A culpa não é do Cerezo

A tragédia aconteceu muito antes do 7×1. Não prestamos atenção aos sinais. Nosso ufanismo embalado pelo triste grito de “com muito orgulho, muito amor” ocultou o óbvio por décadas. Mudamos o rumo no Sarriá. Ali, o Brasil era a criatividade. A Itália era o pragmatismo. Nós éramos inesperados. Eles eram táticos. Nós éramos a big idea. Eles eram uma apresentação de ppt. Perdeu a criação, ganhou a estratégia fria em busca de resultado. Naquele dia, tudo foi redefinido. Esquecemos as nossas raízes, viramos péssimos imitadores. Abalados com a derrota, passamos a buscar a conquista a qualquer preço. Arrumamos desculpas para jogar feio e defendemos um esquema mesquinho que valoriza o 1×0. Nas categorias de base, a peneira passou a catar os mais fortes, os mais táticos em detrimento dos criativos. Ganhamos duas Copas com poucos craques. Romário, Bebeto, Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho nos deram uma falsa sensação. Erguemos e perpetuamos o semblante tedioso do Parreira como símbolo de vitória. Até chegarmos ao ápice de contar com um só jogador capaz de mudar o jogo. Não adianta mais cantar o hino gritando. Só essa tragédia pode nos redimir.

Dunga nunca entendeu por que falamos de Zico, Falcão e Sócrates. Para ele, a vitória está acima de tudo. Um redator com 12 Leões talvez não entenda se eu disser que há um criativo que nunca ganhou Leão, mas que tem um trabalho infinitamente melhor do que ele. Para esses redatores, os números são o que importa. E na análise fria, ele se vê mais vitorioso. Aqui cabe uma comparação que antevê a tragédia. O mundo da propaganda também mudou. Do mesmo jeito que os volantes foram sendo valorizados, estamos vendo distorções que pioram o jogo. Começo por essa já citada. Corremos atrás de números e, ao fazer isso, criamos uma base que não gosta de briefing de verdade. Que não sabe se portar em frente ao cliente. O resultado são argumentos de vento, mas egos de aço. Prêmio é negócio, não há dúvidas. Só que não pode ser a única meta. Nesse ano, ouvi um criativo dizer “ufa” ao invés de comemorar o Leão. Algo está muito errado. Em contraposição, repito a frase de um diretor da Sadia para o Neil Ferreira: “O seu comercial me ajudou a construir três fábricas”. É preciso olhar para os craques do passado e descobrir qual é a nossa função primordial.

As relações de trabalho também estão repletas de volantes. Pense em quantas pessoas passam o dia tocando a bola para o lado. Pense em quantas decidem para valer. Aos poucos, diluímos a autonomia e a capacidade de fazer diferença. Nesse ambiente, a ideia perde valor para o esquema burocrático defendido por cada setor, sem a preocupação com o todo. A estratégia oprime a criatividade com a certeza de que se o dinheiro entrar, não importa se é bom ou não. Tasca celebridade e vai. Uma olhada em qualquer ficha técnica é suficiente para perceber o inchaço desse jogo. Como diz o George Lois: muitas pessoas podem criar um celeiro, mas não criam uma grande ideia. Na prática, é muito kick-off (o popular chutão) e pouca jogada memorável.

É possível fazer um paralelo entre a estratégia não treinada e apresentações de último minuto com retroplanejamento para justificar o conceito criado na madrugada. Há uma metáfora clara entre os jogadores que estrelaram e perderam o foco e profissionais que se autointitulam gênios ou gurus. E que tal falarmos da patética ausência de autocrítica do Felipão e do Parreira? Acontece muito, também. O excesso de mídia em torno dos jogadores criou uma mania de correr para a câmera dizendo: eu sou foda. Acredite. Sempre que alguém faz isso, raramente é. Vale para todos os segmentos.

Em 1982, chorei como um menino. Em 2014, não verti uma lágrima sequer. Na seleção e no trabalho, só me emociono com os craques. Com os que se entregam. É hora de repensar. O 7×1 demorou a chegar e a culpa não é do Cerezo. É de todos nós que passamos a nos contentar com pouco.

 

 

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4 pensamentos sobre “A culpa não é do Cerezo

  1. Alex Luna disse:

    muito bom. como diria um antigo chefe meu: “você entra no campo pra fazer o quê?”

  2. José Armando Nogueira disse:

    Ótimo. Como sempre, inspirador. Me levou à lembranças: Tive duas fases marcantes na vida. Fui um ótimo jogador de futebol, e não passei do amador, talvez por que um professor de matemática tenha me humilhado na sala de aula, quando soube que eu era o craque da Escola de Química, em São Paulo. Ele era engenheiro da construção do Morumbi, à época. Eu tinha 19 anos, Rato, técnico do juvenil do Koringão, me mandava bilhetinhos, através de um primo, que já era profissional, me pedindo pra voltar. Mas o professor me humilhara na sala de aula por conta de uma prova mal feita. Chorei como se fosse um colegial. Desisti. Um dia, só de sarro (como se falava) fui treinar na Portuguesa, com um amigo. Jim Lopes, argentino, nos disse, ao final do treino. Usted, mulatito de media cancha es mui técnico, mui bueno, pero no preciso de hombre, no momento necessito de nombre! Desisti definitivamente de ser jogador profissional. Voltei para digladiar com minhas moléculas e passar dias diante do Microscópio de ponto de fusão. Virei Químico Analista. Belo dia, apresentado por Rogério Cardoso ao Sergio Arapuã, me vi dentro da Alcântara Machado, dos tempos de Alex, Neil, Jarbas, Wagner, Fontoura, Joca, meu preceptor e amigo saudoso e inesquecível. Virei redator de propaganda, muito por conta dele. Acho que ganhei alguns prêmios junto com Jaques, antes da Lew/Lara. Hoje entendo que certos técnicos não querem o bom, querem o cordeiro, desde que seja um falso figurão. Felizmente, na publicidade, se você nem treina nem joga bem, você não vai longe. A menos que você encontre uma versão de Jim Lopes pela frente. Que bom que eu encontrei um Joaquim Gustavo Pereira Leite. Ele me ensinou distinguir o nombre e o hombre.

  3. Chiquinho disse:

    Muito bom, Kassu! Aliás, sempre muito bom!

  4. Eduardo Alvarenga disse:

    Andre não poderia ser melhor lembrei das tarde do maracanã lotado , de torcidas vibrantes onde ser torcedor era sacanear o amigo e tudo acabava tudo em samba e cerveja.Parabéns

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