Arquivo mensal: outubro 2015

Só a ficção será capaz de nos salvar

livros-serie-vaga-lume-editora-atica-13868-MLB212368289_4529-FNo tocante “Norwegian Wood”, do autor japonês Haruki Murakami, há uma frase que explica o que sinto quando me encontro na seção de marketing de uma livraria: “Se você só lê o mesmo que todo mundo lê, acaba pensando o mesmo que todo mundo pensa”. Nada contra os livros técnicos; há muitos que são fundamentais para a nossa formação e compreensão do mercado. Apenas guardo comigo a convicção de que é a ficção quem mais nos ensina sobre a riqueza humana. E na busca acelerada pela técnica, deixamos de preencher a lacuna da empatia, da capacidade de entender o outro, de passear por diferentes emoções.

Em uma simples busca pela palavra “storytelling” na Amazon, é possível se deparar com uma infinidade de títulos. Alguns simplificam o tema dando a entender que basta seguirmos todos os 23 passos descritos para sermos exímios contadores de histórias. Desculpa o tom, mas me parece balela. E esse é um fenômeno adjunto das palavras da vez. Os oportunistas aparecem de todos os cantos e soam como paleterias de marketing a vender a moda do “morde que tem recheio. É preciso peneirar com mais afinco.

Em 2013, Contardo Calligaris escreveu na sua coluna da Folha: “Sempre pensei que fosse sábio desconfiar de quem não lê literatura. Ler ou não ler romances é para mim um critério.” Note-se que são palavras de um Doutor em Psicologia Clínica e Psicanálise, portanto um profissional que precisa compreender profundamente o ser humano. Nesse mesmo texto, ele cita um estudo dos psicólogos David C. Kidd e Emanuele Castano que após diversos testes, concluiu que os leitores de ficção literária enxergam melhor a complexidade de uma pessoa que não você. E compreender o outro é o cerne do nosso ofício.

Bom, preâmbulos feitos, mudo o tom da prosa para o que me encanta. A Editora Ática anunciou o relançamento da série Vaga-Lume. E ao ler essa notícia, fui carregado de volta para um apartamento na General Barbosa Lima em Copacabana. Foi lá, naquele quarto ao fim do corredor, cercado de livros dessa série que comecei a aprender o que era ser outro. Com Maria José Dupré de guia, embarquei para a “Ilha Misteriosa”, com Lúcia Machado de Almeida, desvendei o “Escaravelho do Diabo”, com Marcos Rey, percorri as impensadas aventuras de sua imaginação, estrelando um cadáver que ouvia rádio. As ilustrações dessas capas são parte fundamental da imagem que carrego da infância. Desde então, abrir um livro é para mim buscar aquela terna sensação que a série Vaga-Lume trazia.

“O papel da boa ficção é dar conforto aos perturbados e perturbar os confortáveis” disse certa vez David Foster Wallace. Quando estava na tranquilidade de um misto-quente e um Nescau gelado, vinha o Orígenes Lessa a me chacoalhar com a realidade. Quando me pegava revoltado com a injustiça de ter que aprender raiz quadrada, descobria que o garoto de ouro havia sido raptado e, logo, a vida guardava problemas maiores. Esse relançamento me fez descobrir que o Marçal de Aquino que li adulto era o mesmo que li criança no “A turma da Rua Quinze”. Marçal é meu pastor e pensamento não me faltará.

Foram esses livros que me ensinaram a imaginar, a querer ouvir e contar histórias, a sentir. Sem essa série , sem “O menino no Espelho”, sabe lá onde eu estaria. Em uma baia monótona, numa via-crúcis de tédio, num eterno ruminar. A literatura me direcionou para onde nunca fantasiei estar. Salve-me meu São Spharion. Valha-me meu Xisto. Boa parte do que aprendi sobre esse tal “storytelling” veio muito antes da moda. Surgiu quando estávamos sós a devanear. Eu e aquelas páginas. Os livros técnicos podem nos levar por rotas imagináveis, porém a ficção anda pelo não-pensado. E é aqui que residem as chances de termos histórias originais. Sonhe mais. Leia sob a luz cíclica de um vaga-lume. De tempos em tempos, ele pisca para você.

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