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O mundo é menor do que o Largo do Machado

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A lufada gelada do ar-condicionado da recepção é acolhedora. A camisa empapada de suor clama por uma cerveja gelada. Eles adentram o bar do hotel com um objetivo comum. Um longo gole é seguido de um silêncio. Como desconhecidos que se esbarram no elevador, eles recorrem ao clima e comentam sobre o calor sufocante de Guayaquil. O que é surpreendente visto que um é mexicano e o outro é brasileiro. O assunto dura pouco. Novo gole, novo silêncio. Os dois publicitários estavam ali para um evento e, como não podia deixar de ser, falam sobre trabalho. Primeiro, o choque em perceber as infinitas restrições à propaganda no Equador. Lá, o governo tem um controle muito rígido sobre o conteúdo e a produção das agências e clientes. O desconhecimento cria uma sensação de profunda ignorância em ambos. O mexicano, antevendo o silêncio, lança a pergunta:

–  Você estava na equipe que ganhou o GP de Press em 2010?

O brasileiro diz que sim. O mexicano prossegue:

– Eu era da equipe que perdeu esse mesmo GP.

É impossível negar o constrangimento que parece escorrer pelo balcão e inundar tudo ao redor. Aquelas duas histórias, antes isoladas, resolveram se encontrar não em Cannes, mas no improvável bar de um hotel no Equador. Um rápido salto no tempo para situar os fatos.

Em 2010, a Ogilvy do México ganhou o GP de Press. Os vencedores embarcaram em um vôo para a França felizes da vida. Logo no desembarque, descobriram que haviam perdido o prêmio. O motivo? A peça havia sido inscrita no ano anterior, fato esse que só foi descoberto no dia seguinte ao julgamento. A dor de um tornou-se a glória do outro em uma reviravolta de novela mexicana ou brasileira, tanto faz.

Agosto de 2015, Guayaquil.  Anos depois, as partes envolvidas estavam frente à frente pela primeira vez. O mexicano segue na sua busca:

–  Sinceramente, você tem alguma ideia de como isso aconteceu? O boato que chegou a nós é que como a Revista Billboard faz parte do grupo que é dono do Adweek, um jornalista denunciou.

Um respiro profundo. O brasileiro retruca:

–  O que ouvimos no Palais é que um criativo mexicano de uma agência concorrente delatou para a organização.

O outro desacredita:

– Não pode ser. Ninguém faria isso.

Cada um tem agora uma inédita versão e muitas incertezas. Durante anos, acreditaram em algo que pode não ter sido assim. Entre esses dois relatos, há a verdade. Só que ao confrontar teses tão distintas, eles acabam de realizar que nunca saberão ao certo o que se passou. O silêncio domina o recinto e não arreda mais o pé. Sentindo que o bar havia encolhido, o brasileiro recorda de um amigo que costumava repetir: o mundo é menor do que o Largo do Machado. Ele tinha razão.

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De tudo o que acontece nos festivais, o que mais me fascina é o drama humano. Muito se escreve a respeito dos premiados, dos cases, das palestras. Pouco é registrado sobre as tristezas, as lamúrias, os confrontos, os dilemas. Vislumbro algumas teorias já construídas sobre o ano que vem. Que seremos mais inovadores, mais integrados. Recorro, pois, a um texto de 1910 do magistral João do Rio:  “Há tanta gente à janela, porque, realmente, sem o saber, um instinto vago lhes diz que vem aí o préstito ou a procissão. Apenas não sabem qual é o préstito. Não saber, e ficar, e não ver, e continuar, é o que se chama esperança. Nós somos o povo mais cheio de esperança da terra – porque vivemos à janela.”

Há uma procissão de novas metas, mais cobranças da rede, o porvir. Ao fim dessa passagem, guardaremos o lado da história que nos convém, uma vez que raramente teremos o Equador para entender o outro. Que dirá um João do Rio a registrar os dramas reais, enquanto flana pela Croisette. Assim, a maioria pode olhar 2017 do conforto da janela.

 

 

 

 

 

 

 

 

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