Arquivo mensal: março 2014

Retorno ao Templo Shaolin

Foto: Marcos Medeiros, dupla e sócio.

Foto: Marcos Medeiros, dupla e sócio.

Um texto nunca está pronto. Ele pode já ter sido publicado e fica um lamento pela repetição desnecessária, a vírgula a mais, um pensamento esquecido ao digitar as palavras. Ler textos antigos é como ouvir a sua própria voz em uma gravação. Há uma estranheza em ter que se reconhecer desafinado, dissonante, meio taquara rachada. Por respeito ao momento em que escrevemos, evitamos voltar no tempo e corrigir essa sensação de falha. Como se algum Deus da escrita pudesse nos punir por esse sacrilégio inexistente. Mesmo assim: perdão, Senhor. A tentação foi mais forte.

Quando escrevia apenas para o blog, publiquei algumas dicas para quem gosta de parecer mais ocupado. Volto a elas porque é inevitável que, no início de uma agência, você pense a fundo sobre que tipo de profissional gostaria de ter por perto. No começo, era muito simples identificar aqueles que estavam fazendo o que em um processo de trabalho. Você tinha a dupla, um diretor de criação, um atendimento e, algumas vezes, o planejamento. Com o passar do tempo, os processos ficaram inchados. E alguns malandros aproveitaram esse recurso para sumir na paisagem. Se ficha técnica fosse um gráfico pizza, tem gente que seria a azeitona. Já vi até quem seria o orégano. Entre comigo no Templo Shaolin da Camuflagem Profissional.

Após anos observando os grandes mestres ninjas da camuflagem, resolvi abrir o meu alfarrábio e revelar um conjunto de técnicas milenares. Com elas, você parecerá sempre mais ocupado que os outros usando uma porcentagem mínima da sua força. Você será um Shaolin do disfarce, um mestre do mimetismo, um Obi-Wan Kenobi da difícil arte de tirar da reta. Entrará em contato e harmonia com o melhor do ócio. Aquele que sugere que você trabalha, quando na verdade está descansando. Bruce Lee dizia: seja como água. Eu digo: seja como um cafezinho eterno da tarde.

Movimento 1: não respire, bufe. Com uma simples mudança no ato de respirar e um conjunto de pequenos barulhos, você parecerá mais tenso. E tensão sugere trabalho. Fora que criar um temor à sua volta aumenta a  aura de trabalhador.

Movimento 2: um samurai não anda sem a sua espada, portanto ande sempre com algo na mão. Serve qualquer coisa. De envelope pardo a folha em branco. De notebook a prancha de apresentação velha. O importante é sugerir que você carrega um objeto importante.

Movimento 3: de manhã, antes de caminhar em direção à sua mesa, pegue um café. Isso dá a impressão que você já estava no ambiente há mais tempo que os outros. Essa técnica somada a um pequeno esporro aleatório no caminho é imbatível. Só tenha em mente que esse movimento deve ser feito sem a presença de uma mochila nas costas.

Movimento 4: no Taekwondo, o grito kiai é parte essencial da luta. Quanto mais poderoso o grito, menos frágil o lutador parece. Eleve o tom da sua voz ao confrontar um problema. Mesmo que seja um bem pequeno. Dê o seu kiai, mas tenha a certeza de estar sendo observado. Quanto mais indignado esse brado, mais ocupado você parece. Portanto, grite sempre que possível. Mesmo que seja com uma ligação por engano no celular.

Movimento 5: domine uma técnica desconhecida. Analista de stopping power, redator de serendipity, CEO de psicologia de concept. Todas essas são novas habilidades que dizem que só você pode fazer uma coisa que ninguém mais é capaz. Mesmo que essa coisa seja absolutamente nada. O movimento 5 é também conhecido como Chandler Bing, em homenagem ao personagem de Friends que ninguém sabia no que trabalhava.

Movimento 6: o kung fu é baseado em animais, a camuflagem profissional, também. Técnica hipopótamo de espalhamento. Imprima muitas cópias do seu trabalho e espalhe de modo a criar uma sensação visual de dedicação. Cubra a sua mesa, o seu computador, a janela, se possível.

Movimento 7:  o disparo de e-mail na madrugada. Esse é um velho conhecido. Mandar e-mails em alguns horários é provar que você estava na agência enquanto todos os outros estavam em suas casas. Ao utilizar essa técnica, lembre-se de apagar o “enviado pelo iPhone”. Também muito funcional e com ampla área de acerto: a disfarçada tuitada do fim de semana. Ou o post do Facebook. Basta um título levemente irônico: vida é o que acontece lá fora. Vale uma imagem da sua mesa de trabalho com a legenda: meu fim de semana perfeito. E pronto: você consagra a sua imagem profissional.

Movimento 8: empurre com a barriga até precisar do fim de semana. Outro conjunto de habilidades com grande resultado. Porque quem trabalha no fim de semana é mais dedicado.

