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Um Gigante Gentil

A minha vida tem uma trilha Roberto e Erasmo. Mesmo que eu não quisesse, as canções seriam inevitáveis. Foi na coxia do palco que eu passei um belo pedaço da infância. Já tive um misto de tudo em relação a essas músicas. Ódio, amor, ternura, cansaço, tédio, carinho. Hoje, guardo o aprendizado de ter visto de perto, por tantas vezes, dois grandes homens da música popular brasileira.

Já escrevi sobre o Roberto, sobre o que a TV mal mostra. Muito se fala das suas idiossincrasias, pouco se fala sobre a grandeza de seus pequenos gestos. O Rei é, antes de tudo, um cavalheiro. Um homem que mesmo no altar por tanto tempo, não perdeu o tato com quem lhe colocou lá. Falar sobre o Roberto Carlos é tão magnético que percebo a injustiça que é esquecer o Erasmo nessa trajetória. E aqui serei absolutamente pessoal.

Minha mãe começou a trabalhar com o Roberto quando eu tinha 5 anos de idade. Volto para aquele menino e olho para cima. A figura do Erasmo sempre me foi mais encantadora. Ele tinha uma atitude completamente diferente dos pais dos amiguinhos da escola. Pulseira, jaqueta de couro, jeans, cabelos rebeldes e uma mania de falar “bicho” para tudo. E mais: não se dirigia às crianças na linguagem “tatibitate”. Ele falava como se fossemos um deles. Desconhecia na época, o apelido que tanto lhe define: Gigante Gentil. O mesmo que uso para falar com o amigo Camarotti. Para uma criança, gigante era uma bela definição sobre aquele ser que caminhava a passos largos e ego curto. Ele era uma festa de arromba em si só.

Agora, pense nas canções. Pense que houve um momento na música brasileira que era necessário mais do que repetir vogais nos refrãos para ter sucesso. Que as melodias podiam ser mais trabalhadas sem demérito de vendas. Roberto e Erasmo já sofreram todos os tipos de críticas ao longo do tempo. A música continua mais forte e atravessa gerações com a partitura blindada. Ela nos toca de alguma forma. Ouvir Roberto e Erasmo é entrar em contato com uma parte da nossa história. Podemos rejeitar, até. Argumentar que é brega, que relembra a tristeza do Natal, que remete a um tempo que já foi. Em tempos brutos, prefiro me apegar ao romantismo escancarado de “Detalhes” do que me render à precariedade sonora que nos ronda atualmente. Já fomos bem melhores em AM e FM.

Regresso aos caracóis do Erasmo. Relembro o afago que ele me deu na missa da minha mãe. Para em seguida, bater no seu peito, na altura do coração em mais um gesto típico de sua gentileza e capacidade de entrega. Erasmo tem um silêncio carinhoso. Repasso alguns momentos da infância com o Léo e o Gugu correndo pelos bastidores. O vascaíno e o quase zagueiro rubro-negro. Em comum, a verdadeira adoração pelo pai. Inevitável achar tudo o que ele passou recentemente injusto. Contra a ordem natural da vida. Eis que Erasmo me reserva outra lição com a frase: “meu filho gostaria que eu continuasse tocando”. E assim o fez. Eu buscando os porquês, ele seguindo em frente de peito aberto.

Erasmo volta aos palcos com a certeza de que a sua força está na música. Cercado de uma banda jovem, ele continua a figura menos badalada de uma dupla que tanto nos deu. É mais uma característica que me faz admirá-lo. Compor para Erasmo é como o ato de beber água para nós. É natural e ao mesmo tempo vital. Caminho pela discografia de Roberto para confirmar o que sentia: não haveria Rei sem o amigo de fé, o irmão camarada, o Tremendão.

Hoje, eu olho para o Erasmo com a mesma curiosidade de um menino de 5 anos. Aquela figura continua encantadora. E, agora, mais Gigante. Agradeço a sua música que me toca como uma oração, bato no peito e devolvo o afeto que sempre me deu. Um beijo, Erasmo.

 

Ivone e Erasmo

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Sete noivas para sete aliens.

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Eu não lembro a idade ao certo. O trauma, porém, é inesquecível. Sei que tinha menos de 10 anos e, até por isso, ainda não havia entrado naquela fase de contrariar a minha mãe. Logo, o que ela falava era uma regra a ser seguida. Uma noite de sábado, uma TV de tubo, uma pipoca de panela não podiam formar um conjunto catastrófico, pensei. Minha mãe tinha crédito de sobra. Já havia me apresentado “A Dança dos Vampiros”,” O Destino do Poseidon”, “A Travessia de Cassandra” e os filmes do Jerry Lewis. Foi de coração aberto, portanto, que eu sentei para assistir “Sete Noivas para Sete Irmãos”. Minha vida nunca mais foi a mesma.

Em uma das cenas, lembro de um galpão de madeira sendo construído. E uma cantoria sem sentido. Havia também uma coreografia. A soma desses fatores resultou em um estresse pós-traumático nunca curado. Não aceito as acusações de preconceito. Em minha defesa, apresentarei provas de que tentei diversas vezes superar o ocorrido. Em vão. Quando o filme acabou, o quarto tinha diminuído. Os dedos dos pés estavam curvados para dentro como se o ambiente tivesse sido preenchido por um contínuo som de giz no quadro. Eu tinha acabado de descobrir como seria um bife de fígado se ele desse um roteiro. Com o agravante de que não podia jogar maionese em cima para disfarçar o gosto.

