Uma carta para o Mauro, um telegrama para o Eduardo

Meu caro Mauro,

uma mensagem de voz pelo WhatsApp talvez resolvesse, quiçá um antigo SMS, mas era muita coisa nessa caixola, caraminholas remexidas pelo seu último artigo, sobre a Menina da Vale. Em seu ótimo texto, você toca nas feridas, trabalha o acontecimento com cuidado e ainda indica uma saída esperançosa. Só que tem uma passagem que me levou a um questionamento:

“Nos dias de hoje, as pessoas não compram você pelo que você vende de você mesmo, mas sim pelo que você faz e entrega. Aceitemos ou não, mas títulos, currículos e medalhas não têm mais valor como antigamente”.

Torço muito para que isso seja uma verdade a curto prazo, mas divido com você algumas dúvidas sobre os profissionais do auto-manifesto.

Outro dia quase engasguei com o café, veja você. Estava eu a ler um jornal quando descobri que assessora de casamento agora é chamada de wedding planner. Desde então, procuro diferenciar uma função da outra. Há alguma distinção? Ou é apenas uma vestimenta chique-estaile ? Anos atrás, dei de frente com um cargo mezzo pomposo, mezzo bobo, algo ao estilo de “ninja of concept”. Por acaso, tive a chance de perguntar ao diretor do setor, o motivo dele deixar um funcionário usar aquela nomenclatura. E o diretor, sem titubear, respondeu: porque ele acredita.

Não sou contra anglicismos e descobri que lá nos Estados Unidos, há quem também questione essas invencionices. Fiz uma mistureba de coisas que achei para exemplificar como é possível complicar sem aprofundar: só um Paradigm Breaker com uma paixão por resolver problemas pode encontrar essa saída. Vamos focar em um modus-operandi indelével para colaborativamente criarmos uma estratégia que funcione como um trigger que mais que uma fagulha, é um questionamento da semiótica por trás da marca. Nesse cenário, um Head of Future Trends, adapta-se conectando os pontos ainda inexistentes entre demanda e o que está a se formar. Juro, não entendi nada. Mas se cabe outra confissão, na minha área, é comum pegar carona na ficha técnica e construir um personagem premiado. É aquele ditado: o sucesso tem vários pais, o fracasso é orfão.

Na série Cooked, o Michael Pollan diz-se impressionado com a capacidade que temos em complicar um churrasco. Carvão, fogo, carne e sal não são artigos de uma ciência complexa, nem de uma arte intocável. Uso esse paralelo nos perfis rebuscados do Linkedin e funciona.

Nesse universo da inflada molecular de currículos, ainda há pouco Ferran Adriá para muita espuma. Percebo que na ânsia de gerar caldo, o pessoal confunde complexidade da comunicação com complicação. Revelo, pois, uma pequena mania quando vou a restaurantes. Digamos que seja um italiano. Na primeira visita, eu peço invariavelmente uma receita clássica. Um molho ao sugo, um pesto, um carbonara. Porque se o cara errar o básico, não vai ser o cogumelo selvagem com alcachofra que vai salvar.

Mauro, estou na torcida para que as suas palavras sejam mais certeiras que as minhas cismas. O seu texto carrega uma esperança de que há uma mudança em curso e é nela que me apego. Afinal, ninjas e complicadores costumam sumir na fumaça. Grande abraço.  ______________________________________

Caro Eduardo Tracanella,

a sua questão de 13 de maio de 2016, abre aspas, se o nosso mercado fosse um país, ele seria o país que a gente tanto sonha?, fecha aspas, continua a ecoar.

Saudações. A.K.

 

O artigo do MauroSegura:  http://www.meioemensagem.com.br/home/opiniao/2016/09/05/a-bel-pesce-em-cada-um-de-nos.html

O artigo do Eduardo Tracanella:

Cuspindo para cima

 

 

 

 

 

 

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5 pensamentos sobre “Uma carta para o Mauro, um telegrama para o Eduardo

  1. Sarah Westphal disse:

    A sua cisma também é minha. Tenho sempre a impressão de que as palavras estão desgastadas. Enquanto alguns preferem o lado “simples é ótimo”, vejo muita gente jogando purpurina no que é básico. Nas reuniões, eu vejo costumo perceber que a estratégia funciona. Que brilha, brilha, mas não vale muita coisa.
    Um beijo e obrigada pelo texto.

    • andrekassu disse:

      Quando algum nova palavra surge, logo surgem os sábios e gurus dessa tendência. Em geral, poucos desses sabem realmente o que estão falando. São como paleterias. No fim, poucos se salvam. Mas esse jogo tem sido cada vez mais constante, com especialistas de temas que mal entendem o todo. É a era dos complicadores, como cravou um articulista americano. Para cada simplificador, 10 complicadores. Mas uma hora as máscaras começam a cair.
      Beijo

  2. Gustavo Franklin disse:

    Verdadeiro como sempre!

    Abraço.

    >

  3. Fico pensando, como “parecer ser” pode ser tão satisfatório e extasiante pra alguém?

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