Arquivo mensal: agosto 2016

Do que eu ainda falo quando falo de natação

Olimpíadas, hora de voltar para um assunto que me faz bem. O escritor Nick Hornby atrelava a ascensão e a queda do Arsenal aos momentos da sua vida. Segundo ele, tudo estava correlacionado. Se eu fizesse o mesmo com o Flamengo, teria que desenhar uma infância memorável e uma vida adulta sofrida (com picos de felicidade vascaínos e Pet). Por isso, procuro algumas conexões na piscina. Quando estou bem, nado sem pensar e faço os melhores tempos. Quando estou com raiva, o braço entra mais forte, a técnica se perde e canso invariavelmente. Se decepcionado, nado sem objetivo algum. O quadril desce e a superfície é algo a se evitar.

Experimento entrar na piscina e no trabalho como se cada dia fosse um recomeço. Escolho de largada apagar todos números da cabeça. Sejam eles os do 100m livre ou os dos prêmios. Ao zerar o meu relógio, descubro em muitas oportunidades uma sensação inspiradora. A de voltar a comemorar as conquistas, por menores que sejam. Reencontro o prazer dos centésimos no trabalho. Dos detalhes que fazem diferença ao fim do dia, que nos devolvem zerados para casa. É um aprendizado que demanda foco na sua raia. Até porque, quando você olha demais para o lado, pode dar com a testa na parede.

Nesse momento turbulento do mercado, do País, tenho nadado sem pressão, mais leve. O que me faz lembrar dos ex-atletas que treinavam comigo. Todos tinham na cabeça seus recordes dos tempos mais jovens. Alguns conseguiam lidar com a ideia de aquele número mágico no cronômetro não seria mais alcançado. Outros, não. Esses nadavam à procura do passado, mesmo sabendo que o certo na natação é manter a cabeça centrada. Por ter começado depois de burro velho, não tenho registro qualquer dos meus tempos. Não nado para buscar o que eu fui, nado para o que serei.

Nadar é também um exercício fundamental sobre o silêncio. Repare na quantidade de pequenos sons que nos rodeiam. O teclar, o vibrar do celular, o aviso de email. Trememos em abstinência pela simples possibilidade de não responder a esses chamados. Mergulho para ouvir menos, busco a desconexão.

Cada treino é um ensinamento sobre os próprios limites e um aprendizado sobre as dores. Respeito mais o meu corpo na piscina do que na agência. Se o ombro apita, corro para os elásticos. Se a lombar reclama, evito nadar peito e borboleta. A ideia é ter esse mesmo grau de alerta para o trabalho e ser capaz de escutar o que um torcicolo pode significar. Muito antes que o corpo comece a nos sabotar aos poucos. E ser capaz de enxergar esses detalhes nas pessoas que me importam. Entender, por exemplo, que aquela perna balançando é muito mais do que uma perna balançando.

Respirar, essa arte esquecida, é outro ponto crucial. Eu acreditava que quanto menos eu respirasse, mais rápido seria. Pode funcionar para os 50m livre. Passa a ser uma tática mortal para as distâncias maiores. A ligação é precisa quando pensamos em processos de trabalho. Já vi amigos perdendo o cabelo, outros com herpes, alguns com crise de ansiedade, pela ânsia vã de serem infalíveis. Por acharem que vão resolver tudo sozinhos. O ser humano falha e essa é uma das belezas que nos separa das máquinas, dos arrogantes. Respiro e valorizo cada segundo de descanso na borda, em casa.

Na piscina, pouco importa quem você é lá fora. De touca e óculos, fica difícil manter a pose. Treino hoje com uma galera que é faixa preta na arte de zoar o próximo. Pode ser milionário, condecorado, bajulado. Se chegar segundos atrás, vai ouvir. E acredite: isso torna todos ali mais humanos, menos intocáveis.

Regresso a esse tema e convido você a encontrar a sua piscina, seja ela qual for. Mergulhe sem medo. Olhe para a sombra no fundo, mas não tente alcançá-la. Deixe que ela há de encontrar um outro alguém que você não vê há tempos. Um você mais inteiro, mais verdadeiro.

GOPR0058_1024

Anúncios