Meu segundo teste de sobrevivência veio com “A Noviça Rebelde”. Em sinal de respeito à Dona Ivone, eu fui até o fim. Minha unhas arrancaram uns quatro tacos de madeira do chão. Sabe aquela cena em que a moça roda em um campo com os braços abertos? Minha mente fez o mesmo me levando a um estado de labirintite. Tive vontade era encher a cara com Biotônico Fontoura. Por que diabos era tão difícil falar? Por que eles cantam, meu Senhor? E tome chicotada nos tímpanos em punição.

Dali em diante, segui uma via-crúcis por todos os filmes do gênero. Gente sapateando, dançando na parede, cantando e dançando, dançando e sapateando. Tentei de todos os jeitos e de todas as cores. Até que um deles foi capaz de me trazer alívio. Tal e qual um sujeito que soluça por 3 anos, tive aquele pequeno prazer de 2 horas de calmaria. “Cantando na Chuva” era o ponto alto de uma montanha-russa que só me jogava para baixo. E foi só. O soluço voltou mais forte.

Os anos passaram e eu passei culpar a imbecilidade da adolescência pelo afastamento completo dos musicais. Minha mãe estava isenta. O problema é que essas experiências da infância podem marcar para sempre como viria a descobrir tardiamente. Todo brasileiro que se preza quando vai para a Nova York tem que comprar um Nike Shox, camisetas Abercrombie e, claro, ingressos para musicais. Eu sou de uma geração toda trabalhada na camiseta do “Cats”. Ora, tinha que ver isso algum dia. Sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor! Eu e minha mulher resolvemos embarcar numa sessão de “O Fantasma da Ópera”. Foi como deitar no colo de Morfeu embalado por Stilnox. Satisfeitos? Não. Tentamos nos manter acordados em “Rent” e fracassamos abraçados. A baba no ombro era o caro resquício de uma noite bem dormida.

Os musicais viraram uma febre no Brasil. Fico feliz pelo público. Pelos artistas que ganharam novos palcos. Pela cultura que parece ter mais espaço na rotina do brasileiro mesmo que por preços surreais. Nessa onda, vi o musical do Tim Maia e me emocionei. Finalmente, a cantoria fez algum sentido. Ainda assim não me dobro. O trauma é grande. Quando um ator começa a cantar, sinto que sou levado direto para o apartamento de Copacabana. Repasso aquela sensação que continua viva e recordo uma pequena vingança. Um tempo depois, eu pedi para a minha mãe me levar para assistir “Aliens, o Resgate”. A cada golfada do alienígena, eu empatava o placar. Ela fingiu ter gostado, enquanto segurava o o embrulho no estômago. Saí com a certeza de que Aliens foi o seu musical. Estávamos, enfim, quites.

Tem do preto e tem do branco

Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante, você precisava conversar com um bom vendedor em uma excelente loja de discos para saber o que estava acontecendo no mundo da música. Era uma época inglória. A informação não circulava. Até a pornografia era difícil de ser alcançada. Na falta de acesso, qualquer fórum da Ele&Ela já alegrava. Uma Nádia Lippi trazia felicidade. Edições de carnaval eram disputadas a tapa. Hoje, tudo está à mão. A geração criada à base de melancia cortadinha e sem semente, de iogurte grego light e embalada pelo Redtube desconhece a dificuldade. Nasceu sabendo o que é download e fist fucking. São meninos que cresceram sem a densidade de uma Cláudia Ohana. Para eles, o caminho já está liso e depilado. Boa música pode ser descoberta em ridículos cliques.

Se antes um vendedor se fazia necessário, hoje precisamos de um bom fornecedor. O que me leva a uma lenda urbana carioca do traficante do asfalto que codificava as drogas como música. Nesse dialeto antiescuta, cocaína virava Hermeto Pascoal. Maconha era James Brown. O diálogo era mais ou menos assim:

– Aí, tô querendo aquele disco do Hermeto emprestado. Rola?

– Mermão, tu quer o compacto ou o LP todo?

– Manda o compacto para eu sacar o som. Tem James Brown?

– Tem, mas tá mirrado. Amanhã chega a coleção completa.

– Fechou. Escuta: por que Hermeto e não Sivuca?

– Sivuca é de injetar. É outra parada.

O bom fornecedor tem todos os sons na mão em alta qualidade. Separado por pastinhas e alinhado por estilos. Ele não mistura as coisas e conhece bem cada cliente. Em uma sociedade na qual todo mundo faz download, mas não admite, o fornecedor é um intermediário necessário entre a música e a sensação de consciência limpa. É a Lei Bill Clinton de ausência de culpa: eu baixo música, mas não trago.

Recentemente, eu perdi um fornecedor do bom. Por questões de segurança, não posso revelar o nome. Trata-se de um sujeito da mais alta estirpe, todo trabalhado na fofurice e no bom gosto musical. Um conhecedor, fuçador dos blogs gringos, um cara absolutamente generoso. O morro anunciava as drogas com fogos? Meu traficante dava tiros de comemoração pelo iChat. A janelinha piscava e eu sabia que tinha uma parada boa chegando. Lee Fields apareceu assim, de repente. Como quem não quer nada. Alabama Shakes, também. Ben Howard, que tem mais nome de jogador da NBA do que outra coisa, chegou embalado e avaliado. Quando eu viciava em um som, ele mudava para outro. Sabia tratar um cliente esse rapaz.

