Salve Jorge

O chiado da cebola dourando na manteiga, o barulho da chuva batendo no asfalto em um dia quente, o apitinho do final do bocejo de um cachorro, o primeiro milho que estoura na pipoqueira, o timbre da guitarra do B.B. King, o som de uma onda quebrando em um dia de ressaca, o tom aveludado da voz da Ella Fitzgerald, o cantar dos passarinhos na primeira luz da manhã, aquele “tsssss” da cerveja sendo aberta na sexta fim do dia, o breve silêncio da torcida no segundo que precede o gol, o som da quietude que reside embaixo de uma árvore frondosa, a lembrança do sinal do recreio, a gaita e qualquer nota saindo da boca do Stevie Wonder, o estalo da agulha encostando no vinil, o saxofone que abre “What’s Going On”, o aviso de “ó o mate” nas praias do Rio, a água quando entra na panela do arroz, o riso quando vira gargalhada na boca de  um bebê, ouvir uma música ao acaso que relembra minhas filhas pequenas, o violão na introdução de “Menina mulher da pele preta”. Tudo isso faz parte do universo de sons que me trazem uma alegria instantânea. Uma alegria que invade sem pedir licença e assenta as coisas como aqueles flocos do globo de neve tocando o solo depois de uma sacolejada. 

De todos esses sons, destaco aqui o impacto espiritual que Jorge Ben Jor traz a cada vez que o escuto. Porque sempre parece haver nele uma revelação, uma camada que antes não compreendia em sua total dimensão e que, então, surge abrindo novos lugares. Foi o que aconteceu quando escutei o terceiro episódio do podcast Projeto Querino, da Rádio Novelo e do jornalista Tiago Rogero, um podcast fundamental para entender a história pouco contada sobre o Brasil e de como chegamos sem mudar muito no lamaçal dos dias de hoje. Contei sobre o episódio para o meu amigo Renan Valadares e ele abriu um outro portal. Um documentário de dez capítulos, em áudio, nomeado “Imbatível ao extremo: assim é Jorge Ben Jor!”. No meu universo musical, Jorge é uma espécie de deus. Faltavam-me, porém, palavras que me explicassem a amplitude da sabedoria que ele carrega. 

Jorge abriu um caminho completamente novo na música brasileira. Sem Jorge, uma boa parte do que ouvimos hoje talvez não existisse. Porque é ele que, desde o seu primeiro sucesso, cria uma dimensão nova em abordar ritmos e sonoridades. Armando Pittigliani, produtor musical do primeiro disco, relata que conheceu Jorge por recomendação de um amigo. A pedido de Armando, o menino tocou violão. Em segundos, Armando diz para ele parar de tocar e pede para trazerem um contrato. Nas palavras dele: “esse cara pode não cantar nada, mas esse violão vai ficar só comigo”. Só que, aí, Jorge cantou. E o que veio? O canto em iorubá: Oh, ariá-raió. Obá, Obá, Obá. Armando diz que se arrepia até hoje com a lembrança. “Mas que nada” foi lançada em 1963 e até hoje é difícil estabelecer uma definição para aquele ritmo. Parece bossa, parece samba, já tem sambalanço, tem batida de candomblé, evoca tambores no violão. Acho emblemático que na capa do disco tenham apagado  o banco onde Jorge estava sentado. E o que fica é a imagem de um homem que flutua com seu violão, como uma entidade que nunca se acomoda.

O professor e crítico cultural Acauam Oliveira diz no episódio do Projeto Querino, denominado “Chove Chuva”: “Essa ideia do Jorge Ben, idealizador de uma mitologia negra idealizada a partir do amor, e não da dor, pensado para fora do que o colonizador fez do nosso povo… É um horizonte de liberdade tão grande, é tão pensado para fora do que o racismo faz de nós, que o cara fez um disco sobre alquimia. Aquele disco é uma das experiências mais radicais em termos de liberdade temática.” O disco mencionado é o “A tábua de esmeralda”, um dos mais importantes da música brasileira. Muitas vezes, guardei comigo a impressão de que Jorge Ben Jor não é levado a sério por uma grande parte das pessoas. Já ouvi que o ritmo é fácil, que é musiquinha de festa, que as letras não fazem sentido. Entendo agora que desmerecer Jorge sob esses argumentos sempre teve uma camada de racismo que tenta dizer que aquela liberdade ali é algo menor. Melhor ficar com a impressão de Gilberto Gil, que, ao ouvir Jorge pela primeira vez, disse aos amigos: “Bom, agora eu acho que não preciso nem pensar mais em ficar fazendo música e coisas deste tipo, basta eu cantar Jorge Ben que já está legal”. Para Gil, Jorge elaborou um afrobrasileirismo tão decantado que gerou todas as novas correntes da música. Em 1975, os dois estiveram juntos em um exercício completo de liberdade criativa no antológico álbum “Gil e Jorge: Oxum, Xangô”. 

Jorge Ben Jor tem uma criatividade inclassificável. É difícil pensar como Jorge, compor como Jorge, compreender Jorge, tocar o violão de Jorge. Ele mesmo, um tímido e avesso às entrevistas, dá poucas pistas sobre os seus processos criativos. Achei um dossiê compilado pelo Marcelo Pinheiro e de lá puxo uma rara fala de Jorge: “(…) Meu trabalho é de raízes, mais para o popular. Quando faço uma canção, faço primeiro para mim, porque eu gosto de música, mas daí eu as testo em crianças. Se elas gostam é porque é boa mesmo. Eu quero é fazer um som que seja universal, mesmo sendo cantado em português”. Ele conseguiu. Discos de vinil do Jorge são desejados em todos os recantos do mundo. 

Há anos atrás, escrevi sobre uma vontade de morar no universo das canções de Jorge e da vontade de encontrar o homem da gravata florida para lhe pedir emprestado o seu relatório de harmonia de coisas belas. Era só um pedaço do que compreendia de Jorge. Ao escutar Acauam Oliveira dizer que Jorge canta perdoando as dores do mundo e que isso é de uma sabedoria ancestral absurda, penso que quando Jorge canta sobre torcer pela paz, pela alegria, pelo amor e pelas coisas úteis que se pode comprar com 10 cruzeiros, ele, tal e qual um ser elevado, torce para além dele, torce por todo um Brasil. Salve, Jorge!

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