Plim-Plim. Mudamos a programação.

João está no recanto do quarto de um hotel, tentando encontrar a mais perfeita água morna no seu chuveiro. Gira a torneira quente para um lado, gira a fria para o outro, e nada. João fracassa, mas não desiste. Ele sabe que Guto está hospedado ali do seu ladinho e disca (estamos nos anos 70) para o amigo pedindo socorro:

  • Guto, venha cá me ajudar a chegar no ponto certo da água morna.
  • Água morna, João? Que porra é essa?
  • Eu não acho a mixagem da temperatura. E você mixa melhor do que ninguém.

E Guto vai, mixa, e João toma um banho morninho.

O João dessa passagem é o Gilberto. O Guto é o Graça Mello, e foi ele mesmo quem contou essa história e muitas outras no Festival do Clube de Criação para um auditório, pasmem, quase vazio. Sorte de quem estava lá e pôde desfrutar da memória prodigiosa de um cara que produziu mais 400 discos da MPB e que, não contente com esse feito, ainda cravou suas ideias no nosso cotidiano. Sabe a música de abertura do Fantástico? É dele. Sabe o plim-plim? Pois é. Na saída do papo, comprei um vinil do Luiz Melodia, Maravilhas Contemporâneas, e lá estava o nome do Guto.

Debates de festivais de propaganda têm um lado que lembra muito terapia em grupo. Cada um de nós deságua as frustrações, as reclamações, a nostalgia de um mercado que não existe mais. Na outra parcela dos painéis, temos especialistas que fazem a crônica de uma morte anunciada da nossa profissão, baseados, é claro, em uma especialidade que eles afirmam dominar. Comunicação é uma área curiosa. Um cara pode sair do absoluto zero para o patamar de guru sem ter que fazer nada para provar isso. Basta repetir e se autodenominar. Sendo assim, tenho procurado pelas conversas que me enriquecem criativamente e pelas pessoas que se levam menos a sério. Mudei a programação e isso vai ressoar nos textos (obrigado, Peu).

Guto Graça Mello tem uma conexão imediata com a minha infância e, imagino, com a de muitos de vocês, leitores. Ele foi responsável pela direção musical de Pirlimpimpim I e II, Plunct Plact Zuuum I e II, entre muitos outros programas que primavam pelo cuidado de cada canção. Relembrou? Benjor cantando Saci Pererê, Moraes caminhando pelo olho grande do menino, gente voando no lindo balão azul e o carimbador maluco do Raul Seixas. O que, de certa forma, confirma um gráfico que recebi pelo WhatsApp. Nele, há um comparativo sobre o uso de acordes ao longo das décadas e, especialmente, dos acordes incomuns. Pioramos. O risco está em desuso.

Sobre o plim-plim. Boni adentra a sala de Guto e manda: “Preciso de um som que diga que o programa começou. Que seja único.” E foi embora, deixando esse job tranquilo na mesa. Guto e Luiz Paulo Simas dedicam noites na busca do mítico efeito. E, nessa viagem, eles procuram por um som que tenha uma frequência possível de ser registrada a distância, mesmo em baixo volume. Mas como se testa isso? De carro, pelas ruas do Rio. Um coloca o gravador bem distante do outro e aperta o play. Se o outro não escuta, não está bom o suficiente. E, assim, crescemos jogando bola na rua e ouvindo aquele plim-plim em coro saindo das janelas.

Guto dissertou sobre o que faz um cara virar um fazedor de hits. Segundo ele, hit é, na maioria das vezes, um acidente de percurso que deu certo. E depois tenta-se provar que tudo aquilo foi pensado. O segredo daquela época, disse o produtor, era que eles brincavam de fazer música, brincavam de arriscar.

Para fechar, roubo de Felipe Turlão a anotação de uma frase que meus dedos não foram capazes de digitar: “É uma tendência da indústria arriscar menos e copiar alguma coisa. Busca-se sempre algo parecido com o que já faz sucesso. Vivemos na era da repetição, e espero que isso acabe. Que haja mais inventividade pela frente.” Guto Graça Mello estava falando de música, mas eu entendi como um recado para todos nós.

 

 

 

Um pensamento sobre “Plim-Plim. Mudamos a programação.

  1. Agradeço por ter nascido na metade da década de 60, curtindo a infância nos anos 70, a adolescência nos 80, a juventude nos 90 e tudo o que veio depois, até os dias de hoje. Um dos mix mais variados de cultura, entre todas as gerações.

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