Os profetas estão no jardim

Lá está o menino no jardim. O pequeno que sonhava ter um animal de estimação, que teve o seu pedido negado pela mãe e que cava a terra à procura de preencher o tempo. Que nessas aventuras solitárias e nas andanças pela floresta próxima de casa acaba por descobrir o fantástico mundo dos insetos e agora, ao invés de um, tem milhares de animais para chamar de seus. Lá está o menino fascinado com aquelas criaturinhas a sonhar com uma possível carreira de entomologista e já apelidado pelos amigos de Dr. Inseto. De tanto observar, começa a colecionar e assim como quem troca figurinhas no recreio da escola, o garoto faz seu escambo peculiar em busca dos bichos mais raros, os premiados.

Nem só de caça há de viver o menino. Ele cresce, migra para os quadrinhos, mais especificamente para os mangás e encontra proteção nos golpes de energia “espectrum” desferidos com os braços cruzados do Ultraman. Dali para o universo dos videogames é um salto e o pequeno faz do admirável mundo moderno a sua floresta de pesquisas. Agora cabe revelar o seu nome, afinal, seguir com sinônimos para menino não será uma tarefa fácil. Satoshi Tajiri é sua alcunha, Game Freak o seu superpoder. Uma fanzine criada com os amigos para abordar os jogos de arcade. De grampeada à impressa, de impressa à empresa, o jovem adulto Tajiri começa a pensar em desenvolver o seu próprio jogo. Até que ele se depara com duas crianças jogando Game Boy e como em um filme, ele é jogado de volta à infância. E se as pessoas pudessem ter aquela mesma sensação de capturar criaturas e se divertir ao mesmo tempo?

A Nintendo compra a ideia, Satoshi vira entomologista de suas próprias invenções. Ele e seu time criam particularidades, estatísticas de cada personagem por mais de cinco anos. O jogo é lançado sem nenhuma publicidade, até pela descrença que girava em torno da plataforma Game Boy. Do jardim do menino, nascia o fenômeno Pokémon. Que vira desenho animado, que vira produto e que vinte anos depois, levemente adormecido, acorda na figura de Pokémon Go.

Evitei escrever sobre Pokémon Go porque não sabia definir o que me incomodava na euforia inicial dos artigos. Por sorte, tenho um grande amigo que me presenteia com ideias quando menos espero. Acho que para que o meu espaço aqui continue, ele não as escreve. Com seu jeito quieto, Marco Monteiro soltou um: você acha que as pessoas sairiam na rua caçando produtos de uma marca por quanto tempo? Um dia? Elas saem para caçar uma história que aprenderam por duas décadas. Sem isso, o encanto duraria menos.

Pesquisei para descobrir que o homem que criou o Pokémon Go, John Hanke, também trabalhou duro por anos. Saltando de uma criação para outra até fundar a Niantic Labs onde ele desenvolve o Ingress, o primeiro jogo multiplayer online com base em geolocalização. Essa experiência é fundamental para chegar ao Pokémon Go. Não foi um lampejo. John Hanke precisava de mais alguns parágrafos que honrassem a sua biografia. Sinto pela falta de espaço, John.

Falo de Pokémon Go, talvez, porque tenha ficado perturbado ao me deparar com um profeta digital por essas bandas. E na sequência, com um futurólogo. Acho estranha a denominação, para não falar pretensiosa, boba. Pois bem. Essa perturbação me levou a procurar o cargo do Steve Jobs. E lá dizia: CEO. Depois, lembrei do Satoshi Tajiri e descobri que ele se dizia um mero designer de jogos eletrônicos. Logo eles, que poderiam se chamar até de Innovation Jedi.

Pokémon passou pela euforia em 1996 com o lançamento do primeiro jogo, estabeleceu vínculos emocionais, ultrapassou o tempo, encontrou outra empresa para juntar forças e renascer. Reduzir o sucesso dessa ideia aos dias de hoje, à tecnologia somente é uma injustiça com o menino Tajiri. Pois enquanto muitos teorizam, os verdadeiros profetas estão escrevendo o futuro lá fora no jardim.

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Um pensamento sobre “Os profetas estão no jardim

  1. Sandro disse:

    Muito bom, Kassu.

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