Arquivo mensal: janeiro 2015

Somos todos macacos de laboratório

O experimento é simples: cinco macacos dentro de uma jaula e um cacho de bananas no alto de uma escada. O chamariz é irresistível. A pegadinha reside no fato de que, se o macaco tentar pegar a banana, os outros tomam um banho de água gelada. Com o tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros sentavam a mão nele. O condicionamento criou uma atmosfera em que nenhum dos macacos pegava a banana, apesar da tentação. Já seria uma boa metáfora para a vida nas agências, mas os cientistas foram além e substituíram um dos símios do grupo por um novo. Claro, ele não sabe das regras, vai direto na fruta e leva uns cascudos. Aos poucos, eles vão substituindo todo o grupo. Ao final, temos cinco macacos que, mesmo sem um porquê, continuavam a punir quem tentasse pegar as bananas.

Uma equipe que já terminou o seu trabalho, mas não vai embora porque o chefe continua sentado na mesa é um paralelo e tanto com essa experiência. Tal e qual os símios, os funcionários parecem temer um banho de água gelada. Aceitamos as coisas como elas são sem questionar. Por mais injustas que elas pareçam. A diferença é que nós temos o poder de dialogar com racionalidade e ainda assim não o usamos. Pode um homem gritar com uma mulher no meio da agência e ninguém se intrometer? Pode um chefe humilhar o seu time sem que nenhuma daquelas tristes almas levante a voz? Tem algum cabimento você aceitar regras que vão de encontro aos seus valores? A única explicação é que as pessoas se acostumam a tal ponto com um ambiente nocivo que preferem não pensar no que as cercam. O que resulta em frases do tipo: “em toda agência é assim” , “em tal lugar é muito pior”, “nem tente argumentar, porque fulano se deu mal”. O cacho de bananas está ali pertinho, mas ninguém se atreve a pegar. Opinião é um troço muito perigoso em determinados ambientes.

A segunda experiência com macacos envolve pepinos e uvas. Os cientistas designaram uma função para dois símios que estão no mesmo nível de hierarquia. Se os dois ganham pepino para executar a tarefa, tudo certo. Se os dois ganham uva, melhor ainda. O problema começa quando você dá pepino para um e uva para o outro. Os animais não aceitam a diferença. Ao ver o colega da gaiola ao lado ganhar uva, o que ganhou o pepino sai de si. Ele não aceita mais o pepino entregue pelo cientista, sacode a jaula, entra em revolta.

Em recente entrevista, Dunga disse que não acredita em privilégios para os gênios. Teme perder o grupo. O experimento mostra que ele tem razão. Uma verdadeira equipe joga junto, veste a camisa, luta por algo que todos saem ganhando. É muito mais fácil, porém, incitar as individualidades, criar tensão. O resultado é cada um por si, um time desmembrado até nos objetivos. É um erro comum que ajuda a explicar o alto turnover nas agências. Um exemplo? Você separa um grupo para criar sem briefing, mirando os festivais e deixa o outro lidando com o osso do dia a dia. Para quem ganha uva é o modelo ideal. O perigo mora no balançar da jaula de quem ficou com o pepino.

O último experimento é o mais singelo de todos. Um macaco está solto em frente a uma bela oferta de comida. Ao seu lado, há outro ainda preso na jaula. Consternado, o símio destranca o seu semelhante para dividirem as frutas.

Aqui entra a moral da história. Qual dos macacos você gostaria de ser? Qual você gostaria de ter ao seu lado? A minha resposta não mudou no curso entre ser comandado para comandar. De todos os experimentos, escolho o mais difícil de colocar em prática. Prefiro ter na equipe pessoas que sejam capazes de olhar para o outro. De dividirem a uva e o pepino. Aposto mais na intuição de cada um do que no condicionamento. A gaiola é melhor aberta.

