Arquivo mensal: julho 2014

Vendedor de caranguejos

Tenho convivido com uma constante pergunta: como é abrir uma startup? Desvio da mesma para passear levemente na infância. Daquele tempo, guardo a viva memória de que, ao fim de uma fábula, você tinha que encontrar a moral. O que ela queria dizer nas entrelinhas. A lebre e a tartaruga nos ensinava sobre a necessidade de persistir. A raposa e a cegonha nos relembrava da importância em medir os seus atos e encerrava com o clássico: “quem com ferro fere com ferro será ferido”. Todas essas lições foram aprendidas à beira da cama. Ou escutadas na coleção Disquinho com uma pequena vitrola laranja. Volto para a pergunta, agora travestido de Esopo, e pinço uma historinha.

Em uma praia ensolarada, caminhava um vendedor de caranguejos. Ele vinha carregando o seu puçá quando foi abordado por um banhista. O gentil homem o alertou:

– Moço, o puçá está aberto. Os caranguejos vão fugir.

O vendedor agradeceu o aviso. Entretanto, não mostrou nenhuma preocupação:

– Obrigado, mas fique tranquilo. Esses caranguejos são do tipo publicitário. Quando um está saindo, o outro vem e puxa para baixo.

Moral da história: o que importa é que o outro não saia vitorioso.

Pode soar pessimista, mas repare. Há uma certa ânsia de que o fracasso do próximo seja a medida do nosso sucesso. Verdadeiramente, tem muita gente cuja principal atividade é torcer contra. Lembro que logo após eu e o Marcão ganharmos o GP de Cannes, o Marcello afirmou: vocês terão as alegrias e as decepções desse prêmio. As decepções vêm primeiro. Horas depois, um amigo passa e solta um muxoxo: que sorte, hein? É, startup tem disso, também.

Por mais “poliana” que pareça, você só sente essa torcida contra quando inicia um negócio. Cada um está defendendo suas terras. Mesmo que elas sejam imensas e uma startup, por natureza, não as ameace tanto. Os soldados são as taxas baixas ou até mesmo a taxa zero. A arma é a recusa de um fee, que seja. A munição é a vontade de diminuir o concorrente com argumentos que passam longe de trabalho. Chumbo neles! Ora, a quem interessa um mercado com menos agências? Aos clientes, certamente não é. Nada é mais sadio do que um ambiente onde exista a possibilidade real de escolha. Onde a mudança é motivada por estilo de trabalho e não puramente por mais ou menos dinheiro.

Voltemos ao puçá. Agora, olhando pelo lado positivo. Entre os caranguejos, ouço um murmurinho. Um desejo velado de que a corrente mude de lado. Como os pequenos alienígenas do Toy Story, há os que olham para cima à procura da garra. A garra! São esses que dão força para pisar em novas terras. Que impulsionam a reverter a fábula. É tudo uma questão de escolher a turma certa dos crustáceos.

Não tenho a menor paciência para autoajuda. Guardo, porém, um presente do meu amigo Ricardo Wolff. Um livro chamado “O que Keith Richards faria em seu lugar?”. É uma coletânea de frases do Highlander do rock que podem ser usadas em diferentes momentos da vida. Uma que eu adoro: “A última vez que eu disse ‘sim, senhor’ foi na escola”. É isso. É preciso um pouco de empáfia para aceitar os riscos de sair do seu conforto. Quem muito abaixa a cabeça acaba mostrando a bunda. Ou como dizíamos na minha Copacabana saudosa: não sabe brincar, não desce para o play. 

Então, qual é a moral de começar uma startup? Qual a lição que pode sair de uma empreitada como essa? Mergulhe na fábula e misture-se aos caranguejos. Lembre-se do banhista que avisou que o puçá estava aberto. Começar um negócio é acreditar que podem segurar nas suas patas com força, mas você será capaz de sair da cambada. Basta procurar pelos companheiros certos, que eles farão a escadinha. Startup é saltar até sentir a areia nas patas. É contrariar a natureza do caranguejo. É andar para frente. 

Anúncios

Um Gigante Gentil

A minha vida tem uma trilha Roberto e Erasmo. Mesmo que eu não quisesse, as canções seriam inevitáveis. Foi na coxia do palco que eu passei um belo pedaço da infância. Já tive um misto de tudo em relação a essas músicas. Ódio, amor, ternura, cansaço, tédio, carinho. Hoje, guardo o aprendizado de ter visto de perto, por tantas vezes, dois grandes homens da música popular brasileira.

Já escrevi sobre o Roberto, sobre o que a TV mal mostra. Muito se fala das suas idiossincrasias, pouco se fala sobre a grandeza de seus pequenos gestos. O Rei é, antes de tudo, um cavalheiro. Um homem que mesmo no altar por tanto tempo, não perdeu o tato com quem lhe colocou lá. Falar sobre o Roberto Carlos é tão magnético que percebo a injustiça que é esquecer o Erasmo nessa trajetória. E aqui serei absolutamente pessoal.

Minha mãe começou a trabalhar com o Roberto quando eu tinha 5 anos de idade. Volto para aquele menino e olho para cima. A figura do Erasmo sempre me foi mais encantadora. Ele tinha uma atitude completamente diferente dos pais dos amiguinhos da escola. Pulseira, jaqueta de couro, jeans, cabelos rebeldes e uma mania de falar “bicho” para tudo. E mais: não se dirigia às crianças na linguagem “tatibitate”. Ele falava como se fossemos um deles. Desconhecia na época, o apelido que tanto lhe define: Gigante Gentil. O mesmo que uso para falar com o amigo Camarotti. Para uma criança, gigante era uma bela definição sobre aquele ser que caminhava a passos largos e ego curto. Ele era uma festa de arromba em si só.

Agora, pense nas canções. Pense que houve um momento na música brasileira que era necessário mais do que repetir vogais nos refrãos para ter sucesso. Que as melodias podiam ser mais trabalhadas sem demérito de vendas. Roberto e Erasmo já sofreram todos os tipos de críticas ao longo do tempo. A música continua mais forte e atravessa gerações com a partitura blindada. Ela nos toca de alguma forma. Ouvir Roberto e Erasmo é entrar em contato com uma parte da nossa história. Podemos rejeitar, até. Argumentar que é brega, que relembra a tristeza do Natal, que remete a um tempo que já foi. Em tempos brutos, prefiro me apegar ao romantismo escancarado de “Detalhes” do que me render à precariedade sonora que nos ronda atualmente. Já fomos bem melhores em AM e FM.

Regresso aos caracóis do Erasmo. Relembro o afago que ele me deu na missa da minha mãe. Para em seguida, bater no seu peito, na altura do coração em mais um gesto típico de sua gentileza e capacidade de entrega. Erasmo tem um silêncio carinhoso. Repasso alguns momentos da infância com o Léo e o Gugu correndo pelos bastidores. O vascaíno e o quase zagueiro rubro-negro. Em comum, a verdadeira adoração pelo pai. Inevitável achar tudo o que ele passou recentemente injusto. Contra a ordem natural da vida. Eis que Erasmo me reserva outra lição com a frase: “meu filho gostaria que eu continuasse tocando”. E assim o fez. Eu buscando os porquês, ele seguindo em frente de peito aberto.

Erasmo volta aos palcos com a certeza de que a sua força está na música. Cercado de uma banda jovem, ele continua a figura menos badalada de uma dupla que tanto nos deu. É mais uma característica que me faz admirá-lo. Compor para Erasmo é como o ato de beber água para nós. É natural e ao mesmo tempo vital. Caminho pela discografia de Roberto para confirmar o que sentia: não haveria Rei sem o amigo de fé, o irmão camarada, o Tremendão.

Hoje, eu olho para o Erasmo com a mesma curiosidade de um menino de 5 anos. Aquela figura continua encantadora. E, agora, mais Gigante. Agradeço a sua música que me toca como uma oração, bato no peito e devolvo o afeto que sempre me deu. Um beijo, Erasmo.

 

Ivone e Erasmo