Pequenas anotações que não viraram artigo

  • Muito se falou sobre a conquista de Adriano de Souza. Há, porém, uma cena que não me foge da memória e foi quase um detalhe entre tantas imagens marcantes. No instante em que Mineirinho rema para a praia, já consagrado como campeão mundial, o lendário e eternamente jovem Ricardo Bocão mergulha no mar com um sorriso que valida o apelido. A conquista não era sua, mas ele pavimentou uma longa estrada ao lado de outros grandes nomes do surfe. A alegria genuína de Bocão me faz refletir sobre as gerações que se complementam. No mar, procuramos honrar quem veio antes. E os antecessores costumam manter esse respeito pelos que trilham novos caminhos. Sem Bocão, sem o “Realce”, sem a trilha de “Girl Afraid”, dificilmente haveria Mineirinho. Sem Rico de Souza, Medina teria mais dificuldades. Sem Fabio Gouveia, Filipe Toledo não alçaria vôos tão longos. Deveria ser assim na nossa área. Raramente é. Primeiro, desqualificamos. Em seguida, nos auto-afirmamos. Talvez seja essa uma das razões para que poucas agências pensem em sucessão. O holofote nasce e morre em nós mesmos.
  • Na cabeça de Mineirinho, ele deveria ser o primeiro campeão mundial brasileiro. Tentou por 9 anos, sem sucesso. Gabriel Medina cortou o seu caminho, com talento, sem pedir licença. No ano seguinte, o menino de Maresias soou sem foco no início do circuito. Adriano, por sua vez, treinou em dobro e mudou a sua tática. Análises? O sucesso de um fez o sonho do outro tornar-se possível. Apenas talento não faz um vencedor. E, acima de tudo, frustração, quando não nos trava, gera criatividade.
  • Gabriel Medina está concentrado para a sua bateria. Logo atrás, percebo a figura de Marcello Serpa. Ele está de bermuda, camiseta e Havaianas. Com uma postura leve, ele parece olhar para o mar como quem confirma para si mesmo: eu consegui, era isso, então.
  • Quando estive ao lado de uma conquista de GP de Press em Cannes, o mesmo Serpa chamou de canto em meio à festa e disse em tom profético: “agora, vocês terão as alegrias e decepções desse prêmio”. Eu e Marcão nos entreolhamos sem entender. Era uma água jogada no chopp já quente. Minutos depois, um amigo passou e disse: “que sorte, hein?”. Quando a vida parece doce, algumas lições amargas são necessárias. Enquanto criativos, nós não nos completamos.
  • Comecei 2016 revendo “Jiro Dreams of Sushi”. Se pegar o conceito de sincronicidade de Jung, posso afirmar que não foi mera casualidade. Jiro Ono, 85 anos, melhor sushi chef do mundo, consagrado com 3 estrelas Michellin. O que esse senhor nos ensina? Que há sempre espaço para melhorar, para aprender mais, para desenvolver novas técnicas. Um sushi de polvo na textura perfeita, por exemplo, é um trabalho de décadas. Curioso. Porque com alguns Leões, tem gente que caga regras em praça pública, folcloriza o próprio release, cava elogio e fica lendo os comentários à espera de um “gênio”.
  • Os verdadeiros gênios estão fazendo algo maior. Buscando a cura da malária, uma lente de contato que mede glicose, uma forma de inconformismo tão impactante e bela quanto à criada por David Bowie. (Obrigado por me lembrar, Peu).
  • Claude Troisgros revelou em um programa que o seu pai, um dos revolucionários da Nouvelle Cuisine, sempre lhe dizia (acho que era isso): “meu filho, não importa quantas estrelas o seu restaurante tenha, lembre-se: você é um cozinheiro”.
  • Até quando acharemos normal a expressão “descer a chibata na equipe”? A figura do senhor do engenho nos rodeia.
  • Comecei 2016 com 3 bermudas, 4 camisetas, 1 par de sandálias, livros e a família em volta. Estou próximo ao mar porque ele me relembra a importância do respeito às regras básicas. Eu sou um pai, marido, amigo de poucos, publicitário, tentando ser criativo. É isso.
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4 pensamentos sobre “Pequenas anotações que não viraram artigo

  1. Vitor disse:

    André, achei legal o seu post, porque eu também ando pensando bastante sobre alguns dos temas aí. Principalmente dos bullets do Jiro, dos gênios e da chibata.

    A minha percepção vem do outro extremo do espectro em relação à sua, porque comecei na área há poucos anos. Mesmo assim, concordo com tudo isso. É bizarro que muita gente na nossa profissão ache que não querer virar noite e trabalhar 14 horas por dia é “não ter tesão pelo que faz”. E fica ainda mais estranho quando lembramos do que você falou ali: ninguém é gênio, ninguém vai salvar o mundo ou salvar uma vida com o que a gente faz. Essa urgência só existe na cabeça (e na falta de organização) de quem a impõe à equipe.

    Pra terminar, uma das maiores lições que eu aprendi até agora veio de fora de uma agência. Comecei a trabalhar em uma empresa que não é de propaganda e, alguns meses depois, tive a notícia de ter sido finalista em Cannes. Cheguei bem contente pra contar pra equipe e ouvi um “mas que que é isso?” Depois que expliquei, o povo de Vendas só disse um “parabéns” sem nem tirar os olhos da tela. É isso o que Cannes significa para o resto do mundo. Acho que é importante que os publicitários tenham isso em mente. Não que eu ache que não é legal demais ganhar essas coisas. Mas perspectiva é sempre bom.

  2. Igor disse:

    Este texto me lembrou muito da entrevista do Marcello para a Trip.
    Excelente anotações

  3. auster1974 disse:

    Muito obrigado Andre! Que bom ‘e receber seus posts!

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