras, upgrade automático para a executiva, cachês para fazer presença. Nada disso. Eu quero só a parte do ônus. Deixa eu me reinventar.

Sei de toda essa questão entre liberdade de expressão e invasão de privacidade. Estou acompanhando o debate porque me considero uma parte atingida. Vocês me pegaram na curva do anonimato quase esquina com os segundos de fama. Não tenho a menor pretensão de ser famoso. Só desejo um momento Peladona de Congonhas. Algo que me faça ser notícia. Já entrei em contato com o Frotinha e com o Vampeta. Contato telefônico, diga-se. Eles ficaram de me ajudar na parte da polêmica.

Estou aqui fazendo coraçãozinho com a mão e pedindo essa chance. Deixa eu escrever a minha própria biografia não autorizada , deixa. Eu faço de tudo. Ainda que me doa, prometo até não chamar a Barbara Gancia para o lançamento.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Minha biografia não autorizada

  1. Igor Matos disse:

    Genial! Venho acompanhando esse blog há algum tempo e fico maravilhado com seus textos, parabéns!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: