Sete noivas para sete aliens.

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Eu não lembro a idade ao certo. O trauma, porém, é inesquecível. Sei que tinha menos de 10 anos e, até por isso, ainda não havia entrado naquela fase de contrariar a minha mãe. Logo, o que ela falava era uma regra a ser seguida. Uma noite de sábado, uma TV de tubo, uma pipoca de panela não podiam formar um conjunto catastrófico, pensei. Minha mãe tinha crédito de sobra. Já havia me apresentado “A Dança dos Vampiros”,” O Destino do Poseidon”, “A Travessia de Cassandra” e os filmes do Jerry Lewis. Foi de coração aberto, portanto, que eu sentei para assistir “Sete Noivas para Sete Irmãos”. Minha vida nunca mais foi a mesma.

Em uma das cenas, lembro de um galpão de madeira sendo construído. E uma cantoria sem sentido. Havia também uma coreografia. A soma desses fatores resultou em um estresse pós-traumático nunca curado. Não aceito as acusações de preconceito. Em minha defesa, apresentarei provas de que tentei diversas vezes superar o ocorrido. Em vão. Quando o filme acabou, o quarto tinha diminuído. Os dedos dos pés estavam curvados para dentro como se o ambiente tivesse sido preenchido por um contínuo som de giz no quadro. Eu tinha acabado de descobrir como seria um bife de fígado se ele desse um roteiro. Com o agravante de que não podia jogar maionese em cima para disfarçar o gosto.

Meu segundo teste de sobrevivência veio com “A Noviça Rebelde”. Em sinal de respeito à Dona Ivone, eu fui até o fim. Minha unhas arrancaram uns quatro tacos de madeira do chão. Sabe aquela cena em que a moça roda em um campo com os braços abertos? Minha mente fez o mesmo me levando a um estado de labirintite. Tive vontade era encher a cara com Biotônico Fontoura. Por que diabos era tão difícil falar? Por que eles cantam, meu Senhor? E tome chicotada nos tímpanos em punição.

Dali em diante, segui uma via-crúcis por todos os filmes do gênero. Gente sapateando, dançando na parede, cantando e dançando, dançando e sapateando. Tentei de todos os jeitos e de todas as cores. Até que um deles foi capaz de me trazer alívio. Tal e qual um sujeito que soluça por 3 anos, tive aquele pequeno prazer de 2 horas de calmaria. “Cantando na Chuva” era o ponto alto de uma montanha-russa que só me jogava para baixo. E foi só. O soluço voltou mais forte.

Os anos passaram e eu passei culpar a imbecilidade da adolescência pelo afastamento completo dos musicais. Minha mãe estava isenta. O problema é que essas experiências da infância podem marcar para sempre como viria a descobrir tardiamente. Todo brasileiro que se preza quando vai para a Nova York tem que comprar um Nike Shox, camisetas Abercrombie e, claro, ingressos para musicais. Eu sou de uma geração toda trabalhada na camiseta do “Cats”. Ora, tinha que ver isso algum dia. Sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor! Eu e minha mulher resolvemos embarcar numa sessão de “O Fantasma da Ópera”. Foi como deitar no colo de Morfeu embalado por Stilnox. Satisfeitos? Não. Tentamos nos manter acordados em “Rent” e fracassamos abraçados. A baba no ombro era o caro resquício de uma noite bem dormida.

Os musicais viraram uma febre no Brasil. Fico feliz pelo público. Pelos artistas que ganharam novos palcos. Pela cultura que parece ter mais espaço na rotina do brasileiro mesmo que por preços surreais. Nessa onda, vi o musical do Tim Maia e me emocionei. Finalmente, a cantoria fez algum sentido. Ainda assim não me dobro. O trauma é grande. Quando um ator começa a cantar, sinto que sou levado direto para o apartamento de Copacabana. Repasso aquela sensação que continua viva e recordo uma pequena vingança. Um tempo depois, eu pedi para a minha mãe me levar para assistir “Aliens, o Resgate”. A cada golfada do alienígena, eu empatava o placar. Ela fingiu ter gostado, enquanto segurava o o embrulho no estômago. Saí com a certeza de que Aliens foi o seu musical. Estávamos, enfim, quites.

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3 pensamentos sobre “Sete noivas para sete aliens.

  1. Ótimo texto ! Sobre o conteúdo, só tenho a dizer que eu te compreendo: odeio musicais !

  2. Na minha humilde opinião, os musicais estão para os ouvidos como a vacina antitetânica está para o lazer.
    Obrigado, Kassu. Foi um alívio descobrir que não estou sozinho. 🙂

  3. Compartilho do repúdio!

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