Arquivo mensal: janeiro 2014

O preço de ser uma ovelha é o tédio

Em uma recente entrevista, Fernanda Montenegro revelou o seu medo de perder a memória. Na mesma hora, digitei o seu nome no Google e fiquei pesquisando as imagens da história dessa atriz. Ali estão os diversos  personagens, as múltiplas cenas, os incontáveis momentos. Uma vida longa, repleta de pequenas outras vidas. Porque é do ator esse privilégio. Ele pode ser muitos, pode ser outros. Tem a licença para exercitar as suas facetas mais sombrias. Por um breve instante, pensei que para Fernanda Montenegro realmente seria mais sofrido do que para nós, reles mortais. Não é. A perda da memória assusta tanto porque é perder a si mesmo. É como caminhar na areia e se ver em uma praia deserta sem passos. De repente, não sabemos mais como chegamos ali.

No sensível livro “Days with my father”, o fotógrafo Phillip Toledano registra o seu pai lidando com esse fato. Com a “não memória”. Em uma das fotos, há uma anotação em um caderno que diz “where is everybody?”. É a síntese do desespero. Um homem devastado que não mais se reconhece. Por outro lado, a memória que guarda um manancial de boas sensações é a mesma que pode tornar-se um flagelo. Por fazer com que você reviva nitidamente coisas que deveriam ter ficado no passado. Tenho cá para mim que a capacidade de esquecer alguns acontecimentos deixa o ato de perdoar muito mais simples. Nesse pensamento, relevar é também sublimar um sentimento. Falo disso porque tenho uma memória aguda para fatos e sensações. Guardo cada detalhe das coisas boas que me marcaram. E guardo também o ressentimento. Porque sou incapaz de esquecer o dia, a hora, o tom e o que foi falado. Nem os que aconteceram comigo, nem os que ocorreram com as pessoas de que eu gosto. É tudo vivo demais. Por mais que eu tente me livrar, acabo sendo acometido daquela mesma sensação. Sendo assim, perder a memória seria de bom grado. Ou, quem sabe, poder apelar para a empresa do “Brilho eterno de uma mente sem lembranças.” E apagar seletivamente alguns machucados não curados.

Não andarei aqui pelo flagelo. Prefiro mergulhar no manancial. Lá está guardada uma aula com Saburo Kobayashi. Um enfático japonês que foi o General Manager da Divisão de Planejamento Corporativo da Honda. Por diversas vezes na sua aula, ele se dirigia aos alunos com o simpático adjetivo: estúpido. Nunca ter sido chamado assim me fez tão feliz. Porque era verdade. Eu estava de frente para o homem que inventou o airbag. Sim, o airbag.

Aí você pensa: moleza. Ele teve a ideia do airbag, todo mundo comprou e foram felizes para sempre. Ledo engano. Por 16 anos, ele brigou para que o projeto saísse do papel. Como diz o meu compadre Marco Monteiro: “Ideia é que nem carro alegórico: se todo mundo não empurrar, não vai para a rua.” A possibilidade de um airbag era tão estranha que, certa vez, os próprios funcionários da Honda a elegeram como a ideia mais idiota daquele momento. Nada disso impediu Kobayashi de seguir em frente. O que até me faz pensar que 11 meses brigando por um animatic nem é tão sofrido assim.

Na Honda, se um funcionário apresentasse a mesma ideia por 3 vezes seguidas, todos tinham que acatar. Porque era um sinal claro de que aquela pessoa acreditava muito no que estava fazendo. O próprio Sr. Honda apoiou todo o processo de pesquisa para que o airbag virasse uma realidade. Um dia isso aconteceu e nenhuma alma viva se lembrou de registrar a patente. Afinal, ninguém sabia se aquilo seria mesmo um sucesso. Havia, até o último segundo, uma dúvida. Hoje, o airbag já salvou tantas vidas que a patente é algo menor na história. Kobayashi pode se dar ao luxo de dizer, do alto da sua elegância, que ofereceu um presente para toda a humanidade. A aula foi tão intensa que anotei algumas frases que passei a chamar de Regras de Kobayashi. Tomo a liberdade de comentar algumas delas.

“Inovação não é uma coisa lógica. Não tente entender.” O que pode ser traduzido como: que tal parar de racionalizar tudo?

“Se você não consegue explicar a sua ideia para um leigo, você ainda não a entendeu.” Pessoas que enrolam demais para falar raramente apresentam uma grande ideia. Buscam disfarces para camuflar o que não existe. Capricham no laço e se esquecem do presente em si. Roubo uma definição do George Tannenbaum, do blog Ad Aged, que diz que quanto maior a palavra, menos ela significa. Não à toa ideia é tão curta. E ainda lhe tomaram o acento.

“Experts: pessoas com conhecimento suficiente para matar a inovação.” Essa, se eu comentar, estraga. Prefiro que ela continue afiada como a lâmina de samurai.

“O CEO estúpido diz: lucro é o nosso objetivo, quando dar valor deve ser sempre o principal objetivo.” Gere valor para a sua marca e os consumidores comprarão até sem saber o porquê. Busque apenas o lucro e eles comprarão até que algo mais interessante apareça.

“Sem paixão, você não consegue gerenciar uma equipe. Muito menos uma marca.” Desconfie de pessoas que seguem os seus comandos sem questionar nada. Se você é cliente, prefira uma agência que discuta as suas ordens do que uma que siga cegamente. É mais chato, mas o resultado é melhor. Se você é chefe, desconfie de uma equipe que executa toda e qualquer ordem sem confrontar. Ninguém é tão assertivo assim. Como diz o meu guru Dave Trott: “Question the question.”

