É preciso sentir mais.

Eu sonhava ser músico, o tempo passou e cá estou. Contudo, a música nunca saiu de mim. É uma fiel companheira para todos os momentos. Ela não me pergunta se estou triste, feliz, ansioso ou chato. Simplesmente, ela vem e me aconchega. As gaitas ficam a me olhar, o amplificador saiu de um estado de hibernação faz pouco, os microfones se espalham pela sala. Como um exército a proteger-me do mundo da razão. Pensando neles, separei três declarações sobre jazz. Serão a base da minha jam session de agora.

“Se você tem que me perguntar o que é o jazz, você nunca saberá.” Louis Armstrong.

“A vida é bem parecida com o jazz. É melhor quando você improvisa.” George Gershwin

“Eu não tenho uma definição sobre o jazz. Você deve ser capaz de saber o que é ao ouvir.” Thelonious Monk.

Todas essas frases levam-me a um quadro que mostrava duas mãos segurando uma harmônica com o título: blues is a feeling. E como se explica um sentimento? Ora, sentindo. Aquela nota aguda do Eric Clapton que ressoa na espinha, o canto da Ella Fitzgerald que chega a marear, os solos de gaita do Stevie Wonder que nos embalam sem pedir licença, os acordes de Insensatez. Música não questiona o porquê. Eu não suporto ouvir a Sade cantando. Por quê? Sei lá. Algo não bate.

Hoje, temos lidado com o pedido: precisamos de uma big idea. Convenhamos que já não é uma solicitação modesta. É um caminho árduo, repleto de layers e percalços. Digamos que você o atinge. Aí, começa o paralelo que proponho. O principal efeito de uma grande ideia é que não conseguimos negá-la. Ela nos traz sensações. Euforia, alegria, entusiasmo e, invariavelmente, temor. O temor é o nosso racional sobrepondo-se ao emocional. É um alerta que soa tão alto que é capaz de fazer com que a gente esconda o que sentiu. Você é capaz de rir e, em seguida, buscar motivos para negar essa sensação. Ao fim, sentimos de menos.

Não estou aqui a defender que devemos esquecer a razão. Se a ideia traduz criativamente tudo o que está no briefing, o racional já está ali. Logo, deveríamos parar no acostamento da rota dos keynotes que tentam traduzir o que nos impactou. E andar de ré em busca do que nos emocionou. Voto pelo uso moderado do “meu único medo é que…”. Quando sentir medo, não o use como escudo. Use como trampolim.

Volto à música. B.B. King mal sabe fazer acordes, mas a sua guitarra é indefectível. Já conheci guitarristas extremamente técnicos que não provocam essa emoção. São os “too many notes”. Onde o virtuosismo é mais valorizado do que o feeling. O resultado costuma ser uma massa de informação que mal conseguimos processar. Ou tanto a deciframos que o coração não reage. Ficamos cerebrais.

Técnica é fundamental. É ela que nos permite improvisos mais ousados e nos leva a circular por áreas que a maioria evita ou não consegue atingir. Sentimento é imponderável. Ele é o que nos conecta intensamente. Podemos adorar uma ideia pelo seu desfile de habilidades. Agora, só amamos o que de verdade nos sensibiliza. Quando a ciência tenta explicar o que acontece quimicamente com o nosso corpo quando beijamos, você sente vontade de beijar? Difícil.

Publicidade não é uma arte, o que poderia inviabilizar essa análise. Porém, somos capazes de emocionar. A boa propaganda se mistura à cultura popular a um ponto que fica impossível a dissociação. Pergunte ao consumidor por que ele gosta de uma campanha. Ele achará uma resposta que será diferente do momento em que a sentiu. Na música e na vida, nada deveria superar a nossa emoção. Complementa aí, Louis: o que é uma big idea? Se você pergunta, talvez nunca saiba de verdade. E um solo de trompete encerra o texto. Pah-pa-rah.

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9 pensamentos sobre “É preciso sentir mais.

  1. Preciso. Perfeito, Kassú. O que me incomoda nisso tudo, é saber que um dos melhores gaitistas com quem tive o prazer de tocar junto, tenha deixado seu talento musical cochilando em detretenimento ao seu talento e ofício de redator. Como compor e tocar apenas em gravações de comerciais me afastou, também, durante muito tempo, do prazer de simplesmente tocar com amigos, já te convoco para quando estiver pelo Rio participar de nossas quartas quinzenais de “jamming”. Reunimos publicitários e afins para uma noitada num estúdio movido a cerveja e desejo de “bluezear”, “jazziar”, “rockear”, farrear … É uma terapia grupal. Tem rolado coisas bem bacanas. Sinta-se intimado. Abç

    • andrekassu disse:

      Valeu meu amigo. Por coincidência, na semana que vem estarei em uma jam dessas. Com uns amigos publicitários. Aos poucos, vou tirando a poeira e abrindo espaço para as pequenas coisas que dão prazer. Abração.

  2. Vitor disse:

    Acho que isso aí tem a ver com a mania de querer categorizar tudo, colocar em fórmulas. O Lee Clow uma vez tuitou: “Não me peça para trazer uma ideia inovadora junto com três exemplos de como ela já funcionou antes”.

    Sobre a técnica, acho que a comparação com a música é bem válida. Não adianta nada conhecer sobre dinâmica, dedilhado, notas, tempo e o escambau se O QUE você toca não toca ninguém. Já diria minha professora de piano: “Som assim, eu consigo rodando .midi no computador. Soa igualzinho e dá muito menos trabalho”.

  3. Kassu, acho que pensamos parecido. Escrevi algo semelhante há algum tempo:
    http://www.inteligenciacoletiva.com/post/80705179573/o-valor-do-improviso

  4. Rafa Caldeira disse:

    Kassu, obrigado!

  5. Patricia Malizia disse:

    Kassu, como faço p/ falar contigo? Adoro seus textos…tenho uma revista no instagram…te sigo…mas quero publicar algo seu. Vamos fazer contato por email? instagramrevista5@gmail.com

    Patricia Malizia

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