A vida vai muito além do basquete

Parece piada, mas aconteceu. A CBF realizou um encontro com ex-técnicos da Seleção para debater os recentes fracassos do Brasil. Entre os convidados, estavam Parreira, Lazaroni, Carlos Alberto Silva, Falcão, Zagallo. Resumindo: eles reuniram vários responsáveis pelos insucessos em busca de respostas para o futuro. É de uma lógica invejável. Imagino o Lazaroni que, entre muitas peripécias, conseguiu convocar o Bismarck, dissertando. Penso muito no tedioso Parreira tirando o dele da reta e voltando a falar de 1994 como se aquilo fosse futebol (salvo Romário e Bebeto). Lembro que o atual técnico é o Dunga e, pronto, desisto.

Melhor falar da NBA, então, que caminha em sentido oposto. Lá, o técnico Steve Kerr ajudou a levar o Golden State Warriors a uma campanha extraordinária. Quem me chamou atenção para o fato foi o professor David Slocum da Berlin School que compartilhou uma matéria sobre o estilo de liderança de Kerr. Esse artigo me levou a tantos outros que abordam diversos aspectos desse novo comandar. Em um mundo onde o Luxemburgo é taxado de professor, é um alívio saber que tem alguém trilhando um caminho menos afeito ao estrelismo. Segue um compilado Steve Kerr de como gerir uma equipe.

Em um jogo tenso dos playoffs, perguntaram ao técnico o que ele tinha falado no intervalo que mudou o jogo. E eis a resposta: “Disse ao meu time para se divertir. Somos todos muito jovens, estávamos a um jogo da final da NBA e atuando em frente aos nossos torcedores. Se a gente não se divertir e achar graça em um momento desses, vamos curtir quando?”. Ao invés de colocar mais pressão, ele fez tudo ao contrário. Tirou um tonelada dos ombros de cada um e devolveu o porquê deles estarem ali. Depois de 82 jogos na temporada regular, tudo o que eles não precisavam era de mais cobrança. Vale para a NBA, vale para Cannes.

Essa não foi uma filosofia de improviso no vestiário. Ela faz parte do jeito Steve Kerr. Sabe aquele discurso “esse trabalho é a coisa mais importante do mundo, nós temos vencer a qualquer custo?” Parece que ele não ressoa no técnico, não. Uma das frases que ele mais repete para a equipe é: a vida vai muito além do basquete. É um exercício contínuo de pés no chão, humildade e da importância de saber olhar para fora do nosso restrito mundinho.

Empatia é qualidade rara. Steve Kerr parece ter de sobra. O time vem primeiro, costuma dizer. “Você não pode jogar as peças como em um All-Star Team e esperar que dê certo.” Para formar a equipe do Golden State Warriors, Kerr teve que ir contra muitos interesses individuais. Decisões duras têm que ser comunicadas claramente. O técnico convenceu Andre Iguodala que ele não seria o titular na temporada, mas explicou exatamente o porquê. Ao aceitar a reserva, todos os companheiros entenderam que o sacrifício era em nome da equipe. Iguodala foi titular nos últimos jogos e saiu consagrado como o MVP das finais. Comandar é um eterno manejar de vaidades. É saber tirar o melhor da pessoa em prol do grupo. É muito menos sobre disputas internas e mais sobre a verdadeira sensação de que todos são importantes para a conquista. Pense no técnico Leão fazendo isso, pense.

Por último, uma lição pouco colocada em prática. O assistente de vídeo Nick U’Ren estava revendo a final do ano passado e percebeu que uma substituição inusitada mudou a série a favor do San Antonio Spurs. Steve Kerr é um líder que permite que todos opinem e tragam ideias. Fechou a equação? Nick U’Ren foi quem sugeriu que Iguodala voltasse a ser titular provando por A mais B que a mudança fazia sentido. O técnico não só acatou como deu crédito ao jovem. Ao fazer isso, reuniu algo que apenas os líderes de verdade conseguem: seguidores. Eu, em deles, fico aqui a torcer por dias em que teremos mais Steve Kerr do que “pofexô”. No basquete, no futebol e ao que nos cerca.

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15 pensamentos sobre “A vida vai muito além do basquete

  1. Kassu, a história do treinador do GSW, me lembra uma tal de CPB (conhece?) que tem em seu slogan “viemos para brincar, não para se divertir” . Bem, creio que seja o mesmo conceito aplicado. Por isso o Golden foi campeão. Esse fardo que às vezes nossa área acredita ser “item obrigatório” é pura bobagem.
    Perdemos o prazer em criar, colocando acima outros elementos, como a obrigação em ganhar prêmios, em agradar o Gerente de Marketing ou no narcisismo em receber likes e likes em nossa linha do tempo. Perdemos o prazer. Carregamos esse fardo em ter sempre que ficar com a perna tremendo ao apresentar uma criação à direção de criação. Ficamos com pavor quando esquecemos o hífen sai errado na peça. Ok, não deveria, mas acontece, caramba. Jordan para ser gênio, precisou errar dezenas de milhares de milhões de bolas de 3. Depois disso venceu Einstein. Virou gênio. Assim como Chuck, o Porter, que manda a gente atravessar na faixa e se divertir. A vida é isso. A gente chora quando nascemos e quando morremos os outros choram. Nesse intervalo vamos rir.
    Salve Jordan. Salve o Golden. Salve a CPB. E por favor, salvem o Futebol Brasileiro.

