O ego, ele e eu

Éramos apenas nós três naquele canto do restaurante: o ego dele, ele e eu. A leitura corporal, na aproximação às cadeiras, me diz que eles escolheram os lugares. Sento de costas para um enorme espelho que dá uma certa amplitude ao ambiente. Percebo que eles não focam em mim. Solto um pigarro que aprendi a fazer imitando um amigo e pergunto se posso ligar gravador. Ele faz que sim, o ego assente efusivo e espalha-se ocupando a mesa. Os dois ajeitam-se cuidadosamente. O garçom se aproxima, eles pedem um espumante (o mais caro), escolho uma água com gás e limão espremido, não sem antes pensar que o limão espremido deve ter aumentado o tempo dos pedidos desde que virou moda. O ego fica ressentido por não ser reconhecido pelo rapaz, ele sugere silêncio, o ego solta um comentário mastigado, algo como “que lástima essa juventude que não reconhece os grandes”. Aperto o play do aplicativo, e isso me traz a lembrança de que o som do minigravador da Casio era mais simbólico.

Agradeço pelo tempo deles, faço um preâmbulo elogioso, pensado para amolecer a carne, e eles se envaidecem. Ele era um cara legal, relembro, e, por isso, pergunto quando o ego começou a tomar conta da cena. Ele não consegue responder, é atropelado pela primeira de muitas explanações: “Ele não existiria como vocês o conhecem sem que algumas regras do superego tivessem sido rasgadas. Inibição? Preferimos exibição, exaltação, aquela pulsão primitiva escondidinha, o desejo pelo sucesso sem acompanhantes.”

Não olho para o ego durante segundos, isso cria um incômodo, é proposital. Volto meu olhar para aquele sujeito equilibrado que surgia nas primeiras entrevistas, quando ainda não era tão reconhecido. Questiono se ele não sente saudade daquela pessoa que foi. O superego, ressentido com a resposta anterior, interfere. Ouço uma voz quase inédita: “Sinto. Esse personagem tomou conta e ele tem um custo. Não distingo mais o que é amizade ou interesse, preciso de muito para ser feliz, perdi amigos por ficha técnica.” Quando o ego interrompe: “Papinho besta. Comi a sua empatia, lambi os dedos e você gostou dessa liberdade, das ausências repentinas de consciência sobre quem o cerca. Foi um trabalho de equipe que nos levou até esse patamar, não tente pular fora, jogando tudo na minha conta.”

Acalmo os ânimos com um novo ramalhete de elogios, chegam os espumantes e a água com gás, esqueci de pedir gelo. Já não sei por que vim, talvez o romantismo de acreditar que havia ali um resquício de simplicidade. E há. Ele puxa um fiapo da calça, com um leve olhar perdido. Lembro de ter visto esse tique ao rever suas primeiras entrevistas. É uma busca por segurança. Nem tudo ali é inabalável como ele faz crer ao falar. O discurso centrado no “eu” construiu camadas de máscaras, mas ele ainda está ali. Falo da sua infância no subúrbio, das ruas de paralelepípedo, do cinema que virou igreja evangélica, do sabor da bala Banda. Ele ressurge e o embate é inevitável. Ele diz pipa, o ego rebate voo de primeira classe. Ele fala pracinha, salada mista, e o ego contrapõe com cinco estrelas, camarote vip. Ele revive a sensação de raspar a massa de bolo crua, o ego enumera delícias mundo afora. Ele desiste cansado. O ego parece saciado, engano meu.

Eles degustam meu dissabor em uma sequência de “eu fiz”. Os garçons e eu viramos um teatro de bonecos. Por sorte, alguma conexão me trouxe uma canção do Luiz Melodia e agora batuco de leve, com os dedos na mesa, para marcar o tempo de “se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais”. Pago a conta, ficamos de pé, e eu finjo: “foi um prazer”. Eles dizem juntos: “entendemos que tenha sido”. Ao encontrar a rua, sento para olhar os pedestres e imaginar suas vidas. Teria sido mais interessante gastar o tempo aqui, reflito com uma certa trava de limão na boca.

 

2 pensamentos sobre “O ego, ele e eu

  1. Ricardo Mota Jurça disse:

    Caramba, que texto foda, me senti/me sinto assim sempre que falo com um antigo colega de profissão.

  2. Michelle Monteiro disse:

    Muito bom esse seu texto! Muito mesmo! 🙂

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