Arquivo mensal: novembro 2014

18º Tabelião de Ideias da Capital

O criativo pega o calhamaço e caminha até o guichê da direção de criação. Coloca as ideias no balcão e, antes mesmo de poder explicar, ouve o som do carimbo batendo forte. Olha para o topo da primeira página do bolo e lê a sucinta recomendação: faz mais. Dia seguinte. O criativo tem agora 2 calhamaços e a certeza de que carrega um belo material em mãos. Ele descobre no guichê DC1 que, aparentemente, a documentação está resolvida. Porém, entretanto, contudo, todavia é melhor passar no guichê DC2. O criativo segue até lá e descobre que a sua confiança tem a longevidade de um duplo carimbo: (pow) faz mais, (pow) faz fora do briefing.

O criativo volta agora com 4 calhamaços. Guarda consigo a sensação de que não sabe mais fazer, que só sabe fazer mais. Com resquícios de orgulho, deixa as ideias na mesa. Após um longo silêncio, ele ganha o aguardado carimbo: temos. O criativo vai agora para o guichê do atendimento. Caminha a passos largos e decididos. No guichê A, ele descobre que as ideias fogem da regulamentação do briefing. Ele argumenta que no guichê DC2 foi recomendada a fuga do pedido original. O chefe do A, desabafa que DCs não sabem o que falam, mas vai acatar. Por via das dúvidas, o processo só pode ser finalizado com a retirada de uma certidão negativa no guichê de Planejamento. Tal e qual o menino Charlinho, ele não desiste nunca. Ao chegar no guichê P1, ele admite de antemão que não possui o comprovante de presença da reunião de kick-off. Argumenta que os documentos estão dentro do prazo, só que o atendente mostra-se irredutível. Precisa do selo de kick-off, uma foto presencial no step 2 e DUT pago do step 3. O criativo desiste de brigar, vai para o guichê P2 e depara-se com a placa: estamos em pesquisa. Incansável, ele dirige-se ao P3 e escuta que P1 e P2 não decidem nada. O gerente de P3 diz que o problema é facilmente contornável, desde que ele altere algumas linhas e registre em cartório.

Determinado, o criativo faz as alterações, registra e tira uma cópia autenticada de cada uma delas por segurança. Ele retorna ao guichê A e ouve um gracejo sobre o seu semblante cansado, enquanto os documentos são conferidos. Agora, está tudo dentro dos conformes. Só precisa que os responsáveis pelos guichês DC, DC2, A e P3 decidam uma data de apresentação. Eis então que surge um funcionário do guichê M e diz que não há espaço comprado para aquele material. Que todo mundo sabia que a verba era para papel A4 e não adianta documentar tudo em A3. Após muita discussão, o criativo descobre que precisa refilar todos os calhamaços para que eles se encaixem no plano de mídia. Guichês DC2, A e P3 ficam fechados nesse momento. O criativo corre contra o tempo, pois é sexta-feira e o cartório fecha no fim de semana. Ele falha na sua empreitada.

Segunda de manhã. Guichê A funciona a todo vapor. Os outros ainda não abriram. Volta do almoço. O criativo confere todos os documentos e sente a maré mudando a seu favor. Os guichês A, DC, DC2, P3 e M estão juntos, finalmente. Na mesa de reunião, surgem novas ideias como em uma disputa de repentes. Criativo realiza mentalmente que ele será o responsável por formalizar esse novo documento. Na mosca. Ele volta duas casinhas no jogo, mas fica aliviado porque já está tudo carimbado pelos guichês. Ele dá uma nova entrada de pedido de OK. Sai o Ok.

Os guichês fecham. Todos parecem felizes e prontos para outra. O criativo volta para casa com o dever cumprido. A ideia que ele gosta, embora alterada pelo DC2, ainda está ali. Nos primeiros minutos de sono, acorda sobressaltado como que sonha que está caindo em um buraco. Ele lembra de um detalhe: pelo menos um dos documentos precisa ter um comprovante de residência na Riviera Francesa. Levanta da cama, pega um Dormonid, engole em seco e deita de novo. Amanhã, ele passa essa bucha para o assistente. Se der certo, ele enfia o nome na ficha.

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Um poema

Não, não é meu. Não saberia escrever um, mesmo que quisesse. Não tenho a coragem para arriscar-me em um terreno onde, fatalmente, tenho tudo para soar ridículo. Ao contrário da minha pequena Júlia. Que do alto dos seus 12 anos, não pensa nessas censuras bobas. Que pulou rumo ao que me é desconhecido e de lá trouxe esse pequeno poema feito sob a luz das aulas de história. O orgulho não cabe nas minhas palavras. Não cabe na casa. Não cabe em nós. Deixo ele solto por aqui.

Minha moeda

Minha moeda tem carne, osso,

Tem sangue.

Como o que corre em suas veias.

Tem suor pingando da testa,

enquanto anda

Com cestas cheias.

Minha moeda antes ficava

Feliz

Morando numa aldeia.

Agora está na senzala

Sofrendo

Cercada de areia.

Minha moeda antes cantava,

Dançava,

Sem saber de seu futuro.

Mas agora não canta,

Nem dança,

Com seu presente obscuro.

Minha moeda antes tremia

De medo

Mas não teme mais o escuro.

Pois agora aprendeu que é

Embaixo do sol

Que o trabalho é duro.

Minha moeda se perde nesses pensamentos

De um porão de um navio negreiro

Num atlântico de lágrimas negras.