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Meu santo é forte para as pesquisas

Puxando na memória, relembro embates memoráveis em torno do assunto pesquisa. Em alguns, fui para quebrar e mirei no joelho mesmo. Feito um Jon Jones com os seus pisões. Em outros, fui mais dissimulado, esquivei como um Roy Jones Jr. e dei o golpe final quando menos se esperava. Claro, a lembrança é minha e posso sair sempre vitorioso. Agora, se eu for honesto, há escondido um momento em que saía da sala com os braços erguidos, após ter trucidado um animatic. Então, do alto da minha valentia, ouço a voz de um dos meus oponentes. Disse ele: o que você faria para melhorar o sistema de pesquisas, então? E eu respondi prontamente: abá, abé, abi.

A retrospectiva de 2014 passa pela perda de um raro grande cineasta brasileiro: Eduardo Coutinho. As circunstâncias trágicas da sua morte jogaram no noticiário aquele que se escondia por trás das câmeras para revelar a humanidade que ainda reside em nós. Pensei muito na injustiça do fato de Eduardo ter o fim da sua história revelada com tintas fortes. Logo ele, que mergulhava delicadamente na intimidade do outro e só voltava de lá com a permissão para contar o que encontrou. Não achei uma razão, um motivo. Descobri, no entanto, que estava a repetir o erro de que tanto reclamo. Pesquisas tendem a criar um senso comum em ambiente controlado. Eduardo Coutinho nos ensina algo diferente. Não há como prever e esperar explicações para tudo na vida. A complexidade humana não está no Big Data, está na vida. Ao abrirmos a cortina da censura social, ao atravessarmos as couraças mais profundas, desvendamos o óbvio: as pessoas simplesmente são.

Pensar em Eduardo Coutinho é andar pelo Edifício Master. É relembrar a cena do senhor cantando “My Way”, da moça que define Copacabana no dilema “ou as calçadas são estreitas ou tem gente demais”. Há nesse filme uma aula do universo Coutinho. A voz sem rosto que pergunta, a sinceridade com que as pessoas se expõem e mais importante: a verdade. Estamos dentro do apartamento e da vida daqueles personagens. É tudo tão autêntico que rimos e choramos em pequenos intervalos. Eduardo atinge no documentário o que o cinema brasileiro não consegue na ficção. É isso que nos emociona e nos conecta. Buscamos reminiscências de um familiar, de um vizinho, de nós mesmos. O cinema de Eduardo Coutinho não pede pipoca, muito menos azeite trufado. Ele pede a garganta seca, o olhar atencioso, a empatia.

Guardo o impacto de ver Santo Forte no cinema. O sincretismo, a fé, a alma escancarada. Dali carrego Thereza, uma personagem de uma riqueza difícil de acreditar. Fosse ficção, desconfiaríamos. Não sendo, é uma verdade que só nos resta aceitar. Em Babilônia 2000, as diferenças entre o Réveillon de ricos e pobres são exploradas até o ponto do incômodo. O morro abre as portas e divide o pouco que tem. O asfalto fala por interfone e oferece uma água. Eduardo caminha munido de pinça e, aos poucos, vai desencravando o que não pode ser revelado. No singelo Canções, o cenário é um banco e uma cortina escura, nem por isso o tom é inquisidor. As pessoas do cinema de Eduardo Coutinho surgem sem disfarces, sem a preocupação de interpretarem nada.

É desse universo que trago o que eu faria para melhorar as pesquisas. É preciso tirar as pessoas da sala do Focus Group e adentrar em suas casas. É necessário dar tempo para que elas fiquem à vontade. Observe primeiro. Aos poucos, a intimidade será criada. Sem perceber, o seu entrevistado estará sentado no chão, sem sapatos e apto a dizer o que não teria coragem em meio a um grupo de estranhos. O caminho para a verdade demanda espera e confiança. Não é algo que se atinge em dois dias. Inspirado por Eduardo Coutinho, joguei as luvas de boxe fora. O diálogo é a nossa única saída.