Um belo dia, ele resolveu partir. Foi para um morro distante. Na ânsia de não decepcionar os clientes, trocou as pastinhas por míseros links do YouTube. Não é a mesma coisa. Não dá a mesma onda. Os clientes fiéis caminham a esmo pelos corredores como mortos vivos da Cracolândia. Sem rumo, sem norte, sem fone. É desolador. Para quem um dia recebeu um Charles Bradley novinho, é difícil ter que controlar os tremores da abstinência com arquivos de baixa qualidade. Até o Arcade Fire novo ficou impossível.

Ninguém tomou a boca e encontrar boa música virou um martírio novamente. Saio batendo nas telas em volta. Vago pelo compartilhamento do iTunes. Até diria que flano, se flanar não fosse um verbo tão hipster. São tempos difíceis. O fornecedor deveria ter como obrigação deixar um sucessor legítimo. Eu até poderia recorrer a outros dois camaradas, mas eles andam tão ferrados de trabalho que não fazem mais download. Que mundo é esse, Senhor? Cadê o mp3 nosso de cada dia?

Lá se vão 4 meses sem um iChat animador. Não me venha com gifs e tumblrs. Não tente me enganar com álbum em stream da Norah Jones com o Billie Joe. Eu quero as minhas músicas da boa. Quero tudo destilado, filtrado e destrinchado. Virei um menino mimado. Este texto é um SOS para este ex-fornecedor desalmado. Tem gente estrebuchando no chão por sua culpa. Comprando gift card pelo eBay. Sabe lá o que é isso? Tenha dó. Dê algum jeito de estancar esse sofrimento ao meu redor. Volte os olhos para o seu rebanho abandonado. Sinto, mas você não me dá alternativa a não ser revelar a sua fraqueza. Para quem tem um produto de fazer inveja ao Walter White, Almeidinha é um nome nada intimidador.

Se dirigir, não escute música alta.

As campanhas de segurança no trânsito foram nos doutrinando com o passar do tempo. Nos anos 80, acredite, se você colocasse o cinto de segurança, o motorista diria: “Tá pensando que eu não sei dirigir?”. Olhando hoje parece espantoso, naquela época era comum. Aos poucos, a maioria da população aprendeu a importância de usar o cinto. Já tivemos campanhas para nos ensinar a atravessar na faixa, para reduzir a velocidade, para respeitar o pedestre. Atualmente, as mais comuns são as que reforçam o conceito de “se beber, não dirija” e as que pedem para não enviar SMS enquanto estiver dirigindo. Todas são fundamentais. Agora, sinto falta de uma em especial: se for ouvir música alta que, pelo menos, ela preste.

Parece um teorema. O volume da música é inversamente proporcional à qualidade dela. Você já deve ter vivido essa situação. O carango parado no sinal e você sente o vidro tremer. O banco parece uma daquelas tristes poltronas de massagem expostas no corredor do shopping. Tudo vibra. A sensação é a de que um T-Rex está se aproximando na dança do passinho. Até que você olha para o lado e vislumbra um sujeito de vidros abertos que sacoleja ao som de um funk proibidão. Os óculos na cabeça, a camiseta regata, essa marra que tu tem qualé e o indefectível orgulho. Repare no olhar das pessoas que ouvem música alta no trânsito. Vem carregado de uma certeza que só os deuses do semáforo têm.

A equação da música alta também pode ser descrita de uma outra forma. A soma de um braço para fora da janela com a potência da caixa de som é igual ao quadrado da imbecilidade. Eu tenho verdadeiro pavor de motoristas com braço para fora. Você avista um e pode começar a contar os segundos que ele vai demorar para fazer uma cagada. Motoristas com braço para fora não dão seta, acreditam que bater com a mão na lateral do carro ajuda a acelerar, travam cruzamentos, colam na traseira de ambulância, jogam guimba de cigarro na rua e, claro, ouvem música alta. De preferência, ruim.

O carro com o som tunado é uma invenção tenebrosa. Feita para aterrorizar transeuntes inocentes. Pancadão, gravão, subwoofer com cone emborrachado. Até os nomes das aparelhagens assustam. O sujeito gasta uma fortuna, calcula a potência dos amplificadores e depois divide pela tensão das baterias e fontes. Faz toda uma engenharia cara e de resultado estético duvidoso para no fim tocar o que mesmo? Aqueles estilos sobre os quais já escrevi: os que terminam em “ejo” ou “universitário”.

Não me recordo de ter visto um carro passando com Chico Buarque a todo volume. Nunca vi uma disputa de som em posto de gasolina com John Lee Hooker explodindo nas caixas. Nem fui acordado na madrugada por um modelo rebaixado tocando Stan Getz com João Gilberto. Jamais fui sacudido no sinal pelo Jack White que toca no tunado ao lado. Não imagino a possibilidade de um automóvel acordar a vizinhança com um som da Motown. Muito menos com Miles Davis. Carros com música alta só tocam “The worst of”. E costumam ter uma buzina com ideia. A do grito do Tarzan sai bastante.

O carro com som no talo é a consagração da falta de educação. O ápice da ostentação da breguice. O suprassumo do mau gosto musical. Em um mundo em que tudo se compartilha, o sujeito sai de casa com a crença de que todos querem ouvir a sua música. Ele espera pelos dedões de like da vida real. Ele anseia por mãos formando um coraçãozinho. Ele quer a sua inveja, mano. E cuidado: ele manda beijo na sua alma.

Nos meus piores pesadelos, eu me imagino preso em um carro desses. Os tapetes imitando chão de ônibus, o painel neon com tons psicodélicos e um medley com o melhor do Gusttavo Lima tocando em looping. Eu vou batendo nas janelas e gritando pela cidade: esse carro não é meu! Esse carro não é meu! E o motorista de cabelo descolorido, com o braço para fora da janela, pede: dá para falar mais baixo que eu tô querendo curtir meu som numa boa? Sinceramente, era só o que me faltava. Tomar um esporro do Belo.

O meu lado Delei.

Quando eu era um pivete de Copacabana, tinha um jogador no Fluminense chamado Delei. Era uma época áurea do trocadilho carioca. Da piada popular. “You talk too much”, canção épica do Run DMC, virou Melô do Taca Tomate. Uma bonita música de Natal era conhecida como Melô do Sexo Anal, porque dizia “quero ver você não chorar, não olhar pra trás”. Não havia espaço para o politicamente correto. O Didi fumava e chamava o Mussum de grande pássaro. Valia tudo. O menor aluno da minha sala carregava o apelido de “estuprador de Fofolete”. Sem processo, sem medo, sem censura. Eram tempos diferentes. Eu estava no meio de uma geração inteira que cantou “tocando de biquíni sem parar” quando o certo era B.B. King. E nesse momento, Delei virou sinônimo de atrasado. Delei=delay, sacou?

De uma certa forma, eu me considero um Delei da música. Eu chego atrasado muitas vezes. Por birra, pirraça ou por ignorância mesmo. Para manter uma opinião polêmica, posso evitar uma determinada banda por anos. Aconteceu algumas vezes. Acredito até que tenho melhorado com a idade. Consigo admitir o erro em intervalos mais curtos. Recentemente, eu tomei um asco do Daft Punk sem nem ouvir o álbum novo. A profusão de “gênio” nas redes sociais era tamanha que, como um menino que recusa cebola sem provar, eu não ouvi. E não gostei. Vociferei contra, aqui e ali. E eis que o caboclo Nile Rodgers me pegou desprevenido. O pé começou a bater no chão, o dedo a tamborilar, senti uma energia estranha. Os tambores do terreiro uniram-se ao verso “I’ll just keep playing back, these fragments of time…”. Cantei para subir.

É uma evolução. Eu evitei os Beatles por anos e anos. Razão? Reafirmar a minha crença de que os Stones eram melhores. Uma bobagem como descobri tempos depois. É uma daquelas discussões infrutíferas. Onde os lados não costumam ceder. Típico assunto que surge em mesa de bar depois de algumas tantas cervejas. Aquela hora em que as pessoas começam a disputar questões existenciais do naipe de: você prefere cachorro ou gato? Frankenstein Jr. ou Johnny Quest? PSOL ou PSB? Scheila Carvalho ou Sheila Mello? Eu disputava e ainda disputo algumas. Quando tomei vergonha na cara e parei de comparar, descobri toda a plenitude dos Beatles. Acabei me sentindo um energúmeno, um jegue-jumbo, uma ameba. Toda a coleção de adjetivos da saudosa quinta série.

Ser um Delei é descobrir o Chico Science depois que ele morreu. Só que tendo que perder um show para isso. É ter que passar uns 2 anos negando a existência do Nirvana para descobrir o que eles significavam em um show na Apoteose. É passar anos sem ouvir bossa-nova, porque não pegava bem gostar dela na galera que eu andava. É ouvir Portishead quando a onda depressiva já tinha passado. É dizer que não gosta de heavy metal e colocar todas as bandas do estilo no mesmo saco. E, por isso, ouvir Black Sabbath com um atraso considerável. É ter como princípio negar tudo que é hype. É não ouvir a banda da semana por desacreditar em bandas da semana. É pau, é pedra, é o fim do caminho da aceitação.

Um verdadeiro Delei não escuta uma banda quando as seguintes frases são proferidas: “você tem que ouvir isso!”. “Você vai rever os seus conceitos quando ouvir isso!”. “O NME diz que você precisa ouvir isso!”. “O mundo está ouvindo isso!”. Por princípio, o Delei-moleque, o Delei-arte nega tudo que venha com exclamações. Nesse momento, as capas de proteção entram em modo on. E pronto: ele não vai ouvir justamente porque indicaram. Eu falo porque fui um mestre nessa arte. No kung fu musical, eu seria o especialista nos movimentos da anta. Da mula. Do empacado.

A idade trouxe um tico de tolerância. Um pouco de nada. O suficiente para me arrepender de algumas tontices. Música é coisa séria. Ainda hoje, tento não ver o iPod dos amigos para não me decepcionar. Fico sentido quando descubro que uma pessoa de que eu gosto ouve sertanejo universitário. Tenho uma certa ânsia quando alguém defende, mesmo que na mesa ao lado, a originalidade do Sambô. Recuso as certezas dos indie-cabelinhos.

Um Delei convive com o vício do pré-julgamento. Ele só aprende a disfarçar ou a dosar. Na dúvida, é melhor colocar um fone e evitar a discussão. Um Delei erra muitas vezes. E acerta outras tantas (obrigado, Sade). É um projeto de polemista.

Eu admito a minha porção Delei. É o meu lado atrasado. Não à toa, tem o nome de um ex-jogador do Fluminense.

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Na Missa de St. Jagger e St. Keith.

