Arquivo mensal: fevereiro 2016

A verdade mora nos bastidores

O sujeito é humilde, simpático, até que faz sucesso, sobe no salto e esquece o passado. Já ouviu uma história assim? Pois eu vi várias delas de camarote, atrás da cortina, no canto de um palco. Minha infância foi um laboratório para entender como o ser humano se comporta antes e depois da fama.  Parêntese. Minha mãe foi uma das maiores assessoras de imprensa do país. Um personagem fundamental de uma profissão que era chamada de divulgadora quando ela começou. Acompanhar o seu trabalho forjou o meu comportamento, a minha desconfiança entre o que as pessoas dizem que são e o que elas são de verdade, sem a maquiagem populista. Quietinho ali no meu canto, fui o Nelson Rubens de mim mesmo.

A fama e, principalmente, o poder mudam os indivíduos. Raros são aqueles que permanecem fiéis às origens. Muitos que se vangloriavam de uma infância sofrida eram os primeiros a destratar os funcionários. Lembro de um cantor cuja guitarra deu problema em um show. No camarim, um músico da banda minimizou o acontecido. E o cantor retrucou aos berros: cuida do seu espacinho porque a estrela sou eu. Poderia citar diversas dissonâncias entre imagem e realidade. Do criativo que era gentil no estágio e virou carrasco na direção de criação. Prefiro trilhar o caminho dos que me marcaram positivamente.

Uma breve história envolve aquele rapaz de letras mais ou menos e olhos verdes, que no meu daltonismo, prefiro não acreditar. Minha mãe estava envolvida em um projeto com esse tal de Francisco. E o formoso moço, na época com seus 40 anos, já derretia todos os corações femininos. Mesmo um pirralho como eu percebia isso. Sei que era humilde, tranquilo, atencioso e tinha um defeito fatal: era tricolor. Num belo dia, rodeado pelas filhas, ele resolve contar uma piada de salão, um chiste singelo. Lembro vagamente, mas vou arriscar. Era um cara que estava com o cachorro no cinema. E a pessoa ao lado fala abismada: um cachorro no cinema? E o dono responde: é, mas ele preferiu o livro. Terminada a piada foi um silêncio sepulcral na mesa. As filhas não riram. E o tal Francisco teve que engolir esse desprezo, enquanto as mulheres no mundo inteiro suspiravam.

A outra envolve o Rei. Minha mãe foi assessora do Roberto Carlos de 1977 até o momento em que ela saiu antes da festa acabar. Certa vez, testemunhei algo inesquecível. Um diretor dava chiliques com a equipe inteira. Tensão no ar porque o homem estava chegando e tudo tinha que estar tinindo. Rabo entre as pernas, carinhas de muxoxo e eis que sem soar as trombetas, entra o Rei. O diretor muda para o módulo cordial e tenta acelerar a realeza. Com a educação que lhe faltava instantes antes, diz que tem poucos minutos para a gravação começar. O Rei olha para os súditos e diz em tom afinado: primeiro, eu preciso falar com todos eles. E um a um, ele estica a mão não por demagogia, mas por não saber fazer diferente. Um obrigado verdadeiro era dito olhando nos olhos, seguido de um aperto firme. A maioria parecia não acreditar. Ao fim, ele fala: agora, podemos começar.

Lembro desses casos cada vez que a rádio peão, aquela que só toca a verdade, dispara uma canção sobre humilhação, assédio moral, abuso de poder. Não importa quão talentoso você é, todos nós temos um momento de fracasso. Mesmo o Chico Buarque (pronto, já vão me chamar de petista). Tanto faz as histórias que contamos para a audiência se elas se desmantelam no cotidiano. Aprendi cedo que se o Roberto Carlos, com toda a fama, trata bem a equipe, porque alguém faria o contrário? Entendo que há uma mescla de arrogância e insegurança que pode levar a esse curso. É uma escolha. No entanto, não conheço triunfo algum que lhe dê o direito de ser grosseiro com as pessoas. Até porque no camarim, na mesa de jantar, no reflexo da tela do computador, a verdade uma hora aparece.