    • andrekassu disse:

      Ricardo,
      a gente ainda está muito, muito no início da jornada.
      Por enquanto, estabelecemos uma cultura que está funcionando.
      E que faz sentido para todos nós. Menos processos, mais olho no olho.
      Vale procurar um pouco mais sobre o Steve Kerr. A filosofia dele é repleta de bons exemplos.
      Obrigado pelo elogio.
      Abraço

  2. gprujansky disse:

    Maravilhoso, Dré!! Eu que não sou chegado em ver/seguir esportes – por vezes acho ainda uma perda de tempo total, esse texto me fez ver que pode ser proveitoso quando visto por olhos analíticos. Portanto, obrigado. Quero mais. ¦¬]

    • andrekassu disse:

      Não tem muito exemplo bom, não. Esse é uma das exceções.
      Vale dar uma pesquisada no Steve Kerr. Tem algumas tantas aulas de liderança.
      Bem diferente do que estamos acostumados a ver.

  3. Kassu, depois de ler seu texto, eu tive que levantar, ir até a janela e ficar olhando, olhando. Percebi no prédio ao lado, que é residencial, um pula pula (chamado de cama elástica pelos adultos) com crianças brincado. Elas se arremessavam, livres, gargalhando. Cesta de 3 pontos. Crianças são criativas porque têm alegria. Pena que muitos “comandantes” não gostam de crianças.

  4. Vitor disse:

    André, o conselho do Steve Kerr me lembrou o que o Neil Gaiman falou em um discurso para formandos da faculdade. Pro Gaiman, o melhor conselho que ele já recebeu na vida veio de ninguém menos que o Stephen King, bem na época em que Neil estava escrevendo Sandman, seu maior sucesso de público e crítica (e uma das HQs mais cultuadas da história).

    Na ocasião, King falou pra ele simplesmente: “Isso tudo é muito legal. Você deveria aproveitar”. Gaiman diz que esse foi o melhor conselho da sua vida e que ele falhou totalmente em seguir. Estava sempre preocupado com a próxima edição, a próxima história, o próximo roteiro, e deixou de viver o momento que foi um dos auges da sua carreira.

    Por mais que o foco do texto fosse mais sobre estilos de comandar, achei que seria legal lembrar disso.

    (Não sei se você já viu, mas aqui está o discurso completo, em que o autor ainda fala mais um monte de coisas sobre viver de arte, mas que caem como uma luva pra propaganda também: https://www.youtube.com/watch?v=IegzpF4a9bw )

  5. Adriano Sato disse:

    Excelente texto, Kassu. E digo mais: os indícios de que a coletividade e diversão trazem resultados está justificada na carreira do Kerr. Ele foi campeão com o Bulls três vezes e pelo Spurs por mais duas temporadas, como jogador. O que isso tem em comum? Tanto Phil Jackson, do Bulls à época, e o Gregg Popovich, do Spurs, são dois dos mais talentosos treinadores e domadores de egos da NBA. Mestres em trabalhar o jogo coletivo, mostrando que a essência de um bom trabalho é se divertir. Além disso, ele foi assistente técnico do Popovich durante alguns anos, aprendeu diariamente com o coach como extrair o melhor de cada atleta. Assim sendo, olhando a carreira do Kerr, o sucesso obtido em sua primeira temporada como técnico, podemos concluir que não é mera surpresa. Muito pelo contrário: é apenas a constatação que os bons exemplos que ele teve até virar treinador foram essenciais para direcionar sua filosofia de trabalho atualmente.

    • andrekassu disse:

      O Kerr tem várias particularidades. Foi difícil escolher as que eu falaria no texto.
      Agora mesmo, ganhei um livro do Phil Jackson. Vamos ver se não sai um outro texto dali.
      Grande abraço.

  6. Zé Armando disse:

    O projeto Manhattan reuniu os maiores cientistas do mundo, na época. Um deles, Fermi, chegou da Itália, e era visto como uma espécie de capiau no meio de sumidades da física. Mas quando ele falava até as pausas de seu ingles, com sotaque, eram reverenciadas. foi figura chave no processo, não concordava com o uso final da bomba A. Mas sabia que apenas uma experiência – fora da guerra – serviria para mostrar seu potencial destrutivo. Foi, como muitos, voto vencido na crueldade final. Mas ele apenas queria uma prova sem risco para o homem, como se você pudesse provar que um traque podia ser mais poderoso de que toneladas de dinamite. Los Alamos seria apenas um laboratório, Infelizmente, nem todos ouvem os grandes gênios. O pessoal do Warriors ouviu o Kerr.

  7. […] Por isso, se você decidiu trilhar esse caminho, já fique sabendo que nem tudo são flores, aliás, as flores demoram a chegar. Mas quando chegam, eu imagino que deve ser uma sensação de dever cumprido das mais gratificantes. Mas lembre-se, e realmente leve isso a sério: a propaganda não é tudo, nem o trabalho é tudo. A vida vai muito além do basquete. […]

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