“Se 9 de 10 pessoas concordam com a sua ideia, é tarde demais. Se 9 de 10 discordam, você pode ter um diamante.” Não procure por um senso comum. As pesquisas já fazem isso e o resultado é uma catástrofe.

“Paixão e caos são as mães da inovação.” Se você tem tudo esquematizado, o resultado será previsível. Do início ao fim.

“O preço de ser um lobo é a solidão. O preço de ser uma ovelha é o tédio.” Cabe a você escolher que preço quer pagar. Você pode seguir no rebanho reclamando. Ou pode decidir ser o reclamado. Pessoalmente, posso dizer que, para um filho único, a solidão é um preço que se paga mais fácil.

Caminho na praia e olho para essas frases como se fossem pegadas fundas na areia. Elas vão ao encontro do que acredito. Tomo como se fossem minhas. Meus valores foram confirmados aos gritos de “estúpido”.  O medo do desaparecimento da memória diminui ao perceber que os valores nunca são perdidos. Quando alguém perde é porque nunca os teve de verdade. Ando em frente. O mar não vai apagar.

Tem do preto e tem do branco

Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante, você precisava conversar com um bom vendedor em uma excelente loja de discos para saber o que estava acontecendo no mundo da música. Era uma época inglória. A informação não circulava. Até a pornografia era difícil de ser alcançada. Na falta de acesso, qualquer fórum da Ele&Ela já alegrava. Uma Nádia Lippi trazia felicidade. Edições de carnaval eram disputadas a tapa. Hoje, tudo está à mão. A geração criada à base de melancia cortadinha e sem semente, de iogurte grego light e embalada pelo Redtube desconhece a dificuldade. Nasceu sabendo o que é download e fist fucking. São meninos que cresceram sem a densidade de uma Cláudia Ohana. Para eles, o caminho já está liso e depilado. Boa música pode ser descoberta em ridículos cliques.

Se antes um vendedor se fazia necessário, hoje precisamos de um bom fornecedor. O que me leva a uma lenda urbana carioca do traficante do asfalto que codificava as drogas como música. Nesse dialeto antiescuta, cocaína virava Hermeto Pascoal. Maconha era James Brown. O diálogo era mais ou menos assim:

– Aí, tô querendo aquele disco do Hermeto emprestado. Rola?

– Mermão, tu quer o compacto ou o LP todo?

– Manda o compacto para eu sacar o som. Tem James Brown?

– Tem, mas tá mirrado. Amanhã chega a coleção completa.

– Fechou. Escuta: por que Hermeto e não Sivuca?

– Sivuca é de injetar. É outra parada.

O bom fornecedor tem todos os sons na mão em alta qualidade. Separado por pastinhas e alinhado por estilos. Ele não mistura as coisas e conhece bem cada cliente. Em uma sociedade na qual todo mundo faz download, mas não admite, o fornecedor é um intermediário necessário entre a música e a sensação de consciência limpa. É a Lei Bill Clinton de ausência de culpa: eu baixo música, mas não trago.

Recentemente, eu perdi um fornecedor do bom. Por questões de segurança, não posso revelar o nome. Trata-se de um sujeito da mais alta estirpe, todo trabalhado na fofurice e no bom gosto musical. Um conhecedor, fuçador dos blogs gringos, um cara absolutamente generoso. O morro anunciava as drogas com fogos? Meu traficante dava tiros de comemoração pelo iChat. A janelinha piscava e eu sabia que tinha uma parada boa chegando. Lee Fields apareceu assim, de repente. Como quem não quer nada. Alabama Shakes, também. Ben Howard, que tem mais nome de jogador da NBA do que outra coisa, chegou embalado e avaliado. Quando eu viciava em um som, ele mudava para outro. Sabia tratar um cliente esse rapaz.

Um belo dia, ele resolveu partir. Foi para um morro distante. Na ânsia de não decepcionar os clientes, trocou as pastinhas por míseros links do YouTube. Não é a mesma coisa. Não dá a mesma onda. Os clientes fiéis caminham a esmo pelos corredores como mortos vivos da Cracolândia. Sem rumo, sem norte, sem fone. É desolador. Para quem um dia recebeu um Charles Bradley novinho, é difícil ter que controlar os tremores da abstinência com arquivos de baixa qualidade. Até o Arcade Fire novo ficou impossível.

Ninguém tomou a boca e encontrar boa música virou um martírio novamente. Saio batendo nas telas em volta. Vago pelo compartilhamento do iTunes. Até diria que flano, se flanar não fosse um verbo tão hipster. São tempos difíceis. O fornecedor deveria ter como obrigação deixar um sucessor legítimo. Eu até poderia recorrer a outros dois camaradas, mas eles andam tão ferrados de trabalho que não fazem mais download. Que mundo é esse, Senhor? Cadê o mp3 nosso de cada dia?

Lá se vão 4 meses sem um iChat animador. Não me venha com gifs e tumblrs. Não tente me enganar com álbum em stream da Norah Jones com o Billie Joe. Eu quero as minhas músicas da boa. Quero tudo destilado, filtrado e destrinchado. Virei um menino mimado. Este texto é um SOS para este ex-fornecedor desalmado. Tem gente estrebuchando no chão por sua culpa. Comprando gift card pelo eBay. Sabe lá o que é isso? Tenha dó. Dê algum jeito de estancar esse sofrimento ao meu redor. Volte os olhos para o seu rebanho abandonado. Sinto, mas você não me dá alternativa a não ser revelar a sua fraqueza. Para quem tem um produto de fazer inveja ao Walter White, Almeidinha é um nome nada intimidador.