Movimento 9: resolva o menor dos jobs no último minuto. Isso geralmente implica uma virada de noite. Diretores de arte costumam ser mais efetivos nessa arte. Uma imagem pode ser mexida até a exaustão completa do assistente. As glórias do esforço nunca cairão no colo do coitado, naturalmente. O segredo aqui é caprichar no #lookdodiaseguinte. Faça uma cara de cansado, repita uma camisa, largue os ombros e arraste os pés. Ah, espalhe uma lenda sobre as suas viradas.

Movimento 10: o desaparecimento no grupo, uma técnica roubada dos ninjas só que sem fumaça. Simples e fácil de empregar, a base é sempre dividir o seu trabalho com muitos. E sumir no meio dele. Com isso, você consegue estar presente em diferentes projetos ao mesmo tempo em que está ausente em todos eles. Harmoniza muito bem com ficha técnica e isenção de responsabilidades durante o processo.

Movimento 11: desvio do osso. Essa técnica exige anos e anos de prática, mas pode livrá-lo do job encrenca para sempre. Consiste em ter muitas dúvidas e dificuldade nos trabalhos mais difíceis. O treinamento facial da expressão de sofrimento é fundamental. Assim como um certo ar de culpa por não ter conseguido resolver o job no prazo. Aos poucos, você será lembrado como um esforçado, que tentou de tudo, mas não conseguiu. Os grandes mestres dessa arte sabem a hora certa de usá-la. Clientes complicados, varejo e jobs que não dão Anuário, nem Cannes. Quando bem empregada, o job osso vai para as mãos de um incauto que o resolverá. E o terreno ficará livre para o filé.

Movimento 12: a melhor defesa é a fragilidade. Já que falamos de filé e osso, pense: quantas vezes você viu dor de dente aparecer na hora de um suculento steak? Os verdadeiros artistas nunca ficam doentes no job que vai dar camisa. A tosse seca, a virose, a escarlatina só aparece na encrenca. Tenha uma saúde levemente frágil. E culpe o estresse pela queda da sua imunidade. Aprenda a usar esse recurso com habilidade e descubra um mundo com menos cobrança e mais peninha.

Movimento 13: crie um personagem para interpretar. O maluquinho, o surtado, a diva, o desligado. É uma arte de longa duração, saiba disso. Sustente-a como se os corredores da empresa fossem o seu palco. Personagens ajudam a espalhar medo entre os subalternos e compreensão entre os superiores.

Movimento 14: técnica de valorização do job na mesa. Qual o segredo para você pegar menos jobs que as outras duplas? Baixa velocidade na entrega. Como fazer isso sem parecer que você é lento, mas dedicado? Aqui, entra o treino. Valorize cada passo no processo, cada reunião, cada impressão. Enriqueça a sua função com uma técnica molecular de nomeação. Escrevendo um comunicado de rádio? Não. Você está gerindo uma nova forma de pensamento de áudio. Criando um roteiro? Nada disso. Redefinindo a forma como a marca se comunica.

Movimento 15: o Kung Fu Panda tem o golpe de dedo Ushi? A publicidade tem o golpe de puxa-saco Ushi. Talvez a técnica mais antiga e a mais difundida. Quando bem empregada, é infalível.

Lembre-se: só o domínio completo dessas técnicas leva ao estado de invulnerabilidade. Kiai!

Você quer viver ou quer durar?

Perto de casa acontece uma feira. São muitos os personagens que dão vida às manhãs de domingo por lá. Tem o Amendoim, da barraca de frutas, e os seus parceiros embalados na cachaça com mel, a Dona Judite, dos queijos e azeitonas, o simpático vendedor de verduras que sempre esqueço o nome. Dentre todos, uma figura é o destaque absoluto. O vendedor de cocadas e tapioca. Se porventura o Jorge Benjor o encontrasse, ele viraria personagem de uma bela canção. Eu o chamo de delegado porque ele me chama de delegado. Não faz muito sentido, mas há uma graça. Vem dele uma das melhores e mais difíceis lições que ouvi. Estava eu a esperar a minha tapioca, quando uma pequena senhora começou a admirar as cocadas de diversas cores. Para combinar, ela tinha um cabelo no tom de algodão doce. O vendedor, malandro que só ele, falou:

– Pode escolher à vontade. São todas boas.

Uma voz delicada respondeu:

– Não posso engordar.

O delegado, sem titubear, deu o golpe final:

– A senhora quer viver ou quer durar?

Ela deu um sorriso e levou a sua bandeja repleta de deliciosas calorias.

Penso nessa frase desde então. É uma equação que nunca foi tão bem resumida. Algo que inconscientemente permeia todas as nossas escolhas. Você pode aplicar em qualquer momento decisivo. A bandeja de cocadas assume múltiplas formas dependendo da situação. Neste exato momento, estou com uma em minhas mãos. Saborear ou não é sempre mais complicado do que parece.

