Retidão não aceita desaforo

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Não sou metódico o suficiente para carregar um caderno e ir anotando as coisas ao longo do tempo, nem desorganizado o bastante para perder o que eu acho interessante. Entre post-its opacos, fotos de livros, artigos, links bookmarqueados e notas arquivadas no celular, invariavelmente, sou impactado por algo que julgava esquecido. No dia 3 de Abril de 2014, registrei um debate entre John Hegarty, David Droga e Dave Trott em torno da coragem na publicidade. Resgato desse fantástico encontro, algumas frases:

“Agências não tomam grandes decisões, elas fazem recomendações. Quando falamos sobre agências serem corajosas, não somos, os clientes é que são.” Sir John Hegarty.

 “Coragem é colocar as suas crenças acima do instinto de auto-preservação.” David Droga.

 “Coragem é levar o negócio (da agência e do cliente) para lugares perigosos por uma boa razão”. Esta, infelizmente, sem o autor confirmando a ausência de método por essas bandas de cá.

 Já no dia 11 de setembro de 2016, de uma rara conversa com Isay Weinfeld no Festival do Clube, reservei com cuidado uns muitos aprendizados. Entre tantas coisas, Isay falou sobre a relação de confiança que precisa ser estabelecida com o cliente e o quanto ele preza por cada detalhe:

“Às vezes se esquece que a obra é para quem pediu, não para você. Eu não projeto para mim, projeto para o outro.”

“95% do meu trabalho é psicanálise. Os outros 5% são sobre pensar em tudo o que foi dito”.

Em 2002, sem mês específico, anotei em um arquivo de Word sobre a recusa de um tatuador. Segue o evento reescrito com tintas de hoje: Certo dia, na hora do almoço, adentrei em um estúdio de tatuagem com um colega de trabalho. Eu sabia exatamente o que queria, ele não. O tatuador pediu para que cada um descrevesse o que gostaria de fazer e, em seguida, observou calmamente os desenhos já existentes nos corpos daqueles estranhos. Por um tempo, ele pareceu absorto, distante e, enfim, deu o seu parecer: tatuo você na semana que vem. Já para o cidadão ao meu lado, ele não hesitou: não vou tatuar você. O meu amigo inflamou-se de raiva, tentou encontrar uma resposta para aquela sentença. No afã, acabou dando uma carteirada: mas eu vou pagar. E o profissional já calejado por anos de estúdio, retrucou: um trabalho que eu não acho coerente dói mais em mim do que em você, prefiro não fazer.

Distantes no tempo e nos arquivos, enxergo nesses eventos pontos que se conectam em uma espinha dorsal. Na frase de John Hegarty há uma desconstrução inusitada e verdadeira. Coragem no Keynote, todo mundo tem, mas na hora de pagar a conta, a decisão é de um lado. Respinga em todos? Respinga, mas a tinta pesa mais para o cliente. É uma reflexão que nos ajuda a rebalancear o ego. David Droga abre o leque da bravura e inclui as duas partes. É necessário, sim, enfrentar esse instinto que pode ser o do bônus garantido no fim do ano, da cadeira confortável e do salário alto, dos vícios em apostar nos mesmos formatos, nas fórmulas que deram certo para o concorrente. Coragem é sobre andar por caminhos não trilhados lembra o anônimo que estava lá e eu não anotei.

Do quase silencioso Isay, retiro a observação sobre ficar atento para que o ego de quem faz não se sobressaia ao trabalho pedido. Não criamos para nós mesmos, não somos nós que habitaremos aquele ambiente, que vestiremos aquela campanha. A boa relação parte do entendimento verdadeiro sobre o outro, do que ele precisa e carrega junto à possibilidade do não.

Do tatuador, o rigor que sublinha a importância de manter a coerência sobre aquilo que você acredita ferir os seus princípios. Não é seguir a corrente, usar uma ética descartável, pegar todo e qualquer trabalho visando apenas faturar. Das anotações, percebo que retidão também não aceita desaforo.

 

 

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2 pensamentos sobre “Retidão não aceita desaforo

  1. gprujansky disse:

    Isso vai ao encontro de como imagino que as novas ‘agências devam ser. Não basta mais apenas empatia com os problemas do cliente. Tem que fazer destes problemas seus também. A ‘nova agência’ não é apenas uma contratada, é praticamente sócia, pelo menos naquela campanha do momento, naquela iteração, até que um ciclo, uma espiral – crescente de preferência, se feche. Empatia fica na área do emocional, mas é preciso mais, é preciso uma simbiose no business, entender intrinsecamente o negócio do cliente. Deste jeito não há mais ‘eu e eles’, cliente e agência, não dá mais pra criar apenas pra ficar bonito ou ganhar prêmio, tem que ter resultado, pros dois lados, ou melhor pra um lado só, o nosso, da parceria.

    PS: O tatuador era o Tyes? =]

  2. Focado apenas no primeiro parágrafo, penso: não seria um certo caos na organização de anotações (algo que vivencio) um grito de liberdade que precede textos coesos, rs?

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