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Eu não sou ateu. Nem sigo completamente em uma religião. Fico em cima do muro. Posso até marcar uma posição polêmica em uma mesa de bar pelo prazer de provocar gratuitamente. Só que na dúvida, eu sou daqueles que se benzem antes de entrar no mar. Uma incoerência ambulante. Eu sou o que o Millôr Fernandes definiu em uma frase: “O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde.”

Eu creio que a minha mãe está em uma lugar melhor. Por que?  Porque ela acreditava muito nisso. Ela passeou por diversas crenças. Achava que uma proteção a mais só lhe faria bem. Eu costumava brincar que ela tinha um molho de chaves para chegar no céu. Se ela encontrasse o Deus Polinésio, ela adentraria ainda assim. Acontece que nos últimos anos, a fé da minha mãe ficou mais fervorosa do que nunca. E essencialmente católica. Todas as chaves viraram uma. Essa única chave, a crença dela, é o que me faz pender para um lado do muro.

No dia 13 de julho, foi aniversário dela. Eu estava de férias. Poderia ter ido a uma igreja e rezado. Poderia ter feito uma oração logo cedo, na beira da cama. O destino trilhou algo diferente para uma homenagem. Já escrevi sobre isso aqui. Minha mãe foi uma das maiores assessoras de imprensa desse país. Ela praticamente solidificou essa profissão, quando o nome era outro: divulgadora. Desde que me entendo por gente, ela trabalhou com cultura. Bastidores de palco foram o meu esconderijo. Coxias de teatro, o meu berço. Portas de evento, a minha sala de espera. Um show do Rolling Stones no Hyde Park, no dia 13 de julho, não poderia ser uma coincidência. Era uma missa a ser realizada.

Se me perguntarem quando me sinto próximo a Deus, eu diria: com a música. É o meu mantra, minha reza, meu altar. Tenho a mais profunda fé no conforto que as notas certas podem trazer. Gosto de imaginar um Deus com a voz do Marvin Gaye. Cercado dos arcanjos Hendrix, Stevie Ray Vaughan e Freddie King. Uma heresia, alguns dirão. É a minha visão de paraíso, respondo. Esse é o meu jeito de exercer a fé. De crer na existência de algo superior.  Caminhar para o show dos Stones foi, portanto, como ir ao encontro da minha mãe. Ela era feita de música.

O destino queria mais. Minha pequena Ju nunca tinha ido a um grande show. O que era missa virou também um batizado. Um novo rito de passagem. Pisamos juntos no gramado do Hyde Park. Olhamos em volta. Eram muitos os fiéis. O inusitado sol de 36 graus em Londres parecia confirmar que o Rio de Janeiro, que minha mãe tanto gostava, havia mudado de lugar. Os gritos e aplausos são o nosso sino. A missa vai começar.

Mick Jagger nos conduz com o cântico “Start me up”. O fato de Keith Richards ainda estar vivo é um milagre. Tudo conspira para que a minha fé fique fortalecida. Naquele espaço de tempo, eu olhava o passado e silenciosamente dizia mais um adeus. A Ju olhava para o futuro e dizia oi. Eu pensava no que fui, ela no que seria. Eu caminhava pela nostalgia, ela saltitava no presente. Eu reconstruía as lembranças, ela guardava os momentos para relembrar um dia. Eu estava partido, ela me reintegrava por inteiro. Era, sem dúvida, uma missa de renovação.

Um fiel observa a nossa cena. Percebe que há algo especial. E pede para registrar. Estamos todos unidos em uma grande celebração. Todos cantam juntos. Há pessoas que choram durante as canções-orações. O clima é de comoção, de paixão, de fervor. Do mesmo jeito que existe o mendigo que invade a igreja, aqui os loucos rolam pelo chão. Trôpegos, realizados, felizes. A música é uma religião que aceita a todos. As portas da Igreja dos Stones estão abertas.

Percebo que o fim se aproxima. Começamos a nos afastar do altar. O som vai diminuindo, a emoção não. “You can’t always get what you want” soa como um salmo. Eu sei que eles estão preparando “Satisfaction” para o ato final. Ouço os acordes. A massa levanta as mãos para o céu e clama por uma benção. Cada nota é uma hóstia distribuída. Estamos todos perdoados.

Volto da missa e compreendo o sentido de ciclo. Penso que ainda preciso batizar a pequena Clara. Falta achar uma igreja adequada. Falo baixinho comigo mesmo: eu rezei por você, mãe. Ao meu modo, mas rezei. E me benzo com uma cópia da chave dela nas mãos.

Acendam a fogueira.

A definição foi cunhada pelo Kassin: a “Simonalização” de Ed Motta. Não precisei ler o texto para entender o que significava. Para compartilhar a mesma sensação. De uns tempos para cá, pega mal dizer que você gosta do Ed Motta. Os infelizes comentários no Facebook criaram um enorme fosso entre o artista e o público. Nesse fosso, estão as duras palavras de Ed, o seu jeitão que soa arrogante, as divagações sobre vinho repletas de notas de frutas, as suas certezas. Pouco interessa o som que ele está fazendo.

Volto para o meio dos anos 90. Naquela época, dei uma festa dessas que os vizinhos consideram a possibilidade de empalamento. Lá pelas tantas, tocou “Beat it” do Michael Jackson. Rolou um mal estar. Um climão. O albino Michael já tinha virado aquela mistura de Diana Ross com boneca Monster High. Estava envolto em diversas acusações de pedofilia. Ao escolher aquela canção, eu me tornei um herege. Um cúmplice de suas bizarrices. Gostar de Michael Jackson não era mais um comportamento aceitável. Tentei argumentar que Off the Wall e Thriller eram verdadeiras obras-primas. Em vão. Fui para fogueira.

