Bote a mão no vinil

Aperto a tecla de rewind. Não existe onomatopéia para esse som. A cortina do box segurava as gotas de água do banho. Não importava o quão forte o chuveiro fosse, a cortina tremulava, mas impedia o banheiro de ficar molhado. Eu não lembro que idade eu tinha, talvez 4 anos. É uma memória de quando o meu HD ainda estava vazio e, mesmo hoje, ainda consigo acessar essa imagem. Eu ficava olhando aquilo encantado. Até que veio o rompante: se ela segura a água em gotas, como se comportaria com um baldinho de praia cheio. Acumulei a água e já me sentindo o descobridor dos sete mares, tirei a prova real. Óbvio que a cortina não segurou, o chão ficou encharcado e eu apaguei um possível castigo da lembrança. Na infância, fui soterrado por um armário em meio a uma escalada, coloquei fogo na banheira, parei em uma emergência oftalmológica por escavar embaixo de um sofá, fiz guerra de água-viva e caroço de pitomba empanado na areia. Por sorte, encontrei os livros, a música, as ondas e as redações na escola para extravasar de forma menos inconsequente, essa curiosidade.

Continuo no rewind até me ver inserido na série Hip-Hop Evolution da Netflix. Ao meu lado, o mito Grandmaster Flash. Ao redor, centenas de bolachas de vinis. Entre nós, uma história sobre quando os tabus são quebrados sem que você precise ficar de castigo.

Houve um tempo em que tocar no meio do disco era proibido. O mito era que ao fazer isso, o disco estragaria, a agulha padeceria com a proximidade daqueles dedos. Não encostarás jamais no centro de um vinil girando na vitrola, era o que estava gravado na pedra fundamental ou escrito com caneta para retroprojetor na contracapa primordial. E assim todos seguiam sem questionar.

No primeiro episódio da série, descobrimos que a mixagem naquela época era feita de duas maneiras bem distintas. Nas rádios, o volume de uma canção diminuía para que a outra começasse. Era uma troca simples, ainda que mágica para o ouvinte. E aí surge o DJ Kool Herc e quebra tudo. Seu estilo de mixar muda o foco da música como um todo para a parte mais suingada, o break, onde o baixo e a bateria ditavam o ritmo. Com duas cópias de um mesmo disco, ou com vinis diferentes,  Kool Herc era capaz de estender a música infinitamente com uma batida nunca antes ouvida. Assim, ele inicia a cultura hip-hop.

Grandmaster Flash, um inquieto por natureza, resolve ir adiante. As questões que ele lança parecem óbvias quando olhamos hoje, mas soam como sacrilégio se localizadas na época. Se as chances de colocar a agulha no lugar certo eram pequenas, porque focar na agulha? Como deixar de ser um adivinho? E no momento mais emocionante da série, ele explica: “Depois de tentar muitas coisas diferentes, eu coloquei os dedos no vinil. Soltei, parei, soltei, parei. Eu sabia que tinha controle absoluto do disco.”  Munido de um giz de cera, Flash caminha para queimar no inferno dos paradigmas e faz um risco circular no disco para marcar o início do beat escolhido. E faz uma linha que ajude a contar as voltas dadas até o fim da seleção. O vinil gira, ele faz a contagem, freia com a mão e gira ao contrário. Com esse advento, o trecho passa a ter início e fim certeiros. E a música nunca mais foi a mesma.

Ao não seguir o estatuto do condomínio musical, Grandmaster Flash muda a equação e Nelson George sintetiza a conquista: “A ideia de que a tecnologia não era só para tocar o disco. Eu posso tocar a tecnologia”. E esse é o ponto central para discos ou marcas. Quem mixa ainda são as pessoas.

Criatividade é hackear o sistema. Se é proibido, questione. Se parece uma tábua com mandamentos, rasure. O ponto de virada acontece quando tabus são ignorados. O cofundador da Netflix, Mitch Lowe, revelou que no início da companhia todo mundo dizia que era uma ideia estúpida. Ou seja, uma das empresas que melhor utiliza o cruzamento de big data com criatividade começou desacreditada.

Eu fracassei jogando água na cortina do box. Algumas lampejos são apenas imbecis mesmo. Porém com a invenção do scratch, tive a alegria de girar Stairway to Heaven ao contrário na tentativa de escutar uma mensagem diabólica. A lição de Grandmaster Flash é que inovação nasce quando você bota a mão no vinil sem pedir licença, nem benção. Ainda que muita gente estranhe o silêncio da pausa, o tempo há de se encarregar de celebrar o momento da quebra. Tenha sempre na cabeça que histórias de pessoas que fizeram o apenas trivial não costumam render uma série. A evolução pertence aos inconformados, aos inquietos.

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3 pensamentos sobre “Bote a mão no vinil

  1. gprujansky disse:

    Rules are meant to be broken.
    Regras foram feitas pra serem quebradas. ❤

  2. Jorge Eduardo disse:

    André, o texto é incrível!
    Parabéns por conseguir expressar todas essas emoções de forma tão bela!

    Abraços!

  3. Ler esse texto foi como música para meus ouvidos.

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