Pobre do diretor de marketing do Blade Runner

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Alguém seleciona o Harrison Ford já consagrado como Indiana Jones, reúne com o Ridley Scott após assombrar o mundo com Alien, um Rutger Hauer tinindo na ponta dos cascos (expressão de 1981 para ser compatível), a câmera apaixonada por cada segundo da Daryl Hannah em ação, uma direção de arte primorosa, uma trilha sonora enigmática e um roteiro intocável. Aí, digamos que você é o sortudo produtor que terá o árduo trabalho de aprovar essa ideia. Moleza, você pensa. É só ficar esperando o dinheiro entrar e vislumbrar aquele lindo bônus ao fim da jornada. Acontece que “Blade Runner” foi um fiasco de bilheteria. O espectador só veio a descobrir para valer essa maravilha do cinema no VHS e, em seguida, no DVD. Toda aura em torno do caçador de replicantes Rick Deckard levou um vagaroso tempo para ser construída. Parte dela teve que ser modelada em um primeiro ano de fracasso e não entendimento do público.

“O Grande Lebowski”, dos irmãos Coen, é outro clássico que sofreu por 6 semanas em cartaz e naufragou. Hoje, o filme é objeto de adoração mundo afora, já foi interpretado em inúmeras teses acadêmicas, inspirou fantasias de Halloween, livros, virou uma “religião” (aspas para reforçar que é ironia), o Dudeism. Há 15 anos, o Lebowski Fest celebra o filme com os seus mantras, drinques e fãs. É difícil imaginar a marca Irmãos Coen sem o Dude, palavra de quem tem um boneco do Lebowski na sala de casa.

Sabe o “Clube da Luta”? O cultuado filme do David Fincher? Outro fracasso. Custou US$ 63 milhões e arrecadou US$ 37 milhões. Já fez as contas do ROI desse ano, né? Uma tragédia completa. A audiência só apareceu na venda do DVD em uma curva não muito acelerada, mas suficiente para levantar mais de US$ 100 milhões em vendas e consolidar o filme como inovador, emblemático e tantos outros adjetivos.

“A Fantástica Fábrica de Chocolate”, versão original: fuén, fuén, fuén. Se hoje ele é um clássico é porque a reprise na TV o fez assim. Aos poucos, as pessoas foram digerindo aquela linguagem, a punição das crianças. “Um Sonho de Liberdade” é mais um ícone dessa curva lenta de compreensão. Fiasco no cinema, sucesso na TV, na venda em VHS e locação. Nos dias de hoje, essa obra segura o número 1 na lista de avaliação dos usuários do IMDB.

Exemplos não faltam na música, nas artes plásticas, na literatura. O ser humano tende a rejeitar o novo. Muitas vezes, quando somos confrontados com algo diferente, nosso cérebro organiza uma reação de ansiedade e temor. Na época em que “Pulp Fiction” foi lançado, o conceito de um filme com histórias paralelas, idas e vindas, não era lá tão comum. Na minha sessão, um sujeito gritou: “não tô entendendo porra nenhuma”.

O tão falado disruptivo demanda um tempo de entendimento. E essa curva pode ser oposta à de ROI, o que não significa que ela não posssa tornar-se ascendente em algum momento. Há de se tomar cuidado com o excesso de euforia e certeza de que medir tudo a todo instante é um sinal claro e indubitável de sucesso. Os  discursos dos especialistas têm repetido um erro comum: para marcar um território, matam o outro. É o fim da subjetividade, antes todos criavam no faro, agora é tudo certeiro, os dados são mais importantes que a ideia. Vamos com calma, minha gente. Há que se coexistir.

O primeiro ano de um hipotético diretor de marketing de “Blade Runner” teria sido um pesadelo. Os dados seriam taxativos, a marca Ridley Scott estaria condenada. Já o que foi construído ao longo do tempo, incluso o tropeço inicial, tem um valor incalculável.

Informações que já conhecemos são mais facilmente assimiladas. Daí termos Velozes e Furiosos parte 8, Jason parte infinita e tantas fórmulas rentáveis. Ok. Mas vamos deixar um espaço para um Lebowski, um Willie Wonka. Mesmo que a curva diga não naquele segundo.

 

 

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Um pensamento sobre “Pobre do diretor de marketing do Blade Runner

  1. gprujansky disse:

    Perfeito ponto. Vejo muito isso em produtos digitais também. Vi vários produtos belíssimos morrerem porque as métricas não responderam a contento de imediato, ou no tempo exigido pelos stakeholders. Volta e meia ressuscitam em outra pele, outros donos, ou uma outra idéia remixada (pivotada?), mas no fundo a mesma ideia que morrera uma vez, por estar muito a frente do seu tempo. O inovador não tem que ter timing, mas sim, paciência e persevarança.
    Cheers.

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