A morte de Michael redimiu o ídolo. Não dissipou todas as camadas de suspeitas, não exterminou suas maluquices. Apenas, jogou uma merecida luz sobre a sua importância como músico, cantor e artista. Ele voltou a ser o Rei do Pop. Hoje, é cool gostar do pequeno Jackson. Escuto a brilhante versão demo de Billie Jean no meu fone, pensando na massa que me queimou naquela festa. Eu estava certo, seus ingratos.

O primeiro show que eu consegui entrar sem pedir a ajuda da minha mãe foi do Ed Motta. O até então sobrinho do Tim Maia estava estourado com “Manuel”. O mar estava flat, nada para fazer, eu de bobeira em casa. E apareceu a promoção na rádio: quem trouxer um disco de funk até a esquina da Joaquim Nabuco com Raul Pompéia, ganha 2 ingressos para o show do Ed. Eram menos de 500 metros. Peguei um vinil do George Clinton e corri para lá. Era a minha independência. Um show que a minha mãe não abriu a catraca.

Entrei no Teatro Ipanema sem saber o que esperar. Saí de lá impressionado. Lembro dele ter encerrado esse show com uma versão de Smoke on the Water, onde o riff era todo vocal. Logo depois, vi um show no Alternativa Skate Rock (esse com ingresso da mamãe). Estava configurado: Ed Motta era um cara para prestar atenção.

Guardo dele grandes momentos. Um show com o Blues Etílicos no Circo Voador que deveria ser reeditado. A primeira vez que eu ouvi o vinil de “Entre e Ouça”. Um site que ele tinha lá por volta de 97, que me fez descobrir e comprar todas as suas referências. Em especial, Donny Hathaway. A trilha de Pequeno Dicionário Amoroso. Um show na Oca do Ibirapuera onde ele cantou as suas influências, com destaque para Whole Lotta Love. A quantidade de vezes que escutei “Manual Prático”. A voz. A voz que parece tornar qualquer canção melhor do que ela é.

Não sou um grande fã de “Piquenique”, nem tenho roupa para entrar em “Aystelum”. Adoro “Chapter 9” e passeio curiosamente por “Dwitza”. Já vi o Ed Motta se complicar ao dizer que não gostava de música brasileira para depois descobrir que não era bem assim. Já o vi cantar em edmottês e defender que não via sentido nas letras. Em seguida, fazer parcerias com grandes letristas. Já me irritei com algumas longas explicações sobre vinhos ou chás. Com algumas cagações de regra. Só que mantive intacto o que admiro nele. Não pretendo gostar tanto no particular quanto no profissional. Ainda que eu acredite que deva ser bem divertido ouvir música e tomar uma cerveja com ele.

Entendo a indignação do Ed Motta com o cenário da música brasileira. Deve ser difícil ter que ficar vendo a ascensão de tanta bobagem. Escuto AOR e comparo com o que toca nas rádios. Chega a ser covarde a diferença de qualidade. Tão covarde quanto crucificá-lo até hoje pelos comentários no Facebook. Ele errou rude. Só que isso não pode apagar a sua música.

Penso nas minhas vozes favoritas sem uma ordem de ranking. Otis Redding, Stevie Wonder, Marvin Gaye, Donny Hathaway, Buddy Guy. Não tenho a menor dúvida que Ed Motta ficaria bem ao lado deles. Poderia ir para fogueira de novo com essa certeza. Meu conhecimento musical é bermuda de praia, o dele é traje de gala. Ainda assim, arrisco um conselho: keep singing and forget the social media, Ed. Vai por mim.

 

A minha barraca de ervas.

Para equilibrar a existência do Marcos Feliciano no mundo. Para balancear o novo hit dos Leleks, do Michel Teló, do Psy, do Latino. Para ficar com a certeza que o mundo ainda vale a pena, apesar do Veloster. Para justificar a presença do “Profundamente sua” e coisas do gênero na lista dos livros mais vendidos. Para tentar entender o porquê do funcionalismo público ter virado o sonho de consumo do brasileiro. Para achar algum sentido nas camisas Dudalina. Para tudo isso, eu recorro à música.

Música é a minha fluoxetina natural. É o meu Prozac. Meu playlist é “Banho das Sete Ervas do Descarregos”. Olho para as canções como uma curandeira olha ao seu redor. Stevie Wonder é o meu “quebra barreira”. Marvin Gaye é o meu banho contra mau olhado. Jorge Benjor é a minha “garrafada para gastrite”. Tom Jobim é o meu chá de “amansa tudo”. Meu iPod é a minha tenda da Dona Coló. Eu sei como cada música vai agir.

Se a raiva é grande, dilua em um chá de Kurt Cobain com Nine Inch Nails. Se a alegria é intensa, tome um banho de Wilson Picket com uma pitada de Otis Redding. Se a tristeza dói, evite Radiohead. Tenho tabuletas e receitas para cada mal. Na minha banca, disponho de diversas poções mágicas para atrair coisas boas. Basta um play para que a alquimia comece a funcionar. Na verdade, a música me emociona frequentemente. Nela, eu posso reencontrar valores perdidos, buscar lembranças, vasculhar os meus sentimentos.