No primeiro momento em que eu falei que estava saindo da AlmapBBDO, muita gente não entendeu. A melhor agência do Brasil, a mais premiada, um cargo de direção de criação. Quem em sã consciência jogaria isso tudo para o alto? Era a pergunta expressa em alguns olhares assustados. Era a mesma que eu me fazia por meses ao olhar no espelho.

Curiosamente, eu não sou um sujeito atirado. Se eu entro em um ambiente, preciso estudar cada detalhe ao meu redor. Analiso a situação de todos os jeitos possíveis, com conjecturas e probabilidades. É algo quase imutável na minha personalidade. Desconfie primeiro, acredite depois. Quando adolescente, pegava onda assim. Era cauteloso ao extremo para evitar me machucar. Como se isso fosse possível. Já bem mais velho, fui duas vezes para Mentawaii. Na segunda, ganhei a alcunha de Kassuicida. De tanto estudar, criei coragem para esticar o meu limite até o ponto de raspar no coral. Machucar faz parte da aventura.

Por oito anos, eu trabalhei na F/Nazca S&S. Ali fui reconstruído, remoldado e forjado para crer na rebeldia como essência do trabalho criativo. Nunca pensei em sair de lá, porque não consigo separar negócio de pessoas. Eu preciso admirar quem está em volta para seguir trabalhando. Lá eu tinha o kit completo. Até que me veio a frase mortal do meu sócio e dupla Marcos Medeiros: eu sei que você não sai daí, mas queria fazer uma proposta. Esse “eu duvido” me chacoalhou. Passei a olhar para o meu trabalho como nunca tinha feito. E percebi que estava tão misturado ao Fábio e ao Edu que já não sabia como funcionaria sem eles. Como um filho que precisa ganhar o mundo, parti do que eu chamava de casa.

A decisão de mudar para a AlmapBBDO pode soar óbvia para qualquer um do mercado. Dispensa explicações. Ouso citar o porquê definitivo da minha ida, pois ela transcende o trabalho. Eu passei duas semanas com o Marcello surfando. Ele não falou de propaganda por um minuto sequer. Encontrei nele a difícil arte de saber viver além do mercado. A AlmapBBDO foi a experiência mais intensa de toda a minha carreira profissional. Tudo é muito. Trabalho, prêmios, chances, aprendizado, cobrança. Por seis anos, tive o privilégio de ver o Marcello e o Zé em toda a grandeza que eles até negam ter. Viajei desde a Indonésia sem pensar em sair de perto deles, sem cogitar um desembarque. Mas eis que um porto surgiu no caminho. Um porto chamado Chuck Porter.

Chuck é a antítese do superego. A prova que dá para ser mais simples. Na nossa primeira reunião, terminamos tomando uma cerveja. Nada de espumantes caros, vinhos com nota alta no Robert Parker. Ele não queria nos provar nada além do trabalho que já conhecíamos. Chuck fala com o estagiário do mesmo jeito que fala com o dono do grupo MDC. Que sacrilégio, não? Eu presenciei. Ninguém me contou. E veja você: ele está sempre rindo. Quando mencionei que a ideia da CP+B Brasil era ser uma agência divertida, sabia que surgiria alguma polarização rasa. Alguém diria que agência não é para se divertir, é para trabalhar. A dissociação entre ofício e diversão tem como base a crença de que esses dois conceitos não se integram. E sempre vem embalada na frase: eu trabalho sério. Discordo dessa separação. Você pode arrancar o couro da equipe, pedir infinitas opções e ter um resultado bom. No final, estarão todos realizados, cansados e considerando a hipótese de trabalhar em outro lugar. É uma tática de curto prazo. Ou você pode levar de um jeito mais leve. Pode dar autonomia, respeitar o estilo e a intuição de outra pessoa que não você. O resultado costuma ser bom e, de quebra, você ganha a confiança e até a admiração de quem participou. Gestores que pensam que diversão é pecado só fazem a equipe feliz no dia do pagamento. O salário tem que ser alto porque já vem acrescido com o IPTU do inferno. Eu prefiro trabalhar sorrindo.

Nesses anos todos, sinto como se tivesse me preparado diariamente. Dobrei o paraquedas seguidas vezes, vesti o equipamento, mas não saltei. Vi muitos saltarem e se esborracharem. Era mais seguro olhar a paisagem e durar. Faltava-me a coragem. Com Vinicius Reis e Marcos Medeiros como sócios, ela veio. Com o Chuck Porter, Claudia Machado, Fernando Barreto e todos na CP+B que nos acolheram, a coragem foi definitiva. Quem em sã consciência faria isso? Nós. É hora de saltar. É hora de viver. A cocada está uma delícia. Quer um pedaço?