Vini e o chocolate escondido na gaveta.

Um dia a minha filha indagou: pai, eu nunca sei quando você está falando sério ou ironizando. A irmã respondeu: dessa vez era ironia. E eu falei: é um treino para a vida.

Corte abrupto de narrativa.

Eu e o Marcão conversamos com o Chuck Porter por telefone muito antes do começo da CP+B Brasil. Na ligação, o Chuck falou poucas coisas (como de costume). Entre elas: vamos seguir em frente; preciso de um business plan. Travamos. Como fazer um business plan?

Nesse momento da história, surge a figura do Vinicius Reis. Ou melhor: o Vini. Um amigo de longa data do Marcão que segundo consta nos alfarrábios publicitários tinha o apelido de presidente até quando era estagiário. Eu não o conhecia. O Vini arrumou o tal plano de negócios, voamos para Miami e a agência nasceu.

Vini era uma ponta, eu era a outra, Marcão no meio equilibrava as forças. A sociedade funcionava assim. Se fosse muito para o meu lado, caos. Se fosse muito para o lado do Vini, obsessão por detalhes. E a disputa acontecia. Quando  mais crica ele era, mais eu não seguia as regras. Quanto mais eu não seguia as regras, bem, você entendeu. Do jeito que estava sendo desenhado, tinha tudo para ganhar o prêmio de cabo de guerra mais estúpido do ano.

Marcão já cansado de fazer o papel de juiz, as duas pontas extenuadas, soltamos a corda. E começamos a nos entender. O que me leva a essa reflexão agora no aniversário da coisinha mais obsessiva do mundo, o Vini.

Em geral, fala-se muito dos caras da criação. E pouco dos caras de negócio. Serei sucinto aqui: sem o Vini, a gente estaria falido ou preso. Não havia outra hipótese. Ele é o cara que vai abrindo a picada na mata fechada, eu e o Marcão chegamos na sequência arrancando um erva daninha aqui e ali e tentando fazer os sinais para que as pessoas prefiram essa estrada. O trabalho dele é mais árduo que o nosso, acredite. Se não acredita, tente acompanhar um dia na agenda dele de ligações, anotações, pensamentos sobre como crescer e onde erramos. Um exemplo disso? Quando estávamos na obra da agência, ele pediu para a gente checar o que parecia errado. Com esforço, anotamos 27 falhas. Ele chegou em 154. E ainda provou que o teto do andar era levemente torto.

O Vini entende muito de criação. A gente aprendeu com ele a entender sobre o negócio. E a respeitar as decisões dele. Eu já começo a semana sabendo que vou ouvir um “trânsito do Morumbi tá foda”, “puta que pariu, sócios”, “que semana, hein?”, “Má, gatinha, depois te ligo”. Eu sei que ele não vai me ouvir na primeira vez e vai repetir o que eu falei como se fosse algo inédito logo depois. Que vai procurar erro de digitação em cada apresentação. Ele circula pelo mesmo assunto até ter certeza que não há nada equivocado. É o nosso João Gilberto cantando “O Pato” em looping, só que o gato não pula da janela nessa história.

No fim do ano passado, eu o chamei de tutor em um post. Muita gente viu ironia. Volto, então, às minhas filhas. Eu estava falando sério daquela vez. O Vini foi o meu treinador para uma vida de empresário para a qual eu não estava preparado. Até sapato ele me fez comprar. Nessa sociedade, só temo pelas comidas que deixamos na mesa. Toda a classe e estilo do nosso V.R., o Vila Romana Vinicius Reis, vai embora quando se trata de roubar um quitute. Feliz aniversário, Bibicius, Que a vida seja repleta de gavetas com chocolates escondidos.

 

 

6 pensamentos sobre “Vini e o chocolate escondido na gaveta.

  1. Ingrid disse:

    Affff que lindo!

  2. Oi Kassu, Conheci o Vini em Nova Yorque, antes de trabalharmos na AFRICA.
    Ele é exatamente essa pessoa q vc tão bem descreveu nesse teu brilhante texto, como já se tornou peculiar dos teus escritos. Parabéns por essa sociedade em que os sócios se respeitam, diferente da grande maioria, q preferia ver o sócio deitado… para sempre…

  3. Sandro disse:

    Bela homenagem, Kassu.
    Vini é fera. Adoro esse cara.
    Abraço

  4. Caraca, é praticamente uma declaração de amor. Lindo!

  5. Mel disse:

    Que texto bacana!! Adorei o Vini, parabéns!!

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