A conversa que não houve

O momento que não veio a acontecer, aquilo que não foi dito, a pergunta guardada entres tantas curiosidades, o agradecimento que, na repetição do “deixa para depois”, virou escrita, e não fala. Na lista das conversas que programei, o não esperado chegou antes, roubando-me o chão, a chance de conhecer um dos subversivos da propaganda. Reside em uma pequena anotação, entre Regina e Poliana, entre Demian e Mano, um sucinto nome que muito me diz: Neil. A conversa que não houve se torna fantasia, sonho bom até, no diálogo tanto ensaiado.

No instante após a notícia de sua partida, vasculhei a internet porque lembrava de um trabalho mais aprofundado em torno de Neil Ferreira. Já adianto meu obrigado à Graça Craidy, sem a qual esse devaneio não seria possível. É no trabalho dela e nas frases pinçadas aqui e ali que encontro a voz que preenche estas linhas.

Nesse ensejo, eu deixaria o celular na mesa gravando e timidamente perguntaria:

– Neil, você, que criou campanhas que até hoje fazem parte da cultura popular, nunca quis ser dono. Por quê?

E, talvez, com uma certa irritação pela obviedade da questão, responderia que ele é o cara que não tem dono, que é mais gato de telhado do que de sofá. Que não seria escravizado por empresa alguma, nem mesmo a dele, deixando para cravar um título brilhante ao fim: “Eu não abri porque daí eu não vou ter pra quem pedir demissão.”

Um pouco mais à vontade, eu continuaria:

– Então, você não é dos que precisam ter?

Ele puxaria da infância e relembraria o pai, que ele chamou de poeta em entrevista. E diria que não gravou discussões sobre “ganhar a vida”, fazer, ter coisas. Preferiu gravar mais as tentativas de ser, de sonhar.

E orgulho, Neil, você tem? Ele falaria do Leão que virou verbete de dicionário, da inversão simples que pensou ao criar o baixinho da Kaiser (ninguém nunca tinha mostrado o ato de fazer xixi) e da influência da leitura de Monteiro Lobato, na sua vida e no ato de trazer emoção à morte de um orelhão. Aproveitaria, aqui, para emendar se ele alguma vez achou ter um dom, uma facilidade a mais. Sem pestanejar, ele diria, com uma simplicidade interiorana, que você precisa apenas acordar um pouco mais cedo do que os outros e dormir um pouco mais tarde.

Nessa conversa, não haveria como passar batido pelo anúncio que o Zaragoza criou: “Neilzinho querido, volte para casa, tudo está perdoado.” Juntos por esse minuto, endossaríamos que essa é, quiçá, a maior declaração de carinho entre parceiros dessa nossa profissão. Em uma provocação barata, eu levaria a prosa para o momento em que ele reuniu a criação e se demitiu da agência dizendo: “tive uma ideia maravilhosa, não volto mais aqui depois do almoço”. Para, em seguida, conectar com a sua frase “prêmio para mim é bom, para os outros é marmelada”. Caberia aqui uma risada sacana.

Seria uma tarde para voltar para casa como criança em dia de São Cosme e Damião. E, no silêncio da noite, eu leria o início de um texto que permanece atual: “Já era tempo de denunciá-los à nação. Olha as armas terríveis que eles têm nas mãos. São armas que podem abalar governos ou vender produtos. Com elas, esses homens são capazes de mudar a história de um país ou a história de um produto. Basta apertar um botão. De uma máquina fotográfica. Uma câmera de cinema. Um aparelho de TV. A tecla de uma máquina de escrever. Eles usam essas armas para gerar insatisfações, criar descontentamentos, acender desejos”

Lembraria, então, que deveria ter encerrado a conversa com uma indagação:

– Neil, de tudo o que você viu, qual a lição que você acredita sobreviver ao tempo?

E ele replicaria que ninguém é subversivo sem correr um grande risco. Eu, em vão, tentaria disfarçar a emoção. E diria um obrigado engasgado. Como esse que aqui escrevo.

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2 pensamentos sobre “A conversa que não houve

  1. José Armando Nogueira disse:

    Kassu, amei seu texto. Como amei os poucos meses em que convivi com Neil, na chamada, Alcântara Machado. Não só com ele, mas com a galera dos subversivos. E aqueles que ficaram na agência onde eu estagiava à época, ao lado de Joaquim Gustavo (Deus o tenha, quem sabe junto a Neil, Zaragoza, Petit, e outros geniais que partiram tão cedo). Queria só lembrar de uma coisa bem popular, que também ficou na cultura publicitária como desses achados no saquinho de simplicidade da cabeça dos bem dotados de alma do povo. Os jovens de hoje, talvez, nem imaginam um telefone público que funcionava como essas máquinas de porta-moedas. Então, Neil criou o cartaz que dava mais asas à expressão popularíssima da época: Mete Ficha. Que significava vá em frente, manda vê, ou algo por aí. Com a diferença que a metade da expressão era a moedinha mágica, a ficha que era engolida pela máquina para liberar a linha telefônica. Mete Ficha. Bom demais, não é?

  2. Marcelo Lima disse:

    Ótimo texto! Grande Neil!

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