Complexo não é difícil, simples não é simplório

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Das coisas subjetivas da vida, uma das que tentam sistematizar é o processo criativo. Cada qual tem o seu tão intrinsicamente construído ao longo dos anos, que eles se diferem como impressões digitais. Tamanho do corpo de letra, tipologia escolhida, caneta em vez de teclas, organização, pequenas manias como morder o dedo ou arrumar os objetos em uma ordem supersticiosa, o prazer do caos, o alívio de ver tudo esquematizado, o vazio desolador na mente como propulsão, necessidade de escapar do ambiente, pequenos escritos guardados, repetição, exaustão, busca do silêncio completo, abrir um livro, esquecer o mundo, olhar para o mundo. O ato de criar dificilmente permite uma cópia por inteiro. Porque sabemos em algum recanto que aquele jeito de fazer não nos pertence.

Formado em Ciência da Computação, Ted Chiang tem o seu cargo definido pela estranha alcunha de “redator técnico de informática”. Nas palavras do próprio, o seu trabalho consiste em transformar material absurdamente técnico em material meramente técnico. Bom, mas isso é o que ele faz na Microsoft. Para um número crescente de leitores, ele tem um signicado mais profundo. É o autor de raros textos que, mesmo breves, renovam o gênero da ficção-científica. Um deles, o bonito História da sua vida inspirou o filme A Chegada, que se fez renovador na tela, também. O encarregado de adaptar a obra foi o roteirista Eric Heisserer, que em uma entrevista, deu o seguinte parecer:  “Ted consegue equilibrar uma ficção intelectual e complexa com sentimentos simples e mundanos”.

Se a ideia aqui fosse emular o processo de criação, essa seria uma pequena rota. Ted Chiang dispensa um enorme tempo dissertando sobre caminhos e fazendo anotações em torno do tema escolhido. A particularidade está no fato de que ele só começa a escrever quando chega à conclusão de como a história se encerra. O fim é o início. E uma vez sabendo o destino, ele começa a construir o enredo.

A proposta desse texto, porém, é outra. Enquanto estava a fuçar um tema para o artigo, encontrei essa frase do autor: “A linguagem científica é uma ponte para mergulhar de cabeça em sensações humanas,” Essa palavras combinadas têm um aspecto singular quando relembro a formação de Ted: ciência da computação. Busco as cenas de A Chegada e evitando o spoiler, confirmo que é da emoção humana que fala o filme. Da necessidade do diálogo, das escolhas que fazemos, da importância de tentar compreender o outro, mesmo que esse outro seja um heptápode. A ciência para Ted Chiang é a vestimenta perfeita para fazer questões filosóficas sobre nós. Em um trecho do livro, ele diz: “A liberdade não é uma ilusão: ela é perfeitamente real no contexto da consciência sequencial”. A matemática aqui está a serviço de um desejo humano.

Escrevo em meio aos posts sobre o SXSW (alguns bem bons). Escrevo sob o impacto de ler a palavra complexidade repetidas vezes. Não tenho receio da palavra em si, mas de como ela pode ser interpretada fora de contexto. A confusão entre complexidade e falar difícil tem sido uma tônica no nosso mercado. Há uma distância entre ouvir, assimilar e pôr em prática. Que cada um que lá esteve pense no objetivo concreto final para desenhar essas novas histórias. E que elas aconteçam de verdade.

Se me falassem na época do vestibular que um profissional das exatas teria como preocupação questões humanas, eu desacreditaria. O alerta redobra porque percebo que estamos colocando diversas camadas de complexidade ao redor das ideias. Volto-me a Ted Chiang. Quando um homem da informática crê que o desafio é transformar material absurdamente técnico em material meramente técnico, é inevitável não pensar: não estamos transformando o simples (não o simplório) em material absurdamente complicado? Mesmo que no discurso?

 

 

 

 

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Um pensamento sobre “Complexo não é difícil, simples não é simplório

  1. Na minha opinião, sim, estamos. E arrisco um palpite. Roupagem versus essência. É milenar o desafio de “conhecer a ti mesmo”. Mas, em pleno avançados 2017, o viés mais fácil é nem pensarmos nisso. Talvez aí esteja o ponto de partida para complicarmos. Na tentativa de nos sentirmos plenos, buscamos impressionar os outros. O problema é que isso “funciona” só por um tempo. E tal qual como uma droga, exige dosagens cada vez maiores. Usando uma palavra da moda, disruptivo talvez seja olharmos para dentro de nós mesmos, a ponto de olharmos para o universo e percebermos que talvez ele seja simples. E, justamente por isso, quase que paradoxalmente, seja infinito.

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