Arquivo mensal: julho 2015

A vida vai muito além do basquete

Parece piada, mas aconteceu. A CBF realizou um encontro com ex-técnicos da Seleção para debater os recentes fracassos do Brasil. Entre os convidados, estavam Parreira, Lazaroni, Carlos Alberto Silva, Falcão, Zagallo. Resumindo: eles reuniram vários responsáveis pelos insucessos em busca de respostas para o futuro. É de uma lógica invejável. Imagino o Lazaroni que, entre muitas peripécias, conseguiu convocar o Bismarck, dissertando. Penso muito no tedioso Parreira tirando o dele da reta e voltando a falar de 1994 como se aquilo fosse futebol (salvo Romário e Bebeto). Lembro que o atual técnico é o Dunga e, pronto, desisto.

Melhor falar da NBA, então, que caminha em sentido oposto. Lá, o técnico Steve Kerr ajudou a levar o Golden State Warriors a uma campanha extraordinária. Quem me chamou atenção para o fato foi o professor David Slocum da Berlin School que compartilhou uma matéria sobre o estilo de liderança de Kerr. Esse artigo me levou a tantos outros que abordam diversos aspectos desse novo comandar. Em um mundo onde o Luxemburgo é taxado de professor, é um alívio saber que tem alguém trilhando um caminho menos afeito ao estrelismo. Segue um compilado Steve Kerr de como gerir uma equipe.

Em um jogo tenso dos playoffs, perguntaram ao técnico o que ele tinha falado no intervalo que mudou o jogo. E eis a resposta: “Disse ao meu time para se divertir. Somos todos muito jovens, estávamos a um jogo da final da NBA e atuando em frente aos nossos torcedores. Se a gente não se divertir e achar graça em um momento desses, vamos curtir quando?”. Ao invés de colocar mais pressão, ele fez tudo ao contrário. Tirou um tonelada dos ombros de cada um e devolveu o porquê deles estarem ali. Depois de 82 jogos na temporada regular, tudo o que eles não precisavam era de mais cobrança. Vale para a NBA, vale para Cannes.

Essa não foi uma filosofia de improviso no vestiário. Ela faz parte do jeito Steve Kerr. Sabe aquele discurso “esse trabalho é a coisa mais importante do mundo, nós temos vencer a qualquer custo?” Parece que ele não ressoa no técnico, não. Uma das frases que ele mais repete para a equipe é: a vida vai muito além do basquete. É um exercício contínuo de pés no chão, humildade e da importância de saber olhar para fora do nosso restrito mundinho.

Empatia é qualidade rara. Steve Kerr parece ter de sobra. O time vem primeiro, costuma dizer. “Você não pode jogar as peças como em um All-Star Team e esperar que dê certo.” Para formar a equipe do Golden State Warriors, Kerr teve que ir contra muitos interesses individuais. Decisões duras têm que ser comunicadas claramente. O técnico convenceu Andre Iguodala que ele não seria o titular na temporada, mas explicou exatamente o porquê. Ao aceitar a reserva, todos os companheiros entenderam que o sacrifício era em nome da equipe. Iguodala foi titular nos últimos jogos e saiu consagrado como o MVP das finais. Comandar é um eterno manejar de vaidades. É saber tirar o melhor da pessoa em prol do grupo. É muito menos sobre disputas internas e mais sobre a verdadeira sensação de que todos são importantes para a conquista. Pense no técnico Leão fazendo isso, pense.

Por último, uma lição pouco colocada em prática. O assistente de vídeo Nick U’Ren estava revendo a final do ano passado e percebeu que uma substituição inusitada mudou a série a favor do San Antonio Spurs. Steve Kerr é um líder que permite que todos opinem e tragam ideias. Fechou a equação? Nick U’Ren foi quem sugeriu que Iguodala voltasse a ser titular provando por A mais B que a mudança fazia sentido. O técnico não só acatou como deu crédito ao jovem. Ao fazer isso, reuniu algo que apenas os líderes de verdade conseguem: seguidores. Eu, em deles, fico aqui a torcer por dias em que teremos mais Steve Kerr do que “pofexô”. No basquete, no futebol e ao que nos cerca.

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