Poderia citar inúmeros momentos em que chorei com uma música. Metade deles conectados com as minhas filhas. Não vem ao caso. Prefiro falar de dois personagens que me fazem acreditar que é possível. Charles Bradley é o primeiro deles. Um cantor maravilhoso de soul que só foi descoberto depois dos 60 anos de idade. Isso mesmo: 60 anos. Até então, trabalhava como chef de cozinha e juntava seu dinheiro ao longo das décadas para um dia tentar realizar o seu sonho. Conseguiu.

Lembro do impacto de ouvir a sua voz carregada de verdade. A canção era “The World (is going up in flames)”. Achei que era uma gravação antiga. Como eu pude ficar tantos anos sem ouvir esse cara? Uma rápida pesquisa revelou toda a história de Charles Bradley. O que já era amor virou paixão no momento que eu vi um vídeo de um show dele. Ele grita, chora, escancara cada recanto da alma. Ele canta puxando os sentimentos do dedão do pé. Nada fica de fora. Ele reergue as minhas crenças em dois discos maravilhosos: “No Time for Dreaming” e “Victim of Love”.

Depois, veio o Rodriguez. O Max de Castro falou de um documentário chamado “Searching for Sugar Man.” Isso foi antes do Oscar.  Fiz tudo legalmente como manda o figurino. Entrei no iTunes e baixei o danado. Quando eu percebi, estava chorando dentro de um avião. É das histórias mais inacreditáveis que eu já vi. Se fosse uma ficção, eu acharia que pesaram a mão. Porque afinal de contas, isso nunca poderia ter acontecido. Só que aconteceu.

Resumindo: o cantor e compositor Sixto Rodriguez lança dois discos nos EUA. Os dois são um fracasso retumbante. Nesse mesmo período, início dos anos 70, os discos chegam à África do Sul. Rodriguez vira um ídolo maior do que Elvis Presley. Sua música vira o hino de uma geração inteira. Pessoas tatuam seu rosto no corpo, colocam seu nome nos filhos. Só que ele nunca soube de nada disso. Para os sul-africanos, era um ídolo que tinha se sucidado no palco. Até que décadas depois, algumas pessoas resolvem investigar o que tinha acontecido. É um história que dissolve as minhas desconfianças. Escuto os seus discos como quem procura a fé perdida. E a encontro.

Ouvir Charles Bradley e Rodriguez é muito mais do que música. É sobre esperança. Na minha barraca de ervas, eles são o novo elixir. Coloco o fone no ouvido como quem toma um banho de sal grosso. De pipoca. De cheiro-cheiroso. Tudo está equilibrado. Consigo até admitir a possibilidade de habitar o mesmo mundo que o Malafaia.

 

Quem liga para isso?

1993. Aeroporto de Chicago. Estou dentro de uma van, sem hotel reservado e com uma mala repleta de gaitas. O motorista da van, um sujeito que deve ter inspirado a primeira cirurgia de redução de estômago, aguarda os outros passageiros. Enquanto isso, ele sorve mais um gole do seu refrigerante de 2 litros. Na outra mão, repousa um sanduíche do tamanho de uma criança de 5 anos, regado com doses generosas de mostarda. Entre as pernas, há um pacote de batata frita que um elefante acharia exagerado. Absolutamente surpreso com toda aquela comida, ouço uma pergunta feita com a boca cheia:

– O que (nhac) você veio (nhac) fazer aqui?

Hipnotizado pelo pedaço de queijo que está preso no seu queixo, demoro alguns segundos para responder:

– Eu quero conhecer mais do blues.

Ele ri. O pedaço de queijo desprende e cai fazendo barulho ao pousar na sua perna. Da perna para a boca foi um milésimo de segundo. Ele ri mais alto agora:

– Blues? Quem liga (nhac) para isso?

Eu tinha acabado de chegar na Sweet Home Chicago. Em busca dos ídolos, do verdadeiro blues, do aprendizado. Minha euforia foi soterrada pelas 20 mil calorias daquela van.

No dia seguinte, com a programação musical da cidade em mãos, quero derrotar a profecia do meu anfitrião glutão. Descubro que Kingston Mines, B.L.U.E.S e o Buddy Guy’s Legends são alguns dos bares com programação de blues nos 7 dias da semana. O calendário previa shows do Sugar Blue, Billy Branch, Otis Rush, Magic Slim, Big Time Sarah, Peter Madcat, Luther Allison, Jeff Healey e o grande Buddy Guy. Minha temporada estava garantida. Adentro orgulhoso pelo Kingston Mines e me deparo com o salão vazio. A profecia não estava tão errada.

A vida de um músico de blues não é fácil nem para os mestres, pensei. Naquela viagem, comecei a desistir de uma carreira de músico profissional. O menino branco brasileiro não poderia esperar mais do que uma lenda do blues. E eu vi os grandes nomes do blues tocarem para salões vazios com ingressos a 8 dólares. De quinta a sábado, o panorama mudava um pouco. As casas ficavam sempre cheias. De domingo a quarta, já era bem diferente. Buddy Guy era o filho pródigo da cidade. Já estava em uma situação mais confortável. Era uma exceção.

Toalhas brancas? Esquece. Mal havia roadie nos palcos. Não foram poucas as vezes que vi uma lenda montar e desmontar o palco praticamente sozinha. O fato de ser branco e ter vindo de tão longe facilitou muito as coisas. Acabei ficando próximo de vários músicos. Eu sabia solos inteiros, riffs, nome de canções. No fundo, não eram muitos os que ligavam para eles. O brasileiro que conhecia a história deles era um conforto não esperado.

Falo sobre essa época porque estou ouvindo o disco do Ben Harper e Charlie Musselwhite chamado: Get Up! Ben Harper aproveita a fama já alcançada para se dar ao luxo de gravar o que bem entende. E divide um disco inteiro com o gaitista Charlie Musselwhite. Ele precisava disso? Não. Poderia muito bem fazer mais um disco solo e faturar com uma turnê pelo mundo. Só que ele fez diferente. Ele abriu espaço para um ídolo. A capa é bem clara. Ele e Charlie têm a mesma importância ali.

Em Get Up!, Ben Harper é de uma gentileza sem fim com Musselwhite. As músicas foram pensadas para que o gaitista tivesse o destaque que sempre mereceu. O espaço para os solos, as bases com presença da harmônica, até mesmo o material de release que antecedeu o lançamento do CD. Tudo foi pensado para honrar um dos primeiros “white bluesmen”. Um homem que vem tocando a sua gaita repleta de acordes e melodias por décadas. O resultado é um disco poderoso. A voz rasgada de Ben Harper se encaixa perfeitamente com a gaita levemente distorcida de Musselwhite.

Ao reverenciar Charlie Musselwhite, Ben Harper antecipou-se ao tempo. É fácil homenagear os ídolos quando eles estão mortos. Ele o fez antes. É uma gentileza bonita de se ver. E melhor ainda, de escutar. Se eu tivesse o endereço do motorista da van, mandava esse CD de presente, uma caixa de Herbalife e um bilhete escrito: Ben Harper liga para isso.

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No maravilhoso mundo de Jorge.

A vida deveria ter a leveza das canções de Jorge Ben Jor. É a minha utopia particular. O meu desejo secreto. As coisas que imagino quando tudo em volta parece dar errado. Quando eu mesmo me sinto fora do tom. Nessas horas, eu recorro ao Ben. E sonho caminhar pelo seu universo.

Nada é capaz de me atingir. Porque eu estou vestido com as roupas, as armas e as lentes escuras de Jorge. E vejo tudo através dos seus olhos. Ogam toca pra Ogum que eu estou adentrando. Salve Jorge, Zé Pretinho, my brother Charles. Estou despido de acidez. Aqui, eu só quero torcer pela paz, pela alegria e pelas coisas úteis que se pode comprar com 10 cruzeiros.

Não tenho pretensão alguma de animar a festa. Quero apenas a honra de andar ao lado do macaco cientista, do urubu que toca flauta e violão e, claro, da internacional Deise, a mulher do homem que come raio laser. Quero a graça de falar voxê ao invés de você. Quero chamar o síndico Tim Maia para desorganizar a minha cabeça. Quero a cura para a hipocarioquice que me aflige quando sou chamado para tomar uma breja na padoca.

Vem comigo que o Crioulo Rei vai colocar a tristeza pra correr. Vem que a menina mulher da pele preta está cheia de malícia. Não aquela que mora na Pavuna e dança no simpático Pavunense. A outra, de olhos azuis e sorriso branco. Vem que são poucas as questões. Que plâncton é esse? Adivinha quem vai bater?

Licença, seu Umbabarauma. Cheguei para ver o que é corocondô. Para entender o zambá, o zambé, o zambi. Para soltar o sorriso “quinta série” que teima em aparecer ao ouvir que é para balançar a pema. Bebete vambora que eu preciso correr para a geral da minha nostalgia. Ouvi dizer que a falta é na entrada da área e o Galinho de Quintino é quem vai bater. E se não bater, tudo bem, porque é certo que vai rolar um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa.

Estou entre jatomóveis, bancários, ruas e avenidas. Não me aflijo. Sei que  conto com a proteção de Charles, Anjo 45. Sei que Jorge é da Capadócia e meus inimigos têm pés, mas não me alcançam. Tudo aqui é abençoado por Deus e bonito por natureza. Sinto-me embalado pelas canções que ninaram as minhas filhas. Os olhos fecham de leve ao ouvir “Santa Clara clareou..” e o pranto cessa com a simples menção de “Menina bonita não chora.”

Alô, alô Tia Léa, quebra essa. Diz que a minha nega não chama Teresa, mas que eu sou Flamengo. Peço com o requinte da gramática: deixe-me pular de faixa em faixa. Deixe-me ir para o meio da rua do mundo e ficar a girar.  Que maravilha é o mundo encantado de Jorge.

No céu, o Sol declara o seu amor pela Terra. Nesse mesmo céu, chove sem parar. Sigo esbarrando em figuras fantásticas. O namorado da viúva passou por aqui. Entorto o pescoço na busca do dote físico invejável dela. Pela letra, posso afirmar que aquele ali na frente é Roberto e seu dragão. Corto essa. Aceno para o meu irmão de cor e digo: Take it easy. Ele sorri e me aponta a chegada dos alquimistas. Vejo também Hermes Trismegisto e a sua tábua de esmeralda. Procuro por Xica da Silva, Zumbi, Saci e o príncipe Shah-Jahan.

Antes de sair dessas canções, preciso encontrar o emblemático “Homem da Gravata Florida.” Sai da minha frente que eu quero passar, digo para o vendedor de bananas. Alcanço um caminho de flores e amores. Achei o homem. Peço emprestado o seu relatório de harmonia de coisas belas. Ele atende ao meu pedido. Aquela gravata toca o meu pescoço e é verdade: ela me faz um homem simpático e feliz.

Sinto que a canção está perto do fim. Refaço o gesto de Jorge. Levanto o braço e grito para a banda do Zé Pretinho: em cima! E o meu universo encerra em simpatia.

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